REMOA, Vol. 18 (2019), e2

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/2179460X36981

Received: 19/02/2019 Accepted: 12/03/2019

 

by-nc-sa

 


Seo
Prticas Educativas Ambientais

 

Oficina EtnoeducAtiva: uma proposta interdisciplinar de sensibilizao socioambiental em rea costeira

 

Ethnoeducational Workshop: an interdisciplinary proposal for socio-environmental awareness in the coastal area

 

Fernanda Vera Cruz Silva-MenesesI

Marcelo Cesar de Lima PeresII

Patricia Carla Barbosa PimentelIII

Eder Carvalho da SilvaIV

 

I Docente Prefeitura de Camaari - Seduc - Educao, Prefeitura de Camaari, BA - Brasil

nandavcs@gmail.com

II Docente do Programa de Ps Graduao em Planejamento Ambiental, Universidade Catlica do Salvador, BA - Brasil

marcelo.peres@pro.ucsal.br

III Docente da Faculdade de Cincias e Tecnologia, Salvador, BA, Brasil.

patriciacbp@gmail.com

IV Docente do curso de Cincias Biolgicas, Salvador, BA, Brasil.

eder.silva@pro.ucsal.br

 

 

Resumo

O termo Etno significa como grupos locais veem o mundo. O presente artigo tem por objetivo apresentar os resultados da proposio da oficina de educao ambiental intitulada EthoeducAtiva como estratgia de educao ambiental e reconhecimento da comunidade tradicional local. A etapa I do estudo e de carter etnobiolgico foi realizada em maro a junho de 2017 com aplicao trinta e uma entrevistas semiestruturadas junto aos pescadores e marisqueiras de Arembepe. Para a anlise dos dados utilizou-se a anlise de contedo que permitiu a interpretao dos dados. Com o resultado parcial da pesquisa foi realizada a oficina experimental com estudantes do oitavo ano de uma escola de ensino fundamental II, inserida da rea de estudo denominada EthoeducAtiva - etapa II. O desenvolvimento da oficina deu-se inicialmente atravs de uma proposta interdisciplinar entre as disciplinas de cincias naturais e lngua portuguesa e foi elaborado um texto de cordel fruto da reflexo dos dados encontrados nas entrevistas. A oficina permitiu a associao do conhecimento tradicional com a formao educacional de estudantes em espaos formais de educao. Estratgias que oportunize a elaborao de cordis ou qualquer outro produto devem ser estimuladas, sobretudo em pases que possuem patrimnio natural e cultural to diverso como o Brasil. Neste sentido, vislumbra-se o desenvolvimento do saber cuidar do meio ambiente e valorizao de comunidades tradicionais seja no mbito local, com reflexes e aes para questes socioambientais em perspectiva global.

Palavras-chave: Educao ambiental; Conhecimento tradicional; Natureza e sociedade; Arembepe; Cordel

 

 

Abstract

The term Ethno means how local groups see the world. The present article aims to present the outcome proposed by the environmental education workshop entitled EthoeducAtiva, as a strategy for environmental education and acknowledgement of the traditional local community. The first stage of the study, which had an ethnobiological character, was held from March to June 2017, by applying thirty-one semi-structured interviews with the fishermen and shellfisheries of Arembepe. For the data analysis it was used the content analysis, which allowed the data interpretation. With the partial result of the research, it was held an experimental workshop with students of the eighth grade of a high school, which was within the study area designated EthoeducAtiva - stage II. Initially, the workshop developed through an interdisciplinary proposal between the school subjects of natural sciences and Portuguese language. As a result of the reflection upon the data found in the interviews, a Cordel text was produced. The EthoeducAtiva workshop allowed the association of traditional knowledge with the educational training of students in formal educational spaces. Strategies that encourage the elaboration of Cordeis or any other product should be stimulated, particularly in countries which have such a diverse natural and cultural heritage as Brazil. In that regard, it is aimed the development of the know how to take care of the environment and the valorization of traditional communities at the local level, with reflections and actions for social and environmental issues in a global perspective.

Keywords: Environmental education; Traditional knowledge; Nature and society Arembepe; Cordel

 

 


1 Introduo


O termo Etno usado antes de palavras como, ictiolgico, biolgico, ecolgico, conservao significa como grupos locais veem o mundo. O prefixo utilizado antes dos nomes de disciplinas acadmicas e est relacionado pesquisa com grupos locais e tradicionais e o conhecimento cientfico (MARTIN, 2004; ALBURQUERQUE; ALVES, 2014).

