Letras Especial 2027 - PoetiCidades: Literatura e Experiência Urbana - Chamada de Artigos (2sem.2027)
[English and Spanish follows]
Prazos/Deadlines: 31/Março/2027
Dossiê: PoetiCidades: Literatura e Experiência Urbana.
Em maior ou menor grau, as cidades são imitações umas das outras. Todas elas são um agrupamento de pessoas em um determinado espaço, com sistemas de moradia e de serviços. Por outro lado, há algo que faz cada cidade única: a experiência humana. Na literatura, as representações das cidades são igualmente perpassadas pela capacidade de simbolizar, de sentir, de refletir e de depreender sentidos àqueles espaços. Não raro, as cidades são personagens em obras literárias.
Italo Calvino chega a comparar a experiência de andar pela cidade a ler um texto: “O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes. Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante… (Calvino, 1990, p. 18). Entender uma cidade é como mergulhar em um texto literário, entender suas dinâmicas, fazer conexões, compreender seus sentidos simbólicos e ser tocado pelos seus dispositivos poéticos.
Essa aproximação entre cidade e texto também encontra ressonância nas reflexões de Renato Cordeiro Gomes, para quem a cidade pode ser compreendida como um palimpsesto, uma superfície na qual diferentes tempos, memórias, discursos e experiências se sobrepõem sem que os vestígios anteriores desapareçam completamente (Gomes, 2008, p. 23-41). Essa imagem ganha novos contornos quando se aproxima da perspectiva histórica desenvolvida em Metrópole, de Ben Wilson. Ao percorrer a trajetória das grandes cidades desde a Antiguidade até o presente, Wilson evidencia como a vida urbana se constrói por sucessivos processos de transformação, nos quais diferentes épocas deixam marcas duradouras na organização do espaço e nas formas de sociabilidade. Lidos em conjunto, Gomes e Wilson permitem compreender a cidade como um território de sobreposições, onde a experiência contemporânea convive com rastros materiais e simbólicos de outros tempos. É justamente dessa convivência entre permanências e mudanças que emergem muitas das poéticas urbanas exploradas pela literatura. Além disso, o século XXI é marcado por um adensamento do ambiente urbano, seja pelo crescimento populacional ou pelos avanços do capitalismo e da publicidade; o mundo de neon de obras como Blade Runner já não são mais estipulações de um futuros distante, mas construtos que podemos habitar. Tendo em vista que a experiência urbana é tão constitutiva à contemporaneidade, é apenas natural que a literatura se torne um campo de experimentação deste espaço; afinal, como defende Octavio Paz (2012), a literatura é sempre muito sensível a mudanças sociais e políticas, podendo ser utilizada enquanto termômetro de transformações por vir.
No entanto, embora compartilhando o mesmo espaço, a experiência humana nas cidades, é única e enviesada. E, talvez, precisamente por isso, seja apaixonante, como aponta Yi-Fu Tuan (2015, p. 27) “É uma característica da espécie humana, produtora de símbolos, que seus membros possam apegar-se apaixonadamente a lugares de grande tamanho, como a nação-estado, dos quais eles só podem ter uma experiência direta limitada.”
Este dossiê pretende reunir textos oriundos de pesquisas que abordam a poética das cidades na literatura. Buscando expandir o entendimento das representações urbanas como espaços poéticos e simbólicos, acolhemos artigos com as seguintes propostas:
- Estudo de cidades na literatura;
- Representações poéticas em espaços urbanos;
- O espaço urbano como personagem literário;
- Relação entre experiência(s) e cidade;
- Comparação entre cidades, sejam reais ou fictícias;
- Tensões sociais e violências nas cidades.
- Representações utópicas e distópicas de cidades.
- Rastros simbólicos em espaços urbanos;
- Qualquer outra proposta alinhada à temática;
Organizadores:
João Pedro Wizniewsky Amaral (UFSM)
Kleber Kurowsky (UNESPAR)
Lucas da Cunha Zamberlan (UFSM)
Referências:
CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. Tradução de Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
OLIVEIRA, Silvana; SANTOS, Luis Alberto. Sujeito, tempo e espaço ficcionais: introdução à teoria da literatura. São Paulo: Martin Fontes, 2001.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wecht. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Tradução de Lívia de Oliveira. Londrina: Eduel, 2012.
TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Tradução de Lívia de Oliveira. Londrina: Eduel, 2015.
