REMOA, Vol. 18 (2019), e1

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/2179460X35929

Received: 22/01/2019 Accepted: 12/03/2019

 

by-nc-sa

 


Seo Problemas Ambientais

 

Avaliao do Ciclo de Vida de Sistemas de Tratamento de Efluentes Urbanos utilizando Microalgas e Wetlands Construdos

 

Life Cycle Assessment of Urban Effluent Treatment Systems using Microalgae and Constructed Wetlands

 

Naira DellOsbelI

nio Leandro MachadoII

 

I Engenheira Ambiental, Mestranda em Tecnologia Ambiental pela UNISC, Universidade de Santa Cruz do Sul, RS - Brasil

enioleandromachado@gmail.com

II Qumico Industrial, Doutor em Engenharia, Universidade de Santa Cruz do Sul, RS - Brasil

enio@unisc.br

 

 

Resumo

Desenvolver o saneamento de guas residurias de forma descentralizada significa pesquisar a carncia de quase 50% dos municpios brasileiros. Neste sentido a principal finalidade deste estudo foi o uso da Avaliao do Ciclo de Vida para aplicao dos sistemas integrados de reator anaerbio, Wetlands Construdos (WCs) de fluxo vertical/horizontal e Microalgas (MA). A unidade funcional foi definida como 1.200 m3 de efluente tratado durante 20 anos e a fronteira do sistema foi delimitada pela entrada do esgoto bruto no reator UASB at a partida do efluente final tratado para o corpo receptor. O estudo de ACV utilizou o programa SimaPro 8.04 e o mtodo Impact 2002+. Para as categorias de impacto nas etapas de construo e operao foram aplicados a Normalizao, Caracterizao, Ponderao e Inventrio de Rede dos dados obtidos. Desta forma foi possvel a identificao dos principais itens para o desenvolvimento ambiental sustentvel destes sistemas, sendo que foram identificados os maiores impactos na fase de construo (92,3%) relacionados a utilizao de polietileno de alta densidade (32,8%), areia (27,2%) e policloreto de vinila (18,8%). J na fase de operao o maior impacto foi a utilizao de energia eltrica no sistema Microalgas Pr-Wetlands devido a dependncia de recursos no renovveis.

Palavras-chave: Avaliao do ciclo de vida; Efluente domstico; Wetlands construdos; Microalgas

 

Abstract

Developing wastewater sanitation in a decentralized way makes it possible to study the shortage of almost 50% of Brazilian municipalities. Thus, the main purpose of this study was the use of the Life Cycle Assessment for the application of the integrated systems of anaerobic reactor, Wetlands Constructed (WCs) of vertical/horizontal flow and Microalgas (MA). The functional unit was defined as 1,200 m3 of effluent treated for 20 years, and the boundary of the system was delimited by the entry of the raw sewage into the UASB reactor until the departure of the final effluent treated to the receiving body. The ACV study used the SimaPro 8.04 program and the Impact 2002+ method. For the categories of impact in the construction and operation stages were applied the Normalization, Characterization, Weighting and Network Inventory of the obtained data. Through it was possible to identify the main items for the sustainable environmental development of these systems, with the highest impacts in the construction phase (92.3%) related to the use of high density polyethylene (32.8%), sand (27.2%) and polyvinyl chloride (18.8%). Already in the operation phase the greatest impact was the use of electricity in the Microalgas Pre-Wetlands system due to the dependence of non-renewable resources.

Keywords: Life cycle assessment; Domestic effluent; Contructed wetlands; Microalgae



1 Introduo

No Brasil ainda existem locais de extrema pobreza e desigualdade onde se evidenciam a falta de acesso sustentvel a gua potvel, assim como carncia de infraestrutura de saneamento, principalmente em reas rurais e urbanas carentes. Isso coloca a populao local em situao de risco a sade individual e coletiva, aumentando a incidncia de doenas infecciosas agudas e a prevalncia de doenas crnicas, que atingem principalmente pessoas mais vulnerveis (GEORGIN et. al., 2014).

Fatores como a escassez de sistemas de tratamento de efluente domstico em pequenos municpios e na zona rural, bem como a expanso atual de condomnios residenciais, aumentam a necessidade de sistemas de tratamento de efluentes domsticos compactos e simplificados no Brasil (GUTIERREZ, 2014).

