Residncia de pedagogia na Sade Mental Coletiva educao como sade

Residency of pedagogy in Collective Mental Health education as health

 

Sheyla Werner

Doutoranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

sheylawerner@gmail.com

 

Cludia Rodrigues de Freitas

Professora doutora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

freitascrd@gmail.com https://orcid.org/0000-0002-7105-8539

 

Ricardo Burg Ceccim

Professor doutor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

burgceccim@gmail.com https://orcid.org/0000-0003-0379-7310

 

Recebido em 20 de junho de 2018

Aprovado em 11 de setembro de 2018

Publicado em 17 de dezembro de 2019

 

RESUMO

A partir da trajetria de uma pedagoga em uma residncia em sade mental, o artigo coloca em discusso as aes desta categoria profissional na ateno psicossocial. A abordagem revela percurso e produes cartogrficas da residncia, sua preceptoria e tutoria, realizadas na sade. Dos diversos cenrios de atuao da pedagogia na residncia, d-se destaque a um projeto de ao desenvolvido com trabalhadores e jovens de uma unidade de atendimento socioeducativo. Como concluso, salienta-se o quanto os pedagogos tm a oferecer no campo da sade mental coletiva, sendo convocados e demandados de diferentes formas, proporcionando o olhar da educao sade, oferecendo a educao como sade. Constata-se a falta de oferta de formao em sade para profissionais de pedagogia, tema a ser aberto.

Palavras-chave: Residncia integrada em sade; Pedagogia; Sade Mental Coletiva; Formao em sade; Residncia multiprofissional em sade.

 

ABSTRACT

From the journey of a pedagogue having their residency on the field of mental health, the article discusses actions from this professional category on psychosocial care. The approach reveals its path and cartographic output, preceptory and tutoring towards health. From all the interventions taken place, the work of action developed with workers and youngsters from a social-educational unit is highlighted and as a conclusion its seen how much pedagogues have to offer on collective mental health, being called upon and requested in various ways, offering education through health, and education as health itself. A lack of offer of health training for pedagogues is also noted, a subject in need of debate.

Keywords: Integrated residency in health; Pedagogy; Collective mental health; Health training; Multiprofessional residency in health.

Introduo

O comeo no passa de interrupo de algo que j vinha ocorrendo, mas que ainda no tinha recebido nome. As coisas esto em permanente processo at que algum aparea e nomeie um ponto das coisas como comeo. [...] como cortar algo que passa, represar a correnteza e desvi-la de seu curso para estabelecer um curso que se disfara de novo, quando somente uma violao do que j existia. Comear o sintoma mais forte do desejo de novidade, j que todo comeo contm a energia do novo, a que poucos resistem. (JAFFE, 2016, s/p)

Vamos comear uma conversa sobre a pedagogia na sade levando em conta outros comeos enfrentados para que esta escrita se iniciasse. Assim, este artigo tem sustentao na experincia de uma pedagoga no Programa de Residncia Integrada Multiprofissional em Sade Mental Coletiva do Ncleo de Educao, Avaliao e Produo Pedaggica em Sade EducaSade, criado na Faculdade de Educao, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, em 2005, a qual foi integrada de 2005 a 2015 por residentes graduados em artes, educao fsica, enfermagem, pedagogia, psicologia, servio social e terapia ocupacional.

Trata-se de uma formao ps-graduada lato sensu, realizada em servio, ao longo de dois anos, mediante a insero do residente no trabalho da/na rede de ateno psicossocial abrangendo no apenas equipamentos prprios ao setor da sade, mas tambm servios e dispositivos de assistncia social, cultura e educao (PALOMBINI et al., 2016, p. 203)

Tendo em vista a defesa de uma concepo intersetorial abordagem em sade mental (BRASIL, 2010) e que, historicamente, configuram o conceito sade mental coletiva (FAGUNDES, 1992). Nesse tecer de comeos, tais como a educao em sade, a pedagogia na sade mental e a educao em sade mental coletiva, um texto em trs vozes de lugares distintos na coautoria deste artigo: uma pedagoga, que foi residente; uma preceptora do ncleo profissional de pedagogia na residncia; um tutor da residncia pela universidade, todos ocupando essas posies em 2015. Entrelaam-se na tessitura da escrita, num movimento de rizoma. Nessa perspectiva, metodologicamente, apresenta-se, no percurso desta constituio de texto, uma pedagoga na e da sade mental coletiva, colocando em evidncia um projeto de interveno, a ao de educao permanente em sade desenvolvida em uma unidade de atendimento socioeducativo e outra de educao em sade com jovens em cumprimento de medida socioeducativa, atividades das quais a residente participou como representante do ncleo (categoria profissional) da pedagogia.

