Vozes ancestrais e políticas de reparação: o legado do Museu Memorial Instituto Pretos Novos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797593608

Palavras-chave:

Instituto Pretos Novos, Políticas de reparação, Patrimônios sensíveis, Negacionismo histórico, Educação para as relações étnico raciais

Resumo

Esta pesquisa busca elucidar como o Museu Memorial Instituto Pretos Novos (IPN), localizado no Cais do Valongo, Rio de Janeiro-RJ, tem contribuído para a valorização da memória afro-brasileira e para a formulação de políticas de reparação. O espaço, que funcionou como Cemitério dos Pretos Novos entre 1774 e 1831, recebeu os corpos de africanos escravizados que faleciam ainda na travessia. Redescoberto em 2012, durante reformas no imóvel, tornou-se desde então um lugar de memória e resistência. A construção deste artigo se deu a partir de diálogos situados, realizados com um educador museal do IPN. Adotamos a escuta sensível e a circularidade da palavra como caminhos metodológicos, organizando a narrativa em excertos que deram origem a três eixos de reflexão, aqui denominados Fardos Tensionadores (FT). O FT1 compreende o IPN como território de insurgência frente ao negacionismo histórico. Em FT2 se evidencia os fardos coloniais e as vozes ancestrais que ecoam do espaço, tensionando as relações étnico-raciais e a formulação de políticas públicas. Já FT3 destaca o IPN como lugar de memória e chão de ancestralidade. O estudo permitiu compreender o IPN não apenas como local de exposição de vestígios arqueológicos, mas como espaço que potencializa a reflexão sobre a barbárie da escravidão e suas permanências na sociedade brasileira. Nesse sentido, o local se afirma como núcleo de enfrentamento às práticas negacionistas, espaço de reivindicação por políticas reparatórias e lugar de fortalecimento da identidade afro-brasileira, historicamente marginalizada e desvalorizada.

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Biografia do Autor

Maria Betânia Moreira Carvalho Silva, Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro; Assistente Administrativo, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil.

Pedro Donizete Colombo Junior, Universidade Federal do Triângulo Mineiro

Doutor em Ensino de Física pela Universidade de São Paulo; Professor, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil.

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Publicado

2026-03-05

Como Citar

Silva, M. B. M. C., & Colombo Junior, P. D. (2026). Vozes ancestrais e políticas de reparação: o legado do Museu Memorial Instituto Pretos Novos. InterAção, 16(5), e93608. https://doi.org/10.5902/2357797593608