A lógica da não-reparação colonial às ex-colônias africanas: racismo institucional na CIJ

Autor/innen

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797592905

Schlagworte:

Racismo institucional, Corte Internacional de Justiça, Colonialismo, Reparação histórica, Teoria decolonial

Abstract

O presente artigo investiga a presença do racismo institucional na Corte Internacional de Justiça (CIJ), com foco na ausência de reparações às ex-colônias africanas. Fundamentado na teoria decolonial e na noção de colonialidade do poder de Aníbal Quijano, argumenta-se que o direito internacional permanece estruturado em lógicas eurocêntricas que favorecem o Norte Global e invisibilizam demandas históricas oriundas do Sul. A pesquisa utiliza revisão bibliográfica, análise de casos emblemáticos e documentos oficiais da CIJ e outras entidades internacionais para demonstrar como epistemologias jurídicas africanas são marginalizadas. Embora a jurisprudência internacional reconheça o direito à reparação, como no caso Chorzów (1928), a Corte evita enfrentar violações históricas alegando tecnicalidades processuais. Ainda assim, iniciativas reparatórias bem-sucedidas fora do âmbito da CIJ – como nos casos do povo Mau Mau no Quênia e dos Herero e Nama na Namíbia – demonstram a viabilidade de um modelo de justiça reparadora. A análise crítica da composição da CIJ, marcada por formação acadêmica eurocentrada, reforça o argumento de que a diversidade geográfica não garante pluralidade epistemológica. O artigo conclui que a estrutura atual da justiça internacional perpetua hierarquias raciais e urge por uma reforma que assegure inclusão, representatividade e reconhecimento das demandas históricas das nações racializadas.

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Autor/innen-Biografien

Gabrielli Mendonça Guimarães, Universidade Federal da Grande Dourados

Graduanda em Relações Internacionais, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, MS, Brasil.

Liz Esmeralda Gonçalves, Universidade Federal da Grande Dourados

Graduanda em Relações Internacionais, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, MS, Brasil.

Alfa Oumar Diallo, Universidade Federal da Grande Dourados

Doutor em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Professor, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, MS, Brasil.

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Veröffentlicht

2026-02-11

Zitationsvorschlag

Guimarães, G. M., Gonçalves, L. E., & Diallo, A. O. (2026). A lógica da não-reparação colonial às ex-colônias africanas: racismo institucional na CIJ. InterAção, 16(5), e92905. https://doi.org/10.5902/2357797592905