O pensamento da gaia educação e a formação de um outro educador

The thought of gaia education and the formation of other educator

 

Laisa Blancy Guarienti 

Doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil.

batupre@gmail.com – https://orcid.org/0000-0003-4544-6703

 

Recebido em 13 janeiro de 2020

Aprovado em 09 de março de 2020

Publicado em 13 de maio de 2020

 

RESUMO

Disseminar o pensamento da obra Gaia Educação (2015) de Paolo Mottana (Unimib/Itália) através de passagens desta obra, de seus cursos e seminários no ano de 2017, em especial o de gaia educação e a implicação dele na formação de profissionais preocupados com a educação. O objetivo do escrito é trazer à tona inovações no pensamento acerca de uma outra educação possível e a formação de pessoas interessadas em conceitos pedagógicos que complementem os já instituídos. Os procedimentos do estudo são demonstrados através da análise das obras do autor, bem como dos cursos e seminários frequentados durante uma pesquisa realizada com Mottana. A escrita do texto está ancorada no levantamento de dados conceituais focados na busca pelo conceito da gaia educação e espera-se como resultado que seu pensamento seja proliferado em maior escala, engendrando novos cenários educacionais que acolham os procedimentos da formação de um “gaio educador”. Fazendo com que um leque amplo de profissionais da educação tenha como ferramenta didática esse conhecimento e essa formação específica. Com conclusões que projetem um pensar e agir num campo de estratégias de resistência a um ensino que prima à reprodução, a racionalização e a submissão perante aquilo que se é ensinado. Para afirmar a gaia educação se faz necessário afirmar uma mudança de postura ética, estética e política frente aos empecilhos que nos põem em constantes abalos.

Palavras-chave: Gaia Educação; formação; Paolo Mottana.

 

ABSTRACT

Disseminate the thinking of Gaia Education (2015) by Paolo Mottana (Unimib / Italy) through brief passages of its courses and seminars in 2017, especially the gaia education and its implication in training professionals concerned with education. The purpose of the writing is to bring to light innovations in thinking about another possible education and the formation of people interested in pedagogical concepts that complement those already instituted. The study procedures are demonstrated through the analysis of the author's works, as well as the courses and seminars attended during a research conducted with Mottana. The writing of the text is anchored in the collection of conceptual data focused on the search for the concept of gaia education and it is hoped as a result that its thought will be proliferated on a larger scale, engendering new educational scenarios that welcome the procedures of the formation of a pedagogical gaia education. Making a wide range of education professionals have as a didactic tool this knowledge and this specific training. With conclusions that project a thinking and acting in a field of strategies of resistance to a teaching that presses to the reproduction, the rationalization and the submission before what is being taught. To affirm the gaia education it is necessary to affirm a change of ethical, aesthetic and political posture facing the obstacles that put us in constant upheavals.

Keywords: Gaia Education; formation; Paolo Mottana.

Travessia conceitual: a gaia educação

O foco do escrito é apresentar o projeto elaborado e desenvolvido pelo professor de filosofia da educação Paolo Mottana da Universidade de Milão-Bicocca (Unimib) e da sua gaia educação direcionado a uma possível formação de “gaio educadores[1]” (que podem ser professores, pais, responsáveis, mas também qualquer pessoa que se sinta envolvido com a educação das crianças e dos jovens).

Durante os dias do Curso de Formação em Gaia Educação realizado junto a Mottana, o autor nos direcionou a pensar numa educação que pudesse encontrar um lugar aberto às buscas e às pesquisas. Num exercício imagético em se experimentar o pensamento inserido em espaços germinativos, desertos de Eros, desertos de desejos, desertos de sentidos, desertos que estimulassem alguma coisa no pensamento a serem exprimidos durante aqueles dias, pois sem esse exercício, mesmo que utópico, o curso não teria sentido. 

Desse modo, é que uma gaia educação procura e busca a profundidade, uma coisa mais inspiradora, buscam-se os cheiros e a carne da nossa experiência, a qual um pouco de nós foi roubado e continua sendo ainda hoje. Mottana (2015), afirma que parte das crianças e jovens vem sendo roubados por nós professores e este roubo é o centro do debate da gaia educação. Assim, o ponto mais forte no processo formativo da gaia educação é justamente a restituição daquilo que nós roubamos das crianças: a sua vitalidade, sua impulsividade, seu espírito aventureiro e curioso.