Trata-se do nico programa de residncia em sade no Brasil que incluiu a pedagogia como categoria profissional para a oferta de vagas especializao na forma de treinamento em servio sob superviso, de carter multiprofissional e interdisciplinar (CECCIM; FERLA, 2003), cujas bolsas eram prprias do ncleo universitrio junto ao Programa de Ps-Graduao em Educao, o EducaSade. Durante esses anos (o ltimo processo seletivo foi em 2013 e o ltimo egresso concluiu o programa em 2015), foram inseridos no programa 12 pedagogos (COUTO, 2016), os quais tambm problematizaram sobre o ser e estar nos espaos do fazer em sade. Por exemplo, uma das residentes relata que a Pedagogia estranhada quando chega aos espaos do setor da sade, mas a partir da composio com a equipe isso se dilui, se desfaz, desterritorializa-se o campo, para compor-se um territrio. Sim, eu pedagoga diz ela fao parte do territrio da Sade Mental Coletiva! Territrio em movimento, que compe com vrias parcerias, que oferece uma possibilidade, concluindo que as possibilidades se ampliam aos profissionais que compem esses espaos e a si prpria. Nos conta que isso exigiu um despir-me dos limites da escola e de prticas escolares, onde os espaos de atuao eram bem definidos. Relata que durante esses dois anos pude me permitir composio com outros saberes, com outras profisses, me constituindo em devir. Se me olham com estranhamento, isso no ruim e no me coloca fora (DALMASO, 2013, p. 10-11). Quando se estranha o que se conhece, se desloca o ver, emergindo outras possiblidades, conclui a pedagoga residente em seu Trabalho de Concluso de Residncia TCR .

Em um Trabalho de Concluso de Curso no mbito da graduao, a estudante de pedagogia conta que o programa de residncia se destaca ao oferecer formao especializada em servio (a especializao na forma de treinamento em servio sob superviso) para os pedagogos, muito embora seja importante reconhecer que h mais de uma dcada os profissionais de pedagogia so convocados a atuar no campo de sade mental e em projetos teraputicos(COUTO, 2016, p. 17), atendendo a usurios da ateno psicossocial. Couto toma como exemplo os Centros de Ateno Psicossocial CAPS, previstos pelo Ministrio da Sade Portaria n 336, de 19 de fevereiro de 2002, onde so estabelecidas diretrizes para funcionamento e financiamento. Ali est definida uma equipe mnima para os servios de ateno psicossocial onde se deve assegurar alm do mdico psiquiatra e do enfermeiro com formao em sade mental, profissionais de nvel superior entre as seguintes categorias profissionais: psiclogo, assistente social, terapeuta ocupacional e pedagogo (BRASIL, 2002b). No de menor importncia lembrar que desde os primeiros movimentos de interesse desmanicomializao, ao final da dcada de 1980, a habilitao para a leitura e escrita e, depois, a preparao para ingresso na educao de jovens e adultos esteve dentro do projeto teraputico aos adultos e idosos asilados em hospcios, tendo em vista a construo de autonomia para a volta para casa ou a vida nos hoje denominados Servios Residenciais Teraputicos. Esse no um trabalho que dispense uma formao especial de pedagogos e sua insero nos ambientes de sade da poltica de desinstitucionalizao.

J o atendimento por pedagogos em classes hospitalares (escolas de hospital) e s crianas hospitalizadas ou impedidas de frequncia escola por tempos prolongados devido a problemas de sade foi previsto pelo Ministrio da Educao, Conselho Nacional de Educao e Conselho Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente. Entre os documentos de base esto: Estratgias e Orientaes para Classe Hospitalar e Atendimento Pedaggico Domiciliar, da Secretaria de Educao Especial, do Ministrio da Educao (BRASIL, 2002a); Resoluo n 41, de 13 de outubro de 1995, do Conselho Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente (BRASIL, 1995); Resoluo CNE/CEB n 2, de 11 de setembro de 2001, do Conselho Nacional de Educao, que institui diretrizes nacionais para a educao especial na educao bsica (BRASIL, 2001). Extraindo-se dos documentos, deve-se saber que:

Denomina-se classe hospitalar o atendimento pedaggico-educacional que ocorre em ambientes de tratamento de sade, seja na circunstncia de internao, como tradicionalmente conhecida, seja na circunstncia do atendimento em hospital-dia e hospital-semana ou em servios de ateno integral sade mental (BRASIL, 2002b, p. 13).

So direitos da criana e do adolescente hospitalizados, entre outros: desfrutar de alguma forma de recreao, programas de educao para a sade e acompanhamento do currculo escolar, durante sua permanncia hospitalar (BRASIL, 1995).

Os sistemas de ensino, mediante ao integrada com os sistemas de sade, devem organizar o atendimento educacional especializado a alunos impossibilitados de frequentar as aulas em razo de tratamento de sade que implique internao hospitalar, atendimento ambulatorial ou permanncia prolongada em domiclio (BRASIL, 2001).

