REMOA, Vol. 18 (2019), e12

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/2179460X38391

Received: 31/05/2019 Accepted: 23/10/2019

 

by-nc-sa

 

Seo Prticas Educativas Ambientais

 

Por uma educao ambiental crtica no contexto escolar: reflexes a partir das representaes dos alunos

 

For a critical environmental education in the school context: reflections from the students' representations

 

Salatiel Rocha da Rocha GomesI

Jos Vicente de Souza AguiarII

 

I Professor e doutorando do programa de ps-graduao em sociedade e cultura na Amaznia Universidade Federal do Amazonas, AM - salatielrocha@yahoo.com.br

 

II Doutor em educao. Professor adjunto, Universidade Federal do Amazonas, AM
Universidade Federal do Amazonas, AM - jovicente@uea.edu.br

 

 

Resumo

A Educao ambiental Crtica no contexto escolar vem ganhando foras a partir de um coletivo de pensamento que sugere a insero de aspectos sociais, polticos, ticos, estticos, econmicos e culturais no debate da temtica ambiental, ou seja, vai alm do aspecto naturalista/biolgico/conservador. Nesse sentido, temos como principal objetivo geral verificar que representaes alunos de uma turma de 9 ano possuem sobre meio ambiente, apontando as limitaes e as potencialidades de tais representaes. Utilizou-se textos, desenhos, aula-passeio e um teste de evocao de palavras como tcnica de coleta de dados. Percebeu-se que os alunos relacionam meio ambiente apenas ideia de natureza, utilizando-se fauna e flora, preservao, lixo, limpeza e cuidado como palavras-chaves dessas representaes, ou seja, ainda presente no contexto escolar a concepo conservadora e preservacionista da educao ambiental.
Palavras-chave: Conservacionista; Crtica; Educao ambiental; Meio ambiente

 

 

Abstract

Critical environmental education in the school context has been gaining strength from a collective of thought that suggests the insertion of social, political, ethical, aesthetic, economic and cultural aspects in the debate on the environmental theme, that is, it goes beyond the naturalistic aspect / biological / conservative. In this sense, we have as main general objective to verify that representations students of a class of 9 year have on environment, pointing out the limitations and the potentialities of such representations. We used texts, drawings, class-walk, and a word recall test as a data collection technique. It was noticed that the students relate environment only to the idea of nature, using fauna and flora, preservation, garbage, cleaning and care as key words of these representations, that is, it is still present in the school context the conservative and preservationist conception of environmental education.
Keywords: Conservationist; Critical; Environmental education; Environment

 

 


 


1 Introduo

Quando comeamos a discutir sobre meio ambiente a primeira pergunta que geralmente fazemos : Afinal, de que meio ambiente estamos falando? De um conceito ou de uma representao social? Reigota (2007) considera o meio ambiente como uma representao social e no um conceito cientfico. Trata-se de um processo de entendimento que evolui durante o tempo e que depende do grupo que utiliza, o que faz com que, para o autor, o meio ambiente seja o lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais esto em relaes dinmicas e em interao (REIGOTA, 2007, p.14). A definio de Reigota sustentou nossas abordagens durante as reflexes que realizamos nesse estudo, pois entendemos a indissociabilidade entre natureza, ambiente e sociedade.

No Parmetro Curricular Nacional (PCN) de Meio Ambiente e Sade, o meio ambiente definido como um espao em que um ser vive e se desenvolve, trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o (BRASIL, 1997). As definies acima mencionam a relao e a interao como palavras-chave para se compreender a expresso meio ambiente. Neste sentido, interessante dizer que os elementos naturais e sociais esto interligados e indissociveis. Os elementos naturais citados no PCN do Meio Ambiente e Sade podem ser retratados da seguinte maneira:

 

So como a natureza os fez, sem a interveno direta do homem: desde cada recurso natural presente num sistema, at conjuntos de plantas e animais nativos, silvestres; paisagens mantidas quase sem nenhuma interveno humana; nascentes, rios e lagos no atingidos pela ao humana (BRASIL, 1997, p.32).