Temos o direito de reivindicar o resgate dessa coisa mais profunda que nos foi roubada. Roubo de vida, de experiência, de tempo, de intensidade, de Eros, de corpo, de sensibilidade, de imaginação. Tudo isso na nossa história, breve ou longa que seja, dependendo da pessoa, é um escândalo. E é escândalo porque ainda continuamos a roubar, roubamos dos menores, das crianças e dos jovens justamente suas energias potenciais em criar, amontoando seus corpos por longos anos durante o processo de ensino escolar.

Crê-se que aos educadores e demais envolvidos com a educação dos pequenos, devêssemos desvincular a educação de um sistema de poder. Todos nós servimos a um sistema de poder que admira as repartições das idades, e que admira controlar, colocando-os em um lugar separado da sociedade, isolados, controlados e vigiados para serem enfim disciplinados (Mottana, 2012).

Diante desse cenário, o professor expõe que nossa função deve permanecer como uma constante interrogação, que não podemos ser inocentes, o problema sempre foi dos educadores e a que ponto deixamos que esse sistema de poder nos afete. Somos apenas servidores desse sistema? Não queremos encarnar uma função. Quando falamos em educação estamos falando de algo um pouco mais complexo, delicado e global. Estamos sempre implicados em uma função educativa, em processo de colisão, codificação, em influências, continuamente manipulando os outros e sendo manipulados. Temos sempre a necessidade de assumir um lugar. Somos nós os adultos que devemos educar os menores. Os professores que devem ensinar. Os pais que devem cuidar dos filhos. Os filhos que devem obedecer, e assim por diante.

Esses são sempre processos de vida que estão em jogo e nunca são colocados de lado. São esses lugares de confinamento que tentam lidar com a vida. A vida colocada nesse deserto. Assumimos o lugar e fazemos do lugar um processo educativo em constantes ensaios de aprendizagem. Saímos da escola, depois para casa, depois no parque, academia. Esses são alguns pontos onde processos educativos podem ocorrer. Mas isso ainda é problemático, pois ainda falta um pouco de cor.

Os nossos corpos, a nossa imaginação, a nossa sensibilidade, as nossas emoções inevitavelmente passaram por um processo disciplinar, passaram por um longo processo de modelagem do corpo, uma modificação, uma longa mortificação de repetição através dos efeitos dos mecanismos que reproduziam o teatro daquela instituição (exame, tarefas, etc.). Somos as chaves de uma estrutura que está para além de nossa exigência, dos nossos desejos, das nossas ânsias mais vivas e tudo isso, continua sendo o projeto que ainda é mais executado.

Tudo isso não mudou apesar de inúmeras iniciativas, aplicações, experimentações de métodos, tentativas que ainda hoje acontecem, mas não tocam a carne da nossa experiência, ou tocam em alguma parte invisível do mundo. Mas que mundo é esse? Um mundo castrado de vida. Um mundo desenvolvido em inúmeras dimensões de experiência fundamentais e aos quais poucos conseguem fugir. A gaia educação e seus atuantes pensam junto, como muitas pessoas, num quadro para se extrapolar esse cenário posto até então (Mottana, 2015, 2017).

Temos consciência de que todo o processamento escolar, disciplinador, controlador, produzirá uma matriz por toda vida desses jovens. São anos e anos de disciplinamento massificador para que esse resultado seja obtido: a modelagem da criação e inventividade a resultar em responder somente aquilo que se pergunta. Corpos fadados à repetição e a reprodução de gestualidades mecânicas e aptas ao funcionamento da vida em sociedade.

Estamos naturalmente habituados a reprimir qualquer outro tipo de manifestação quando vemos qualquer coisa de estranho e impulsivamente temos a tendência em tolher tal atitude. Isso se chama normalização, isso é uma coisa muito evidente, no qual todos somos sujeitos assujeitados e assujeitadores.

Quando falamos de gaia educação não podemos separar o termo educação da vida. Não são termos distintos, se o fizermos assim, esqueceremos totalmente do que se trata. A educação ocupa todo tempo de nossa vida, e é com ela que vemos nossos anos serem pouco a pouco castrados de pulsão vital, de Eros que simbolicamente significa nossa pulsão de vida, nossa afirmação em ter prazer pela vida. Nosso prazer em devir, nossa intensidade em devir. Afirmar qualquer coisa que não permita a nenhum derrubar a nossa vida e nem a dos outros. Fazer de nós, e aí sim, uma disciplina que tenha sentido, não alguém que continue a administrar os gestos da castração, que possivelmente é isso que muitos de nós ainda fazem, lavando a consciência e dizendo que isso é necessário para formar os cidadãos conscientes e responsáveis para essa sociedade (Mottana, 2008, 2011).

