Maternagem africana nos dois lados do Atlântico: diálogos de cuidado e ancestralidade no Brasil e em Moçambique
DOI:
https://doi.org/10.5902/2357797594100Palavras-chave:
Maternagem africana, Ancestralidade, Escrevivência, CartografiaResumo
Este artigo parte do encontro entre duas pesquisas que dialogam em objetivos, caminhos e interesses, mas são atravessadas por vozes, vivências e margens distintas do Atlântico. A primeira foi realizada na diáspora brasileira, com o Quilombo Buieié, na Zona da Mata mineira; a segunda, no continente africano, com a comunidade de Chinonanquila, em Maputo, Moçambique. Ao considerar os processos de resistência dos povos africanos e afrodiaspóricos diante do projeto de apagamento de seus corpos e filosofias, buscamos apresentar as redes intergeracionais que sustentam maternagens africanas e afrodiaspóricas, comprometidas com saberes e práticas ancestrais e cotidianas que inventam modos de educar crianças negras. Essas práticas atuam como formas de resistência, preservação e ressignificação cultural, revelando continuidades entre África e diáspora na construção de memórias e epistemologias negras. Recorremos à cartografia e às escrevivências como tessituras metodológicas e, (des)orientadas pelos debates sobre maternidade que historicamente se afastam das matrizes africanas de cuidado e criação, trilhamos caminhos guiados pelos espaços de organização comunitária em torno das crianças negras. Isso nos direciona a referências que destacam a matrifocalidade, a maternagem comunitária e a ancestralidade como princípios estruturantes dos processos educativos e de cuidado, expressos em modos coletivos de educar e criar. Assim, identificamos abordagens comunitárias que fortalecem a resistência dos saberes e práticas tradicionais interessados no bem-estar das crianças, configurando modelos de cuidado que ultrapassam as fronteiras da maternidade ocidental e valorizam o apoio mútuo e a colaboração.
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