A categoria profissional do atendimento pedaggico-educacional direto com crianas e adolescentes ou com jovens e adultos a do pedagogo, tambm a categoria gestora do processo de atendimento pedaggico geral ou especial quando se trate de ateno aos processos cognitivos, sociointerativos e afetoperceptivos respectivos ao educativa. Alm dos indicativos, torna-se importante compreender que a pedagogia (atendimento educacional ou pedaggico-educacional) est elencada como categoria profissional em diversas portarias de ateno sade (polticas nacionais de sade mental, de ateno integral pessoa com deficincia, de ateno bsica e para academias da sade). O que vai definir de fato o pertencimento da pedagogia sade so suas aes em equipe nos servios desse setor, aspecto vlido para todas as outras reas que j atuam ou podero atuar em e na sade, pois, se aquilo que define um profissional de sade sua condio objetiva de assistir, sua habilitao tcnica para a clnica, sua profissionalizao para o ato teraputico, sua dedicao ao cuidar, j a teraputica, ocorre em vrios planos e pode se realizar por intermdio de mltiplas categorias profissionais e mltiplos campos de conhecimento e de prticas, mesmo de outros setores da ao social, como ensino, educao popular, educao fsica, arte, cultura, assistncia social etc. (CECCIM, 2006, p. 264).

Outros exemplos poderiam ser trazidos, no entanto, esses j justificam a relevncia do presente artigo tomar como tema a pedagogia na Residncia Integrada Multiprofissional em Sade Mental Coletiva. Desta forma, coloca-se em anlise o percurso de uma pedagoga na residncia, apresentando o contato intensivo e a potncia de aprendizagem gerados em territrio (cenrio de prticas) e considerando sua trajetria para colocar em discusso as oportunidades de formao que tm um pedagogo para a aprendizagem da ao em sade. Compreendendo que a cartografia a feitura de mapa, [...] ao faz-lo necessrio percorrer o campo, avali-lo, rabisc-lo, abri-lo e delimit-lo infinitas vezes (BORGES; CECCIM, 2017, p. 73-74). O contato da pedagoga torna-se parte integrante da prpria metodologia e, a partir do relato vivo da experincia, so referidas as aes e as sensibilidades desenvolvidas. Dos diversos pontos de encontro na sade mental coletiva, d-se destaque a relao com jovens e trabalhadores de uma unidade de atendimento socioeducativo, na qual, a feitura de mapa se fez como dispositivo na ao da pedagoga.

O percurso como mtodo: a educao como sade

Uma professora de pedagogia, que tambm foi preceptora nesta Residncia, escreveu quanto educao de jovens e adultos com deficincia mental, ao final ou ao ultrapassarem a faixa etria prevista s escolas especiais e que no aprenderam ou no aprenderiam a ler e escrever com fluncia ou alm de seus prprios nomes incompletos, sobre uma docncia desterritorializada, que procura a sade, assim denominando sua tese de doutorado e o livro dela decorrente (PEIXOTO, 2007). Com sua tese de doutorado, a pedagoga enunciou a desterritorializao da docncia, o fora da escola tradicional, da classe escolar tradicional, da sala de aula tradicional, e sua ressingularizao como uma docncia que busca a sade, o trabalho docente como participante da inveno de mundo e da inveno do si mesmo, forjando coletivos e interaes para o enfrentamento da vida e para o desenvolvimento do aprendizado, este composto por cognio e afeco (afetos psquicos do desenvolvimento que permite aprender), alm da recriao cotidiana dos operadores sociais (pedagogos, educadores, alunos, crianas, jovens, adultos, estudantes) da educao (PEIXOTO, 2007).

A pedagoga residente do presente texto, aps concluir a graduao em pedagogia, levava claro o entendimento de que para educar era preciso continuar a questionar os ideais educativos e a fomentar a coragem de mostrar habilidade na construo de tendas (BAPTISTA, 2006), como havia aprendido durante sua educao universitria. Tal habilidade requereria uma formao sobre armar tendas e no salas de aula e escolas:

As tendas so mais leves e suas paredes de tecido permitem a passagem de luz e do vento; podem ser desarmadas e transportadas para locais distantes, acompanhando o per(curso) dos interessados; montam-se de maneiras variadas, permitindo a negociao que transforma os modelos de ao, os locais escolhidos e os tempos destinados. Vale lembrar que a tenda pode ser um objeto complexo, apesar da simplicidade do seu desenho fsico: devem ser flexveis, mas resistentes; o tecido deve suportar as intempries, sendo leve durante o transporte; a base deve ser macia, mas no pode deixar que passem a umidade e possveis invasores (BAPTISTA, 2006, p. 92).

O edital de seleo do Programa de Residncia Integrada Multiprofissional do Educa Sade dizia que a Sade Mental Coletiva surgia (CECCIM et. al., 2016):

[...] em desdobramento dos valores ticos da dessegregao, seja da loucura, da deficincia mental, dos comportamentos atpicos ou das singularidades no previstas pelos espaos disciplinares da educao, da sade e das culturas urbanas. O objetivo da Residncia Integrada Multiprofissional em Sade Mental Coletiva, o de oferecer formao especializada, multiprofissional e interdisciplinar, em servio. Visa a desenvolver competncias tcnicas, ticas e humansticas para a promoo da sade mental, seja no mbito ampliado da educao (como uma pedagogia da cidade, problematizando seus artefatos de produo de sentidos e culturas), seja no mbito ampliado da sade (como integralidade da ateno e escuta de acolhimento s singularidades da subjetividade) (CECCIM et. al., 2016, p. 129).

