Desenvolvimento, identidade e necropolítica na romantização da colônia em Minas Gerais
DOI:
https://doi.org/10.5902/2357797594090Palavras-chave:
Desenvolvimento, Minas Gerais, Necropolítica, Mineração, DecolonialidadeResumo
Minas Gerais recebe seu nome durante o período colonial, a partir da busca pelo ouro, peça central na economia e no desenvolvimento local. Assim, esse movimento extrativista e modernizante se entranhou na construção da identidade da região, construindo a ideia do “mineiro”. Logo, a população corrobora o discurso extrativista ao se constituir a partir de elementos coloniais, enquanto grandes corporações capitalistas fazem uso deste mesmo discurso. Apesar do extrativismo mineral ser central na economia, também é responsável por desastres de grandes proporções, como nos casos de rompimento das barragens da Samarco, em Mariana (2015), e da Vale, em Brumadinho (2019), gerando vítimas humanas, não-humanas e um enorme impacto ambiental. Assim, objetiva-se compreender como o discurso dominante do desenvolvimento em Minas Gerais se tornou um necrodesenvolvimento – como uma continuação da ideia de necropolítica de Mbembe (2016). O trabalho parte de uma proposta teórica decolonial, com análise histórica em três frentes: primeiro, uma revisão teórica sobre como o desenvolvimento colonial moldou as identidades no Sul Global. Depois, uma análise dos dados do desenvolvimento econômico do estado. Em seguida, entrando em contato com relatos dos desastres supramencionados. Trata-se de uma pesquisa exploratória, de natureza qualitativa. Como resultados, observamos que a atividade mineradora ilustra o necrodesenvolvimento, num ciclo que mescla identidade, minério-dependência e tragédias socioambientais, posicionando-a como uma atividade essencial para a sobrevivência da economia mineira. Logo, conclui-se que a identidade mineira, internalizando essa lógica, valida as práticas das grandes corporações, promovendo uma continuidade desse movimento.
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