IMPACTO DO ENCHIMENTO DO RESERVATÓRIO DE UMA UHE SOBRE A DINÂMICA DE UM FRAGMENTO DE FLORESTA OMBRÓFILA MISTA EM SANTA CATARINA

Carla Luciane Lima, Ana Carolina da Silva, Pedro Higuchi, Aline Pereira Cruz, Ricardo de Vargas Kilca, Amanda da Silva Nunes, Mariele Alves Ferrer da Silva, Juliana Pizutti Dallabrida, Vanessa Fátima Soboleski, Aline Gross

Resumo


O presente estudo teve como objetivo investigar o impacto do enchimento do reservatório de uma usina hidrelétrica sobre as taxas de dinâmica do componente arbóreo em uma floresta adjacente. Para isso, foram alocadas 48 parcelas em três setores do fragmento: adjacente às margens do reservatório, meio da encosta e topo da encosta. Um ano após o enchimento do reservatório, todos os indivíduos arbóreos com circunferência a altura do peito (CAP) ≥ 15,7 cm foram avaliados (identificados e mensurados), e dois anos após o enchimento foi realizado o estudo de dinâmica, com as árvores sobreviventes remedidas, as mortas quantificadas e as recrutas incorporadas. Foi realizado o levantamento das variáveis ambientais edáficas, topográficas, de abertura do dossel e de impacto ambiental. Foram calculadas as taxas de dinâmica. Para ordenação das variáveis ambientais foi aplicada uma Análise de Componentes Principais (PCA) e a influência de gradientes ambientais sobre as taxas demográficas da comunidade foi verificada por meio de regressão logística. A dinâmica apresentou estabilidade no número de indivíduos, porém, com maior ganho (3,64%.ano-1) que perda (1,62%.ano-1) em área basal. Entre os setores houve distinções, sendo o setor 1 caracterizado pela maior taxa de perda em área basal (2,51%.ano-1). Houve pouca relação das taxas demográficas com as variáveis ambientais analisadas, indicando que a maior influência encontrada sobre o crescimento das árvores está associada a variáveis não mensuradas. O presente estudo indica que, dois anos após o enchimento do reservatório, foi possível perceber os primeiros efeitos da influência do lago da hidrelétrica na comunidade arbórea.


Palavras-chave


dinâmica florestal; comunidade de espécies arbóreas; impacto ambiental.

Texto completo:

PDF

Referências


ALVAREZ, V. V. H. et al. Interpretação dos resultados das análises de solos. In: RIBEIRO, A. C.; GUIMARAES, P. T. G.; ALVAREZ, V. V. H. (Org.). Recomendação para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais: 5º Aproximação. Viçosa, MG: Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais, 1999. p. 25-32.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (Brasil). Anexo VIII ao edital de leilão Nº. 03/2010-ANEEL. Processo nº. 48500.000883/2010-23. [s. l.]: ANEEL, 2010.

APPOLINARIO, V.; OLIVEIRA FILHO, A. T.; GUILHERME, F. A. G. Tree population and community dynamics in a Brazilian tropical semideciduous forest. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 28, n. 2, p. 347-360, 2005.

ARMSTRONG, W.; BRAENDLE, R.; JACKSON, M. B. Mechanisms of flood tolerance in plants. Acta Botanica Neerlandica, Hoboken, v. 43, n. 2, p. 307-358, 1994.

AYERS, R. S.; WESTCOT, D. W. Qualidade de água na agricultura. Campina Grande: UFPB, 1991. 218 p.

BARDDAL, M. L. et al. Caracterização florística e fitossociológica de um trecho sazonalmente inundável de floresta aluvial, em Araucária, PR. Ciência Florestal, Santa Maria, v. 14, n. 2, p. 37-50, 2004.

BIANCHINI, E. et al. Diversidade e estrutura de espécies arbóreas em área alagável do município de Londrina, Sul do Brasil. Acta Botânica Brasilica, Belo Horizonte, v. 17, n. 3, p. 405-419, 2003.

BJORNSTAD, O. N. NCF: spatial nonparametric covariance functions. R package version 1.1-5. [s. l.: s. n.], 2013. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2016.

BOTREL, R. et al. Influência do solo e topografia sobre as variações da composição florística e estrutura da comunidade arbóreo-arbustiva de uma floresta estacional semidecidual em Ingaí, MG. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 195-213, 2002.

BUDKE, J. C. et al. Bamboo dieback and tree regeneration responses in a subtropical forest in South America. Forest Ecology and Management, Amsterdam, v. 260, n. 8, p. 1345-1349, 2010.

