Quem ensina os que foram silenciados? Intelectualidade negra e afrorreferenciação como reparação histórica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5902/2357797593998

Palavras-chave:

Afrorreferenciação, Epistemicídio, Intelectualidade negra, Reparação histórica, Currículo insurgente

Resumo

Este artigo analisa os desafios e as potencialidades da afrorreferenciação na educação brasileira, compreendendo-a como uma política de afirmação e reparação histórica contra o epistemicídio e o apagamento da intelectualidade negra. A pesquisa parte da constatação da sub-representação de docentes negros na pós-graduação e da hegemonia da branquitude acadêmica nos currículos, evidenciando desigualdades estruturais persistentes. Fundamentado em autores como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Nilma Lino Gomes, Cida Bento, Renato Noguera e Abdias do Nascimento, o estudo mobiliza conceitos de currículo negro insurgente, pedagogias negras e amefricanidade. A metodologia articula revisão bibliográfica com a análise de dados de relatórios institucionais (ANPEd, CAPES e IPEA) sobre a composição racial na pós-graduação. Os resultados indicam que a afrorreferenciação transcende o campo pedagógico, configurando-se como um projeto político-epistêmico que tensiona as lógicas de dominação eurocêntricas. Conclui-se que a valorização da produção intelectual negra é uma estratégia de justiça curricular indispensável para a construção de uma educação antirracista e equitativa, exigindo transformações estruturais que superem o pacto narcísico da branquitude e promovam a reparação histórica no ambiente acadêmico.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Guilherme da Silva Pereira, Universidade Federal do Pará

Licenciado em Pedagogia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; Licenciado em Letras – Inglês pela Universidade Estácio de Sá; Mestre em Educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro; Doutorando em Educação, Universidade Federal do Pará, Belém, PA, Brasil.

Cintia Valéria Lima dos Reis, Universidade Federal do Pará

Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú; Mestre em Educação pela Universidade Federal do Pará; Professora da Educação Básica; Doutoranda em Educação, Universidade Federal do Pará, Belém, PA, Brasil.

Referências

ADUFS - Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Feira de Santana. Instituições de ensino são espaços violentos e excludentes para pessoas trans e travestis. Feira de Santana, 28 jun. 2023. Disponível em: https://www.adufsba.org.br/noticia/4676/instituicoes-de-ensino-sao-espacos-violentos-e-excludentes-para-pessoas-trans-e-travestis. Acesso em: 20 jan. 2026.

AGÊNCIA BRASIL. Negros e indígenas são apenas 7,4% dos professores em pós-graduação. Rio de Janeiro, 21 nov. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2023-11/negros-e-indigenas-sao-apenas-74-dos-professores-em-pos-graduacao. Acesso em: 14 jul. 2025.

ANDIFES – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DIRIGENTES DAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO SUPERIOR. V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das IFES – 2018. Brasília: ANDIFES, 2019. Disponível em: https://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2019/05/V-Pesquisa-Nacional-de-Perfil-Socioeconomico-e-Cultural-dos-as-Graduandos-as-das-IFES-2018.pdf. Acesso em: 3 set. 2025.

ANPED. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO. Relatório da 37ª Reunião Nacional – GT 21. [S. l.], 2 ago. 2016. Disponível em: https://anped.org.br/biblioteca/relatorio-37a-reuniao-anped-gt-21/. Acesso em: 14 jul. 2025.

BENEVIDES, Bruna. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024. Brasília, DF: ANTRA; Distrito Drag, 2025.

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Resumo técnico do Censo da Educação Superior 2022. Brasília, DF: Inep, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/acervo-linha-editorial/publicacoes-institucionais/estatisticas-e-indicadores-educacionais/resumo-tecnico-do-censo-da-educacao-superior-2022. Acesso em: 17 jul. 2025.

CAMPOS, Luiz Augusto. O racismo como sobrevivência: Muniz Sodré e a escravidão. Nexo Jornal, 12 maio 2023. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2023/O-racismo-como-sobrevivencia-Muniz-Sodre-e-a-escravidao. Acesso em: 29 jul. 2025.

CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de Racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR (CAPES). Grupo de Trabalho Equidade e Redução de Assimetrias na Pós-Graduação. Brasília, 20 dez. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/24122024_Relatorio_2517752_23.12.2024___GT_Equidade_e_Assimetrias_DOI.pdf. Acesso em: 14 jul. 2025.

CULTNE. TV. Pretagogia - Filosofia para Afrorreferenciar o Currículo Escolar. 31 maio 2023. Disponível em: https://acervo.cultne.tv/educacao/sala-de-aula/344/africanamente/video/3287/pretagogia-filosofia-para-afrorreferenciar-o-curriculo-escolar. Acesso em: 29 jul. 2025.

DAMASCENO PEREIRA, Ilaina; RIBEIRO, Liana dos Santos; VIANA, Natalia Conceição; SANTOS, Sônia Beatriz dos. Pedagogias negras: experiências formativas para a educação das relações étnico-raciais. Práxis Educativa, Goiânia, v. 17, p. 1-23, 2022. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8631709.pdf. Acesso em: 29 jul. 2025.

DIAS, Lucimar Rosa; PASSOS, Mailsa Carla Pinto; RODRIGUES, Tatiane Cosentino. Rompendo o epistemicídio: conhecimento em Raça e Cultura e a produção do GT 21 da ANPEd. Revista Teias, Rio de Janeiro, v. 21, n. 62, p. 3-9, jul./set. 2020. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-03052020000500003. Acesso em: 14 jul. 2025.