 

Neste entendimento, os elementos sociais esto ligados s questes da sociedade, o que constitui um olhar sobre o modo e o estilo de vida das pessoas, o que possibilita uma reflexo sobre questes como as desigualdades sociais. Outra caracterstica corresponde aos espaos j modificados pelo homem, como praas, jardins, plantaes, praias urbanizadas, bosques, reas de lazer, dentre outros, que so ambientes criados para convivncia. Estes espaos, so por ora, pouco inseridos como integrantes do meio ambiente, necessitam de aes, principalmente do Estado. Por esta razo, a importncia de dilogos visando aes viveis e proativas e no apenas o pensamento naturalista, inserido contextos como o poltico. (CARVALHO, 2008).

 

 

2 Educao Ambiental no contexto escolar

Percebe-se que natural nas escolas no falar muito das diferentes dimenses da educao ambiental, seja por sua complexidade ou pela prpria formao dos professores Todavia, essas discusses devem ser motivadas pela escola, para que se formem educandos e cidados que no reduzam o conceito de meio ambiente a natureza.

 

Deve-se considerar que, como a realidade funciona de um modo sistmico em que todos os fatores interagem, o ambiente humano deve ser compreendido em todos os seus inmeros problemas. Tratar a questo ambiental, portanto, abrange toda a complexidade da ao humana: se quanto s disciplinas do conhecimento ela um tema transversal, interdisciplinar, nos setores de atuao da esfera pblica ela s consolidada numa atuao do sistema como um todo, sendo afetada e afetando todos os setores: educao, sade, saneamento, transporte, obras, alimentao, agricultura, etc (BRASIL, 1998, p.44).

 

O olhar complexo, que analisa o todo no pela juno das partes, mas em sua totalidade e na capacidade de interagir com diferentes elementos (MORIN, 2006) prope que no se reduza o ato educativo transmisso de informaes das cincias naturais, onde o professor teria a funo de, minimamente, difundir as verdades, da maneira como se constituram, transformando-o em um decodificador e difusor dessas informaes prontas e acabadas (CARVALHO, 2008). O contrrio seria possibilitar aos educandos momentos de aprendizagem por meio dos quais teriam condies de problematizar e questionar.

Compactuamos com a posio de Leff (2001, p.17) quando relata que o ambiente no ecologia, mas a complexidade do mundo; um saber sobre as formas de apropriao do mundo e da natureza atravs de relaes de poder que se inscreveram nas formas dominantes de conhecimento.

Portanto, qualquer discusso sobre a questo ambiental que prescinda o olhar poltico iniciar de forma limitada, pois h relaes diretas entre as discusses de justia ambiental e as de natureza poltica. Essa a mensagem que essencialmente queremos estabelecer nesse texto. A seguir, conheceremos as concepes sobre meio ambiente, que constam da literatura cientfica.

Uma das cartografias mais citadas nos estudos sobre meio ambiente a de Sauv (2005), em que a autora faz um mapeamento das diferentes concepes sobre o tema. Ela menciona que meio ambiente o cadinho em que se forjam nossa identidade, nossas relaes com os outros, nosso ser-no-mundo (SAUV, 2005, p. 317). Esse pensamento sugere a insero do homem como parte integrante da natureza, por isso, a palavra relao to presente nos discursos mais politizados sobre o assunto. A autora descreve diferentes compreenses sobre o meio ambiente: como natureza, recurso, problema, sistema, como o lugar onde se vive, biosfera e projeto comunitrio.

Em relao s prticas de Educao Ambiental realizada nas escolas e nos movimentos sociais percebe-se que a mais comum a ideia de meio ambiente como natureza. No entanto, est emergente tambm os discursos da sustentabilidade, utilizando-se de tcnicas de gesto para minimizar o impacto ambiental, que circunscreve o pragmatismo ambiental.

