Educação Ambiental Crítica e Educação do Campo: territórios, saberes, democracia e justiça socioambiental

2026-07-08

As transformações sociais, políticas, ambientais e educacionais contemporâneas, atravessadas pela emergência climática, pelo aprofundamento das desigualdades, pelas disputas territoriais e pelos embates em torno da democracia e dos direitos, desafiam a produção científica a construir respostas socialmente referenciadas e comprometidas com a defesa da vida. No Brasil e na América Latina, esse cenário adquire particular relevância diante da reconstrução e do fortalecimento de políticas públicas, da defesa da educação pública e da necessidade de reconhecer a diversidade dos territórios, dos sujeitos e dos modos de existência que sustentam outras relações entre sociedade e natureza.

 

É nesse horizonte que a Educação Ambiental Crítica e a Educação do Campo, constituídas em trajetórias próprias, estabelecem convergências históricas em torno da defesa dos territórios, da justiça social e ambiental, da democracia, da participação, da formação humana e da transformação social. Essas convergências alcançam os povos do campo, das águas e das florestas, povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e demais sujeitos coletivos que produzem conhecimentos, culturas, práticas educativas e formas de resistência e reexistência em diferentes contextos territoriais.

 

O dossiê propõe avançar nessa interlocução sem dissolver a identidade epistemológica de cada campo. Sua contribuição reside em constituir uma obra coletiva capaz de colocar em relação problemas que frequentemente permanecem fragmentados na produção científica: territorialidades e interdependências campo–cidade; formação inicial e permanente de educadores; políticas públicas; fechamento, nucleação e resistência das escolas do campo; educação escolar indígena e quilombola; relações étnico-raciais e educação antirracista; Educação Popular; agroecologia e soberania alimentar; emergência e justiça climáticas; racismo ambiental; biodiversidade; bem-estar e proteção animal; relações multiespécies; práticas pedagógicas e ludicidade; saúde e interdependência entre formas de vida; saberes tradicionais; perspectivas decoloniais; Bem Viver e novas agendas de pesquisa.

 

A interdisciplinaridade é compreendida, nessa perspectiva, não como simples justaposição de áreas, mas como exigência epistemológica diante de problemas complexos que atravessam educação, ambiente, cultura, território, economia, política e modos de vida. Nesse horizonte, a Educação Ambiental Lúdica amplia as possibilidades da práxis educativa ao reconhecer a potência do brincar, dos jogos e práticas cooperativas, da arte, da corporeidade, das narrativas, das experiências sensíveis, da investigação e das vivências territoriais na construção de aprendizagens críticas, participativas e socialmente situadas. A ludicidade não se reduz, portanto, à recreação, mas integra processos de criação, vínculo, participação e produção coletiva do conhecimento.

 

A biodiversidade e o bem-estar animal integram igualmente essa compreensão ampliada da defesa da vida. A perda de biodiversidade, a degradação dos habitats, as mudanças climáticas e as relações entre saúde humana, animal e ambiental exigem abordagens capazes de problematizar modelos de desenvolvimento, padrões de produção e consumo, formas de coexistência e responsabilidades públicas e coletivas. Abrem-se, assim, possibilidades de investigação sobre conservação, proteção da fauna, relações multiespécies, ética do cuidado, Saúde Única, restauração socioecológica e interdependências entre formas de vida, em diálogo com os territórios e com conhecimentos científicos, comunitários e tradicionais.

 

A unidade da obra será assegurada por cinco eixos articuladores, concebidos não como compartimentos temáticos, mas como dimensões interdependentes de uma mesma arquitetura científica. Essa organização recupera uma perspectiva construída em trajetória de pesquisa, formação e extensão na qual os eixos articuladores operam como conexões entre conhecimentos, sujeitos, práticas e territórios. Busca-se, assim, superar a reunião fragmentada de artigos e favorecer interlocuções, sínteses e novas perguntas de investigação. Cada contribuição preservará sua singularidade, ao mesmo tempo que participará de uma construção coletiva voltada ao fortalecimento da pesquisa, da formação de educadores, da cooperação científica e da incidência do conhecimento nas políticas públicas e nos processos de desenvolvimento territorial.

 

Eixos Articuladores

 

Os cinco eixos constituem a arquitetura conceitual do dossiê. Não delimitam campos fechados nem distribuem temas de forma estanque; orientam conexões entre problemas, sujeitos, territórios, práticas e perspectivas teórico-metodológicas que atravessam a Educação Ambiental Crítica e a Educação do Campo.

 

I — Territórios, territorialidades, democracia e justiça socioambiental

 

Reúne estudos que compreendem os territórios como espaços vividos, produzidos, educativos e disputados, articulando relações campo–cidade, conflitos socioambientais, racismo ambiental, emergência e justiça climáticas, direito à terra, à água e ao território, fechamento, nucleação e resistência das escolas do campo, escolas territorializadas, comunidades atingidas, desenvolvimento territorial, bens comuns e defesa da vida.

