Rev. Enferm. UFSM - REUFSM

Santa Maria, RS, v. 11, e10, p. 1-16, 2021

DOI: 10.5902/2179769243292

ISSN 2179-7692

 

Submissão: 02/04/20020    Aprovação: 13/08/2020    Publicação: 29/01/2021

Artigo Original

 

Primeiros socorros como objeto de educação em saúde para profissionais de escolas municipais

First aid as an object of health education for municipal school professionals

Primeros auxilios como objeto de educación en salud para profesionales de escuelas municipales

 

 

Priscila Alvim de LimaI

Thaísa Mariela Nascimento OliveiraII

Ana Cândida Martins Grossi MoreiraIII

Ricardo Castanho MoreiraIV

Eleine Aparecida Penha MartinsV

Aline Balandis CostaVI

 

I Graduanda em enfermagem. Universidade Estadual do Norte do Paraná. Bandeirantes, Paraná, Brasil. E-mail: priscilaalvimlima@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9617-6251

II Enfermeira. Especialista em Urgência e Emergência. Mestranda em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina. Londrina, Paraná, Brasil. E-mail: thaisamariela@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6348-9072

III Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina. Londrina, Paraná, Brasil. E-mail: anacandidagrossi@uenp.edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1487-6903.

IV Enfermeiro. Doutor em Enfermagem. Docente da Universidade Estadual do Norte do Paraná, Bandeirantes, Paraná, Brasil. E-mail: ricardocastanho@uenp.edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4014-3201.

V Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente da Universidade Estadual de Londrina. Londrina, Paraná, Brasil. E-mail: eleinemartins@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6649-9340.

VI Enfermeira. Mestre em Ciências da Saúde. Doutoranda em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá. Maringá, Paraná, Brasil. E-mail: alinebalandis@uenp.edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4339-6204.

 

Resumo: Objetivo: analisar o conhecimento dos profissionais de escolas municipais após a prática educativa de atendimento de primeiros socorros na infância. Método: estudo quase‑experimental, quantitativo. Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário sobre primeiros socorros na infância, aplicado antes e após uma prática educativa com 88 profissionais. Na análise dos dados, adotou-se o percentual de acertos para cada questão e a média percentual de acertos total. Aplicaram-se os testes McNemar e Wilcoxon. Resultados: após a prática educativa, houve aumento significativo no percentual de acertos em seis questões, redução do acerto em uma questão; e não alteração em duas questões, totalizando em 30% o acréscimo da retenção de conhecimento. Conclusão: o nível de conhecimento prévio dos profissionais sobre primeiros socorros foi relativamente baixo, entretanto observou-se uma apreensão de conhecimento significativo após a prática educativa, que poderá contribuir para o atendimento inicial de qualidade à vítima.

Descritores: Primeiros Socorros; Educação em Saúde; Conhecimento; Enfermagem; Professores Escolares

 

Abstract: Objective: to analyze the knowledge of municipal school professionals after the educational practice of first aid service in childhood. Method: quasi-experimental, quantitative study. For data collection, a questionnaire on first aid in childhood was employed, applied before and after an educational practice with 88 professionals. In the data analysis, the percentage of correct answers for each question and the average percentage of full correct answers were adopted. McNemar and Wilcoxon tests were adopted. Results: after the educational practice, there was a significant increase in the percentage of correct answers in six questions, a reduction in correct answers in one question, and no change in two questions, numbering 30% the increase in knowledge acquisition. Conclusion: the level of professionals previous knowledge about first aid was relatively low, however there was a significant knowledge acquisition after the educational practice, which may contribute to the primary care for the victim with quality.

Descriptors: First Aid; Health Education; Knowledge; Nursing; School Professor

 

Resumen: Objetivo: analizar el conocimiento de los profesionales de las escuelas municipales después de la práctica educativa de primeros auxilios en la infancia. Método: estudio cuasi experimental, cuantitativo. Para la recolección de datos se utilizó un cuestionario sobre primeros auxilios en la infancia, aplicado antes y después de una práctica educativa con 88 profesionales. En el análisis de datos se adoptó el porcentaje de aciertos de cada pregunta y la media porcentaje de aciertos total. Se aplicaron las pruebas de McNemar y de Wilcoxon. Resultados: después de la práctica educativa, hubo un aumento significativo en el porcentaje de respuestas correctas en seis preguntas, una reducción en las respuestas correctas en una pregunta y ningún cambio en dos preguntas, totalizando en 30% el aumento en la retención de conocimiento. Conclusión: el nivel de conocimiento previo de los profesionales sobre primeros auxilios fue relativamente bajo, sin embargo, hubo una retención de conocimiento significativa después de la práctica educativa, lo que puede contribuir para una atención inicial de calidad a la víctima.