Se nós queremos entrar numa atmosfera de gaia educação, devemos ter noção e afirmar uma experiência fundada como qualidade, intensidade, felicidade num encontro com algo que nos dê prazer, seja com o que for. A sensação de devir um “gaio educador” não muda através desse encontro, pois, ele é atravessado na alma por essa força que faz fluir aquilo que é estanque. Ele não cabe no enquadramento de uma pequena jaula, dentro de uma denominação, categorização que determina todo o tempo.

Agir gaiaticamente

A gaia educação tem como um primeiro princípio um primitivo conhecimento e é nesse sentido que a função da gaia educação é de ser posta em ação. Ela é movimento, vitalidade que se coloca verdadeiramente em jogo, numa perspectiva vitalícia em educação. Não só para educadores, não somos missionários, redentores, não é que queremos salvar as crianças. Quem quer salvar as crianças sempre encontra um grande problema, pois primeiro deve ocupar-se de salvar a sua criança.

Nós adultos que já passamos por todos os anos de escolarização e que já fomos roubados (intuição, alegria, vitalidade, Eros, etc.), deveríamos exercitar juntamente ao pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze (1997) o resgate ao seu conceito de devir-criança e de colocar em jogo elementos de experimentação que literalmente transcendam a tudo aquilo que na maior parte dos casos nós nos tornamos.

E podemos começar exercitar esse devir-criança com uma série de práticas que ajudam a orientar o nosso olhar e elencar nosso tipo de ação como “gaios educadores”. Um “gaio educador” tem paixão pelas multiplicidades, diversidades, pluralidade, prefere as desestabilizações, as minorias. Está sempre aberto ao devir, aos fluxos, as mutações. Um “gaio educador” é aberto à escuta de todas as posições éticas e inclinações, porém sabe peneirar aquelas que mantêm sua posição em prol das paixões e da intensidade. O “gaio educador” é alguém que é aberto às incertezas, às instabilidades, prefere as errâncias, as desestabilidades e um devir nômade permanente (Mottana, 2015).

Nós, formadores do processo gaio educativo, não podemos tomar a figura de autoridade, aquela que decidirá sobre esses procedimentos, não em todos os casos, certamente que devemos preservar os riscos das ações, mas em alguns casos sim. Visto que um devir é sempre um fluxo, uma passagem, um acontecimento, não existe uma previsão da sua execução, é nesse sentido que não podemos ter nenhuma certeza absoluta, nenhuma categoria definitiva, mas sim uma ótica situacional. E é justamente nessa rede de acontecimentos que um “gaio educador” transita.

E num jogo de palavras o professor Mottana nos convida a pensar sobre as ambiguidades das possibilidades e a beleza possível quando habitamos outras entradas no campo da educação. Assim, manifesta que o gaio educador, deve exercitar a intensidade, a densidade, a experiência. Nosso critério é a riqueza de vida, que atravessa as mazelas impostas pelos processos estanques. Precisamos de experiências decisivas para maturar os processos de vida, pois o nosso interesse é viver e criar momentos intensivos e plenos de serem vividos.

Uma experiência, seja ela como for, é sempre intensa quando tudo está posto em jogo, inteligência, pulsão, imaginação, intuição, corpo, sangue, sonhos, pois todas as experiências que vivemos no mundo da educação são experiências parciais, que convocam uma vez que outra a formação da nossa personalidade, através de encontros coletivos e de densidade, essa que deve ser a mais rica. Em linhas gerais nós sabemos que a educação real é sempre a mais rica (Mottana, 2007, 2015).

A negação da vida, a negação do prazer, a negação do desejo, isso são coisas que o “gaio educador” se afasta, mesmo que a negação seja uma categoria dialética muito importante. Uma vez que no cenário da educação inspiramos muito bem um ar de repressão. Já nós, “gaio educadores”, contrapomos com um ar de afirmação vital. Afastamo-nos de tudo aquilo que quer conservar em prol dos fluxos e da experiência.

Certamente que devemos sempre ter em mente o valor do risco, principalmente o valor da experiência que hoje vem superado a ser arriscado, mas sem conhecimento do risco. Experiências realizadas dentro do próprio cerco escolar, nos laboratórios já organizados e preparados para a espera dos estudantes, ou em reprodução de vídeos dos acontecimentos reais que ocorrem no mundo que são expostos nas escolas e pouco são contextualizados. É diante desse exposto, de experiências que o autor chama de pobres, que hoje se tem uma ótica aportada de outros fundamentos que incentiva uma indústria da prevenção em contradição ao risco (Mottana, 2012).

