Políticas do esquecimento: trauma e fantasmagoria nas culturas brasileira e portuguesa

Lisa Carvalho Vasconcellos

Resumo


A escassa produção de textos – literários ou não – sobre a Colônia Correcional da Ilha Grande, no Brasil, e o campo de prisioneiros de Tarrafal, na África portuguesa, dois importantes centros de detenção política, pode ser tomada como um índice das dificuldades enfrentadas pelas culturas desses países na elaboração das práticas autoritárias às quais ambos foram submetidos ao longo de quase todo o século XX.  Escritos sob o influxo da dor e do trauma, mas também do interdito e do recalque (cf. FREUD, 2010), muitos dos testemunhos, dos depoimentos e dos textos ficcionais (memorialísticos e autobiográficos em sua maioria) que procuraram pensar tais assuntos estão marcados pelo silenciamento de conflitos e pela denegação – novamente em sentido freudiano – da violência experienciada. Nesse sentido – e conforme propõem Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro (cf. RIBEIRO & VECCHI, 2011) no que diz respeito à memória poética da Guerra Colonial lusa – os conceitos de fantasmagoria, rastro e resto propostos por Walter Benjamin podem funcionar como provocação teórica para o entendimento dos textos literários e da cultura letrada desses países (assim como das práticas políticas que lhe servem de horizonte). No trabalho que ora propomos, o objetivo será estudar comparativamente os livros Memórias do cárcere (1953), de Graciliano Ramos e Tarrafal, o pântano da morte, de Cândido de Oliveira, procurando ver como ambas as obras – ao mesmo tempo em que se reconhecem assombradas pelos fantasmas do silenciamento e da repressão – decidem enfrentá-los, usando o próprio texto como arma e mediação.


Palavras-chave


Ilha-prisão; Literatura luso-brasileira; Trauma e fantasmagoria

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