O Banco Mundial e a redefinição dos direitos indigenistas: apontamentos sobre o projeto Piauí: Pilares do Crescimento e Inclusão Social

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797592810

Palavras-chave:

Multiculturalismo neoliberal, Etnicidade, Território indígena, Banco Mundial, Colonialismo interno

Resumo

O artigo analisa a atuação de organismos internacionais na formulação de políticas multiculturais voltadas aos povos indígenas no Brasil, com foco no estado do Piauí. Parte-se do conceito de multiculturalismo neoliberal para compreender como os discursos de reconhecimento cultural e étnico são instrumentalizados dentro de uma lógica de governança territorial orientada pelo mercado. O estudo investiga de que forma o projeto Piauí: Pilares do Crescimento, articulado às diretrizes do Banco Mundial, tem reconfigurado os direitos indigenistas, em especial as noções de etnicidade, posse e território indígena. Como objetivos específicos pretendemos: a) analisar a manifestação do multiculturalismo neoliberal nas políticas territoriais voltadas aos povos indígenas no Brasil, especialmente no Piauí; b) examinar os mecanismos legais e institucionais utilizados no âmbito do projeto na regularização de territórios indígenas; c) avaliar os impactos da atuação do Banco Mundial no projeto sobre os direitos territoriais dos povos indígenas. A metodologia baseia-se em um estudo de caso qualitativo, ancorado na etnografia de documentos administrativos e jurídicos. Conclui-se que essas políticas, embora travestidas de inclusão, operam uma racionalidade de contenção, controle e financeirização dos territórios, restringindo os direitos originários e legitimando formas de gestão da etnicidade funcionalmente adequadas ao avanço do capital transnacional. O reconhecimento, nesse contexto, revela-se como campo de disputa entre proteção, exclusão e mercantilização da diferença.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Lorena Varão, Universidade de Brasília

Doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil.

Referências

AMORIM, Liliane Pereira de. Regularização fundiária de povos e comunidades tradicionais no estado do Piauí: a atuação do Instituto de Terras do Piauí. In: FURTADO, Gabriel Rocha; VELOSO, Francisco Lucas Costa (Orgs.). Propriedade Territorial no Piauí: homenagem a Simplício Mendes. Teresina: EDUFPI, 2023.

AZERÊDO, Raoni Fernandes; SILVA, Raimundo Pires. Mercado de terras no Piauí e a des(regularização) fundiária em curso no século XXI. Revista NERA, v. 25, n. 63, p. 49–66, 2022. DOI: https://doi.org/10.47946/rnera.v25i63.8624

BANIWA, Gersem. A conquista da cidadania indígena e o fantasma da tutela no Brasl contemporâneo. In: Alcida Rita Ramos. (Org.). Constituições nacionais e povos indígenas. 1ed.Belo Horizonte: UFMG, 2012, v. 1, p. 206-227.

BIRD. Acordo de Empréstimo Nº 8575-BR, 2016. Disponível em: http://www.ipf.seplan.pi.gov.br/documentos/. Acesso em: 23 ago. 2021.

BIRD. Manual Operacional do Banco Mundial – Políticas Operacionais – OP 4.10. 2005. Disponível em: https://www.der.sp.gov.br/WebSite/Arquivos/BancoMundial/Politica/PovosIndigenas/Povos_Indigenas_Anexo_A.pdf. Acesso em: 10 jul. 2025.

BIRD. Marco da Política para Povos Indígenas. Projeto Piauí Pilares de Crescimento e Inclusão Social. 2018. Disponível em: http://antigo.seplan.pi.gov.br/download/201902/SEP21_8ec3658eb3.pdf. Acesso em: 10 jul. 2025.

CASANOVA, Pablo González. Colonialismo interno. Tradução de Simone Rezende da Silva. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2007. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/formacion-virtual/20100715084802/cap19. Acesso em: 26 jan. 2023.

CARVALHO, Maria Tereza Queiroz. Destinação de terras públicas a povos e comunidades tradicionais: avaliação das normativas dos estados do nordeste. Viçosa-MG: UFV, 2020.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Pueblos Orignarios y Estado. La Paz: Azul Editores, 2008.

CUSICANQUI, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa. Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. 1. ed. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010.

FERRO, Sérgio Pessoa. O ser indígena na história institucional brasileira: pardismo como razão de estado. Tese (Doutorado). Universidade Federal da Paraíba, Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas, João Pessoa, 2023a. 307f.

GROS, Christian. Indigenismo e etnicidade: o desafio neoliberal. In: Antropología en la modernidad: identidades, etnicidades y movimientos sociale en Colombia. Bogotá: Instituto Colombiano de Antropología e Historia, 1997, p. 15–59.

GROS, Christian. Políticas de la etnicidad: identidad, Estado y modernidad. Bogotá: ARFO EDITORES LTDA, 2000.

GROS, Christian. Des territoires multiculturels? Cahiers des Amériques latines, n. 45, p. 3150, 2004. DOI: https://doi.org/10.4000/cal.7501

GONZAGA, Álvaro de Azevedo. Decolonialismo indígena. São Paulo: Matrioska Editora, 2021.

HALE, Charles. Neoliberal Multiculturalism: The Remaking of Cultural Rights and Racial Dominance in Central America. Political and Legal Anthropology Review, v. 28, n. 1, 2005. DOI: https://doi.org/10.1525/pol.2005.28.1.10

IGREJA, Rebecca Lemos. Estado, Diferença Cultural e Políticas Multiculturalistas: Uma comparação entre Brasil e México. 371 p. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Brasília: Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas, Universidade de Brasília, 2005.

