Sobre a solidariedade e a solicitude no cuidado de enfermagem

Márcia de Assunção Ferreira

Resumo


A enfermagem se define como a ciência e a arte de cuidar do outro, e é esta definição que nos serve de pauta para as ideias que se desenvolvem neste editorial. A definição indica que há sempre um “outro” implicado na noção da ação da enfermagem - cuidar. Logo, para se pensar esta ação e o que dela deve resultar – o cuidado – há que se considerar os dois sujeitos que nela estão implicados: a enfermeira e o usuário dos seus serviços. Pensar a ação de cuidar e o cuidado no âmbito de uma ciência – a da enfermagem – nos enseja a compreender o cuidado em sua dimensão filosófica, mas também em sua aplicabilidade prática, já que estamos tratando de uma ciência – e arte – de ajudar o outro a melhor viver e a morrer dignamente. Na acepção da palavra, o adjetivo cuidado indica aprimorado, bem-feito; como substantivo remete a cautela, atenção, zelo; como interjeição indica advertência. Na vida social e também profissional, as enfermeiras advertem as pessoas para terem cuidado, nas mais diversas e variadas situações, e quando isto se faz demonstram preocupação para com elas, com sua segurança, com sua integridade. Profissionalmente, a ação de cuidar da enfermeira comporta elementos de natureza científica, técnica - de uma racionalidade prática. Formalmente preparadas para realizar atos e operações terapêuticas no âmbito das práticas de saúde, as enfermeiras precisam aprender a lidar com as vertentes que a ação de cuidar, e seu fruto, o cuidado, lhes impõem. Tais vertentes são de ordem objetiva e subjetiva. A objetividade nas ações de cuidar da enfermeira é requerida para atender às demandas do processo saúde-doença dos sujeitos que estão sob seus cuidados, pois muitas terapêuticas, sejam elas de ordem médica ou de enfermagem, requerem intervenções que exigem aparatos e procedimentos técnicos. A materialidade biológica do corpo humano exige cuidados desta ordem, e para tanto se desenvolveu uma das expressões do saber da área nas técnicas de enfermagem, cientificamente fundamentadas. Não obstante, não se pode furtar de reconhecer que a enfermagem cuida de pessoas, e nesse processo se lida com a subjetividade humana, e com as múltiplas maneiras como tais pessoas vivem o sofrimento, a dor, as perdas, os ganhos, as alegrias, a felicidade. Para esta abordagem e entendimento necessários ao cuidado do outro, há que se praticar a solidariedade cujo sentido moral remete ao vinculo e à ajuda mutua. No exercício do verdadeiro cuidado, em seu sentido prático e filosófico, enfermeira e usuário ganham, pois quando se é solidário se pratica a responsabilidade na adesão à causa alheia e o interesse passa a ser comum – por um lado, o usuário precisa do cuidado para a sua recuperação, conforto, bem-estar; por outro, a enfermeira interessa-se pelo bom desfecho de sua ação no atendimento das necessidades de seu cliente e para sua própria satisfação profissional – dever cumprido. Para que se obtenha um bom desfecho na ação de cuidar há que se ter solicitude, que significa desejo de atender bem ao pedido de alguém, ter um cuidado atencioso. 2 Portanto, a posição que se traz neste editorial é que, na construção de sua ciência e na sua aplicação prática no cuidado, no campo técnico-clínico-interativo, a enfermagem há que congregar os saberes especializados das ciências, os saberes sociais e as subjetividades implicadas nas ações de cuidar, sem esquecer-se da solidariedade e da solicitude que movimentam e dão forma à interação necessária ao encontro com o outro.

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DOI: https://doi.org/10.5902/217976925150



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