O presente texto abrange a residncia realizada nos anos de 2014 e 2015, compondo o ncleo de categorias profissionais relativo aos graduados em pedagogia, acompanhada por tutores, preceptores, colegas residentes e profissionais dos diversos servios, projetos e aes de trabalho do Sistema nico de Sade SUS. medida que residentes de pedagogia conheciam, estudavam e habitavam a sade mental coletiva, percebia-se a necessidade da tessitura entre educao e sade. Para tanto, tambm se fazia necessria a disposio a grandes transformaes, incluindo dores e amores. O cenrio da hospitalizao e os cenrios da ateno psicossocial podem ser muito chocantes para um trabalhador, muitos profissionais de sade escapam de qualquer possibilidade de vnculo com hospitais ou com a sade mental, assim como escapam (e desconhecem) a educao especial, a psicopedagogia e a educao social (presentes nas medidas socioeducativas, na sade mental e na ateno s deficincias). Se profissionais da pedagogia requerem aprender para atuar em hospitais e na sade mental, profissionais de sade requerem aprender para atuar no apenas em locais de educao especial, psicopedagogia e educao social, mas, principalmente com esses pblicos, demandantes de aes regulares e contnuas em sade. No por acaso, tantas polticas de sade comearam a demandar educadores fsicos, educadores artsticos e pedagogos nas suas portarias de funcionamento e financiamento. O sofrimento do contato parte do aprendizado (MATURANA, 2012):

[...] a dor nos faz perguntar. Apesar de difcil, uma oportunidade nica de transformao, assim como a curiosidade, que no nos permite submisso aos padres externos. Quando tropeamos di o p. Isso faz pensar sobre o modo de andar, a ateno ao caminhar, os desafios do trajeto. A dor da alma tambm ensina. Se algum me repudia, tenho de perguntar o que estou fazendo para que isso acontea. Investigar oportunidade para crescer (MATURANA, 2012, p. 3).

 

Por que falar desse percurso to importante? A pedagogia tem esse lugar na sade mental, no hospital, na desinstitucionalizao, nas medidas socioeducativas, na educao especial, na psicopedagogia, mas como se prepara para estas atuaes? Onde se reconhece possibilidades de aprendizagem e de formao em sade mental coletiva? Neste artigo, a resposta : foi por meio da vaga em uma residncia em sade. Podem-se apontar alguns fatores: da informao formao, dos saberes s prticas, das potncias realidade, movimentos em via de mo dupla para educadores e para profissionais de sade, a residncia como tempo/espao educao como sade. Armada a tenda pedaggica, no a escola como a conhecemos no cotidiano, a tenda-escola de paredes moles e translcidas, leve de carregar, possvel de armar e desarmar em vrios lugares, foi possvel: o atuar na sade tambm para pedagogos! Sendo necessria a aquisio dos conhecimentos e prticas em sade mental que pudessem ser usados pela pedagogia. A residncia proposta, por ser multiprofissional, traz uma oportunidade nica de educo(trans)formao (ensino, aprendizagem, mutao), como formulou Santos (2018). So comeos, fazemo-nos (os profissionais da educao/pedagogia) a partir deles.

Para sustentar um trabalho no hospcio (um dos campos por onde a residncia passa) foi necessrio pedagoga inventar um encanto para aquele lugar, precisando usar de uma sensibilidade que l se esforam por desensinar, tornou-se fundamental acreditar em outros espaos, confiar na relao da educao na e em sade, aprender a ser forte, mais forte que aquele lugar, precisou apropriar-se de nova perspectiva ao acompanhar o outro, ao educar, ao cuidar do outro. Conforme Ceccim e Palombini (2009),

[...] para cuidar, preciso exposio ao outro. Aceitao do outro como ele , mas tambm oferta de acolhimento ao que nele pede passagem (devires, experimentao), isto , aceitar o outro como ele , mas tambm oferecer acolhimento ao tornar-se o que se [...] (CECCIM; PALOMBINI, 2009, p. 301),

Com essa perspectiva de cuidar, a pedagoga percorreu muitos cenrios. Tecendo, trazendo e oferecendo, cada vez mais, a educao como sade e o olhar pedaggico, bem como se deixando habitar pela sade mental coletiva, afinal, ela tambm habita a pedagogia:

[...] o olhar pedaggico auxiliou s percepes, alis, por que olhar pedaggico? Olhava ao redor e notava a falta de acessibilidade, a ausncia de identidade de quem se dizia morador daquele lugar. Percebia a falta da promoo da autonomia, a carncia do ensino-aprendizagem, a insuficincia da pacincia, mas, principalmente, a precariedade da sensibilidade. No tem profisso para dar conta disso. Talvez a mistura, a vontade compartilhada de outras coisas possa dar a intensidade necessria (WERNER; FREITAS; BEDIN-DA-COSTA, 2017, p. 40).