Essa interao estabelecida pelo homem com a natureza estudada pela etnocincias. A Etnocincia proporciona a conexo de conhecimentos sobre a natureza, que so de propriedade de pessoas, grupos e comunidades, que acumulam saberes sobre o meio natural, estabelecida por uma relao longa e, muitas vezes, no registrada por escrito, e /ou mesmo, mais ricos e detalhados do que o conhecimento da cincia moderna (PEREIRA; DIEGUES, 2010). Os autores ainda consideram que:

 

A etnocincia exige a articulao entre o natural e o social, utilizando como metodologia a investigao das nomenclaturas designadas pelas populaes tradicionais para os elementos e fenmenos naturais, assim como os valores culturais que transportam (PEREIRA; DIEGUES, 2010, p.43).

 

Portanto, um dos objetivos da etnobiologia procurar compreender/entender como so percebidos os seres vivos, como eles so classificados pelas culturas humanas e como so conhecidos (MOURO; MONTENEGRO, 2010). Albuquerque e Alves (2014, p. 20) ressaltam que O conhecimento tradicional no se restringe aos organismos, mas inclui percepes e explicaes sobre a paisagem e a geomorfologia e sobre a relao entre os diferentes seres vivos com o ambiente fsico.

Para tanto, o meio ambiente uma unidade que precisa ser compreendida na totalidade. Atravs de aes e projetos interdisciplinares e de uma viso holstica da natureza ser possvel assegurar que as futuras geraes tenham acesso ao meio ambiente em equilbrio (ANDREOLI; ANACLETO, 2006).

Assim, focamos ateno para as contribuies do conhecimento tradicional, especificamente, o de pescadores artesanais.

Meireles et al. (2017) notam que os pescadores, por utilizarem o ecossistema aqutico, possuem compreenso sobre fauna aqutica e so conhecedores de saberes ecolgicos resultantes da interao como o meio pesqueiro, onde a arte da pesca possui contornos na relao de subsistncia e no enfoque econmico. Onde os detalhes percebidos e aprendidos atravs da observao emprica dos elementos do meio ambiente, resultante da relao estabelecida na dinmica como o meio natural, constituem um sistema detalhado na mente do povo tradicional (TOLEDO; BARRERA-BASSOLS, 2009). O pescador e a marisqueira, capturam presas - os peixes e mariscos uma vez que o desenvolvimento da atividade pesqueira artesanal depende diretamente dos elementos naturais do ecossistema aqutico - rios ou mares (CLAUZET; RAMIRES; BEGOSSI, 2007).

Hanazaki (2016, s.p.) considera que o conhecimento local e as experincias com os recursos naturais so relevantes:

 

Primeiro, um arcabouo terico e metodolgico para compreender sistemas de percepo, cognio e classificao do ambiente natural por sociedades locais ou tradicionais. Segundo, o estabelecimento de uma ligao direta entre o conhecimento construdo localmente e o conhecimento cientifico. Terceiro, a possibilidade de resgatar e valorizar um conhecimento que tende a desaparecer rapidamente.

 

Neste contexto, o arcabouo terico, para iniciar esse dilogo com estudantes de uma escola de ensino fundamental II, parte do campo terico da etnocincia, tratando-se aqui, especificamente, do conhecimento etnobiolgico/etnoecolgico, que possui potencial de interao entre os conhecimentos globais, locais e de conexo entre a cultura de tradies e os conhecimentos acadmicos, sem dispensar a experincia humana e o ambiente. Ocupa, portanto, posio de destaque na interao dos conhecimentos cientficos e no cientficos, na compreenso e no meio para conservao do ambiente local (ALBURQUERQUE; ALVES, 2014).

Ao associar o conhecimento local de uma comunidade de pescadores e o conhecimento cientfico, compe-se uma teia educativa enaltecendo a ideia que o saber tradicional relevante na construo do conhecimento, da percepo e reflexo sobre a dependncia que temos da natureza. Nesse sentido, a educao ambiental um caminho possvel para se pensar a relao do homem com a natureza, por meio da transferncia de conhecimentos ecolgicos e socioculturais locais, fortalecendo os diferentes conhecimentos para disseminao de estratgias de educao ambiental em espaos formais (OLIVEIRA JUNIOR; SATO, 2006).