Descriptores: Primeros Auxilios; Educación en Salud; Conocimiento; Enfermería; Maestros

 

 

Introdução

 

Primeiros socorros são definidos como os cuidados imediatos prestados à vítima de qualquer idade que se encontre ferida ou não em acidentes, de maneira ágil, objetivando uma recuperação mais rápida e manutenção da vida até a chegada de serviço médico especializado.1 Os primeiros socorros podem ser aplicados por qualquer pessoa que esteja presente na cena, leiga ou não, desde que tenha um conhecimento básico teórico ou prático para entrar em ação.

No Brasil, os acidentes em ambiente escolar têm sido descritos na literatura e ocorrem com maior frequência entre a faixa etária de 0 a 6 anos,2 refletindo em dados epidemiológicos evitáveis do Ministério da Saúde, que destacam 158.657 óbitos por causas externas na infância em 2017.3 Considerando que, nesse período da vida, a maior parte do tempo é passado na escola, ela se torna um local de alerta para a ocorrência de acidentes.

O acidente que envolva um aluno, além de gerar transtornos para a escola, poderá trazer problemas relacionados à responsabilidade legal, caso não comprovada ajuda imediata. O código penal brasileiro explica que a omissão de socorro em prestar assistência ou não pedir socorro de serviço médico especializado é considerado crime.2-4 Porém, ao presenciar um acidente que envolva crianças, o desejo de salvá-la é o sentimento que impulsiona a todos,2 entretanto estudos evidenciam que a falta de conhecimento teórico/prático durante o atendimento gera inúmeros problemas, como o estado de pânico e a manipulação errônea da criança, prejudicando o desfecho clínico.5

Apesar da relevância do assunto, os primeiros socorros ainda são pouco valorizados em instituições de ensino, tanto públicas quanto privadas, ficando restritos, na maioria das vezes, aos estabelecimentos de saúde.2 Contudo, a Lei 13.722, de 4 de outubro de 2018, que entrou em vigor no dia 2 de abril de 2019, tornou obrigatória a capacitação de professores e funcionários da rede pública ou privada da educação básica e infantil para atuarem em situações de emergência com crianças e adolescentes.6

É nesse momento que deve ser considerado o protagonismo do profissional enfermeiro, o qual, dentre suas competências, apresenta a educação em saúde como um de seus instrumentos, capaz de gerar mudanças no perfil de saúde da população, podendo contribuir no ensino de primeiros socorros em ambientes escolares.1,5 Sendo assim, esta pesquisa tem como objetivo analisar o conhecimento dos profissionais de escolas municipais após a prática educativa de atendimento de primeiros socorros na infância.

 

Método

Trata-se de um estudo quase-experimental, com dados analisados quantitativamente, desenvolvido com os profissionais de escolas municipais de uma cidade da região norte do estado do Paraná, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Participaram do estudo todas as 11 escolas municipais de Bandeirantes, e, dentre elas, obteve-se uma amostra não probabilística por conveniência de 88 profissionais. A coleta de dados iniciou-se com o agendamento, via telefonema, da prática educativa, sendo programada uma data de acordo com as disponibilidades de cada escola.

Assim, aqueles profissionais que se disponibilizaram foram abordados individualmente em uma sala de aula, informados sobre os objetivos da pesquisa e convidados a participar dela, além de receberem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário elaborado pelas pesquisadoras, para caracterização sociodemográfica, e questões relacionadas ao tema “primeiros socorros na infância”, aplicados em dois momentos, antes e após a prática educativa. Foram abordadas as seguintes variáveis sociodemográficas: sexo, idade, escolaridade e cargo. Para o pré-teste e pós-teste, foram confeccionadas nove questões objetivas, de múltipla escolha, com apenas uma alternativa correta, aplicadas individualmente e sem ajuda por parte das pesquisadoras.