Desta forma, na composio de novas histrias, fortalecida pelas dores, amores e tessituras com as quais a pedagoga cartografou seu primeiro ano da residncia, comeou a interao com a juventude, a qual se deu no segundo ano da residncia e agora protagoniza as aes deste artigo, uma presena junto juventude ou s juventudes habitantes ou viventes de um Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE).

A Ao de Educao Permanente em Sade caminhos percorridos

Por meio da residncia, em 2015, foi desencadeado o projeto Ao de Educao Permanente em Sade, desenvolvido com trabalhadores e jovens de uma unidade de atendimento socioeducativo da regio metropolitana de Porto Alegre/RS. Retornando a um comeo anterior: o que Educao Permanente em Sade?

A identificao Educao Permanente em Sade est carregando, ento, a definio pedaggica para o processo educativo que coloca o cotidiano do trabalho ou da formao em sade em anlise, que se permeabiliza pelas relaes concretas que operam realidades e que possibilita construir espaos coletivos para a reflexo e avaliao de sentido dos atos produzidos no cotidiano (CECCIM, 2005, p. 161).

O projeto Ao de Educao Permanente em Sade foi constitudo com o objetivo de construir um espao para trocas, reflexo e avaliao entre os servidores e suas respectivas equipes do Centro quanto ao trabalho desenvolvido na instituio. A proposio da ao iniciou-se em 2010, ganhando, a cada ano, novos formatos (da equipe condutora do projeto, sujeitos envolvidos, espaos e temticas). Em 2015, a equipe responsvel pela conduo da ao, onde a residente de pedagogia se inseria, introduziu a proposta de dilogo e reflexo para a identificao de temticas e interesses novos conforme necessidades vigentes no grupo, tal como na teoria:

[...] aquilo que deve ser realmente central Educao Permanente em Sade sua porosidade realidade mutvel e mutante das aes e dos servios de sade; sua ligao poltica com a formao de perfis profissionais e de servios, a introduo de mecanismos, espaos e temas que geram autoanlise, autogesto, implicao, mudana institucional, enfim, pensamento (disruptura com institudos, frmulas ou modelos) e experimentao (em contexto, em afetividade sendo afetado pela realidade/afeco) (CECCIM, 2005, p. 162).

Partindo dessa perspectiva, buscou-se o aperfeioamento dos processos de trabalho entre as equipes do Centro em torno de uma temtica colocada em questo diversas vezes: a medicalizao (ou a medicamentalizao, para sermos mais exatos). O tema chegava relacionado ao alto consumo de medicamentos psiquitricos pelos jovens em cumprimento de medidas socioeducativas. O termo/tema foi utilizado no Centro, inicialmente, relacionado administrao excessiva de medicamento, mas permitiu a possibilidade de analis-lo de forma ampliada onde o funcionamento da discursividade mdica tem efeitos de verdade e acaba disciplinando e governando a vida de todos e de cada um (CHRISTOFARI; FREITAS; BAPTISTA, 2015, p. 1083). A demanda em abordar o uso de medicamentos surgiu para pensar prticas e, tambm, compreender, dialogar e formar opinies acerca da questo. Aps a definio da temtica, a ao organizou-se em quatro encontros com os trabalhadores interessados em participar, totalizando 20 trabalhadores ao todo, de diferentes frentes: agentes socioeducativos, tcnicos, professores e direo. Como dispositivo para incitar a reflexo quanto ao tema e para apresent-lo como possibilidade de prtica/uso com os jovens, foi utilizado o Guia da Gesto Autnoma da Medicao (GAM), ou Guia para o cuidado compartilhado de medicamentos psiquitricos (ONOCKO-CAMPOS et. al., 2012) Conforme sua apresentao

O Guia uma ferramenta potente para a produo da autonomia dos usurios de sade mental a partir do tema da medicao. Sua elaborao, validao e utilizao propiciaram espaos de fala entre usurios, familiares, trabalhadores e gestores com consequncias clnico-tico-polticas de reafirmao do direito cidadania, do agir em cogesto e de afirmao de singularidades. Espaos e consequncias os quais propomos que se multipliquem no cotidiano dos servios de sade mental [...] (FAGUNDES, 2012, p. 3).

A partir das aes com os trabalhadores, como as rodas de conversa, produes de painis, revisitao de prticas e compreenso/discusso de conceitos que permeiam a temtica da Educao Permanente em Sade, organizaram-se encontros com os jovens, objetivando oportunizar um espao de dilogo sobre questes de sade e medicamento, proporcionando, acima de tudo, a fala e a escuta dos jovens. O convite para participar dos encontros se fez a todos que estavam cumprindo medida socioeducativa de internao com possibilidade de atividades externas. Esclareceu-se que se tratava de um convite aberto no sendo, desta forma, uma ao/medida da socioeducao, mas da csade uniram-se 10 jovens entre 14 e 18 anos de idade. O Guia serviu de suporte para a mediao dos encontros com os trabalhadores (Educao Permanente em Sade) e algumas de suas proposies foram adaptadas, tendo em vista contemplar o grupo de jovens em medidas socioeducativas, convidados a um grupo de estudos em sade (Educao em Sade).

