As interações comunicativas entre familiares ouvintes e sujeitos surdos: possibilidades de ressignificações

Michele Toso Cappellini, Lara Ferreira dos Santos

Resumo


As interações comunicativas entre familiares ouvintes e sujeitos surdos é uma temática incipiente, desafiante. A família é o primeiro e mais próximo grupo social com o qual o sujeito mantém as relações, que influenciam diretamente o seu desenvolvimento global. Esta pesquisa, ancorada na abordagem histórico-cultural de Vigotski, objetivou analisar aspectos de um processo de reflexão junto a familiares ouvintes de sujeitos surdos, acerca de suas interações comunicativas em ambiente doméstico. Os participantes foram seis famílias, constituídas por membros ouvintes e um surdo, sendo este matriculado em uma escola pública inclusiva bilíngue. O percurso metodológico deu-se em três etapas: 1. Analisar as interações comunicativas no cotidiano das famílias; 2. Realizar um processo de reflexão com os familiares acerca dos resultados obtidos na etapa 1; 3. Repetir a etapa 1 visando identificar contribuições da etapa 2 para as interações comunicativas. As etapas foram videogravadas e norteadas pelo instrumento “Escala de Avaliação da Linguagem Oral no Contexto Familiar (EVALOF)”, adaptado para essa pesquisa. Como resultados constatamos que a forma mais frequente de comunicação na etapa 1 foi a bimodal. Comparando as características comunicativas nas etapas 1 e 3, houve melhora no desempenho de diversos itens da escala, para todas as famílias. Já a etapa 2 possibilitou, a partir da escuta aos familiares, a ressignificação da relação destes com o membro surdo e com a Libras. As instituições de Educação Bilíngue para surdos podem e devem promover ações como esta, visto que escola e família são corresponsáveis pela constituição dos surdos enquanto sujeitos bilíngues.


Palavras-chave


Surdez; Língua de Sinais; Interação familiar.

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