Autoetnografia de uma rede transnacional: impactos e sentidos da Pedagogia Feminista Negra

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797593707

Palavras-chave:

Pedagogia Feminista Negra, Feminismos negros, Autoetnografia crítica, Interseccionalidades

Resumo

Este artigo analisa a Rede Internacional de Pedagogia Feminista Negra como manifestação concreta do feminismo negro em sua dimensão transnacional e pedagógica. Ancoradas no feminismo negro transnacional (solidariedade/amefricanidade) e na Pedagogia Feminista Negra (PFN), adotamos a autoetnografia crítica como metodologia, articulando experiência situada e análise teórico-conceitual. O corpus de análise é composto por documentos institucionais e experiências em diversos eventos. Os resultados evidenciam impactos educativos (formação crítica; sistematização de saberes insurgentes; tradução pública de conceitos como interseccionalidade), sociais (ampliação de redes, ênfase em acessibilidade e comunicação inclusiva; fortalecimento de pertença e autoidentificação) e políticos (institucionalização via estatuto e diretoria; disputa de narrativas contra o racismo, sexismo e eurocentrismo; popularização da ciência como prática anticolonial). É demonstrado como práticas já existentes, cursos, publicações, mesas e ações de comunicação, se consolidam em projeto político-pedagógico, produzindo legitimidade epistêmica para vozes negras e configurando a Rede como laboratório vivo de produção, circulação e validação de conhecimento. Concluímos que a Pedagogia Feminista Negra opera como gramática de ação que integra teoria e prática, corpo e território, passado e futuro, oferecendo referências curriculares e metodológicas para a transformação educacional em chave de emancipação coletiva.

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Biografia do Autor

Kenia Silva, Universidade do Porto

Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto; Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, Porto, Portugal.

Carolina Pinho, Instituto Federal da Bahia

Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; Professora, Instituto Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil.

Fernanda de Araújo Oliveira, Universidade Federal de Minas Gerais

Mestra em História Social da Cultura Regional pela Universidade Federal Rural de Pernambuco; Doutoranda, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Gabriele da Silva Antunes, Universidade Estadual do Ceará

Mestra em Humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira; Professora, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil.

Manuela Arruda dos Santos Nunes da Silva, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso

Mestra em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco; Professora, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso, Cuiabá, MT, Brasil.

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Publicado

2026-02-12

Como Citar

Silva, K., Pinho, C., Oliveira, F. de A., Antunes, G. da S., & Silva, M. A. dos S. N. da. (2026). Autoetnografia de uma rede transnacional: impactos e sentidos da Pedagogia Feminista Negra. InterAção, 16(5), e93707. https://doi.org/10.5902/2357797593707