O laboratório de Schopenhauer? Benjamin Libet e seu experimento seminal

Renato César Cardoso, Waldir Severiano de Medeiros Júnior

Resumo


Estudar a filosofia de Schopenhauer sem perder de vista a nossa paisagem
científica revela-nos conexões interessantes. Poder-se-ia facilmente encontrar muitos insights que mais tarde seriam provados relevantes em diferentes campos como na física, na biologia, na psicologia e na literatura. Foi a neurociência, entretanto, que produziu algumas das mais intrigantes
confirmações da filosofia de Schopenhauer. Suas considerações sobre o tema do livre-arbítrio encontraram provas consideráveis no conhecimento moderno do cérebro. O neurofisiologista Benjamin Libet, por exemplo, encontrou evidências científicas convincentes de que a "vontade" precede a vontade consciente, tal como sustentada há quase duzentos anos pelo pensador alemão. Minar a ideia de livre arbítrio, no entanto, traz sérios problemas para as teorias éticas e legais tradicionais. Assim, sustentamos que os emergentes campos da Neuroética e do Neurodireito poderiam ganhar muito com o tipo de solução determinista (figurada na ideia de
uma imputabilidade prospectivista, ou seja, voltada para o futuro) proposto por Schopenhauer.


Palavras-chave


Schopenhauer; Benjamin Libet; Liberdade da Vontade

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DOI: https://doi.org/10.5902/2179378633764

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