 

II — Formação de educadores, práxis, ludicidade e práticas pedagógicas transformadoras

 

Articula formação inicial e permanente de educadores, Educação Popular, pesquisa-formação, interdisciplinaridade, educação de base comunitária, relações escola–comunidade, práticas territorializadas, Educação Ambiental Lúdica, jogos e práticas cooperativas, arte, corpo, memória, sensibilidade, cartografias sociais, experiências investigativas, tecnologias e mediações pedagógicas, educação climática e processos educativos comprometidos com participação, autonomia e transformação social.

 

 

 

III — Povos, saberes, culturas, diversidade e modos de vida

 

Acolhe investigações relacionadas aos povos do campo, das águas e das florestas; povos indígenas; comunidades quilombolas e tradicionais; educação escolar indígena e quilombola; agricultores familiares; pescadores artesanais; mulheres; crianças e juventudes; relações étnico-raciais; educação antirracista; interculturalidade; ancestralidade; memória; corpo-território; saberes tradicionais; perspectivas decoloniais; Bem Viver e pluralidade epistemológica.

 

IV — Resistências, direitos, políticas públicas e produção coletiva do conhecimento

 

Integra pesquisas sobre democracia, educação pública, direitos humanos e socioambientais, movimentos sociais, participação e controle social, institucionalização da Educação Ambiental, políticas de Educação do Campo, formação de educadores, resistência ao fechamento de escolas, agroecologia, soberania e segurança alimentar, incidência pública, monitoramento e avaliação de políticas e processos colaborativos de produção do conhecimento entre universidades, escolas, comunidades, movimentos sociais e instituições públicas.

 

V — Biodiversidade, interdependências e novas agendas da Educação Ambiental Crítica e da Educação do Campo

 

Abre espaço para problemas contemporâneos e agendas de investigação relacionados à biodiversidade, conservação e restauração socioecológica, proteção e bem-estar animal, relações multiespécies, ética do cuidado, Saúde Única, direitos da natureza, mudanças climáticas, transições ecológicas, agroecologia, soberania alimentar, gênero e masculinidades, tecnologias e inteligência artificial, comunicação e circulação de saberes, interdependências campo–cidade e cooperação científica latino-americana.

 

Interlocutores Estratégicos

 

O dossiê busca mobilizar pesquisadores e pesquisadoras, universidades, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa, redes acadêmicas, observatórios, educadores da Educação Básica, movimentos sociais, povos e comunidades e instituições públicas cujas trajetórias dialoguem com sua identidade científica.

 

A dimensão latino-americana constitui espaço estratégico de interlocução, circulação do conhecimento e cooperação científica, favorecendo aproximações entre experiências, territórios e agendas de investigação. Busca-se reconhecer problemas históricos compartilhados, assim como a diversidade epistemológica, cultural e territorial da região, ampliando a interlocução entre pesquisadores e instituições brasileiras e latino-americanas sem deslocar a centralidade da Educação Ambiental Crítica e da Educação do Campo.

 

Organização Científica

Prof.ª Dr.ª Anna Christine Ferreira Kist

Prof.ª Dr.ª Leonice Aparecida de Fátima Alves Pereira Mourad

Prof.ª Dr.ª Liziany Müller Medeiros

Prof. Dr. José Renato Ferraz da Silveira

 

Parceria Institucional

Programa Temas Emergentes — Universidade Federal de Santa Maria

III Curso Educação Ambiental e Educação do Campo — Universidade Federal de Santa Maria

 

Apoio Institucional

 

A proposta prevê a constituição de uma rede de apoio institucional envolvendo universidades, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa, redes acadêmicas, observatórios, movimentos sociais, coletivos e instituições públicas. Os apoios destinam-se a fortalecer a divulgação, a circulação científica, a capilaridade e a interlocução da iniciativa, respeitadas as diferentes formas de participação e a autonomia editorial do dossiê.

 

Entre as instituições e redes em processo de articulação encontram-se a REBEA, o Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (DEA/MMA), a APIB, o GEASur, o Programa de Educação Socioambiental da UFSM, a AGPTEA e demais instituições que venham a integrar a iniciativa ao longo de seu desenvolvimento editorial.

 

Composição da Edição

 

A edição será composta prioritariamente por artigos convidados, produzidos por pesquisadores e pesquisadoras cujas trajetórias dialoguem com a proposta científica do dossiê e com seus eixos articuladores. A composição buscará diversidade institucional, territorial, geracional e epistemológica, bem como interlocução entre pesquisadores brasileiros e latino-americanos.

 

A seleção e o convite às contribuições considerarão não apenas a aderência individual de cada manuscrito, mas sua capacidade de participar da arquitetura coletiva da obra, estabelecer interlocuções com os demais eixos e contribuir para a produção de sínteses, tensões e novas perguntas de investigação.

 

Eventuais manifestações de interesse poderão ser apreciadas pela Organização Científica, considerando sua aderência à identidade da obra, aos eixos articuladores e aos critérios editoriais da publicação.

 

Cronograma Editorial

 

Divulgação da proposta editorial: julho de 2026

Recebimento dos manuscritos: até 28 de dezembro de 2026

Avaliação por pares e processo editorial: janeiro e fevereiro de 2027

Publicação prevista: março de 2027