Produes pedaggicas na sade educao como sade

Da ao de Educao Permanente em Sade, muito se produziu, principalmente a reflexo do fazer dos trabalhadores do Centro. Como primeiro exemplo, destaca-se um painel construdo em pequeno grupo:

 

Figura 1: Grupo com Trabalhadores: O que pode substituir a medicao?

Fonte: Elaborao a partir da pesquisa realizada

 

As perguntas geradoras foram: O que pode substituir a medicao? Que outras prticas podem ser promovidas para alm do medicamento? Como viabilizar a substituio da farmacoterapia no contexto de trabalho? O painel mural produzido est na Figura 1. O debate aportou: disponibilidade para ouvir, comunicao, alternativas naturais, correrio e placebo. Foram trazidas ainda duas mensagens ou frases poticas para decorar o painel: No sabendo que era impossvel, foi l e fez e Se as coisas so inatingveis, ora, no motivo para no quer-las. V-se uma compreenso ou inscrio de possveis. Inscrevem o correrio (houve um debate se a palavra no seria correria) e o placebo, logo aps os enunciados de disponibilidade para ouvir e comunicao. Se o placebo representa a busca pelo efeito, sem as consequncias ou danos dos medicamentos ou mesmo pela eventual ausncia de prescrio prvia, o correrio o investimento na escuta e busca de medidas necessrias: encaminhar relatrios ao juizado, conseguir o horrio de novo julgamento/avaliao, conseguir atendimento com a psicloga, conseguir cela na ala de medidas mais brandas, enfim, correr atrs da melhor socioeducao (ou humanizao), aquele correrio, no uma correria.

Reconhece-se a necessidade de busca de solues e a busca do efeito desejado/prometido pelo medicamento. O medicamento no trata, gera efeitos. H um fazer mltiplo e preciso fazer o mltiplo, no por acrescentar sempre uma dimenso superior, mas, ao contrrio, de maneira simples, com fora de sobriedade, buscar o necessrio. exatamente essa a noo presente no conceito de rizoma de Deleuze e Guattari (1995, p. 11), que digerimos ao recolocar aqui como a feitura de uma rede em correrio e humanizao. Descobriu-se o movimento micropoltico de substituir o medicamento, mas a educao continuada, at ento presente, tratava do uso racional e correto de medicamentos, com uma velha ordem de uso: se necessrio. Entendida como protele o uso e os faam desistir de solicitar. A ao de Educao Permanente em Sade com a pedagoga desdobra-se como ao micropoltica, pois, como j apontado, a partir dela a interao com os jovens ganhava outro possvel.

Dentre os diversos fazeres, destacou-se outra produo, esta, por sua vez, foi oferecida para e com os jovens da instituio:

 

Figura 2: Mapa falante das redes sociointerativas dos jovens

Fonte: Elaborao a partir da pesquisa realizada

Na confeco de um mapa falante (Figura 2), as linhas e tracejados indicavam caminhos percorridos pelo grupo a partir de situaes hipotticas do cotidiano. As situaes convocaram os jovens a pensar a respeito da forma de agir, qual servio/instituio buscar, o que fazer. Convocaram a refletir sobre os planos de encontros, tal qual uma cartografia das redes sociointerativas (BORGES; CECCIM, 2017):

Fazemos mapas dos territrios que nos interessam e esse processo difere de uma lista de caminhos percorridos ou da criao de conjunto de placas indicativas deixadas pelo caminho, cartografar o prprio movimento de criar mapas [e] de pesquisas (BORGES; CECCIM, 2017, p. 73-74).

Poderamos trazer diversas discusses acerca desse mapa, onde mais de 40% dos pontos de rede so relacionados com pontos de ateno sade e os demais com assistncia social e segurana ou proteo. A famlia est circulada, marcada, rodeada, mostrando ser intensivamente procurada (acionada), mostrando que ela suporte, muito mais que qualquer outra instituio ali colocada. Nos ditos da mdia e no social ressoa a ideia da ausncia de famlia entre os jovens em conflito com a lei. Nos relatrios individuais, aqueles que acompanham o jovem desde sua entrada no sistema socioeducativo, podemos encontrar, com frequncia, a anotao da falta de uma famlia. O Panorama Nacional, do Conselho Nacional de Justia, sobre a populao juvenil em cumprimento de medidas socioeducativas aponta, em resumo, que o jovem dentre outras questes apresenta: [...] famlias desestruturadas, defasagem escolar e relao estreita com substncias psicoativas (BRASIL, 2012, p. 20). A farmcia e o pronto-socorro esto muito circulados, escola um nico crculo. No seria tambm a hora de ser revisto o conceito de famlia, na perspectiva e construo dos jovens? Sair da observao antropolgica, jurdica, sociolgica, buscar uma clnica psicossocial e pedaggica: quais os possveis? Quais as intervenes clnicas possveis? Por que escola to pouco registro de vnculo/conexo?