Estamos diante de um cenário educacional onde quase todas as experiências são de pouca abertura aos processos de experimentação.  A escola, a Universidade, e mesmo, os livros à disposição das aulas, na biblioteca, tudo é plasmado irreparavelmente na figura de uma organização separadora, sistematizadora da matéria da experiência e amparada na lógica de um cuidado excessivo em termos de prevenção de riscos. Fazendo com que cada vez mais as experiências reais sejam vistas como despropositais, irrelevantes, inadequadas e pouco a pouco extinguidas das vivências realizadas nos processos educativos.

É assim que o pensamento de um “gaio educador” se direciona as ações e estratégias que problematizam os discursos da prevenção e preservação a partir de práticas que se abram aos experimentos das situações reais, isto é, experimentar outras possibilidades e entradas que a educação pode proporcionar, como, por exemplo, aulas em locais fora da escola ainda são as práticas mais vivas, intensivas e consistentes que se propagam nas memórias dos estudantes (Mottana, 2017).

A gaia educação se contrapõe a triste ciência da ortopedia e do engessamento, da mumificação, da visão sobre um altar do conformismo e da passividade, do ascetismo e da renúncia, da imolação ao sacrifício, ao cansaço, a crucificação e ao ajoelhar-se, real ou metafórico. Nós, “gaio educadores” contrapomos a renúncia à exaltação afirmativa da imaginação, das emoções, do corpo e do prazer. O primado de um espírito irreparavelmente empenhado na aventura das múltiplas posições de ser em devir e das intermináveis dissipações variantes. Curiosa de tudo, ávida e inextinguível, a alma corporal da gaia educação, impera em demolir os ensinamentos pervertidos e estigmatizados de uma formação que sempre sequestrou o corpo, as paixões, os sonhos, para condena-los, reprimi-los e puni-los.

Ao pensar em uma gaia educação nos aproximamos da paixão de um dançarino, das generosas noites de vento, da delícia dos sabores exóticos. Uma gaia educação que faz infinitas escalas dos nomes daqueles que invocam Eros, sem escudo no coração, ao impulso do mundo, com sua garra desejável e incontrolável. Não construtores de estabilidade, mas de fluxos e aberturas de um mundo sem dominador para os jogos do impulso vital. Jogadores da pesquisa da palavra impossível, eufóricos, travestidos. Sedutores dos olhos febris de curiosidade e de estupor, curadores da alma de todas as afirmações, também porque não nos destinamos à preservação e a salvação.

A nós queremos verdadeiramente vida, ainda, e ainda mais vida, não convites ao silêncio e ao abandono. (...) Não gestos de conforto exagerados, brandos, mas sensíveis, disponíveis a dizer do gesto que acalma, aquieta e facilita. Se alguém quer ajudar, ou fizer para que com aquele que realmente ama, que ama singularmente, disposto a sair nu com o outro, não por misericórdia, mas por desejo profundo, por uma cumplicidade que é sem limites, por uma codivisão que não tem medo de nada. Somente a este pacto se pode tolerar uma figura de ajuda, somente ao pacto que sabemos sair nu sobre a nudez sem nenhum mal. O educador gaio não se veste de “educador” não é desmazelado e cinza. É a pulsão de um meteoro, a iridescência de uma orquídea. (MOTTANA, 2015, p. 35).

Nesse sentido, a gaia educação se contrapõe a ideia de uma formação enrijecida, e se direciona a uma formação vista na imagem de um presente, como uma abertura do saber em espaços de codivisão do conhecimento. Uma ideia participativa que olha a atração apaixonada como cultivação de uma receptividade difusa e fluída, curiosa e não juíza. A ação do ensinar na proposta da gaia educação vem ao encontro do pensamento da cerimônia potlatch[2], vista como dissipação, desdobramento, partilha e dispersão, como deriva e prática simbólica de dádiva. Não cair nas armadilhas da dívida (estratégia de controle através de notas, provas, coação), mas numa perspectiva da dádiva (troca, ajuda, partilha de saberes).

Pensamento este que se afasta de uma proposta onde o exame escolar institucional é visto como o filho de uma cultura que serve para medir e controlar nossos saberes. Uma cultura da educação que acredita que a produção do ensinamento seja realizada como saber, considerada como qualquer coisa que preexista ao momento de instituição mesma, e que possa ser de qualquer modo medido depois com aval de aprovação institucional, notas impressas em papel. Operação mecânica que vê o ensinar como uma transmissão, como um trânsito ou como uma inculcação (Mottana, 1996).

Até mesmo onde é conhecimento da obra educativa o exame serve apenas para controle, às vezes revestido de pesquisa, escuta, mas sempre termina no resultado de uma produção de conhecimento. Que é um sistema baseado num legado da lógica produtivista, da eficiência e da fiscalização da cultura, que na época contemporânea se tecnifica em produzir sempre mais satisfação e módulos unívocos de estruturação.