Os temas específicos contemplados no questionário e durante as práticas educativas foram: Obstrução Total e Parcial das Vias Aéreas, Parada Cardiorrespiratória, Convulsões, Queimaduras, Perfurações e Cortes, que tiveram como referenciais teóricos a American Heart Association, 2015;7o Pre Hospital Trauma Life Support, 20178 e a Liga Brasileira de Epilepsia do Ministério da Saúde, 2018.9

A prática educativa ocorreu por meio de palestra teórica com demonstrações práticas, de maneira dialogada, com duração aproximada de uma hora e meia. O período de coleta deu‑se de setembro de 2018 a março de 2019. Os critérios de inclusão foram: equipe de profissionais que atuam nas escolas municipais; participação completa da prática educativa (pré-teste; prática educativa; pós-teste). Já os critérios de exclusão: profissionais que se encontravam em licença, férias ou falta no dia da coleta. Após a coleta dos dados, foi construído um banco de dados em planilha do programa Microsoft Office Excel para Windows, no qual os dados foram organizados mediante a dupla digitação independente.

Para comparação do conhecimento dos profissionais antes e após a prática educativa, analisou-se o percentual de acertos em cada questão e a média do percentual de acertos total no questionário. Foram utilizados os testes McNemar e Wilcoxon, respectivamente.10 Utilizou-se esse último teste porque os dados foram testados quanto à sua normalidade, e rejeitou-se a hipótese de distribuição normal nos dois momentos. Adotou-se nível de significância de ≤ 0,05.

A pesquisa foi desenvolvida atendendo a todos os preceitos éticos das Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Resolução do Conselho Nacional de Saúde466/12), sob autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Norte do Paraná, com parecer n° 2.697.287, apreciado e aprovado em 6 de junho de 2018. Junto com os instrumentos, entregou-se aos participantes da pesquisa o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que foi assinado, autorizando a sua participação voluntária na pesquisa.

 

Resultados

 

Na Tabela 1, serão apresentadas as características sociodemográficas (sexo, idade, escolaridade e cargo) dos 88 profissionais participantes da pesquisa.

 

Tabela 1 Características sociodemográficas dos profissionais do ensino fundamental de escolas municipais — Bandeirantes, PR, Brasil, 2019

Variáveis

(n)

(%)

Média

Desvio-padrão

Sexo

 

 

 

 

Masculino

1

1,1

 

 

Feminino

87

98,9

 

 

Idade

 

 

 

 

20-35 anos

28

31,8

41,1

9,2

36-50 anos

47

53,4

> 51 anos

13

14,7

Escolaridade

 

 

 

 

Fundamental

1

1,1

 

 

Médio

2

2,3

 

 

Superior

84

95,5

 

 

Cargo

 

 

 

 

Professor

69

78,4

 

 

Diretor

5

5,7

 

 

Secretaria

1

1,1

 

 

Inspeção

1

1,1

 

 

Serviços Gerais

6

6,8

 

 

Motorista

1

1,1

 

 

Coordenação

4

4,5

 

 

 

Houve variação da idade de 22 a 63 anos, com média de 41,16 (DP±9,21). As prevalências foram: sexo feminino (98,9%), curso superior (84; 95,5%) e cargo de professor (69; 78,4%). Os dados referentes ao conhecimento dos profissionais sobre primeiros socorros são apresentados na Tabela 2.

 

Tabela 2 – Análise descritiva das variáveis do questionário para profissionais do ensino fundamental de escolas municipais em relação aos primeiros socorros na infância, considerando o total de acertos antes e após a prática educativa — Bandeirantes, PR, Brasil, 2019

Variáveis

Pré-teste

Pós-teste

Valor de p *

n

%

n

%

1. Em caso de parada cardiorrespiratória, deve ser realizado:

R: 100-120 compressões torácicas/minuto.

7

8,0

83

94,3

< 0,01

2. Em caso de suspeita de parada cardiorrespiratória, o que fazer?

R: Verificar a responsividade, ligar para SAMU (192) e realizar compressões torácicas

84

95,5

85

96,6

1,00

3. São sinais de engasgo:

R: Falta de ar e pele azulada

78

88,6

53

60,2

< 0,01

4. Em qual classificação de queimadura a lesão encontra-se indolor?

R: Terceiro grau.