Destaca-se, a partir do pensamento de Boff (2014), que o cuidado com a natureza ser efetivo, se passarmos todos ns pelo processo de educao, atravs das trocas feitas e pelo acesso informao estabelecida pela juno de saberes. O saber ancestral tradicional, acumulado nas tradies dos velhos, dos povos indgenas, dos quilombolas, dos imigrantes, dos pescadores e marisqueiras, saberes que so profundos e detalhados, estabelecidos pela ligao com a natureza por meio de prticas culturais, associado ao dilogo com o conhecimento acadmico, compem um caminho para o efetivo cuidado ecolgico, compondo, assim, um meio de reflexo em EA, para o desenvolvimento de condutas ambientais ticas com vistas valorizao da natureza. Tem-se na rotina local a prtica da pesca e mariscagem, vnculo ancestral, conhecimento sobre a natureza, transmisso do conhecimento tradicional dos velhos aos mais novos, relao cultural e simblica, e da necessidade de conservao de um espao de vida no qual comunidade costeiras fazem partes (RIBEIRO, 2018).

Tem-se, portanto, por objetivo apresentar os resultados da proposio da oficina de educao ambiental intitulada EthoeducAtiva como estratgia de educao ambiental e reconhecimento da comunidade tradicional local.

 

 

2 Procedimentos metodolgicos

2.1. rea de Estudo

Arembepe est localizada as margens da BA-099, conhecida por estrada do Coco, com latitude 127718 S e longitude 381762 O. um lugar singular, de rica natureza e cultura, situado entre lagoas e o oceano. A localidade possui a tradio pesqueira e dispe de atributos naturais e histricos. A etimologia da palavra vem do tupi guarani, portanto, Arembepe significa aquilo que nos envolve. A localidade est associada aldeia Hippie, que, nos anos 70, recebeu o movimento Hippie de paz e amor. Famosa, pois passaram pela Aldeia personalidades como Janis Joplin, Mick Jagger e Roman Polanski. (KOTTAK, 1999; PROJETO TAMAR, 2018).

 

2.2. A pesquisa

 

Trata-se de um estudo de caso, de natureza etnobiolgica e de abordagem qualitativa. Os sujeitos envolvidos na pesquisa durante a etapa I foram os pescadores artesanais pescadores e marisqueiras vinculados colnia de pesca Z-14. O nmero de pescadores artesanais de Arembepe de 72 indivduos. O critrio de incluso e excluso dos participantes obedeceu ao seguinte pressuposto: aqueles que residiam e praticavam a pesca partindo de Arembepe e possuam idade de ≥ 40 anos. O fator experincia aqui justificado por Begossi (2004, p.244) como:

 

[...] a idade uma varivel que influencia no grau de conhecimento sobre os pesqueiros, o que confirma a expectativa sobre a importncia de incluir na amostra, pescadores experientes (considerando que h maior experincia entre os mais idosos, que pescam h mais tempo que os mais novos).

 

No total foram entrevistados 31, ou seja, 43% dos pescadores artesanais (pescadores e marisqueiras) vinculados colnia de pesca Z-14 e residentes na localidade de estudo. A pesquisa se deu por meio de entrevista semiestruturada, dividida em dados socioeconmicos, mtodo, tradio e cultura, conhecimento etnobiolgicos e percepo ambiental.

Os dados coletados sobre mtodo, tradio e cultura foram categorizados e tabulados por unidades temticas utilizando estatstica descritiva em planilha Microsoft Excel. Para a anlise dos dados qualitativos, utilizou-se o mtodo da anlise de contedo com abordagem para a anlise temtica de contedo (BARDIN, 1977). Emergiram subcategorias temticas (apetrechos, organizao social, mtodo de localizao da rea de pesca, como se d a transmisaa do conhecimento, cultura etc.) a partir da anlise interpretativa do contexto das respostas, da intensa leitura do material analisado e da fundamentao proveniente do campo emprico (CAMPOS, 2004).

Para o desenvolvimento da etapa II foi elaborado um roteiro para a execuo da oficina (figura 1) de carter experimental e proposio interdisciplinar entre as disciplinas de lngua portuguesa, cincias naturais e artes. Com os resultados parciais do item mtodo, tradio e cultura da pesquisa de campo realizada junto aos pescadores artesanais foi elaborada aula expositiva e dialogada de educao ambiental.

 

Figura 1 - Roteiro previamente elaborado para a execuo da oficina experimental entre estudantes do oitavo ano do ensino fundamental II, em escola inserida na rea de estudo (Set, 2017).

Fonte: Elaborao dos autores.