 

A despolitizao do debate ambiental estabelece a possibilidade de busca de solues tecnocrticas e gerenciais dos problemas, desvinculadas da anlise do padro societrio. Por isso, comum falar-se em alternativas exclusivamente tecnolgicas para resolver os problemas da poluio, alimentao, conservao dos recursos naturais, como se a gesto de recursos naturais, em uma base cientfica rigorosa, fosse possvel fora de um contexto histrico e sociopoltico determinado (LOUREIRO, 2003, p.12- Grifo nosso).

 

O trecho destacado cima expressa a ideia pragmtica da questo ambiental que vem ganhando muitos adeptos, principalmente por uma boa parte dos empresrios. Assim, muitas fbricas acabam se instalando e se sustentando sob a gide desse movimento pragmtico, tido como salvacionista.

Outro mapeamento das concepes sobre meio ambiente foi realizado por Marcos Reigota (2006), o qual criou trs tipologias. A primeira, denominada de naturalista, relacionada, basicamente, aos aspectos naturais; a segunda, chamada de antropocntrica, na qual o meio ambiente caracterizado como recurso para a sobrevivncia do ser humano e a terceira, tida como globalizante, integra natureza e sociedade.

Todas essas concepes, tanto a de Sauv (2005) quanto a de Reigota (1995) consideram as mltiplas formas de entendimento sobre meio ambiente. Deste modo, o consenso que encontramos nos textos dos autores corresponde necessidade de no olhar para um nico caminho, que no se tratam de concepes erradas, mas que se complementam.

Em 2015, a carta Encclica do Papa Francisco conseguiu mostrar essa multiplicidade e teve uma repercusso mundial bastante aceitvel. claro que no podemos esperar que, a partir dela, mudanas aconteam. Porm, o legado da carta foi ressaltar que a questo ambiental e o cuidado com a casa comum esto relacionados crise social. necessrio pensar, segundo o papa, em uma ecologia integral, pois questes como aquecimento global, falta de gua, gerao de resduos e outros problemas ambientais, causam danos a todos, porm, mais fortemente aos pobres, que, geralmente, vivem em lugares vulnerveis. Nas palavras do Pontfice (p.107): Do momento que tudo est intimamente relacionado e que os atuais problemas exigem um olhar que atenda a todos os aspectos da crise mundial, proponho uma ecologia integral que compreenda claramente as dimenses humanas e sociais.

A carta Encclica tambm menciona, de forma analtica e crtica, problemas como os padres dominantes de produo e consumo; tece consideraes sobre o antropocentrismo e sugere uma nova postura frente s injustias sociais. Relata repetidamente que a questo ambiental est interligada questo social. Toda anlise dos problemas ambientais inseparvel da anlise dos contextos humanos, familiares, trabalhistas, urbanos e da relao de cada pessoa consigo mesma, que cria um determinado modo de relaes com os outros e com o ambiente (p.109).

Pensar nessas diferentes compreenses sobre o meio ambiente mais consensual do que divergente, no entanto, necessrio relacion-las prtica de Educao Ambiental nas escolas e nos movimentos sociais. Para Reigota (2007), as concepes que as pessoas possuem sobre meio ambiente, balizaro as prticas e os entendimentos sobre a Educao Ambiental. Cabe aqui, a seguinte interrogao: Quais, necessariamente, so as intenes desta Educao Ambiental posta no contexto atual da sociedade?

 

2 Caminho Metodolgico

A pesquisa foi realizada em uma turma de 9 ano, de uma escola Municipal da Cidade de Manaus. Participaram 28 alunos, da idade de 15 a 17 anos, os quais foram autorizados, via termo de livre consentimento e esclarecimento, por seus responsveis.

Iniciamos nossa atividade de campo apresentando a proposta de pesquisa aos alunos, deixando clara a inteno do estudo. Os alunos ficaram entusiasmados com a proposta e mencionaram que estavam dispostos a adquirirem novos conhecimentos. Mencionamos que tratava-se de uma pesquisa que aconteceria na escola, em seu entorno e nos espaos no-formais. Comentaram que era necessrio conhecer mais sobre o meio ambiente porque havia muitos alunos que sujavam e no jogavam o lixo no lixo, nem faziam direitinho a coleta seletiva.