WILSON, Ben. Metrópole: a história das cidades, a maior invenção humana. Tradução de Berilo Vargas. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
PoetiCities: Literature and Urban Experience
Cities may imitate one another in their basic structures; yet human experience renders each unique. In literature, urban representations are shaped by the capacity to symbolize, feel, reflect, and derive meaning from space. Cities often become characters in their own right.
Italo Calvino (1990, p. 18) likens walking through a city to reading a text: “The eye scans the streets as if they were written pages”. Renato Cordeiro Gomes (2008) conceives the city as a palimpsest, where different temporalities, memories, and discourses overlap. Ben Wilson’s Metropolis similarly traces how successive transformations leave enduring marks on space and social life. The 21st century’s intensified urban environment (driven by population growth, capitalism, and advertising) makes cities like those in Blade Runner no longer distant futures but inhabited constructs. As Octavio Paz (2012) argues, literature remains acutely sensitive to social and political shifts, serving as a barometer of transformations to come. And though urban experience is shared, it remains singular and biased: perhaps that is precisely the reason why, as Yi-Fu Tuan (2015, p. 27) notes, humans can “become passionately attached to places of large size” despite limited direct experience. Read together, these perspectives reveal the city as a territory where human experience coexists with the material and symbolic traces of other times, and it is from this interplay that urban poetics emerge.
This special issue seeks research exploring the poetics of cities in literature. We welcome articles addressing:
- Study of cities in literature;
- Poetic representations in urban spaces;
- The urban space as literary character;
- Relationship between experience(s) and the city;
- Comparison between cities, whether real or fictional;
- Social tensions and violence in cities;
- Utopian and dystopian representations of cities;
- Symbolic features in urban spaces;
- Country and city in the city;
- Spatial and geographic studies in literature;
- Any other proposal aligned with the theme;
Editors:
João Pedro Wizniewsky Amaral (UFSM)
Kleber Kurowsky (UNESPAR)
Lucas da Cunha Zamberlan (UFSM)
PoetiCidades: Literatura y Experiencia Urbana
Las ciudades pueden imitarse unas a otras en sus estructuras básicas; sin embargo, la experiencia humana vuelve única a cada una. En la literatura, las representaciones urbanas están moldeadas por la capacidad de simbolizar, sentir, reflexionar y extraer sentido del espacio. Las ciudades a menudo se convierten en personajes por derecho propio.
Italo Calvino (1990, p. 18) compara el acto de caminar por una ciudad con leer un texto: “El ojo recorre las calles como si fueran páginas escritas”. Renato Cordeiro Gomes (2008) concibe la ciudad como un palimpsesto, donde diferentes temporalidades, memorias y discursos se superponen. Metrópolis, de Ben Wilson, rastrea de manera similar cómo las transformaciones sucesivas dejan marcas duraderas en el espacio y en la vida social. El entorno urbano intensificado del siglo XXI (impulsado por el crecimiento poblacional, el capitalismo y la publicidad) hace que ciudades como las de Blade Runner ya no sean futuros lejanos, sino constructos habitados. Como sostiene Octavio Paz (2012), la literatura sigue siendo profundamente sensible a los cambios sociales y políticos, sirviendo como barómetro de las transformaciones por venir. Y aunque la experiencia urbana es compartida, sigue siendo singular y sesgada: tal vez esa sea precisamente la razón por la cual, como observa Yi-Fu Tuan (2015, p. 27), los humanos pueden "apegarse apasionadamente a lugares de gran tamaño" a pesar de una experiencia directa limitada. Leídas en conjunto, estas perspectivas revelan la ciudad como un territorio donde la experiencia humana coexiste con las huellas materiales y simbólicas de otros tiempos, y es de esta interacción de donde emergen las poéticas urbanas.
Este dossier busca reunir investigaciones que exploren la poética de las ciudades en la literatura. Damos la bienvenida a artículos que aborden:
- Estudio de ciudades en la literatura;
- Representaciones poéticas en espacios urbanos;
- El espacio urbano como personaje literario;
- Relación entre experiencia(s) y la ciudad;
- Comparación entre ciudades, sean reales o ficticias;
- Tensiones sociales y violencias en las ciudades;
- Representaciones utópicas y distópicas de ciudades;
- Rasgos simbólicos en espacios urbanos;
- Campo y ciudad en la ciudad;
- Estudios espaciales y geográficos en la literatura;
- Cualquier otra propuesta alineada con la temática;
Editores:
João Pedro Wizniewsky Amaral (UFSM)
Kleber Kurowsky (UNESPAR)
Lucas da Cunha Zamberlan (UFSM)
Prazos/Deadlines: 31/Março/2027