Estratégias para afirmar uma gaia educação

Ao campo do saber não mais compactuamos com pressupostos de dominação e segmentaridade, mas sempre numa perspectiva que seja aberta e fluída em múltiplas direções de transformações contínuas. Desse ponto de vista nenhum ensinamento na perspectiva do controle e da medida será bem-sucedido. O gesto compensatório da educação em vez de controlar, medir e verificar, pode ser abrigado em vias de uma restituição, como um retorno de qualquer coisa de não pré-definido (presente se corresponde com outro presente) e o reconhecimento se dá na forma de agradecimento e acolhimento. Porque ensinar é o fato de escutar, de participar e de reconhecer. A restituição como um processo de multiplicação experiencial. Em tal sentido que restituição e reconhecimento podem ser expressos de modos diversos e imprevisíveis.

A restituição pode ser um objeto físico ou uma ideia, uma dança, ou um canto, um escrito, ou uma imagem, um bilhete, um bolo, ou um gesto de amor. A experiência formativa não tem nenhuma necessidade intrínseca de ser medida, essa se dá quando há uma perfeita cumplicidade entre os envolvidos (Mottana, 2015). O ato de controle e verificação é só um gesto disciplinar que se inscreve em uma finalização extrínseca de tipo ideológico ou institucional.

Não se trata de entender se alguém sabe dos abalos históricos e os teoremas de matemática. Um “gaio educador” se interessa em compreender e acolher o que acontece nos entremeios de uma aula, ou mesmo em outros espaços educativos, ele se interessa na temperatura de um processo, na intensidade da atenção e da duração dos acontecimentos, no volume das paixões, estes são alguns dos aspectos que podem fluir como indícios a verificar aquilo que de fato acontece com os estudantes dentro e fora das escolas. Verificar as construções e desconstruções das ideias, dos conceitos, das imagens, dos gestos, das forças que determinam então comportamentos, ações, sensações, efeitos e processos de aprendizagem, estes que não podem se confundir com provas e testes.

Se há intensidades, valores que se enraízam no ar, olhos abertos, interessados ou não, mãos cercadas de curiosidade, ativação, se tem corpos, distrações, esperteza desesperada, há processos educativos em movimento. Se a qualidade do silêncio é rica ou pobre, ativa ou passiva, se o barulho é pleno de sons complexos que ritmam em ressonância ou se são barulhos confusos, golpes soltos no vento, há movimentações no educar. A única verificação que pode medir a qualidade da atividade da aprendizagem é a pura e mera concentração da atenção.

Mas há quem queira nos distanciar de todas essas aberturas a um escutar, olhar, sentir e agir de outros modos. Uma formação pessoal que nos tolhe o direito a expansão das sensibilizações. Uma vida castrada de potencialidades criativas, experimentais e libertárias em prol de um auto cárcere que foi pouco a pouco introduzido nos nossos modos de existir no mundo. Um mundo apático e isento de aberturas para acolher corpos jovens e infantis nos locais públicos e privados, pois é desse estrato da camada social que ainda temos chances de extrair linhas flexíveis de outros modos de se abrir para o mundo (Mottana, 1996, 2014).

Se crianças e adolescentes fogem de casa é para que os pais deem mais atenção a eles, se fogem da escola é um protesto contra as normas de ensino. A fuga é um arquétipo da juventude, uma necessidade e uma iniciação dos quais muitos deveriam ter passado. Mas também a realidade da fuga, uma fuga que se consuma no mundo da simulação. Acredita-se que os jovens se sentem aprisionados pelos pais numa “gaiola dourada”, naquela bolha que os envolvem em um completo organismo de segurança (Mottana, 1998).Se nos colocarmos inseridos dentro do ambiente escolar, façamos isso como exercício, vale a pena tomar o celular de um aluno? Qual o sentido disso, tomando o celular do aluno vai fazer com que este esteja mais presente no cenário da aula? Não há como provar isso. Podemos começar a pensar a escola num lugar não somente com suas obrigações, normas e disciplinas, onde se reflete e perpetua a violência. Podemos iniciar um processo de abertura de outros poros a pensar nas sensibilidades e outros modos de socialização dos jovens e crianças.