Uma das alternativas sustentveis para o gerenciamento integrado de recursos hdricos e que vem despertando interesse no mundo inteiro o uso de vegetao para remediao de guas servidas, sendo uma possibilidade de manuteno da qualidade dos mesmos (COSTA, 2004).

A utilizao de wetlands construdos com macrfitas aquticas uma alternativa para a falta de tratamento das guas residuais, que afeta principalmente as zonas rurais do Brasil, sendo que essas reas no apresentam problemas em relao falta de espao, mas sim a necessidade de tecnologias simples, econmicas e que exigem pouca energia, desta forma pode-se dizer que a utilizao desses sistemas uma alternativa vivel, natural, sustentvel e eficaz (PHILIPPI & SEZERINO, 2004).

Os princpios bsicos de funcionamento do tratamento nos filtros plantados so a filtrao e a formao de biofilme aderido a um meio suporte e as razes das plantas, onde comunidades de microrganismos aerbios e anaerbios depuram a matria orgnica e promovem a nitrificao e desnitrificao. O oxignio requerido suprido pelas macrfitas e pela conveco e difuso atmosfrica (PHILIPPI & SEZERINO, 2007).

Outra alternativa que tem se mostrado muito promissora e sustentvel a utilizao de microalgas para tratamento de guas servidas, pois atravs do desenvolvimento destes sistemas possvel a fixao do dixido de carbono proveniente dos gases de combusto e a remoo dos nutrientes das guas residuais, podendo ser utilizada inclusive para a fixao do CO2 produzido por complexos industriais (SOUSA, 2014).

As microalgas fazem parte da comunidade bitica que se desenvolve nos sistemas de tratamento em lagoas, sendo que o funcionamento destes sistemas se baseia na combinao de processos metablicos entre as populaes bacterianas, que mineralizam a matria orgnica, e as microalgas, que utilizam como nutrientes os produtos dessa degradao (SOARES, 2000).

A Avaliao do Ciclo de Vida contribui como uma ferramenta complementar em momentos de tomada de deciso entre sistemas de tratamento de efluentes domsticos, sendo que ela capaz de avaliar o desempenho ambiental da funo exercida por um processo ao longo de seu ciclo de vida, no entanto, preciso estar ciente de que o sucesso no uso da ACV diretamente dependente do uso de inventrios de ciclo de vida (ICV) regionalizados. H uma grande variedade de iniciativas ao redor do mundo com o objetivo de padronizar os estudos e construir um banco de dados especfico (GUTIERREZ, 2014).

Em reas rurais os sistemas integrados de processos anaerbios e wetlands construdos so uma nova tendncia de desenvolvimento sustentvel, que possibilita a recuperao de materiais, energia e nutrientes, sendo essencial para tecnologias de saneamento que combinam baixos custos, alta eficincia e menor presso ambiental (LUTTERBECK et. al., 2017).

Visto as necessidades de sustentabilidade em longo prazo, os objetivos dos sistemas de tratamento precisam ir alm da proteo da sade humana e das guas superficiais, minimizando tambm a perda de recursos, reduo do uso de energia e gua, reduzindo a gerao de resduos e permitindo a reciclagem de nutrientes (COROMINAS, 2013).

Buscando identificar os impactos relacionados com a biorremediao por sistemas de Microalgas e Wetlands Construdos, foi aplicada uma Avaliao do Ciclo de Vida, estabelecendo comparativo com mesma unidade funcional e fluxo de referncia para o tratamento em diferentes configuraes. Utilizou-se o programa SimaPro para calcular impactos associados ao processo, verificando possibilidades de prognsticos ambientais.

 

 

2 Metodologia

Na fase de construo foram inventariados todos os materiais utilizados, bem como os necessrios para troca do leito a cada 5 anos de trabalho, totalizando uma vida til total de 20 anos. Na fase de operao foram quantificadas as emisses para a gua atravs de anlises do efluente lquido realizadas em laboratrio determinando os parmetros de DBO5, DQO, Nitrognio Amoniacal, Nitrato, Nitrito, Nitrognio Total Kjeldahl e Fsforo Total (Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater, 2012). Para as emisses atmosfricas foi utilizado o modelo matemtico fornecido pelo relatrio do Intergovernmental Painel Climate Change - IPCC (2013) sobre sistemas de wetlands. A unidade funcional foi definida em 1.200 m3 de efluente final tratado durante 20 anos, sendo que a fronteira do sistema foi delimitada pela entrada do esgoto bruto no reator anaerbio at a partida do efluente final tratado para o corpo receptor.