A residente de pedagogia apresenta a proposta adaptada do modelo GAM e constri, com o grupo de jovens participantes das rodas de conversa, o mapa dos crculos em rede (Figura 3): no centro a pessoa se coloca e deve pensar nos componentes que a rodeiam: amizade, famlia, comunidade, sistemas de sade e trabalho ou estudo, imaginando a proximidade e distanciamento dos elementos (quanto mais prximo de si, mais prximo do centro, e vice-versa):

Figura 3: Mapa dos Crculos em Rede

Fonte: Elaborao a partir da pesquisa realizada

Deve-se olhar para o aspecto pedaggico com que o mapa se apresentou: quase como um trabalho de escola, sua forma de produo e de proposio, promovendo o protagonismo e autonomia dos jovens ao delinearem e escolherem caminhos, discutindo possibilidades, produzindo conhecimento acerca da sade e de sua sade. A flecha azul, sinalizada no Mapa (Figura 3), indica onde o Centro de Atendimento Socioeducativo foi colocado, o mais longe possvel, quase totalmente fora da linha externa, no limite da folha. Tivesse espao, talvez estivesse mais longe, como aconteceu com a escola, apontada na seta amarela. No entanto, o professor, indicado pela flecha verde, est perto, junto desses sujeitos. Onde esto os agentes socioeducativos? O psiclogo, o assistente social... onde esto as equipes de ateno em meio a essa rede social, a esse mapa tomado de luz, vida, cor, desejo, alegria, mapa em que o amigo do mal foi lembrado, colocado, discutido e at mesmo considerado importante? Tem os membros importantes da famlia (me, irmos, v e v, tio e tia, primo e prima) o pai no foi mencionado como importante, no foi colocado (seria a ausncia do personagem do pai que torna as famlias desestruturadas?). O tema do pai merecia estudo aprofundado (outro trabalho), mas aqui aborda-se o trabalho com a medicalizao da juventude. A presena/ausncia do pai no tema particular a este grupo, mas sociedade, no s machista, mas com fartas defesas de um lugar aos homens em distncia do cuidar, educar, ouvir e acolher caseiros, devendo promover a exposio, o risco, o treinamento com a dor, a vida de rua. Os trabalhadores do Centro no foram destacados (sequer lembrados?). V-se a ao e a produo pedaggica engendradas com o lugar da professora garantido na residncia em sade mental coletiva. Tornando, assim, de forma viva, a educao como produo e promoo de sade.

Num outro painel da Educao Permanente em Sade com os trabalhadores, percebemos uma preciosidade na figura resultante a uma nova pergunta geradora: na viso dos trabalhadores, como os jovens pensam a medicao? A pergunta remetia a um colocar-se na dimenso do outro o jovem deslocar e descolar-se de si, para se pensar como o jovem, como o interno. Olhemos para a imagem maior colada no painel mural (Figura 4), essa acompanhada do descritor Fuga da realidade. Esse ponto apareceu muito na voz dos trabalhadores, tomando este como um dos principais motivos da solicitao por medicamentos realizada pelos jovens. Os trabalhadores estavam dizendo que a hipermedicao era solicitada pelos jovens, a fim de fugirem da realidade. Alguns trabalhadores confirmam que a fuga pelo medicamento sim para suportar o espao da internao, outros trouxeram a ideia de uma fuga da realidade de sua prpria histria/vida ou da infrao cometida. Esclarecem que se est no pronturio um se necessrio, a medicao pode ser administrada, caso contrrio no h o que fazer. Segundo o pessoal tcnico em enfermagem, s vezes acontece de quem precisa no querer e de quem no precisa querer usar. Anotamos: s vezes eu sei que aquele guri no precisa de remdio, mas o psiquiatra deu, o que vou fazer? Eu no tenho formao pra isso. difcil, porque o mdico v o guri s no horrio marcado, a gente t com ele todo dia.

Figura 4: Painel Mural Dialogando sobre a Medicao

Fonte: Elaborao a partir da pesquisa realizada

 

Assim nos damos conta de que tipo de poder opera no local. A medicao, no contexto das medidas socioeducativas, no est vinculada somente ao ato de dar remdio. De um lado, coloca-se como engrenagem, como mquina disciplinar e como regulao da vida; de outro, coloca-se como possibilidade ao esquecimento, esquecimento da dor subjetiva (de estar aprisionado, de estar sem famlia, de ter cometido um ato em conflito com a lei...). A mesma trabalhadora que afirmou no ter o que fazer tambm disse que algumas vezes administra placebo tanto para o jovem que no tem o se necessrio em seu pronturio, quanto para o sujeito hipermedicado e que tal ao ocorre em interlocuo com alguns trabalhadores. Repetimos: com alguns. Esse aspecto e o dilogo sobre ele foram possveis a partir da produo pedaggica da educao permanente em sade. O tema da medicalizao foi preciosamente bem abordado pelo ncleo profissional da pedagogia e mereceu toda essa narratividade.

