Construção social dos mercados de frutos do Cerrado: entre sociobiodiversidade e alta gastronomia

Stéphane Guéneau, Janaína Deane de Abreu Sá Diniz, Sabina Dessartre Mendonça, Jessica Pereira Garcia

Resumo


O Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil e lar de enorme diversidade biológica e social, é considerado hoje como um dos hotspots mundias devido às pressões que tem sofrido com o avanço da fronteira do agronegócio. Para conservar estes recursos naturais, além de áreas protegidas, é necessária a valorização dos produtos obtidos através do agroextrativismo. Este artigo tem por objetivo analisar como a construção social dos mercados de produtos do agroextrativismo do Cerrado se baseia na difusão de valores socioambientais divulgados através da ação de organizações da sociedade civil, especialmente por meio de redes. A pesquisa incluiu entrevistas com os atores principais – agroextrativistas, intermediários, cooperativas, indústrias, distribuidoras, ONGs – além de visitas a campo, entre outros. Os resultados incluem uma análise da ação das redes, uma apresentação dos produtos e a descrição dos mercados. Estes indicam que a evolução dos mercados alternativos destes produtos na direção dos supermercados, de circuitos longos de comercialização e da gastronomia corre o risco de limitar a participação dos produtores agroextrativistas em circuitos dominantes. 


Palavras-chave


Extrativismo; Pequi; Baru; Mercados; Agroextrativismo.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5902/2236672528133



DOI: http://dx.doi.org/10.5902/22366725

 

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