Solicitamos um nome para o grupo. Determinamos 30 minutos para a escolha do nome, dentre as seguintes sugestes: SOS Natureza, SOS Meio Ambiente; LNL (Lixo no Lixo), Grupo Verde e LEV (Limpeza Vida) que foi o mais votado e, portanto, o nome escolhido para o grupo. Pelo nome, j imaginvamos qual seria a maior representao que os alunos teriam sobre meio ambiente.

Surgiu a ideia de criar um grupo no aplicativo WhatsApp para discutirmos algumas temticas. Uma aluna, que se prontificou a ser secretria do grupo, e a seguir adicionou os participantes e uma imagem, conforme figura 1. Na primeira semana, no postaram nenhum comentrio sobre o foco do estudo. As postagens eram voltadas s relaes de amizade e das disciplinas do colgio, em uma linguagem tpica dos adolescentes. Porm, os deixamos livres para que pudessem tecer comentrios de forma espontnea. Dos 29 alunos, 20 possuam o aplicativo e participavam de algumas discusses que faramos posteriormente.

 

Figura 1 - Imagem colocada pelos alunos na capa do Grupo no WhatsApp

559281373044-1424388064

Fonte: Dados da pesquisa

 

A partir do contrato didtico inicial, realizamos trs momentos para verificarmos as representaes iniciais dos estudantes sobre o meio ambiente. Utilizamos as atividades de textos, desenhos e aula-passeio. Para realizao dessas atividades, nos sustentamos nos textos de Giordan e Vecchi (1996, p.104), quando relatam que a utilizao de uma s ferramenta didtica muito artificial e, em todo o caso, por demais pobre para dar conta de uma concepo precisa.

 

3 As representaes atravs de textos

A primeira atividade realizada foi a de produo de textos, atravs de um questionrio com uma nica questo[1]. Dizia: Descreva o que voc compreende sobre o tema Meio Ambiente. Teve-se o cuidado de no induzirmos as respostas como nos adverte Becker (1997). As respostas foram categorizadas, conforme a proposta de Bardin (1977), descobrindo, os ncleos de sentido e luz dos estudos sobre meio ambiente de Sauv (2005)[2].

 

Quadro 1 - Representaes dos alunos sobre meio ambiente nos textos.

 

Categorias

Qtde. de respostas

(%)

Definio de Categoria

Relao do meio ambiente somente com a natureza.

25

84

O meio ambiente relacionado apenas natureza, como a fauna e flora, rios etc.

Relao do meio ambiente com a sociedade

0

0

Percepo que meio ambiente envolve as dimenses social, econmica, poltica, tica e que h indissociabilidade entre natureza e sociedade. Inclui o homem como integrante do ambiente.

Definio que meio ambiente tudo.

2

6

Viso generalizada de que meio ambiente tudo.

Meio Ambiente como lugar para se viver.

0

0

O lugar onde vivemos, moramos, como o bairro, nossa casa, cidade e comunidade.

Meio Ambiente como recurso.

3

10

Preocupao com os recursos naturais, sendo necessria a gesto dos recursos.

No elucidado.

0

0

No se evidencia qual a compreenso sobre meio ambiente.

TOTAL

30

100

 

 

Fonte: Elaborao dos autores

 

De acordo com o quadro 1, constatamos que 84% das respostas se relacionam com a ideia de meio ambiente como natureza, caracterstica de uma educao ambiental conservacionista como aponta Guimares (2004). Destacamos o seguinte bloco de falas:

 

Meio Ambiente como natureza

 

(E2) Para mim, o meio ambiente significa cuidar da natureza, porque no legal passear e ver a floresta cheia de latas, sacolas e garrafas.