 

A oficina intitulada EtnoeducAtiva de carter experimental ocorreu em trs encontros de cinquenta minutos com a participao de seis estudantes do oitavo ano do ensino fundamental II, no ano de 2017, selecionados a partir dos conceitos avaliativos da unidade escolar.. Nessa fase da educao bsica e em funo da idade os estudantes apresentam relao mais prxima com o ambiente local por praticarem diversas atividades como surf, capoeira e outras ligadas ao Projeto Tamar. A escolha do colgio municipal Profa. Ldia Coelho Pinto (CMPLCP) justifica-se pelo fato de ser a nica escola da localidade em estudo que oferta o ensino fundamental II. Para alm disso, como docente da disciplina de Cincias, prticas interdisciplinares vm sendo desenvolvidas na unidade escolar juntamente com as disciplinas de Lngua Portuguesa e Matemtica.

A pesquisa foi submetida ao Comit de tica em Pesquisa da Universidade Catlica do Salvador, em setembro de 2016, obtendo aprovao atravs do parecer nmero 1.819.813, de 14 de novembro de 2016.

 

 

3 Resultado e discusses

3.1 A oficina

Como pressuposto para participao na oficina EthoeducAtiva os estudantes deveriam possuir habilidades e competncias relativas a literatura de cordel. Os conhecimentos prvios sobre poema, versos, estrofes, narrativa, mtrica, rima e ritmos foram trabalhados nas aulas de lngua portuguesa durante a unidade II. No decorrer das aulas de cincias naturais foi apresentado como tema o Mtodo, a Tradio e a Cultura dos pescadores e marisqueiras da Vila de Arembepe, ou seja, a histria viva a ser contada na forma de cordel compondo a estratgia de educao ambiental.

Para Marcondes (2008, p.68),

 

A oficina, no sentido que se quer atribuir, pode representar um local de trabalho em que se buscam solues para um problema a partir dos conhecimentos prticos e tericos. Tem-se um problema a resolver que requer competncias, o emprego de ferramentas adequadas e, s vezes, de improvisaes, pensadas na base de um conhecimento. Requer trabalho em equipe, ao e reflexo. As oficinas so temticas, na perspectiva de tratar de uma dada situao problema que, mesmo tendo um dado foco, multifacetada e sujeita a diferentes interpretaes.

 

Dentre os resultados relacionados ao Mtodo, Tradio e Cultura, apresentados nas aulas cincias, destacaram-se o mtodo de pesca local o artesanal e ocorrem em lagoas, rios e mar; as embarcaes utilizadas para a pesca no ambiente marinho costeiro so de mdio porte, de madeira e equipadas com motor; como os apetrechos utilizados na atividade pesqueira tem-se o jerer, o cofo, a rede, os tresmalhos, a boia, o ao, o anzol etc. Foi informado aos estudantes que os pescadores esto vinculados e representados pela colnia de pescadores Z-14 e que dentro das embarcaes so os mestres que organizam a logstica para a pesca e orienta sobre o local dos pesqueiros[1].

As atividades relacionadas a pesca desempenhadas por marisqueiras se destacam pela cooperao entre elas, e portanto, sem hierarquia definida, como ocorre entre pescadores. Como j mencionado, a identificao do pesqueiro e zonas de pesca ocorrem por meio de um sistema prprio de cartografia (SILVA, 2007), no qual so utilizados como referncia morros, depresses/declives no relevo da costa, ou torres de igrejas e antenas de celulares. Como apoio aos mtodos tradicionais de identificao do pesqueiro, novas tecnologias tem sido utilizadas pelos pescadores como sistemas de posicionamento global (GPS).

Um dos aspectos mencionados durante as oficinas foi que 42,5% dos pescadores e marisqueiras aprenderam a arte da pesca por influncia do pai ou me, 25,9% com pessoas mais experientes da comunidade, 16,1% foram motivados pela curiosidade e dom, 6,4% com os avs e 6,4% com os tios. Outro aspecto que mereceu abordagem durante as oficinas foi a participao de pescadores e marisqueiras no movimento cultural denominado de Chegana[2].

Assim, a valorizao do conhecimento tradicional de pescadores e marisqueiras uma preciosa fonte de informao e conhecimento para a aplicao de projetos voltados para EA, que, alm da manuteno da cultura local, compe uma importante estratgia de gesto ambiental, uma vez que mais fcil de ser posto em prtica e incorporado pela comunidade local, quando percebido pelos demais, a importncia socioambiental da atividade (EVANGELISTA-BARRETO et. al., 2014).

Medina (1998) considera que atravs da educao ambiental constroem-se relaes culturais, sociais, que se constituem, portanto, em uma estratgia de incorporao e compreenso de diferenas dando incio ao pensar com respeito cerca das minorias, a exemplo, dos povos e comunidades tradicionais, bem como refletir sobre os limites dos ecossistemas e sobre nossa sobrevivncia frente ao desequilbrio ambiental.

