Didática da História e Educação Histórica: Quando duas faces não formam uma mesma moeda
DOI:
https://doi.org/10.5902/1984644492090Palavras-chave:
Consciência Histórica, Aprendizagem Histórica, Ensino de HistóriaResumo
O artigo discute os fundamentos teóricos da Educação Histórica e da Didática da História no âmbito do ensino de História, examinando como esses campos redefinem a relação entre passado, presente e futuro na formação de estudantes. Tem como objetivo analisar comparativamente as proposições de Peter Lee e Jörn Rüsen acerca da aprendizagem histórica, articulando categorias como pensamento/literacia histórica, consciência histórica, narratividade e empatia histórica. Metodologicamente, trata‑se de uma pesquisa bibliográfica de caráter teórico‑conceitual, baseada na leitura de obras selecionadas de Lee e Rüsen e em estudos brasileiros que se apropriam desses referenciais, especialmente aqueles vinculados ao LAPEDUH‑UFPR, à REDUH e às pesquisas de Luís Fernando Cerri, Maria Auxiliadora Schmidt e outros. Os resultados indicam, de um lado, convergências importantes: ambos os referenciais rompem com uma visão conteudista e memorística, enfatizando a natureza inferencial, provisória e situada do conhecimento histórico, bem como a necessidade de articular conteúdos substantivos e conceitos de segunda ordem. De outro lado, evidenciam diferenças significativas: Lee acentua o desenvolvimento de um aparato conceitual de pensamento histórico, ao passo que Rüsen focaliza a consciência histórica como orientação temporal e formação narrativa da experiência. Argumenta‑se, por fim, que a produção brasileira não apenas recebe esses modelos, mas os reinterpreta em contextos marcados por desigualdades sociais e disputas de memória, contribuindo para consolidar o ensino de História como prática de formação do pensamento histórico e da consciência histórica.
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