Pistas acerca da negação institucional de práticas afro-diaspóricas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797593541

Palavras-chave:

Saúde, Terreiros, Racismo, Epistemologias Afro-indígenas, Políticas públicas

Resumo

O presente artigo analisa a relação histórica entre comunidades de terreiro e a promoção de saúde no Brasil, destacando que, antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988, os terreiros figuravam enquanto espaços centrais de cuidado especialmente para populações negras e pobres. Buscou-se evidenciar certo avanço no campo das políticas públicas no que tange à garantia de direito dessas comunidades, entretanto, partindo da revogação da Resolução Conjunta SMAC/SMS nº 02/2025, no Rio de Janeiro, discutimos as dinâmicas do racismo que permeiam as instituições brasileiras, impedindo o avanço de pautas. O texto articula reflexões de autores como Lélia González, Fanon, Kilomba e Mbembe para discutir a colonialidade do saber e o apagamento de epistemologias afro-indígenas. Propõe-se compreender a saúde de forma ampliada, a partir dos terreiros, nos entremeios das ervas, dos rituais, dos cantos e do axé, inspirando-se nos valores civilizatórios afro-indígenas e na interculturalidade que apontam caminhos pautados na afirmação da contracolonialidade. Conclui-se que, apesar das tentativas institucionais de apagamento, os terreiros seguem como territórios de resistência, produção de vida e continuidade, reafirmando a centralidade de epistemologias ancestrais para pensar e praticar outros Brasis.

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Biografia do Autor

Caroline Palmier Quintanilha, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense; Mestranda, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Mariana de Castro Moreira, Universidade Federal Fluminense

Doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro; Professora, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Giovani Florencio, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense; Especializando em Filosofia, Cultura e Educação, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Salvador, BA, Brasil.

Eduardo Oliveira Miranda, Universidade Estadual de Feira de Santana

Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia; Professor, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, BA, Brasil.

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Publicado

2026-03-18

Como Citar

Quintanilha, C. P., Moreira, M. de C., Florencio, G., & Miranda, E. O. (2026). Pistas acerca da negação institucional de práticas afro-diaspóricas. InterAção, 16(5), e93541. https://doi.org/10.5902/2357797593541