Eles têm vontade de lacerar essa matéria invisível, feita de prevenção, esclarecimento, sinceridade e transparência, de controles, vigilância, no máximo tempo possível, quem sabe seja essa uma resposta às suas fugas, escapes. Vontade de exporem-se a um aberto, a um fora, a uma expansão de realidades. Vontades de renunciar aos dez telefonemas obrigatórios às famílias, ao inglês obrigatório, ao ballet (Mottana, 1998, 2011).Mas como fugir na era da tecnologia, das câmeras de vigilância, da localização via celular da uniformização realizada e da delação obrigatória? Muitas vezes a fuga é um giro sobre si mesmo. Os jovens desejam evadir, tocar o corpo do mundo, gozar com as loucuras noturnas, nos bosques. Mas infelizmente para os jovens fugidios onde não se encontra a polícia, se encontra a psicoterapia que narcotiza e normatiza.

Um gaio educador não constrói formas, não quer aprisionar um corpo dentro de uma crisálida rígida, ele justamente quer o contrário disto, ele produz desmoronamentos das formas e aberturas de processos subjetivos. Ele induz ao experimento e ao desvelamento das energias encouraçadas que têm por instinto querer voar. Ele conduz à degeneração das pilastras erigidas através de um sistema castrador e reencontra no seu clinamen modos caóticos e imprevisíveis de existência. Demolição das conclusões, das aproximações e dos comportamentos em estados apáticos e faz liberar fluidamente os saberes através da contaminação, disseminação, variação e dissipação.

O lugar da gaia educação é um lugar habitado de corpos, cruzamento de fluxos, desejos e vértices de forças. Lugar transparente, mas também opaco, ético e estético, afirmador do desejo pleno. Lugar devoto a Eros e Afrodite, lugar acolhedor e excitante, habitado pelo impulso vital (Mottana, 2008, 2011). Lugar onde se manifesta os daimons. Onde as crianças, jovens e adultos inspiram uns aos outros. Um lugar andrógeno (Mottana, 1998).

A gaia educação é uma prática festiva. Essa festa deve estar plena de espectros ritualísticos, com roupas, danças, movimentos, atravessamentos sonoros pelo espaço, óleos perfumados, mantras, alimentos, repousos, fogos, erotismo, troca, deve tratar o território como um lugar que favorece o acontecimento e esse deve ser transformado em função disso, mantendo-se em movimento e vivendo intensamente.

Educador gaio atento ao presente: considerações finais

Com a gaia educação, abandonamos uma educação pela cópia e pela submissão, pois precisamos de espaços que potencializem as experimentações, abrindo lugares não só para o sucesso de um desempenho escolar, mas também abrir espaços para o erro, pois todos submetidos a esse processo educacional estão ligados à possibilidade infinita de uma inauguração inventiva no pensamento com base no erro.

Não somente os alunos, mas inclusive os pais e os professores, deveriam pensar sobre o erro como possibilidades, aberturas e experimentos que fogem das regras de enrijecimento do poder e de controle. Se formos submetidos a espaços onde o erro não pode acontecer, já não temos então, espaços experimentais, reduzindo a inventividade ao medo e coerção. E assim, aos poucos, a ideia de uma formação em gaia educação é criar um campo gradual de hospitalidade para acolher as experimentações, subtraindo os medos que são reflexos das experiências pedagógicas arcaicas. Criar esse campo estimulando a presentificação das paixões que se sucedem na propagação dos acontecimentos.

Assim, para seduzir esse aluno é necessário constituir um espaço seguro, acolhedor, hospitaleiro para ambos e só então, começar a instauração de processos experimentais únicos e autênticos. Outro fator que deve ser de extrema importância no pensamento de uma gaia educação, é problematizar constantemente a questão fundamental de que somos privados dessa visão gaia de vida. Na escola, temos uma situação onde o ambiente escolar oculta Eros e Afrodite, a não cultuar o erotismo dos corpos e sim para sermos sujeitos castrados e castradores (Mottana, 2011, 2015).

Como então fazer uma vida do gozo se passamos horas e horas na escola? Sabemos que Eros é a pulsão vital, e é por isso mesmo que devemos reivindica-lo e desconecta-lo da sua imagem de um erotismo sujo. Nós adultos, por todo o processo de escolarização já sofrido, hoje, somos incapazes de criar situações eróticas no cenário pedagógico, porém, a criança ainda está salva disso. Ou as pessoas não tem esse Eros, ou não sabem ainda o exprimir.

Precisamos de uma educação fundada sobre Eros, onde o campo de experimentação seja atraído por um Eros educador (Mottana, 2011). A própria mudança do espaço físico de uma sala de aula já induz a evocação de Eros, ou mesmo um batom vermelho da professora que já não mais o usa há anos, um perfume diferente no ar, isso tudo muda com os campos de experimentações. Devemos favorecer a presença de Eros num campo educativo, pois Eros foi feito a partir de frustações e de coisas que não deram certo, de erros. Em vez de pensar em termos de motivação educacional, evoquemos a figura de Eros.