 

(E6) O meio ambiente um bem natural que Deus nos deixou para preservamos e cuidarmos. Nele, apreciamos belas paisagens, como rios, rvores. Estas, porm, infelizmente, esto sendo destrudas pelo homem. Outra coisa que me entristece muito no meio ambiente o desmatamento. Temos uma floresta to bonita, to imensa, mas o homem tambm est destruindo. Devemos cuidar do meio ambiente como cuidamos de nossa casa, pois em nossa casa no jogamos lixo, no destrumos as coisas. Assim, devemos cuidar daquilo que Deus nos deixou.

 

(E7) Para mim, o meio ambiente, ou seja, a natureza, muito importante e se todos fizerem sua parte conseguiremos tanto viver em paz com a natureza quanto com ns mesmos.

 

Meio Ambiente tudo

 

(E3) O meio ambiente tudo o que h de melhor, portanto, no devemos jogar lixo nas ruas, e sim em suas lixeiras, as rvores, as plantas, jardins localizados em florestas fazem parte da natureza e at mesmo ns fazemos parte dela. Tudo isso constitui o meio ambiente.

 

(E4) Meio ambiente envolve tudo o que faz parte de nossas vidas, meio ambiente respeito, ajuda, compreenso, persistncia, carinho e amor e vrias outras coisas. Devemos cuidar do ambiente onde vivemos, isso inclui no jogar lixo nos rios e nos lagos e nem na rua, no desmatar nossa floresta, aprender a reutilizar as coisas que so possveis, enfim, devemos cuidar do que nosso, cuidar do nosso planeta, por isso, o dever de preservar;

 

Meio Ambiente como recurso

 

(E1) O que aprendi sobre meio ambiente que temos que economizar gua na hora de tomar banho, na hora de escovar os dentes, na hora de lavar a loua, na hora de lavar o carro e a moto, porque a nossa gua um dia pode acabar, como em So Paulo. Eles tambm tinham gua com abundncia como ns temos. Ento, para que isso no venha acontecer conosco, vamos economizar gua.

 

(E5) O que eu posso falar de meio ambiente que nos dias de hoje a poluio est mais avanada do que antigamente como os rios. Antes a gua era pura e dava pra beber e, agora, ns s vemos lixo, no d para beber e nem para tomar banho; os esgotos so entupidos de lixo, pois as pessoas jogam na rua e o lixo acumula e vai entupindo esgoto e poluindo, alm de causar mau odor e atrair doenas e ratos. O que ns podemos fazer para ajudar o meio ambiente na hora da coleta de nossos lixos temos que separar eles. Se tem garrafa plstica, faa algum artesanato para reciclar o plstico. Vamos parar de jogar lixo na rua. Em vez de andar de nibus, vamos caminhar ou andar de bicicleta.

 

A fala do E1 menciona um grande problema que temos na maioria das prticas de educao ambiental nas escolas: o de citar apenas a preservao e a conservao dos recursos, conforme j mencionava os estudos de Reigota (2007) e Guimares (2004). Estas prticas influenciam diretamente nas representaes dos alunos, sendo o posicionamento comportamentalista, o mais citado pelos alunos. O relato do E5, uma reproduo de um discurso usualmente utilizado com efeito de verdade, no qual somente algumas aes, como separar o lixo corretamente, andar de bicicleta e reciclar ajudam no combate destruio do meio ambiente.

De modo geral, as falas dos educando apresentaram esses elementos, so respostas convencionais, provenientes de um discurso centrado no indivduo, apenas. Seguiremos ainda, avaliando as representaes, s que, agora, atravs de desenhos.

 

3.4 As representaes atravs de desenhos

A segunda atividade realizada foi a produo de desenhos. Foram feitos desenhos livres, sem quaisquer intervenes dos pesquisadores. Continuamente perguntavam se podiam desenhar isso ou aquilo e percebamos a preocupao dos alunos em demonstrar aquilo que era belo. Uns diziam que no sabiam desenhar, por isso seus desenhos sairiam feios. Entretando, no era esse o nosso objetivo, queramos compreender as suas representaes. Mesmo nas conversas espontneas que tnhamos com eles ao realizarem os desenhos, j observamos a concepo predominante de ambiente como natureza. As rvores, a fauna e a flora, o sol e o rio foram as imagens mais presentes em seus desenhos.