EMBRAPA. Conceitos de fertilidade do solo e manejo adequado para as regiões tropicais. Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 2010. 26 p. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 8).

EMBRAPA. Sistema brasileiro de classificação de solos. 2. ed. Rio de Janeiro: EMBRAPA, 2006. 306 p.

EMBRAPA. Solos do Estado de Santa Catarina. Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 2004. 726 p.

EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA E EXTENSÃO RURAL DE SANTA CATARINA. Zoneamento agroecológico e socioeconômico do estado de Santa Catarina. Florianópolis: EPAGRI, 1999. CD-ROM.

FERREIRA, L. V. Effects of flooding duration on species richness, floristic composition and forest structure in river margin habitat in Amazonian blackwater forests: implications for future design of protected areas. Biodiversity and Conservation, New York, v. 9, n. 1, p. 1-14, 2000.

FERREIRA, L. V. et al. Impacts of hydroelectric dams on alluvial riparian plant communities in eastern Brazilian Amazonian. Anais da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro, v. 85, n. 3, p. 1013-1023, 2013.

FORMENTO, S.; SCHORN, L. A.; RAMOS, R. A. Dinâmica estrutural arbórea de uma Floresta Ombrófila Mista em Campo Belo do Sul. Cerne, Lavras, v. 10, n. 2, p. 196-212, 2004.

GIRAUDOUX, P. Pgirmess: Data Analysis in Ecology. R package version 1.6.2. [s. l.: s. n.], 2015. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2016.

GUILHERME, F. A. G. et al. Effects of flooding regime and woody bamboos on tree community dynamics in a section of tropical semideciduous forest in South-Eastern Brasil. Plant Ecology, Nova York, v. 174, n. 1, p. 19-36, 2004.

GUSSON, A. E. et al. Variações temporais na densidade de espécies lenhosas regenerativas em áreas impactadas por usinas hidrelétricas. Revista de Biologia e Ciências da Terra, São Cristóvão, v. 12, n. 1, p. 83-88, 2012.

HIGUCHI, P. et al. Influência de variáveis ambientais sobre o padrão estrutural e florístico do componente arbóreo, em um fragmento de Floresta Ombrófila Mista Montana em Lages, SC. Ciência Florestal, Santa Maria, v. 22, n. 1, p. 79-90, 2012.

IBGE. Manual técnico da vegetação brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2012. 271 p.

IVANAUSKAS, N. M. Estudo da vegetação presente na área de contato entre formações florestais em Gaúcha do Norte – MT. 2002. 201 f. Tese (Doutorado em Biologia Vegetal) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002.

KANIESKI, M. R. Estudo dendroecológico de Sebastiania commersoniana (Baill.) L.B.Sm. & R.J.Downs e de arbóreas invasoras em uma Floresta Ombrófila Mista Aluvial, sul do Brasil. 2013. 127 f. Tese (Doutorado em Engenharia Florestal) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013.

KOLB, R. M. et al. Anatomia ecológica de Sebastiania commersoniana (Baillon) Smith & Downs (Euphorbiaceae) submetida ao alagamento. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 21, n. 3, p. 305-312, 1998.

KORNING, J.; BALSLEV, H. Growth and mortality of trees in Amazonian tropical rain forest in Ecuador. Journal of Vegetation Science, Hoboken, v. 4, n. 1, p. 77-86, 1994.

LEMMON, P. A spherical densiometer for estimating forest overstory density. Forest Science, Bethesda, v. 2, n. 1, p. 314-320, 1956.

LIEBERMAN, D. et al. Mortality patterns and stand turnover rates in a wet tropical forest in Costa Rica. Journal of Ecology, Hoboken, v. 73, n. 3, p. 915-924, 1985.

LOPES, S. F. et al. Impacts of artificial reservoirs on floristic diversity and plant functional traits in dry forests after 15 years. Brazilian Journal of Biology, São Carlos, v. 75, n. 3, p. 548-557, 2015.

MARCON, A. K. et al. Variação florístico-estrutural em resposta à heterogeneidade ambiental em uma floresta nebular em Ububici, Planalto Catarinense. Scientia Forestalis, Piracicaba, v. 42, n. 103, p. 439-450, 2014.

NILSSON, C.; BERGGREN, K. Alterations of riparian ecosystems caused by river regulation. BioScience, Uberlândia, v. 50, n. 9, p. 783-792, 2000.

NUNES, M. H. et al. Dinâmica de populações de espécies arbóreas em fragmentos de floresta aluvial no sul de Minas Gerais, Brasil. Floresta, Curitiba, v. 46, n. 1, p. 57-66, 2016.

OKSANEN, J. et al. Vegan: Community Ecology Package. R package version 2.2-1. [s. l.: s. n.], 2015. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2016.

