BACTÉRIAS DIAZOTRÓFICAS NÃO SIMBIÓTICAS E ENRAIZAMENTO DE ESTACAS SEMILENHOSAS DE OLIVEIRA (Olea europaea L.)

Talita Filomena Silva, Rogério Melloni, Eliane Guimarães Pereira Melloni, Emerson Dias Gonçalves

Resumo


Bactérias diazotróficas não simbióticas (BDNS) atuam no desenvolvimento das plantas principalmente por meio da fixação biológica de nitrogênio e pela produção e liberação de substâncias reguladoras do crescimento vegetal. Não há descrito na literatura internacional o efeito dessas bactérias no enraizamento de estacas de oliveira, o qual tem sido proporcionado pelo uso de tratamento hormonal à base de ácido indolbutírico (AIB).

Em vista disso, este trabalho objetivou avaliar a diversidade fisiológica de isolados obtidos em amostras de solo da Reserva Biológica Serra dos Toledos (Itajubá - MG) e de estirpes-tipo de BDNS, e o potencial de substituição do hormônio AIB no enraizamento de estacas semilenhosas de oliveira na Fazenda Experimental de Maria da Fé (FEMF-EPAMIG). Os isolados foram distribuídos em 5 grupos (G1 a G5) de acordo com suas características fenotípicas culturais baseadas em cor, diâmetro e consistência das colônias, e as estirpes-tipo utilizadas foram Azospirillum brasilense (BR11001), Azospirillum amazonense (BR11040), Herbaspirillum seropedicae (BR11175) e Burkholderia brasilensis (BR11340). A diversidade fisiológica foi avaliada através de experimentos de solubilização de fosfato, tolerância a diferentes condições de pH,  temperatura e produção de ácido indolacético (AIA). Para avaliação do potencial de enraizamento nas estacas semilenhosas de oliveira foram utilizados os cultivares Ascolano 315, Arbequina e Grappolo 541, oriundas do banco de germoplasma da FEMF-EPAMIG. Aplicaram-se 33 tratamentos, nos quais as estacas foram inoculadas com os grupos de isolados bacterianos, com as estirpes-tipo, sem inoculação (controle) e apenas com AIB, comercialmente utilizado na FEMF-EPAMIG. Apenas dois isolados mostraram capacidade de solubilização de fosfato. Os grupos de isolados e das estirpes-tipo apresentaram exigências ambientais muito similares com amplas faixas de condições ótimas de pH (5,0 a 9,0) e temperatura (15-35ºC) para máximo crescimento. Os isolados e estirpes-tipo apresentaram uma produção de AIA variando de 110,53 a 383,58 µg mL-1, sendo que os grupos dos isolados, em geral, não diferiram significativamente dos valores obtidos pelas estirpes-tipo. Todos os grupos de isolados apresentam potencial de enraizamento de estacas de oliveira, sendo aqueles dos grupos 1 e 4 mais indicados para o cultivar Arbequina, grupo 2 para o Grappolo 541 e grupos 1 e 5 para o Ascolano 315, com desempenhos semelhantes àquele proporcionado pelo AIB.

Palavras-chave


bactérias endofíticas; bactérias promotoras de crescimento; diversidade fisiológica; olivicultura.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5902/1980509826447

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