Sociedade do Cuidado, Economia Solidária e opressão feminina: diálogos e perspectivas
DOI:
https://doi.org/10.5902/2357797593963Palavras-chave:
Cuidado, Economia Solidária, Opressão, Reprodução socialResumo
Este artigo tem por objetivo investigar quais alternativas teórico-práticas podem sustentar a constituição de uma sociedade em que o trabalho do cuidado seja assumido como responsabilidade coletiva, rompendo com sua histórica vinculação à subordinação feminina e à divisão sexual do trabalho. Parte-se da compreensão de que a crise do cuidado, intensificada no capitalismo contemporâneo, evidencia as tensões na organização social da reprodução da vida, tradicionalmente atribuída às mulheres e fundamental à manutenção da força de trabalho. Como metodologia, o estudo articula uma revisão de literatura acerca das aproximações entre a Sociedade do Cuidado e a Economia Solidária, com base nas contribuições de Glenn (2000) e Singer (2002). Em seguida, realiza-se uma revisão integrativa da literatura, conforme Souza, Silva e Carvalho (2010), com análise de conteúdo fundamentada em Bardin (2011), a fim de examinar produções científicas sobre experiências de Economia Solidária com enfoque nas práticas de cuidado mútuo. Os resultados indicam que a Economia Solidária, conceitualmente, é orientada para a construção de práticas de cuidado coletivo, especialmente quando articulada a valores de solidariedade e coletividade. A investigação da práxis, por meio de revisão integrativa, validou estes aspectos, ainda que tais iniciativas sejam atravessadas por desigualdades de gênero. Nesse sentido, o estudo validou que a incorporação da Economia Feminista nos coletivos solidários potencializa o enfrentamento da crise do cuidado, ao favorecer a reconfiguração de relações sociais orientadas à equidade de gênero no tocante à organização social da vida.
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