Frases como Jogue o lixo na lixeira, Preserve a natureza e A natureza linda ganharam destaque nos desenhos. Essa questo foi bastante comentada pelos alunos no momento em que desenhavam e esto analisadas conforme quadro 2.

 

Quadro 2 - Representaes dos alunos sobre meio ambiente nos desenhos

Categorias

Qtde de respostas

(%)

Definio de Categoria

Relao do meio ambiente somente com a natureza.

19

76

Desenhos que contm apenas elementos da natureza: fauna, flora, gua, rios, sol, nuvens etc.

Relao do meio ambiente com a sociedade e a natureza.

-

-

Desenhos que revelam aspectos da sociedade, relacionados s questes sociais, econmicas e polticas etc.

Meio ambiente como problema.

5

20

Desenhos que expressam problemas ambientais: lixo, poluio etc.

Meio ambiente como recurso.

1

4

Desenhos que propem alternativas para problemas ambientais, como coleta seletiva, reciclagem etc.

No elucidado.

-

-

No se evidencia qual a compreenso sobre o meio ambiente.

TOTAL

25

100

 

Fonte: Elaborao dos autores

 

O que constatamos no quadro 2 que a concepo predominante foi a do meio ambiente como natureza. Acreditamos que esta abordagem no politizada fruto de um discurso produzido, histrico e emergente de uma escola de formao que orientou, durante muito tempo, a compreenso sobre meio ambiente e, consequentemente, a Educao Ambiental. Por isso, quase sempre, verificamos a repetio de alguns elementos, tais como, rvores sempre verdes e cheias de frutos e flores, o sol ora sorrindo ora chorando, as nuvens e pssaros sempre em grupo. Como Orlandi (2007) expe:

 

Alguma coisa mais forte que vem pela histria, que no pede licena, que vem pela memria, pelas filiaes de sentidos constitudos em outros dizeres, em muitas outras vozes, no jogo da lngua que vai-se historicizando aqui e ali, indiferentemente, mas marcada pela ideologia e pelas posies relativas ao poder traz em sua materialidade os efeitos que atingem esses sujeitos apesar de suas vontades. O dizer no propriedade particular. As palavras no so s nossas (ORLANDI, 2007, p.32).

 

Em geral, as imagens revelam uma natureza que bela, organizada, colorida, quase sempre limpa, mesmo com a grande quantidade de mensagens quanto ao lixo. Este tipo de natureza idealizada pelos alunos como a que sempre est em perfeita harmonia com os homens. Nas figuras 2 e 3 , so exibidas duas ilustraes confeccionadas em sala de aula.

 

Figura 2 - Desenho representando meio ambiente como natureza Estudante 1

Fonte: Dados da Pesquisa

 

Figura 3 - Desenho representando meio ambiente como natureza Estudante 2

Fonte: Dados da Pesquisa

 

Uma interessante caracterstica presente nos desenhos acima so as imagens das rvores e animais. Apesar dos discursos de que boa parte da fauna e flora esto em constante degradao, como o caso do desmatamento ilegal, elas aparecem sempre bem conservadas, com folhas, flores e muito verde. Os animais possuem a mesma forma e esto sempre voando, o que caracteriza a harmonia entre homem e natureza.

Outros desenhos expressaram o meio ambiente como recurso, destacando a necessidade de atividades como reciclagem e coleta seletiva, conforme expressa o desenho da figura 4:

 

Figura 4 - Desenho representando meio ambiente como recurso Estudante 3

Fonte: Dados da Pesquisa

 

Mesmo apresentando elementos da fauna e flora, o desenho da figura 4 destaca-se pela insero de depsitos de coleta seletiva e construo de uma casa do meio ambiente. Possivelmente, o aluno entende a necessidade de se ter uma gesto dos recursos.