IGREJA, Rebecca Lemos; SIERRA, María Teresa. Pluralismo jurídico e direitos indígenas na América Latina: fundamentos e debates. Revista da Faculdade de Direito da UFG, v. 44, n. 3, p. 1-43, 2020.

IGREJA, Rebecca Lemos. Populism, inequality, and the construction of the -other-: an anthropological approach to the far right in Brazil. VIBRANT (FLORIANÓPOLIS), v. 18, p. 1-22, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/1809-43412021v18a802

MACÍAS CHÁVEZ, Karla Cecília. El neocolonialismo en nuestros días: la perspectiva de Leopoldo Zea. Universitas Philosophica, vol. 32, n. 65, dez. 2015, p. 81-106. DOI: https://doi.org/10.11144/Javeriana.uph32-65.nplz

MARÉS, Carlos. Antropologia ou direito: crítica à autosuficiencia do direito. Hiléia (UEA), v. 13-14, p. 17-32, 2010.

MINISTÉRIO DOS POVOS INDÍGENAS - MPI. Dados do Censo 2022 revelam que o Brasil tem 1,7 milhão de indígenas. Publicado em 07 de agosto de 2023. Disponível em: Dados do Censo 2022 revelam que o Brasil tem 1,7 milhão de indígenas — Fundação Nacional dos Povos Indígenas (www.gov.br). Acesso em: 15 out. 2023.

PACHECO DE OLIVEIRA, João. Terras indígenas. In: Antropologia e direito: temas antropológicos para estudos jurídicos. SOUZA LIMA, Antônio Carlos (Coord. Geral). Rio de janeiro/Brasília: Contra Capa, LACED, Associação Brasileira de Antropologia, 2012.

PEREIRA, João Márcio P. Ajuste estrutural e políticas pró-mercado de terras do Banco Mundial. In: SAUER, Sérgio; PEREIRA, João Márcio M. (orgs.). CAPTURANDO A TERRA: Banco Mundial, políticas fundiárias neoliberais e reforma agrária de mercado. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

PIAUÍ. Lei Ordinária n. 7.389, de 27 de agosto de 2020. Reconhece formal e expressamente a existência de Povos Indígenas nos limites territoriais do Estado do Piauí. Diário Oficial do Estado do Piauí, Teresina, Ano LXXXIX, n 131º da Repúblicas, n. 162, p. 5.

PIAUÍ. Lei Ordinária n. 7.294, de 10 de setembro de 2019. Dispõe sobre a política de regularização fundiária no Estado do Piauí, revoga dispositivos da Lei nº 6.709, de 28 de setembro de 2015. Disponível em: Lei Ordinária nº 7.294, de 10 de dezembro de 2019 Comissão Pró-Índio de São Paulo (cpisp.org.br). Acesso em: 27 set. 2023.

PITTA, Fábio T.; CERDAS, Gerardo; MENDONÇA, Maria Luisa. Imobiliárias agrícolas transnacionais e a especulação com terras na região do MATOPIBA. [s.l.]: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, 2018.

SEGATO, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios: e uma antropologia por demanda. Tradução Danielli Jatobá e Danú Gontijo. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

SILVA JUNIOR, Cosmo da. FAO, Banco Mundial e a política pública de regularização fundiária do estado do Piauí: um estudo de caso sobre a influência das organizações internacionais no ciclo da política pública. 123 f. Dissertação (Mestrado em Gestão Pública e Cooperação Internacional). João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2022.

STAVENHAGEN, Rodolfo. Las clases sociales en las sociedades agrarias. México: Siglo XXI, 1969.

STAVENHAGEN, Rodolfo. Los pueblos originarios: el debate necesario. In: Fernández, N. (comp). Instituto de Estudios y Formación de la CTA. Buenos Aires: CTA Ediciones, CLACSO, 2010. (Ferro, 2023, p. 5).

TORSIANO, Ricardo et al (Orgs). A governança de terras no estado do Piauí: experiência do Núcleo de Regularização Fundiária da Corregedoria Geral de Justiça do Estado. Brasília: 2022.

URSINI, Leslye Bombonatto. Comunidades tradicionais: a regularização fundiária estadual no MATOPIBA piauiense e o desenvolvimento econômico. In: FURTADO, Gabriel Rocha; VELOSO, Francisco Lucas Costa (Orgs.). Propriedade Territorial no Piauí: homenagem a Simplício Mendes.Teresina: EDUFPI, 2023.

VARGAS HERNÁNDEZ, José G. Neocolonialismo, resistencia, crisis y transformación del estado. Revista Internacional de Ciencias Sociales y Humanidades, SOCIOTAM, vol. XV, n. 2, jul-dec, 2005, p. 155-183.

VERDUM, Ricardo. Desenvolvimento, utopia e indigenismo latino-americano: um estudo sobre indigenismo e cooperação internacional. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Antropologia, 2018.

WOLKMER, Antônio Carlos. C. Pluralismo jurídico: fundamentos de uma nova cultura no Direito. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Alfa Omega, 2001.

Downloads

Publicado

2025-09-30

Como Citar

Varão, L. (2025). O Banco Mundial e a redefinição dos direitos indigenistas: apontamentos sobre o projeto Piauí: Pilares do Crescimento e Inclusão Social. InterAção, 16(4), e92810. https://doi.org/10.5902/2357797592810