Com a gaia educação, também precisamos ativar espaços de conversação sobre a sexualidade (Mottana 2008). Momentos de encontros que evoquem Eros a dar o impulso necessário num campo pedagógico que propicie jogos e experiências corpóreas, abrindo espaço para que a sexualidade seja posta em aberturas mais que controle. Uma educação dos corpos se faz necessária a abrir canais para a desinibição, a quebra de clichês e de tabus e gerar uma educação dos sentidos e dos afetos. Uma educação que não seja colocada ao lado do sacro, do privado, da moral.

A educação sexual se faz necessária num processo de aculturamento teórico/prático a ser tratado como uma educação laica, gaia e contraeducativa. Expandir o acesso às inúmeras fontes sobre o amor, sexo, paixão como nas pinturas, cinema, música, e quem sabe assim, criar uma arte da sexualidade. Ela que simbolicamente é nossa liberdade e por isso mesmo, a sexualidade é política. É com os jogos de poderes que se constitui um controle da sexualidade, pois é ela que nos dá o luxo do prazer e da liberdade, ou nos dá a chave da prisão de um moralismo.

A sexualidade não diz respeito somente ao encontro dos corpos, ela diz respeito a questões mais globais, como a beleza, os perfumes, as roupas, os encontros com os amigos. Somo privados de Eros uma grande parte de nossas vidas e com isso reduzimos a educação das crianças a regramentos e tecnicismo sobre o assunto (aulas sobre o corpo humano, exposição com a polícia e enfermeiras sobre doenças sexualmente transmissíveis). A sexualidade deveria fazer parte do cotidiano, porém ainda não existe uma cultura do erotismo que paire nossas escolas sem moralismo e temor (Mottana, 1996, 2008, 2015).Falamos isso tudo, pois cremos que falta uma abertura para a dimensão do erotismo, esta sendo umas das grandes causas da violência, o querer ter controle sobre o corpo do outro. Ainda nos falta a criação de um corpo macio se deixando afetar por outros corpos, liberando as couraças que nos aprisionam. Nosso alfabeto corpóreo é resquício e o contato com os outros é fastidioso, pois temos uma baixa competência corpórea. E não estamos se envolvendo numa rede somente sexual, mas sim em outras relações que podem surgir quando nossos corpos são abertos a novos experimentos.

Uma gaia educação tem como autenticidade a tática da corporeidade. Devemos colocar como centro a educação corpórea e erótica e não só a sexualidade. Um diálogo pode ser erótico, uma relação da palavra ou uma conversa. Existe um arsenal de instrumentos castradores que se coloca em conflito com a experiência de uma expansão erótica da educação. O corpo é sempre o culpado e por isso mesmo, é ele que precisa ser gaio educado. É preciso ensinar a violência e a agressividade não destrutiva e sim a combativa no sentido de problematizar contra o roubo educativo de nossas pulsões vitais, uma cultura que funda a arte da agressividade e da sexualidade acolhedoras.

Não existe um currículo da educação corpórea, esse corpo que toca, sente e é tocado e sentido ao mesmo tempo, num sentido íntimo e não sexual. Mas como falar de uma sexualidade com as crianças se elas não sabem falar dos seus corpos? Quantos anos será preciso viver para aceitar nosso corpo? É sobre essa base que se pode fundamentar uma autentica gaia educação. Precisamos aumentar nosso alfabeto corpóreo. Mas como podemos mover esse corpo se somos inseridos num contexto castrado? É nesse sentido que uma gaia educação se faz necessária, retirando crianças e jovens desses confinamentos e reinserindo-os num mundo onde finalmente eles se sintam pertencentes.

Nesse sentido, a gaia educação impulsiona o nascimento de processos educativos rumo a sua afirmação. Produz lugares onde cenas pedagógicas possam acontecer e acolher o nascimento desses processos, pois percebemos que as escolas veem se afirmando na lógica de uma empresa, mas de uma empresa criminal, onde o seu artifício principal é o “roubo educativo”, principal instrumento do serviço para sufocar qualquer experiência que transgrida a lógica dessa empresa. Desse modo, os “gaio educadores” resgatam e restituem às crianças e jovens a sua experiência singular, a sua autenticidade na instauração de cenas pedagógicas. São nessas cenas que podemos fazer essa devolução da inventividade que foi roubada. As cenas pedagógicas não são mais que situações que surgem do interesse do grupo e que o “gaio educador” potencializa para que o próprio grupo envolvido seja cada vez mais seduzido pelo próprio interesse, a fim de penetrar cada vez mais na rede do assunto, penetrar nas profundezas de um desejo compartilhado.