Na figura 5, o desenho expressa o meio ambiente como problema.

 

Figura 5 - Desenho representando o meio ambiente Estudante 4

Fonte: Dados da Pesquisa

 

O desenho mostra possveis interpretaes relacionadas vida urbana, caracterizada, principalmente, pela presena de prdios e automveis. O educando tambm fez meno ao problema ambiental: o lixo. Nos desenhos apresentados, tem-se o meio ambiente relacionado somente natureza como a maior representao social dos alunos, confirmando a mesma ideia obtida nos textos.

3.5 As representaes atravs de uma aula-passeio no bairro

A ltima atividade conduzida foi a aula-passeio no bairro, conforme figuras 6 e 7. Os alunos, autorizados pelos responsveis, sentiram-se entusiasmados ao realizar a visita nas ruas do bairro, seja por sarem com seus pares ou mesmo pelo objetivo da visita. Explicamos o objetivo da visita e pedimos que anotassem o que eles percebiam sobre o meio ambiente.

Neste momento, no era nossa inteno que expressssemos nossas impresses, mas que, de maneira livre, eles apontassem questes sobre o meio ambiente. Primeiramente, visualizaram apenas problemas relacionados ao lixo. Na sequncia, admiraram-se das placas ou indicaes. Tudo se voltava ao lixo. A admirao pelas placas mencionando Jogar lixo na lixeira, ou ento, da quantidade de lixo no cho, nos levava a, previamente, perceber que as suas representaes se voltavam questo da limpeza, mesmo quando ao comprarem dindin[3], jogavam a embalagem no cho.

 

Figura 6 - Estudantes caminhando no bairro

Fonte: Dados da pesquisa

 

Ao passarmos pela serraria uma aluna teve a curiosidade de perguntar a um morador se o carro do lixo passava todos os dias. O morador falou que no, que esse um problema do bairro e que ningum resolve. Segundo o mesmo, o caminho do lixo passa apenas duas vezes na semana, fato que faz com que o lixo se acumule nas caladas das casas.

A mesma aluna, com a devida permisso, entrou em contato com a unidade da secretaria municipal de limpeza pblica, e questionou a respeito da coleta de lixo. A secretaria informou que a coleta ocorre diariamente, o qual no corresponde a informao obtida anteriormente por um membro da comunidade.

 

Figura 7 - Estudantes observando um dos igaraps do bairro

Fonte: GOMES, Salatiel da R; AGUIAR, J.V, 2015

 

Outro ponto de parada foi o entorno do cemitrio do bairro e, ao chegarmos, visualizamos vrios meninos soltando pipa dentro do local. Segundo os alunos, um hbito, at porque o cemitrio fica prximo s casas e no h muros nas laterais. Comenta-se que j houve casos de encontrarem crianas brincando com o crnio de pessoas. Como um cemitrio pode ser praticamente uma rua do bairro, onde as pessoas circulam livremente e crianas brincam como se estivessem nos quintais de suas casas?

O prximo ponto de parada foi em um barraco. De incio, no estava em nosso plano visitar, mas um aluno nos perguntou se poderamos parar ali, pois queria nos mostrar algo relacionado ao meio ambiente. Dissemos que sim e todos caminhamos at o local. O interessante foi perceber que alguns deles ainda no conheciam o local, mesmo sendo moradores daquele bairro. O lugar totalmente caracterizado por situaes precrias de moradia[4] e de pessoas residindo em extremo perigo, principalmente de desabamento. No entanto, fomos levados pelos alunos a alguns pequenos lixes, que os impressionaram. Concluram que as pessoas no zelam pelo lugar onde moravam.

