DISCURSOS E FEMINISMOS EM MOVIMENTO ENTRE A MARCHA MUNDIAL DE MULHERES E O MST

Maria da Graça Silveira Gomes da Costa, Elisete Schwade

Resumo


A Marcha Mundial de Mulheres (MMM) é um movimento feminista internacional surgido no ano 2000 que tem como maior finalidade a mobilização de mulheres contra a pobreza e a violência. A cada cinco anos, a MMM organiza uma grande ação internacional para dar visibilidade às suas reivindicações. Nesse meio tempo, a Marcha se articula com grupos feministas nos países em que atua, além de organizar ações junto a outros movimentos sociais internacionais. No ano de 2010, a MMM aparelhou sua 3ª ação internacional, dividindo-a em dois períodos, sendo o primeiro deles, do dia 08 de março (Dia Internacional da Mulher) até dia 18 de março, com várias marchas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Aqui a Marcha teve duração de dez dias saindo da cidade de Campinas chegando até a cidade de São Paulo. Quase 3 mil mulheres percorreram cerca de 100 km andando entre beira de estradas e ruas movimentadas no interior de SP. Entre os princípios da MMM estão a organização das mulheres urbanas e rurais a partir da base e as alianças com movimentos sociais. Por ser um movimento que busca alianças internacionais, o seu discurso tenta contemplar o movimento feminista de maneira ampla, declarando-se como um movimento que busca construir uma perspectiva feminista afirmando o direito à autodeterminação das mulheres e a igualdade como base da nova sociedade. A MMM tem trabalhado em quatro principais campos de ação: autonomia econômica das mulheres; bem comum e serviços públicos; paz e desmilitarização; violência contra mulheres.

No Brasil, a MMM mantém amplo diálogo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e ainda que as bandeiras oficiais dos movimentos não sejam necessariamente as mesmas, elas se confundem em diversos pontos, sendo o MST um movimento social com um grande número de representantes dentro da 3ª ação internacional da Marcha no país. O MST toma por principais plataformas políticas a luta pela terra, pela reforma agrária e por uma sociedade mais igualitária. Para isso, o MST trabalha em diversas frentes, desenvolvendo projetos que visam à conscientização política dos trabalhadores rurais e a formação do “sujeito militante”. A inclusão de práticas e discursos em relação à participação feminina dentro do MST foi vital para a consolidação e abrangência do movimento na sociedade, sendo uma preocupação do movimento a participação das mulheres dentro da militância. Entendemos, portanto, que a Marcha é um movimento que propicia um grande fluxo de discursos e interações entre diferentes grupos e concepções políticas, sociais, econômicas e de gênero, se constituindo como um espaço aberto de culturas em contato. Assim, nosso objetivo nesse estudo é analisar os diferentes discursos e concepções de gênero advindos de diversos movimentos sociais através de suas militantes, e a maneira pela qual esses conceitos são (des)construídos pelo contato e pelas disputas entre os sujeitos, nas relações que se desenvolvem no acontecer da Marcha. Trabalhamos com o método etnográfico da observação direta e participante, procurando nos inserir em diversos espaços de circulação, além de desenvolvermos, durante o evento, entrevistas semi-estruturadas com cinco mulheres, sendo duas militantes do MST, uma militante da CPT e do MST, uma militante do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e do MST e uma ex-militante do MST. Essa pesquisa nos fez refletir sobre a maneira como as militantes de movimentos de trabalhadores rurais como o MST lidam com as constantes viagens para eventos de cunho político, vendo nessa mobilidade novas possibilidades de interação, com militantes feministas urbanas, grupos de afirmação LGBT, mulheres indígenas, entre outros, trazendo à tona o contato e a reflexão sobre outros arranjos sexuais, familiares e conjugais na vida dessas mulheres e, conseqüentemente, para suas esferas locais. A militância política das entrevistadas e suas constantes viagens envolvem, no entanto, uma série de negociações e embates no domínio privado, mostrando que esse é um fator de discordância entre muitas militantes, seus companheiros e familiares.


Palavras-chave


movimento de mulheres; gênero; feminismo internacional; MST.

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