Um dado relevante que 90,3% dos entrevistados possuem filhos, dos quais, 87,1%, estudaram ou estudam em escolas da comunidade. A ideia de se realizar a oficina EtnoeducAtiva e a literatura de Cordel surge com o propsito de perpetuar o conhecimento tradicional, bem como promover a reflexo sobre a questo ambiental e a dependncia homem X natureza.

importante mencionar que muitos dos estudantes da mencionada unidade escolar so filhos e netos de pescadores e marisqueiras dessa comunidade e que tem perdido o contato com essa realidade da Vila de Pescadores devido aos interesses e possibilidades que o mundo afora supostamente os tem proporcionado.

Nesse sentido, considera-se a proposta significativa visto que, a elaborao, a construo, o pensamento para o desenvolvimento da linguagem escrita, como uma das propostas dessa oficina. Expresses, ideias e reflexes dos estudantes, frente ao proposto derivam de um trabalho de anlise e discusso. A elaborao do material escrito fonte de informao e conhecimento para novas abordagens reflexivas em outras aes de EA, tm-se, por conseguinte, material para divulgao em prticas pedaggicas interdisciplinares abrangendo outras disciplinas, a exemplo histria, geografia e artes.

Tamaio e Layrargues (2014) consideram que as riquezas ambientais podem contribuir muito para o autoconhecimento do indivduo, proporcionando excelentes formas de aprendizagem e contribuindo muito para o respeito ao lugar, o respeito do ser humano pela natureza, chegando elevada sensibilizao social pela causa ambiental.

 

3.2 O cordel

 

Ento, ao propor a linguagem do cordel, como canal de comunicao dos resultados e discusses da pesquisa, entende-se que esse texto um meio de comunicao que permite compartilhar, diretamente com a sociedade, fatos, situaes, experincias. Trata-se, desse modo, de um meio popular para orientar e informar muitas pessoas (ACIOLI, 2010).

O cordel apresenta conectividade representativa com os conhecimentos oriundos da etno, ou seja, dos povos tradicionais, uma vez que sua origem se d no perodo colonial com a trova portuguesa, se unindo poesia do caboclo, surgindo, ento, um estilo literrio sertanejo, criativo e alegre (ACIOLI, 2010), configurando uma literatura resultante da mistura de conhecimento, dos povos portugueses, indgenas e negros.

Para tanto, uma vez resgatada e colocada em discusso, valorizao desse saber possibilitar uma nova forma de pensamento integrador em pesquisas, no ensino, possibilitando que a diversidade biolgica seja conservada (MOURO; MONTENEGRO, 2010). Os cordis produzidos na oficina EthoeducAtiva so instrumentos que auxiliaro as prticas pedaggicas sensibilizadoras em EA, em diferentes reas do conhecimento, atravs da interdisciplinaridade (Figura 2).

 

Figura 2 - Texto do cordel elaborado por estudantes do oitavo ano do ensino fundamental II durante a execuo de oficina experimental EthoeducAtiva (set, 2017).


4. Concluses

Oficinas EtnoeducaAtivas, seja para elaborao de cordis ou qualquer outro produto que oportunize a associao do conhecimento tradicional com a formao educacional de estudantes em espaos formais de educao, so estratgias que devem ser estimuladas sobretudo em pases que possuem um patrimnio natural e cultural to diverso como o Brasil.

Os currculos e o material didtico dissociados da realidade local evidenciam a ausncia de polticas pblicas e educacionais efetivas e que permitam a promoo e valorizao dos atributos locais e do pensamento crtico e, consequentemente, do desenvolvimento do saber cuidar do meio ambiente, da cultura, e dos povos tradicional, seja no mbito local, com reflexos para questes ambientais em perspectiva global.

 

Agradecimentos

Agradecimentos aos pescadores e marisqueiras de Arembepe, Bahia.

 

 

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1 Pesqueiros, segundo a conhecimento tradicional dos pescadores artesanais, so reas de pesca onde so encontrados os cardumes.

2 Movimento cultural que narra atravs do canto e da dana uma luta em alto mar. Suas vestes remetem a uniformes que de marinheiros (REVISTA DO FESTIVAL, 2016).

 



[1] Pesqueiros, segundo a conhecimento tradicional dos pescadores artesanais, so reas de pesca onde so encontrados os cardumes.

[2] Movimento cultural que narra atravs do canto e da dana uma luta em alto mar. Suas vestes remetem a uniformes que de marinheiros (REVISTA DO FESTIVAL, 2016).



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