O estudo de ACV baseou-se nas normas da NBR ISO 14 040 e 14 044, utilizando o programa SimaPro 8.04 e o mtodo do Impact 2002+ para as categorias de impacto nas etapas de construo e operao: Carcinognicos, No Carcinognicos, Inorgnicos Inalveis, Radiao Ionizante, Depleo da Camada de Oznio, Orgnicos Inalveis, Ecotoxicidade Aqutica, Ecotoxicidade Terrestre, Acidificao Terrestre, Ocupao do Solo, Acidificao Aqutica, Eutrofizao Aqutica, Aquecimento Global, Energia No Renovvel e Extrao Mineral.

Foram considerados 2 Cenrios diferentes de avaliao, sendo que ambos so precedidos por sistema de gradeamento, desarenao e equalizao. O Cenrio I o sistema em escala de bancada e constitudo por Reatores Anaerbios + Microalgas + WC de Fluxo Vertical, j o Cenrio II o sistema em escala piloto e constitudo por 2 configuraes distintas, uma com Reatores Anaerbios+WC Fluxo Vertical e a outra com Reator Anaerbio+WC Fluxo Horizontal conforme Figura 1.

 

Figura 1 Delimitao dos sistemas de tratamento analisados

 

Fonte: dos Autores.

 

O Cenrio I constitudo por uma caixa em PEAD de 200 litros com cone em acrlico para fixao das microalgas e bomba de recirculao de 110 W com potncia de deslocamento de 1,5 m h-1 de coluna dgua, a qual funcionou 24 horas por dia (Figura 2b). A segunda caixa constitui o Wetland Construdo, tendo a mesma capacidade da caixa das microalgas, porm a mesma preenchida com camadas de brita n4, brita n1, areia e plantada com a espcie Hymenachne Grumosa (Figura 2c). Ainda como tratamento primrio utilizado sistema de reatores anaerbios constitudos por 3 bombonas, em polietileno, com capacidade de 90 litros cada (Figura 2a).

 

Figura 2 - Cenrio I : (a) Reator Anaerbio + (b) Unidade Fixadora de Microalgas com Cone Invertido +(c) Wetland Construdo de Fluxo Vertical em regime de batelada.

c

 

b

 

a

 

Fonte: dos Autores.

 

 

O Cenrio II constitudo por caixas dgua de 1.000 litros em fibra de vidro, brita n 1, brita n 2, registros, tubulaes e conexes, sendo que nas caixas foram plantados indivduos da espcie Hymenachne grumosa, mais conhecida como Carnivo. A escolha da espcie se deve ao fato de ser uma planta nativa da regio e bem adaptada s condies encontradas em sistemas alagados. Foram utilizados dois diferentes tipos de fluxos conforme Figuras 3 (b) na qual est demonstrado o WC de Fluxo Vertical e 3 (c) na qual pode-se observar o sistema de WC de Fluxo Horizontal, sendo que os sistemas recebem tratamento primrio no Reator Anaerbio apresentado na Figura 3 (a).

 

Figura 3 - Cenrio II - Reator Anaerbio (a) Wetland Construdo de Fluxo Vertical (b) e Wetland Construdo de Fluxo Horizontal (c).

 

b

 

a

 

c

 

Fonte: Dos Autores.

 

Foi feita extrapolao proporcional dos materiais para igualar os sistemas e de modo que se considere para ambos a capacidade de tratar 1.200 m3 de efluente em 20 anos. Na Tabela 1 e 2 esto apresentados os dados inventariados para o presente estudo.

 

Tabela 1 Inventrio do Cenrio I.

CENRIO I

ETAPA: CONSTRUO

MASSA TOTAL DO SISTEMA (kg)

Tonis RA (PEAD)

32,4

Tubulaes (PVC)

4,39

Brita

1.970,60

Areia

3.406,80

Caixas (PEAD)

177,2

Cone (acrlico) para fix. das Microalgas

25,05

Areia e Brita para troca dos leitos

16.132,20

Bomba Recirculao Microalgas

0,013

ETAPA: OPERAO

EMISSES PARA A GUA (kg em 20 anos)

DQO

DBO 5,20

N-NH4

Fsforo Total

RA

408,24

418,2

104,5

7,8

MA

497,8

636

0

5,58

WCFV

596,4

472,8

0

6,24

EMISSES PARA O AR (kg em 20 anos)

CH4

N2O

RA

109,92

0,36

MA

131,3

1,32

WCFV

33,07

1,3

 

 

Tabela 2 Inventrio do Cenrio II.