FUNDAÇÃO TELEFÔNICA VIVO. Desafios para pessoas negras na tecnologia. Notícias, 17 nov. 2022. Disponível em: https://www.fundacaotelefonicavivo.org.br/noticias/desafios-para-pessoas-negras-na-tecnologia/. Acesso em: 27 maio 2025.

GODOI, Marciano Seabra de e SANTOS, Maria Angélica dos. Dez anos da lei federal das cotas universitárias: avaliação de seus efeitos e propostas para sua renovação e aperfeiçoamento. Revista de Informação Legislativa - RIL Brasília, v. 58, n. 229, p. 11-35, jan./mar. 2021. Disponível em: https://bdjur.stj.jus.br/entities/publication/98cc009a-2375-426a-bfc5-0c08a0160a98. Acesso em: 15 jul. 2025.

GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. Ação Educativa, São Paulo, 2012. Disponível em: https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2017/03/Alguns-termos-e-conceitos-presentes-no-debate-sobre-Rela%C3%A7%C3%B5es-Raciais-no-Brasil-uma-breve-discuss%C3%A3o.pdf. Acesso em: 17 jul. 2025.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar, 2020.

INSTITUTO ALANA. Representatividade negra no currículo escolar. São Paulo, 30 jul. 2021. Disponível em: https://alana.org.br/representatividade-negra/. Acesso em: 29 jul. 2025.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). O lento avanço das ações afirmativas na pós-graduação. [S. l.], 30 jan. 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/465-o-lento-avanco-das-acoes-afirmativas-na-pos-graduacao-no-brasil. Acesso em: 14 jul. 2025.

JESUS, Jaqueline Gomes de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília: Guia Técnico sobre Pessoas Trans, 2012. Disponível em: https://www.diversidadesexual.com.br/wp-content/uploads/2013/04/G%C3%8ANERO-CONCEITOS-E-TERMOS.pdf. Acesso em: 3 set. 2025.

JORDÃO, Pedro. Pesquisa aponta que 4% dos profissionais de TI são negros e 73% brancos. CNN Brasil, Tecnologia, 20 mar. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/pesquisa-aponta-que-4-dos-profissionais-de-ti-sao-negros-e-73-brancos/. Acesso em: 27 maio 2025.

MACHADO, Adilbênia Freire; PETIT, Sandra Haydée. Filosofia africana para afrorreferenciar o currículo e o pertencimento. Revista Exitus, Santarém, v. 10, n. 1, p. 251-274, 2020. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-94602020000100251. Acesso em: 29 jul. 2025.

MARI, Angelica; ARBEX, Gabriela. Presença de negros em tecnologia ainda precisa avançar. Forbes Brasil, Forbes Tech, 20 jul. 2020. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/especial-inovadores-negros/2020/07/presenca-de-negros-em-tecnologia-ainda-precisa-avancar/. Acesso em: 27 maio 2025.

MENEZES, André. O Tech é Black? Mídia Ninja, Opiniões, 20 nov. 2023. Disponível em: https://midianinja.org/opinioes/o-tech-e-black/. Acesso em: 27 maio 2025.

NASCIMENTO, Abdias do. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Rio de Janeiro: Vozes, 1980.

NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.

NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: Pallas; Biblioteca Nacional, 2014.

OLIVEIRA, Thaisa Maria de. Representação social do negro nos cotidianos escolares: educação como questão de cor. 2023. Dissertação (Mestrado em Docência para a Educação Básica) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Bauru, 2023. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/items/b6a530a3-0f45-4579-8eb4-40b494db54a7. Acesso em: 29 jul. 2025.

PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023. 160p.

PRETALAB. Quem Coda o Brasil 2022. Report 2022. Disponível em: https://www.pretalab.com/report-quem-coda. Acesso em: 27 maio 2025.

RAVAGNANI, Allan. Consciência Negra: apenas 4% dos profissionais no mercado de TI são negros. Carta Capital, Do Micro ao Macro, 20 nov. 2024 Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/do-micro-ao-macro/consciencia-negra-apenas-4-dos-profissionais-no-mercado-de-ti-sao-negros/. Acesso em: 27 maio 2025.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, Quilombos: modos e significados. Brasília: INCTI/UnB, 2015.

SILVA, Luce Elena Diogo da; ROSA, Sanny Silva da. Empretecer o currículo: por uma comunidade escolar [e não escolar] antirracista. Teias, Rio de Janeiro, v. 24, n. 74, p. 55-69, jul./set. 2023. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/tei/v24n74/1982-0305-teias-24-74-0055.pdf. Acesso em: 29 jul. 2025.

SILVA, Wilker Solidade da. A atualidade dos conceitos de “africanidades brasileiras”, “valores de refúgio” e “enegrecer” da autora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva para a pesquisa em educação. Educar em Revista, Curitiba, v. 34, n. 69, p. 343-348, maio/jun. 2018. DOI: https://doi.org/10.1590/0104-4060.57222. Acesso em: 29 jul. 2025.

UFJF. UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA. Ausência de professores negros é ponto crítico em universidades. [S. l.], 29 nov. 2023. Disponível em: https://www2.ufjf.br/noticias/2023/11/29/ausencia-de-professores-negros-e-ponto-critico-em-universidades/. Acesso em: 14 jul. 2025.

UNFPA. FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração de Durban. Brasília: UNFPA Brasil, 2001. Disponível em: https://brazil.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/declaracao_durban.pdf. Acesso em: 20 set. 2025.

Downloads

Publicado

2026-06-10

Como Citar

Pereira, G. da S., & Reis, C. V. L. dos. (2026). Quem ensina os que foram silenciados? Intelectualidade negra e afrorreferenciação como reparação histórica . InterAção, 16(5), e93998. https://doi.org/10.5902/2357797593998