As crianças e jovens como atores sociais de todos os afetos, em graus de negociar a própria experiência como experiência de interrogação no mundo, na sua carne e nos seus saberes, em presença de uma oferta extraordinária de ocasiões vitais de acesso às fontes primárias do fazer e do ser. O mundo todo pode vir a ser espaço de experiência, de aventura e de específica formação, e assim quem sabe, os jovens possam escolher um percurso próprio de vida.

O mundo que devém um imenso teatro vitalício para a imersão das crianças e jovens nas suas inconstâncias e desafios. Mas isso infelizmente acaba quando sequestrados ao sistema de ensino escolar. Somos pouco a pouco roubados sem que ao menos percebamos. Todo um sistema organizado para a execução do roubo das nossas vitalidades em prol de um ensino que não garante em nenhuma esfera a garantia do aprendizado.

Devemos pensar a presença das crianças e jovens no mundo como uma presença liberadora das forças vitais, como o vértice simbólico para pensar uma sociedade que se interroga a partir desta presença, mas não na via do julgamento, da castração, do moralismo e da lógica demoníaca da economia, mas sim acolhendo as questões radicais que surgem a partir das suas vitalidades. Devemos olhar para essas crianças e jovens e nos questionar sobre como se processa um espaço, um tempo, um Eros, um jogo, uma aventura nesses corpos (Mottana, 2015). Que encontros são esses e que potencialidades educativas podemos emergir a partir desses processos dos corpos com o mundo. Essas são algumas ferramentas, armas e pistas que a gaia educação retribui ao pensamento e por consequência às práticas diárias enquanto educadores, e que assim sejam disseminadas!

Referências

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Perbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

MOTTANA, Paolo. Antipedagogie del piacere: Sade e Fourier e altri erotismi. Milano: Angeli: 2008.

MOTTANA, Paolo. Caro insegnante: Amichevoli suggestioni per godere (l)a scuola. Milano: Angeli, 2007.

MOTTANA, Paolo. Cattivi maestri: La contreoducazione di René Schérer, Raoul Vaneigem, Hakim Bey. Roma: Castelvecchi, 2014.

MOTTANA, Paolo. Eros, Dioniso e altri bambini: Scorribande pedagogiche. Milano: Angeli, 2011.

MOTTANA, Paolo. L’anima e il selvatico: Idee per ‘controeducare’. Bergamo: Moretti e Vitali, 1998.

MOTTANA, Paolo. L’ipergesto: disseminare utopia. Milano: Astoris, 2017.

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MOTTANA, Paolo. Il mèntore come antimaestro. Bologna: CLUEB, 1996.

MOTTANA, Paolo. Piccolo manuale di controeducazione. Milano: Mimesis ,2012.

Correspondência

Laisa Blancy Guarienti - Universidade Estadual de Campinas - AC Unicamp, Cidade Universitária, CEP 13083970, Campinas, São Paulo, Brasil.

 

Notas



[1] O Curso em Formação em Gaia Educação ocorreu durante o período de três meses na Unimib. Após o término do curso o professor Paolo Mottana nomeou o grupo formado como os “GUAP”. Desse modo, a adaptação aqui para o português seria mais adequada como “gaio educadores”, visto a sigla “guap” ser uma união de palavras na língua italiana. No Brasil, em fevereiro de 2019, trouxemos Mottana na Faculdade de Educação da Unicamp para o Curso de Formação em Gaia e Educação Difusa, onde novamente foi formado uma leva de novos disseminadores de seu pensamento, e na ocasião, o grupo, também foi nomeado como “gaio educadores”.

[2] O potlatch é uma cerimônia praticada entre tribos indígenas da América do Norte, e em outras poucas regiões onde um festejo religioso de homenagem, geralmente envolvendo um banquete de carne, seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado – bens que devem ser entregues a parentes e amigos. A própria palavra potlatch significa dar, caracterizando o ritual, como de oferta de bens e de redistribuição da riqueza. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for à hora do potlatch destes. Desse modo o potlatch é visto como um mecanismo que impede a concentração de riqueza e faz fluir sempre os bens materiais em novas existências.



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ISSN Eletrônico: 1984-6444

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/19846444

Qualis/Capes: Educação A1

Periodicidade: Publicação contínua

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A Revista Educação (UFSM) agradece auxílio recebido por meio do Edital Pró-Revistas, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa, da Universidade Federal de Santa Maria. 

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