OLIVEIRA, A. B.; GOMES FILHO, E.; ENÉAS FILHO, J. O problema da salinidade na agricultura e as adaptações das plantas ao estresse salino. Enciclopédia Biosfera, Goiânia, v. 6, n. 11, p. 1-16, 2010.

OLIVEIRA FILHO, A. T. et al. Differenciation of streamside and upland vegetation in an area of montane semideciduous forest in southeastern Brasil. Flora, Amsterdam, v. 189, p. 287-305, 1994a.

OLIVEIRA FILHO, A. T. et al. Dinâmica da comunidade e populações arbóreas da borda e interior de um remanescente florestal na Serra da Mantiqueira, Minas Gerais, em um intervalo de cinco anos (1999-2004). Revista Brasileira Botânica, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 149-161, 2007.

OLIVEIRA FILHO, A. T. et al. Effect of flooding regime and understorey bamboos on the physiognomy and tree species composition of a tropical semideciduous forest in Southeastern Brasil. Vegetatio, Nova York, v. 113, n. 2, p. 99-124, 1994b.

OLIVEIRA FILHO, A. T.; MELLO, J. M.; SCOLFORO, J. R. Effects of past disturbance and edges on tree community structure and dynamics within a fragment of tropical semideciduous forest in south-eastern Brazil over a five years period (1987-1992). Plant Ecology, Nova York, v. 131, n. 1, p. 45-66, 1997.

R CORE TEAM. R: a language and environment for statistical computing. Vienna: R Foundation for Statistical Computing, 2015. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2016.

SALAMI, B. et al. Influência de variáveis ambientais na dinâmica do componente arbóreo em um fragmento de Floresta Ombrófila Mista em Lages. Scientia Forestalis, Piracicaba, v. 42, n. 102, p. 197-207, 2014.

SANTOS, K. F. et al. Regeneração natural do componente arbóreo após a mortalidade de um maciço de taquara em um fragmento de Floresta Ombrófila Mista em Lages - SC. Ciência Florestal, Santa Maria, v. 25, n. 1, p. 107-117, 2015.

SHEIL, D.; MAY, R. M. Mortality and recruitment rate evaluations in heterogeneous tropical forests. Journal of Ecology, Hoboken, v. 84, n. 1, p. 91-100, 1996.

SILVA, A. C. et al. Comparação florística de florestas inundáveis das regiões Sudeste e Sul do Brasil. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 257-269, 2007.

SILVA, A. C. et al. Dinâmica de uma comunidade arbórea após enchente em fragmentos florestais no sul de Minas Gerais. Revista Árvore, Viçosa, MG, v. 35, n. 4, p. 883-893, 2011.

SILVA, A. C. et al. Florestas inundáveis: ecologia, florística e adaptações das espécies. Lavras: Ed. UFLA, 2012. 167 p.

SILVA, A. C. et al. Florística e estrutura da comunidade arbórea em fragmentos de floresta aluvial em São Sebastião da Bela Vista, Minas Gerais. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 283-297, 2009.

SILVA, A. C.; HIGUCHI, P.; VAN DEN BERG, E. Effects of soil water table regime on tree community species richness and structure of alluvial forest fragments in Southeast Brazil. Brazilian Journal of Biology, São Carlos, v. 70, n. 3, p. 465-471, 2010.

SOUZA, C. G. Manual técnico de pedologia. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2007. 104 p. (Série: Manuais Técnicos em Geociências, v. 4).

SPATHELF, P. et al. Análise dendroecológica de Ocotea pulchella Nees et Mart. ex Nees (canela-lageana) na Serra Geral de Santa Maria, RS, Brasil. Ciência Florestal, Santa Maria, v. 10, n. 1, p. 95-108, 2000.

VALE, V. S. et al. Fast changes in seasonal forest communities due to soil moisture increase after damming. Revista de Biología Tropical, São José, v. 61, n. 4, p. 1091-1917, 2013.

WERNECK, M. S.; FRANCESCHINELLI, E. V. Dynamics of a dry forest fragment after exclusion of human disturbance in southeastern Brazil. Plant Ecology, Nova York, v. 174, n. 2, p. 337-346, 2004.

WIEDENROTH, E. M. Responses of roots to hypoxia: their structural and energy relations with the whole plant. Environmental and Experimental Botany, Amsterdam, v. 33, n. 1, p. 41-51, 1993.

ZUUR, A. et al. Mixed effects models and extensions in ecology with R. Amsterdam: Springer Science & Business Media, 2009. 574 p.




DOI: http://dx.doi.org/10.5902/1980509833393

Licença Creative Commons