22

25,0

80

90,9

< 0,01

5. Nos procedimentos realizados em queimaduras, encontram-se:

R: Resfriamento do local com água e/ou compressa

48

54,5

84

95,5

< 0,01

6. No que diz respeito às perfurações e cortes, deve-se:

R: Lavar o local com água e sabão

36

40,9

75

85,2

< 0,01

7. São sinais de convulsão:

R: Perda súbita da consciência e tremores pelo corpo

78

88,6

83

94,3

0,23

8. Em caso de convulsão, o que se deve fazer?

R: Deite a pessoa com a cabeça lateralizada

46

52,3

84

95,5

< 0,01

9. O que fazer em caso de engasgo em criança maior de 2 anos de idade:

R: Fique em pé ou ajoelhado atrás da criança, circunde seus braços ao redor da cintura e aplique compressões no estômago

66

75,0

84

95,5

< 0,01

Legenda: * Teste McNemar.

 

Houve aumento significativo no percentual de acertos após a prática educativa em seis das nove questões (1, 4, 5, 6, 8 e 9), redução do percentual de acertos na Questão 3 e manutenção da frequência de acertos em duas questões (2 e 7). Vale ressaltar que, nessas duas questões, mais de 88% dos profissionais já apresentavam conhecimento sobre o tema. Já a Tabela 3 apresenta a média de acertos no teste de conhecimento sobre primeiros socorros na infância antes e após a prática educativa.

 

Tabela 3 – Percentual médio de acertos no teste de conhecimento, sobre primeiros socorros na infância, de profissionais do ensino fundamental de escolas municipais — Bandeirantes, PR, Brasil, 2019

Estatística

Antes

Depois

Média (DP)

58,71 ± 14,58

89,77 ± 12,40

Mediana

55,55

88,89

Mínimo e máximo

22,22; 88,89

22,22; 100

Teste de normalidade* (p valor)

< 0,001**

< 0,001**

Legenda: * Teste de Kolmogorov-Smirnov. ** Rejeita-se a hipótese de normalidade.

 

 

A comparação do percentual médio de acertos no teste de conhecimento é apresentada na Figura 1.

Figura 1 – Comparação, antes e depois da prática educativa, do percentual médio de acertos no teste de conhecimento sobre primeiros socorros na infância aplicado a profissionais do ensino fundamental de escolas municipais — Bandeirantes, PR, Brasil, 2019

 

 

A Figura 1 apresenta o percentual de acertos após a prática educativa oferecida aos profissionais que atuam com crianças do ensino fundamental e demonstra um aumento significativo na média, com diferença de 31,06% (IC 95%: 27,61; 34,51) e valor de p < 0,001 (teste de Wilcoxon). Além da significância estatística, destaca-se a ampliação de seus conhecimentos sobre o tema pelo aumento absoluto de aproximadamente 30% no conhecimento.

 

Discussão

Após análise dos dados, verificou-se que o percentual predominantemente feminino vai ao encontro de outros estudos realizados no estado de São Paulo (SP) com professores ou profissionais de escolas municipais, estaduais e particulares.11-12 No contexto das profissões historicamente destinadas ao gênero feminino, destaca-se a área da docência como “natural” a mulher optaria pela profissão por ser considerada vocação para ela, pois teria o dom da maternidade, dando origem a qualidades docentes adequadas.13

Observou-se que a maioria dos profissionais tinha o cargo de professores (78,4%); e, no ambiente escolar, são eles os profissionais que permanecem em maior contato com os alunos.14 Sendo assim, têm uma maior probabilidade de presenciar acidentes nesse ambiente, o que torna necessária sua capacitação em primeiros socorros, a fim de minimizar o tempo de atendimento inicial e prevenir futuras sequelas. Porém, não há investimento direcionado para execução de primeiros socorros entre esses profissionais, existindo um despreparo que gera nervosismo e insegurança, resultando na não prestação do socorro inicial ou no mau manejo da vítima.11

Nesse contexto, a análise do conhecimento prévio mostrou que a maioria dos professores não foram capacitados previamente em relação aos atendimentos a primeiros socorros na infância. Estudos desenvolvidos na Etiópia e Brasil encontraram dados similares, justificando a necessidade da inclusão do tema no currículo acadêmico do professor.14-15

Quanto ao questionário pré-teste, encontrou-se uma média percentual de 58,71% de acertos, valor muito próximo ao encontrado na literatura (66,8%), em que também se utilizou um questionário estruturado para avaliar o conhecimento inicial de profissionais sobre primeiros socorros na infância.15 Em consonância, pontuação próxima foi observada em trabalho realizado no centro de recreação infantil, em Campinas-SP, onde 52,1% dos 150 profissionais relataram conhecimento prévio.16 Tal resultado difere do estudo com 284 professores de Educação Física, mostrando que apenas 19,4% dos docentes participantes tinham bom nível de conhecimento em situações de urgência ou emergência na infância.11

