Jogos como gêneros multimodais: análise e elaboração crítica para multiletramentos

Cynthia Macedo Dias, Jackeline Lima Farbiarz

Resumo


O presente artigo traz como hipótese que os jogos são mídias expressivas e multimodais, carregadas de discursos, que podem materializar e suscitar múltiplas construções de sentidos, para além de serem objetos de entretenimento. Objetiva, assim, discutir os jogos enquanto textos multimodais, a fim de propor uma face do “letramento lúdico” que se aproxime da perspectiva de multiletramentos, envolva a leitura crítica e a possibilidade de materialização de discursos de jovens estudantes por meio da criação e modificação de jogos mediada por seus professores. Como percurso metodológico, fundamenta-se nos estudos de gêneros discursivos e multimodalidade, com base em Bakhtin, Miller e Bazerman, Carvalho, Fairclough e Lemke e aplica esse olhar na análise de três versões de um jogo de tabuleiro bastante tradicional e conhecido, o Banco Imobiliário: a versão criada pelo designer Fabio Lopez em 2010, chamada “Bando Imobiliário”; a versão criada pela Estrela em contrato com a Prefeitura do Rio em 2013, “Banco Imobiliário Cidade Olímpica”; e a versão elaborada por professores de escolas públicas municipais e exposta na Cinelândia, um mês após a polêmica levantada pela distribuição do jogo comprado pela Prefeitura nas escolas municipais. O artigo propõe que as reflexões desenvolvidas inspirem a criação e modificação de jogos, no nível verbal, visual ou das regras, a fim de incorporar a polifonia a partir das “vozes” de alunos e professores e possibilitar que regras sociais, discursos e sentidos hegemônicos, muitas vezes naturalizados e ocultos por discursos centrípetos e autoritários, venham à tona e sejam problematizados. 


Palavras-chave


criação de jogos;polifonia;multiletramentos

Texto completo:

PDF

Referências


AFFONSO, J. No Rio, professores usam “Banco Imobiliário” de Paes para protestar. Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016.

ALBUQUERQUE, R. M. DE. LETRAMENTO ELETROLÚDICO COMO CONSCIENTIZAÇÃO: bases teóricas para educar o jogar. Currículo sem Fronteiras, v. 14, n. 2, p. 57–74, 2014.

BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. Traducao Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BARROS, D. L. P. DE. Contribuições de Bakhtin às teorias do texto e do discurso. In: FARACO, C. A. et al. (Eds.). . Dialogos com Bakhtin. Série Pesquisa / UFPR, Universidade Federal do Paraná. 4. ed ed. Curitiba: Ed. da UFPR, 2007.

BARTHES, R. Aula. Traducao Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1978.

BAZERMAN, C. Systems of Genres and the Enactment of Social Intentions. In: FREEDMAN, A.; MEDWAY, P. (Eds.). . Genre and the New Rhetoric. London, UK: Taylor & Francis, 1994. p. 79–101.

BOGOST, I. Persuasive Games: The Expressive Power of Videogames. Cambridge, MA: MIT Press, 2010.

BOMFIM, G. A. Fundamentos de uma Teoria Transdisciplinar do Design: Morfologia dos Objetos de Uso e Sistemas de Comunicação. Estudos em Design, v. 5, n. 2, p. 27–41, 1997.

BOMFIM, G. A. Coordenadas cronológicas e cosmológicas como espaço das transformações formais. In: COUTO, R. M. DE S.; DE OLIVEIRA, A. J. (Eds.). . Formas do design: por uma metodologia interdisciplinar. Rio de Janeiro: 2AB, 1999. p. 137–155.

BRAIT, B. A natureza dialógica da linguagem: formas e graus de representação dessa dimensão constitutiva. In: FARACO, C. A. et al. (Eds.). . Dialogos com Bakhtin. Série Pesquisa / UFPR, Universidade Federal do Paraná. 4. ed ed. Curitiba: Ed. da UFPR, 2007.

BRISOLLA, F. “Banco Imobiliário” exalta as realizações do prefeito do Rio - 22/02/2013 - Poder - Folha de S.Paulo. Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016.

CARVALHO, G. DE. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma sugestão metodológica e um exemplo de aplicação. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Eds.). . Gêneros: Teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005. p. 130–149.

COHEN, M. Paródia de jogo clássico, “Bando Imobiliário” critica “expansão das milícias no Rio”. Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016.

COPE, B.; KALANTZIS, M. (EDS.). Multiliteracies: literacy learning and the design of social futures. London; New York: Routledge, 2000.