CENRIO II

ETAPA: CONSTRUO

MASSA TOTAL DO SISTEMA (kg)

Brita 1 e 2

7772

Reator UASB (polietileno)

110

Registro de gaveta (liga de cobre)

2,28

Tubos e coneces (PVC)

13

Caixa d'gua (fibra de vidro) 1000 l

52,5

ETAPA: OPERAO

EMISSES PARA A GUA (Kg em 20 anos)

DBO 5

DQO

Fsforo Total

Nitrato

Nitrito

NTK

RA

100,32

256,77

28,08

0,48

0,12

106,8

WCFV

61,68

139,5

10,8

0,12

< 0,0000001

15,12

WCFH

84,12

186

10,1

0,12

< 0,0000001

13,7

EMISSES PARA O AR (kg em 20 anos)

CH4

N2O

RA

38,9

0,24

WCFV

11,16

0,83

WCFH

2,3

0,85

 

 

 

3 Resultados e Discusses

3.1 Inventrio de Rede dos Sistemas

A partir dos dados levantados e analisados pode-se concluir que a operao destes tipos de sistemas minimamente impactante, se levarmos em conta que foi estimado um perodo de operao razovel. Atravs do Inventrio de Rede pode-se observar que a etapa de construo contribui com 92,3% e, a operao, durante os 20 anos, contribui com apenas 7,7% do total de impactos relacionados aos sistemas (Figura 4).

 

Figura 4 - Inventrio de Rede obtido no Software SimaPro 8.04

Fonte: Autores.

 

Observou-se que os materiais com maiores contribuies para fins de impactos ambientais foram o PEAD, PVC e a areia, que somados representam mais de 78% dos impactos relacionados a etapa de construo, conforme apresentado na Figura 5.

 

Figura 5 - Contribuio de cada material na etapa de construo.

Fonte: Autores.

 

O principal impacto negativo do wetland construdo aqui estudado foi causado pela fase de construo e uso de agregado de argila expandida para construir o sistema, isso ocorre porque grande quantidade de energia usada para produzir esse material. Foi testado como alternativa o uso de um filtro de areia e cascalho e de acordo com os resultados, um filtro de areia e cascalho diminuiria o impacto mdio do WC em 22,91% (LOSPISIK et. al. 2013).

Conforme Fuchs et.al. (2017) os impactos da construo podem ser significativamente reduzidos usando materiais locais para evitar o transporte. No presente trabalho esse um item que pode gerar incertezas, pois foi utilizado um banco de dados no regionalizado, porm os resultados poderiam ter sido bem mais favorveis eliminando-se os custos econmicos e ambientais do transporte dos materiais, visto que a brita utilizada nos sistemas oriunda de mina de extrao localizada prxima a rea de concretizao do presente estudo.

 

3.2 Anlise da Etapa de Construo

Com relao aos impactos associados aos inventrios da Figura 4, podem ser observadas a Caracterizao e Normalizao nas Figuras 6 e 7.

 

Figura 6 - Caracterizao utilizando o mtodo Impact 2002+ da etapa de Construo

C: Carcinognicos; N-C: No Carcinognicos; I-I: Inorgnicos Inalveis; R-IO: Radiao Ionizante; D-C-OZ: Depleo da Camada de Oznio; O-I: Orgnicos Inalveis; EC-A: Ecotoxicidade Aqutica; EC-T: Ecotoxicidade Terrestre; AC-T: Acidificao Terrestre; O-S: Ocupao do Solo; AC-A: Acidificao Aqutica; EU-A: Eutrofizao Aqutica; A-GL: Aquecimento Global; R-N-R: Recursos No Renovveis; E-MN: Extrao Mineral.

Fonte: Autores

 

Em avaliao de ciclo de vida de sistema de tratamento de efluentes com processo anaerbio+ wetlands construdos+fotorreatores para reas rurais realizado por Lutterbeck et. al. (2017) constatou-se que 67,3% dos impactos ambientais estavam relacionados construo e apenas 32,7% operao do sistema.