É fundamental proporcionar a todos os profissionais que atuam em ambiente escolar o aprendizado teórico/prático simples de ações que podem salvar vidas, como recomendado pelo National Safety Council.17 O enfermeiro é peça-chave na função de capacitar leigos que trabalham em contato com crianças, transmitindo-lhes um mínimo de conhecimento. Isso vale principalmente para essa classe profissional, multiplicadora do saber, considerando a educação em saúde uma alavanca de conhecimento para todos.1,5,18

Entre as principais causas de acidentes relacionados à faixa etária estudada, houve aumento significativo no percentual de acertos após a prática educativa em seis das nove questões abordadas, que incluem os temas: relação de compressões na parada cardiorrespiratória; classificação e atendimento à vítima de queimadura; atuação em crise convulsiva ou engasgo; e noções sobre perfuração ou cortes.

Ao presenciar uma provável parada cardíaca, a conduta inicial será: verificar a responsividade, ligar para o SAMU (192) e realizar compressões torácicas. Nessa questão, os profissionais apresentaram um ótimo conhecimento prévio, representado por 95,5% de acertos no pré-teste. Em comparação com outros estudos, o contrário foi encontrado em pesquisas realizadas no Brasil e Nigéria, que afirmaram um déficit no conhecimento em ambiente escolar sobre as práticas de ressuscitação cardiopulmonar.15,19

Entretanto, reportando-se ao conhecimento prévio dos profissionais, quanto às compressões torácicas durante uma reanimação cardiopulmonar e à importância de realizá-la em uma velocidade de 100-120 compressões por minuto, o resultado da questão apresentou um percentual preocupante de apenas 8% de acertos. Nesse caso, o conhecimento inadequado poderá influenciar negativamente as taxas de sobrevivência.19 Porém, após a prática educativa, houve um positivo avanço na apreensão de conhecimento, que evoluiu para um percentual de 94,3% dos acertos.

Outra emergência importante é a crise convulsiva, que promove perda da consciência associada ou não às contraturas musculares involuntárias parciais ou generalizadas, exigindo ação imediata e precauções específicas que previnam danos maiores.20 Orienta-se que, durante a crise, a vítima seja deitada com a cabeça lateralizada para prevenir a broncoaspiração; além disso, a lateralização servirá como medida de conforto para o paciente.21

Sobre o tema, foi encontrado um resultado positivo neste estudo, o de que 88% dos profissionais já tinham um conhecimento prévio para a identificação de crise convulsiva ou epilética. Já, para prestar um cuidado a esta vítima no momento da crise, apenas 52,3% dos participantes saberiam como agir corretamente, porém com um aumento significativo no percentual (95,5%) após a prática educativa. Por outro lado, estudos realizados sobre a identificação e abordagem em crises epiléticas mostraram que a maior proporção de pesquisados agiu inadequadamente antes da capacitação sobre o tema.15,22

Identificou-se redução do percentual de acertos na questão que abordou o reconhecimento de via aérea obstruída. Esse fato pode estar atrelado a uma falha das pesquisadoras durante a prática educativa, que podem não ter evidenciado de maneira clara e concisa a diferença entre os sinais de obstrução total ou parcial, gerando conflito no entendimento por parte dos profissionais e, consequentemente, levando à redução do percentual de acertos nessa questão. Tal resultado diverge de estudo no qual 79% dos entrevistados conseguiram reconhecer uma obstrução de via aérea, sendo a questão com maior porcentagem de acerto.12

Em contrapartida, os profissionais apresentaram conhecimento satisfatório anterior à prática educativa de 75%, evoluindo para 95,5% após a prática, no que tange à ação em caso comprovado de engasgo em criança maior de 2 anos, que teve resultado similar (70,1%) quando avaliado o conhecimento prévio com professores da rede pública.15

As queimaduras ocorrem com menor intensidade na infância, todavia podem causar uma incapacidade física temporária e até sequelas a depender da extensão, gravidade e não atendimento emergencial primário.23 No que se refere aos procedimentos a serem realizados diante desse acidente, os profissionais apresentaram significante acerto no pós-teste (95,5%). Os mesmos resultados foram encontrados (96,9%) em profissionais atuantes em sete escolas, no Mato Grosso, de educação especial para crianças, adolescentes e jovens com deficiência, após intervenção.24

Já as taxas de incidência de cortes são frequentes, sobretudo em ambiente escolar que permite a convivência de muitas crianças no mesmo local.23 Os resultados após a prática educativa foram positivos, totalizando 85,2% nessa temática.