DEL’ESPOSTI, B. DOS S.; CRUZ, J. L. V. DA. O Rio no tabuleiro: a ideologia da mercantilização da cidade virou jogo. . In: XIV SEMINÁRIO DE INTEGRAÇÃO DO PROGRAMA DE MESTRADO EM PLANEJAMENTO REGIONAL E GESTÃO DA CIDADE – “PENSANDO A REGIÃO – TENSÕES E POSSIBILIDADES”. Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2015Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016

EAGLETON, T. A ideologia da estética. Traducao Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

FARBIARZ, J. L.; NOVAES, L. Apostando no “e” ou estabelecendo pontes entre Design e Estudos da Linguagem. In: COUTO, R. M. DE S. et al. (Eds.). . Formas do Design: por uma metodologia interdisciplinar. 2. ed. Rio de Janeiro: Rio Books, 2014. p. 121–146.

FIORIN, J. L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. 1. ed. São Paulo: Ática, 2008.

HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. 8. ed. São Paulo: Editora da Universidade de S. Paulo, Editora Perspectiva, 2014.

JAPIASSU, H. Nascimento e morte das ciências humanas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

LEMKE, J. L. Letramento metamidiático: transformando significados e mídias. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 49, n. 2, p. 455–479, dez. 2010.

LOPEZ, F. bando imobiliário carioca. Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016.

MENDONÇA, A. V. Banco Imobiliário com obras da Prefeitura do Rio gera polêmica. Disponível em: . Acesso em: 16 dez. 2016.

MEURER, J. L. Gêneros textuais na análise crítica de Fairclough. In: MEURER, J. L.; MOTTA-ROTH, D. (Eds.). . Gêneros: Teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005. p. 81–106.

MILLER, C. Genre as social action. In: FRIEDMAN, A.; MEDWAY (Eds.). . Genre and the New Rhetoric. London, UK: Taylor & Francis, 1984. p. 23–42.

PORTINARI, D. Notas de aula. Aulas de contextualização. . In: DISCIPLINA: QUESTÕES DA SUBJETIVIDADE NO DESIGN. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2016

RAESSENS, J. F. F. Computer games as participatory media culture. In: RAESSENS, J. F. F.; GOLDSTEIN, J. (Eds.). . Handbook of Computer Game Studies. Cambridge, MA: The MIT Press, 2005. p. 373–389.

RAESSENS, J. F. F. Homo Ludens 2.0: the ludic turn in media theory. Traducao Aleide Giberthe Fokkema. Utrecht: Universiteit Utrecht, Faculteit Geesteswetenschappen, 2012.

RODRIGUES, R. H. Os gêneros na perspectiva dialógica da linguagem: a abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Eds.). . Gêneros: Teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005. p. 152–183.

ROLNIK, R. Banco imobiliário Cidade Olímpica: seria cômico se não fosse trágico. blog da Raquel Rolnik, 27 fev. 2013. Disponível em: . Acesso em: 21 nov. 2017

SALEN, K. T.; ZIMMERMAN, E. Rules of Play. Kindle ed. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

SCHELL, J. The art of game design: a book of lenses. Second edition ed. Boca Raton: CRC Press, 2015.

VASCONCELLOS, M. S. DE. Comunicação e Saúde em Jogo: Os video games como estratégia de promoção da saúde. Rio de Janeiro: Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde, 2013.

XAVIER, G. DE A.; COELHO, L. A. Imagética eletrolúdica : a visualidade dialógica no multiverso dos jogos eletrônicos. Dissertação (Mestrado)—Rio de Janeiro: Departamento de Artes e Design, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2007.

ZAGAL, J. P. Ludoliteracy: defining, understanding, and supporting games education. Pittsburgh, PA: ETC Press, 2010.




DOI: http://dx.doi.org/10.5902/1984644430055

CONTATO:

E-mail: revistaeducacaoufsm@gmail.com

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
Centro de Educação - Lapedoc - Prédio 16
Av. Roraima, 1000 - Cidade Universitária
97105-900 - Santa Maria - RS, Brasil.
Telefone: +55 55 3220 8795

Link: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao


ISSN Eletrônico: 1984-6444

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/19846444

Qualis/Capes: Educação A1

Periodicidade: Publicação contínua

O recebimento de artigos caracteriza-se por fluxo contínuo sem que seja possível prever a data de sua publicação.

 

A Revista Educação (UFSM) agradece auxílio recebido por meio do Edital Pró-Revistas, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa, da Universidade Federal de Santa Maria. 

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0).

Contador de visitas
click counter
Contador de visitas

Acessos a partir de 30/11/2016

____________________________________________________

    

SalvarSalvarSalvarSalvarSalvarSalvar