 

Figura 7 - Normalizao utilizando o mtodo Impact 2002+ da etapa de Construo

 

C: Carcinognicos; N-C: No Carcinognicos; I-I: Inorgnicos Inalveis; R-IO: Radiao Ionizante; D-C-OZ: Depleo da Camada de Oznio; O-I: Orgnicos Inalveis; EC-A: Ecotoxicidade Aqutica; EC-T: Ecotoxicidade Terrestre; AC-T: Acidificao Terrestre; O-S: Ocupao do Solo; AC-A: Acidificao Aqutica; EU-A: Eutrofizao Aqutica; A-GL: Aquecimento Global; R-N-R: Recursos No Renovveis; E-MN: Extrao Mineral.

Fonte: Autores.

 

Atravs da tcnica de normalizao possvel visualizar que os maiores impactos esto relacionados aos carcinognicos, no carcinognicos, inorgnicos inalveis, ecotoxicidade terrestre, aquecimento global e recursos no renovveis.

Na etapa de construo o sistema de Microalgas aparece em destaque, sendo que se atribui a esse fato a maior utilizao de materiais plsticos, devido a utilizao no Cenrio I (RA+MA+WCFV) das caixas em polietileno e areia, materiais que no foram utilizados no Cenrio 2. Conforme Silva (2015) o processo produtivo na indstria de transformao do plstico necessita de muita energia eltrica, o contribuindo para as categorias de impacto, seguido pelo processo de transporte de matrias-primas e do produto final por conta da utilizao do diesel, o que pode ser melhorado com a implantao da eficincia energtica na prpria indstria.

J na Figura 8 esto apresentados os impactos em longo prazo gerados atravs da ponderao, destacando-se novamente o sistema de Microalgas.

 

Figura 8 - Ponderao utilizando o mtodo Impact 2002+ para a etapa de Construo

Fonte: Autores.

 

 

3.3 Anlise da Etapa de Operao

Foi utilizada a mesma metodologia na anlise da operao dos sistemas, na Figura 9 que representa a Caracterizao j podemos visualizar os sistemas com os maiores impactos.

 

Figura 9 - Caracterizao utilizando o mtodo Impact 2002+ da etapa de Operao

C: Carcinognicos; N-C: No Carcinognicos; I-I: Inorgnicos Inalveis; R-IO: Radiao Ionizante; D-C-OZ: Depleo da Camada de Oznio; O-I: Orgnicos Inalveis; EC-A: Ecotoxicidade Aqutica; EC-T: Ecotoxicidade Terrestre; AC-T: Acidificao Terrestre; O-S: Ocupao do Solo; AC-A: Acidificao Aqutica; EU-A: Eutrofizao Aqutica; A-GL: Aquecimento Global; R-N-R: Recursos No Renovveis; E-MN: Extrao Mineral.

Fonte: Dos Autores.

 

Conforme Fuchs et. al. (2011) os estudos de ACV mostram que os WC tm menos impacto ambiental, em termos de consumo de recursos e emisses de gases de efeito estufa, concluindo tambm que os WC tanto de fluxo horizontal como vertical tm impactos insignificantes em orgnicos respiratrios, radiao e oznio. Tambm constatou que N2O, CO2 e CH4 influenciam em inorgnicos inalveis, mudanas climticas, acidificao e eutrofizao, categorias com maior influncia em Alteraes Climticas.

Temos o sistema de microalgas pontuando de forma significativa em 8 tipos de impactos diferentes e aparece de forma significativa o reator anaerbio contribuindo para os inorgnicos inalveis e aquecimento global conforme Figura 10.

 

Figura 10 - Normalizao utilizando o mtodo Impact 2002+ da etapa de Operao

C: Carcinognicos; N-C: No Carcinognicos; I-I: Inorgnicos Inalveis; R-IO: Radiao Ionizante; D-C-OZ: Depleo da Camada de Oznio; O-I: Orgnicos Inalveis; EC-A: Ecotoxicidade Aqutica; EC-T: Ecotoxicidade Terrestre; AC-T: Acidificao Terrestre; O-S: Ocupao do Solo; AC-A: Acidificao Aqutica; EU-A: Eutrofizao Aqutica; A-GL: Aquecimento Global; R-N-R: Recursos No Renovveis; E-MN: Extrao Mineral.

Fonte: Autores.

 

Na ponderao (Figura 11) pode-se observar que na etapa de operao o sistema de tratamento com Microalgas tem um impacto maior em todas as categorias analisadas, atribui-se a isso a utilizao de energia eltrica para a bomba que mantm o efluente em recirculao de forma contnua para que as microalgas no morram.