Durante o retorno escola, ouvimos seus comentrios e impresses sobre o passeio, e mencionaram o quanto tinha sido legal essa visita e que queriam conhecer outros lugares do bairro e, assim, terminamos nossa aula-passeio ouvindo, dentro do nibus, os alunos cantarem msicas que no conhecamos, mas que retratavam seus gostos musicais.

No encontro seguinte, solicitamos aos alunos que fizessem um mapa livre, descrevendo algumas palavras que representariam o que encontraram ou mesmo definiam o bairro em que moravam e a sua relao com o meio ambiente. No definimos quantidade de palavras e os deixamos vontade para que escrevessem. O quadro 3 traz as palavras evocadas pelos educandos.

 

Quadro 3 - Palavras evocadas pelos alunos nas representaes iniciais

Palavras

Quantidade

Palavras

Quantidade

Cuidado

24

Harmonia

4

Natureza

24

Conscincia

4

Preservao

18

Responsabilidade

3

Fauna e Flora

16

Casas

3

Limpeza

9

Reciclagem

3

Florestas

9

Cidades

2

Lixo

9

Sade

2

Pessoas

8

Riquezas

2

Poluio

8

Lar

2

Rios e lagos

8

Deus

2

Amor

8

Paisagem

2

Animais

7

Ecossistema

1

Biodiversidade

7

Praas

1

Planeta

7

Justia

1

gua

7

Cidadania

1

Ar

6

Contaminao

1

Respeito

5

Comunidade

1

Lugar

5

Amizade

1

Lazer

5

Queimada

1

Desmatamento

4

Famlia

1

Fonte: Elaborao dos autores

 

 

Consideraes Finais

A pesquisa realizada a partir das representaes dos alunos mostrou algumas fragilidades existentes no contexto escolar a respeito da educao ambiental, limitada apenas a uma vertente. Uma possvel justificativa para esse cenrio podemos encontrar no processo de formao dos professores e nos modos de subjetivao presentes principalmente nos meios e redes sociais, os quais, maciamente apontam apenas para o aspecto biolgico.

Como mencionamos, torna-se um problema quando a escola se sustenta por uma nica concepo, por isso, importante investir, dentro do contexto escolar, em dilogos interdisciplinares que percebam o homem integrado sociedade e que insiram os aspectos da educao ambiental crtica, dando luz e sentido aos diferentes aspectos que envolvem o meio em que vivemos.

 

 

Referncias

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1 Trazemos o pensamento de Giordan e Vecchi (1996, p.108), quando mencionam que as perguntas abertas permitem ao pesquisador no revelar suas motivaes ou suas prprias representaes.

 

2 Sabemos que as respostas podem estar relacionadas a vrios tipos de concepo, todavia, analisamos a ideia central, categorizando-a na concepo predominante.

 

3 Trata-se de um suco congelado vendido em saco plstico.

 

4 Apesar do censo de 2010, apontado pelo IBGE, no apresentar no bairro, moradias em condies subnormais, possvel presenciar vrias casas em depresses de terra, praticamente firmadas em barrancos. Outras, so montadas em locais que no so planos, por vezes, uma em cima da outra. Alm disso, muitas famlias, que possuem mais de 5 (cinco) pessoas, por exemplo, moram em apenas um quarto.



[1] Trazemos o pensamento de Giordan e Vecchi (1996, p.108), quando mencionam que as perguntas abertas permitem ao pesquisador no revelar suas motivaes ou suas prprias representaes.

[2] Sabemos que as respostas podem estar relacionadas a vrios tipos de concepo, todavia, analisamos a ideia central, categorizando-a na concepo predominante.

[3] Trata-se de um suco congelado vendido em saco plstico.

[4] Apesar do censo de 2010, apontado pelo IBGE, no apresentar no bairro, moradias em condies subnormais, possvel presenciar vrias casas em depresses de terra, praticamente firmadas em barrancos. Outras, so montadas em locais que no so planos, por vezes, uma em cima da outra. Alm disso, muitas famlias, que possuem mais de 5 (cinco) pessoas, por exemplo, moram em apenas um quarto.



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