Os motivos para consumir/no consumir medicamentos, a quem compete e porque esta deciso, como ampliar o domnio e autonomia sobre seu uso, como incluir os jovens na conversa sobre esse consumo... Medicamento para o esquecimento (necessrio) do aprisionamento, da vida que levou ao aprisionamento, do sofrimento ou transtorno psquico efetivamente presentes. O que, como, quando e porque poderia substituir os medicamentos psiquitricos? Qual o papel do psiquiatra e do pedagogo em interface? Os jovens querem medicamento e querem professor? Sobretudo professor e medicamento, mais que quaisquer outras ofertas? O Centro de Atendimento Socioeducativo, a escola e os servios de sade esto nas margens externas de defesa de suas vidas. Medidas socioeducativas, famlia e sociedade so as defesas que motivaram a lei, mas, nas figuras da educao permanente em sade ou do grupo de gesto autnoma da medicao, onde esto as equipes de ateno em meio s redes sociais? No mapa dos adolescentes comparece o amigo do mal, mas o pai no foi mencionado como importante, nem foi colocado; assim como os trabalhadores, sequer lembrados. Escola fora do crculo, professora no centro do crculo. Sobre o lidar e pensar a medicao, uma enorme figura sobre a fuga da realidade. Professora (lembramento do estudar) e fuga da realidade (esquecimento psicotrpico): que relaes tecem/destecem/retecem em presena de escrita, desenho, leitura, seleo de literatura, rodas de aula-conversa, construes de ler-se/escrever-se da prtica pedaggica? Paiva-de-Campos (2014) sugeriu conversas-em-ao, no trabalho educativo com jovens e adultos. Amorim (2017) enunciou fabulografemas, com base da presena da literatura de fico cientfica em uma educao como sade.

 

Consideraes Finais

Entende-se que a experincia colocada em evidncia indica um caminho de intervenes docentes, pedaggico-educacionais, de escuta pedaggica, mais que noes amplas de educao, a educao como interveno pedaggica local, em ato, em cenas de encontro na ou com a sade. Produes ativadas por falas, cartazes, mapas falantes e mapas de crculos em rede, painis-murais dialogados. Risco e rabisco de painis com canetinhas, tracejados, linhas, recortes de revista, bandeirinhas de poesia... Produes e caminhos tambm construdos pelo silncio, mas um silncio atento, ateno construda pelo olhar pedaggico, mas tambm pela prtica mestia (CECCIM, 2006) da pedagogia na sade mental coletiva. Das marcas dessas produes, insistiremos em uma, tanto quanto insistem nossos colegas da sade, colegas de residncia, colegas da educao, colegas trabalhadores nos servios de sade: h, sim, um lugar para a pedagogia nas Residncias Integradas Multiprofissionais em Sade Mental Coletiva, como h nas residncias em pediatria hospitalar, pediatria de ateno bsica, servios de ateno sade para pessoas com deficincia, academia da sade, abordagens em drogas e reduo, sade da populao de rua, entre outras demandas e necessidades da educao como sade. Esse lugar que era nico no pas e, por falta de bolsas, est interrompido, lugar por onde tantos passaram e a partir dele continuaram outros comeos. Esse lugar oportuniza aquilo que se coloca essencial a todos que atuam em e na sade: formao em servio, formao em sade.

A partir da trajetria de uma pedagoga em uma residncia integrada multiprofissional em sade mental coletiva foi possvel colocar em discusso as aes desta categoria profissional na rea da sade mental. A abordagem abrangeu o percurso e as produes cartogrficas da residncia em pedagogia, sua preceptora e tutoria, realizadas na sade. Dos diversos cenrios de atuao da pedagogia na residncia, deu-se destaque a um projeto de ao de Educao Permanente em Sade, desenvolvido com trabalhadores e jovens de uma unidade de atendimento socioeducativo, cenrio onde so requeridos assistente social, cirurgio-dentista, educador fsico, enfermeiro, pedagogo, psiclogo e psiquiatra. A experimentao/vivncia mostrou que os pedagogos tm a oferecer no campo da sade mental coletiva, sendo convocados e demandados de diferentes formas, proporcionando um olhar da educao sade. No entanto, constata-se a falta de oferta de formao em sade para profissionais de pedagogia, j oferecida para as demais categorias profissionais que atuam, durante a graduao, no campo da sade.

Fica um questionamento, o qual no precisa ser necessariamente respondido de forma objetiva ou direta, talvez ele tenha sido respondido com a potncia da experincia trazida neste artigo e talvez precise ainda de outras respostas: que oportunidades de formao tm um pedagogo em sade mental coletiva, considerando este um local para seu trabalho? A pedagogia segue sendo convidada e convocada a compor na sade, pelos editais e normativas do SUS, pelas crianas, jovens e adultos, pela educao na sade. Compreendendo a necessidade desta escrita continuar, mas com um novo comeo, v-se a emergncia de abrir (novamente) espao para a pedagogia em residncias em sade mental coletiva, deixando de ser uma particularidade, um estranhamento, passando a compor as equipes multiprofissionais de sade, passando a receber formao em sade para as chances de uma educao como sade.

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