O estudo indicou uma melhora significativa na retenção de conhecimento após a prática educativa, quando comparados os questionários pré-teste (58,7%) e pós-teste (89,7%). Isso converge com desfechos que também encontraram resultados positivos após intervenções,6,18-19 devido à capacidade de manifestar conhecimento em saúde e aplicabilidade de primeiros socorros em situações potenciais em ambiente escolar.

Em 2019, uma pesquisa realizada no Brasil objetivou avaliar o conhecimento, sobre primeiros socorros, de professores que atuam no ensino fundamental de escola pública e privada: o modelo de regressão linear múltipla mostrou que os professores atuantes na rede privada e os que receberam capacitação ao longo de sua graduação obtiveram melhor pontuação avaliativa.15

Diante das discussões referidas, é notório que as propostas de capacitações envolvendo saúde e educação sobre primeiros socorros ainda são um desafio. Por isso, popularizar a teoria e prática durante abordagem e ação inicial para primeiros socorros é fundamental em ambiente escolar. Em contrapartida, devido à prática educativa ter ocorrido no horário de funcionamento das escolas, não foi possível que todos os profissionais das unidades fossem capacitados, gerando uma limitação na pesquisa e tornando necessário realizar um novo projeto a fim de que os demais sejam contemplados, haja vista a importância da temática.

 

Conclusão

O estudo mostrou que o nível de conhecimento em primeiros socorros por profissionais de escolas municipais foi relativamente baixo antes da prática educativa. Esse conhecimento precisou ser aprimorado, já que o investimento neste processo de ensino‑aprendizagem permite um atendimento correto e de qualidade à vítima, até a chegada do serviço de emergência especializado.

Os participantes da pesquisa mostraram-se dispostos e cientes da importância em obter o conhecimento sobre primeiros socorros na infância, ministrado por profissionais de saúde, resultando em uma formação eficaz como demonstra o aumento significativo na média de acertos do pré-teste e pós-teste, com diferença de 31,06%.

Ademais, o enfermeiro inserido em cenário escolar na construção do processo de atividades educativas em saúde apresenta-se como peça-chave no fortalecimento da relação entre a área da saúde e a escola, considerada uma ação tão necessária para o enfrentamento das situações que afetam crianças e adolescentes.

Tendo em vista os fatores de risco a que crianças em ambiente escolar estão expostas, é preciso que gestores incentivem a formação em primeiros socorros desses profissionais, sobretudo dos professores, podendo ser acrescentada essa temática como obrigatória no plano pedagógico escolar, o que aumenta a probabilidade de reduzir os danos causados por acidentes na infância.

 

 

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Editora Científica: Tânia Solange Bosi de Souza Magnago

Editora associada: Silvana Bastos Cogo

 

 

Autor correspondente

Priscila Alvim de Lima

E-mail: priscilaalvimlima@gmail.com

Endereço: Bandeirantes. Presbítero Francisco Nogueira, 288- Vila Maria Alice.

CEP: 86.360-000

 

 

Contribuições de autoria

 

1 – Priscila Alvim de Lima

Concepção ou desenho do estudo/pesquisa, análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

2 – Thaísa Mariela Nascimento de Oliveira

Concepção ou desenho do estudo/pesquisa, análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

 

3 Ana Cândida Martins Grossi Moreira

Análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

4 Ricardo Castanho Moreira

Análise e/ou interpretação dos dados

 

5 Eleine Aparecida Penha Martins

Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

6 Aline Balandis Costa

Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

 

Como citar este artigo

Lima PA, Oliveira TMN, Moreira ACMG, Moreira RC, Martins EAP, Costa AB. Primeiros socorros como objeto de educação em saúde para profissionais de escolas municipais. Rev. Enferm. UFSM. 2021 [Acesso em: Ano Mês Dia]; vol.11 e: 1-16. DOI:https://doi.org/10.5902/2179769243292



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