Tambm se observou que o sistema anaerbio contribuiu mais significativamente na categoria de impacto Aquecimento Global, fato constatado tambm por Lutterbeck et. al. (2017) que analisou um sistema de wetlands precedido de tratamento anaerbio com uma vida til de 10 anos, sendo que neste sistema a unidade anaerbia foi responsvel pela maior parte dos impactos ambientais relacionados com as Alteraes Climticas.

Este fato j foi relatado tambm por outros autores, como por exemplo, Machado et.al. (2007) que atravs de avaliao do ciclo de vida constatou que os processos de lodos ativados apresentam os maiores impactos em comparao aos Wetlands Construdos devido ao consumo de energia necessrio para a aerao.

As alternativas de tratamento de efluentes mais ecologicamente corretas foram as baseadas na natureza (wetlands construdos e lagoa de alta taxa de produo de algas), enquanto a estao convencional de tratamento de guas residuais (lodo ativado) obteve os piores resultados devido ao alto consumo de eletricidade e produtos qumicos, sendo entre 2 e 5 vezes maior do que o gerado pelos sistemas baseados na natureza, dependendo da categoria de impacto (GARF et. al., 2017).

Os bancos de dados utilizados pelo software SimaPro 8.01 so de uma matriz energtica diferente da brasileira. Destaca-se a etapa anaerbia pontuando significativamente na categoria Mudanas Climticas devido emisso de gases como o metano. Propem-se para trabalhos futuros o aproveitamento energtico deste gs, que poderia inclusive ser interligado ao sistema de recirculao das Microalgas.

 

Figura 11 - Ponderao utilizando Impact 2002+ para a etapa de Operao

Fonte: Autores.

 

Conforme Hospido, et. al. (2007) e Gallego, et. al. (2008), ambos citados por Lopes (2014), em estudos de ACV realizados em pases europeus, aplicados a Estaes de Tratamento de Esgoto, apontaram a produo de energia como o processo de maior contribuio tambm para a categoria de acidificao, devido a dependncia de matrizes energticas oriundas de combustveis fsseis que liberam SO2 na combusto. No presente trabalho notou-se que esse fator foi um dos mais impactantes em outras categorias tambm.

Conforme Campolina Et. al.(2015) importante saber que os bancos de dados possuem carter regional e seus dados devem ser analisados, pois o conjunto de dados de um banco de dados pode no cobrir exatamente o sistema estudado, afetando os resultados. Pases em desenvolvimento tm menos interesse em assuntos relacionados ACV, como a criao e divulgao de banco de dados de Inventrio de Ciclo de Vida de processos ou produtos (CAMPOLINA et. al., 2015). O Brasil no possui um mtodo de avaliao de impactos do ciclo de vida especfico para as condies brasileiras, orienta-se utilizar mais de um mtodo de AICV para obteno de decises mais confiveis e com incertezas menores (PIEKARSKI et. al., 2012).

 

 

4 Concluses

Os sistemas analisados se apresentaram minimamente impactantes, dentro de uma perspectiva geral, isso pode ser comprovado pela operao durante o perodo de 20 anos que consegue ter menor impacto do que a etapa de construo. Isso ocorre devido ao fato de que na operao no se utiliza nenhum tipo de produto qumico e uma quantidade muito pequena de energia eltrica. Alm disso, so sistemas que se integram a paisagem natural e formam pequenos ecossistemas que se utilizam de mecanismos que ocorrem em locais naturais para depurao de efluentes.

Sugere-se para a maior sustentabilidade dos sistemas de tratamento analisados o estudo da utilizao de materiais provenientes dos resduos da construo civil, devidamente classificados, segregados e cominudos, para a utilizao como material suporte nos Wetlands, reaproveitando materiais e diminuindo a dependncia de extrao de novos recursos. Em relao ao uso de plsticos sugerem-se estudos para a utilizao de plsticos mais biodegradveis e a reduo do uso deste tipo de material.

Outro fato importante foi ao dos gases emitidos pelo Sistema RA (metano principalmente) em relao categoria Alteraes Climticas, para a soluo deste problema indica-se a queima para tornar esse gs menos agressivo ou o aproveitamento energtico do mesmo para a recirculao do Sistema MA+WCFV, o que eliminaria a dependncia de fontes energticas no renovveis.

Os mecanismos que ocorrem na natureza nos guiam na busca de solues sustentveis para os problemas criados pela sociedade moderna. Atravs da engenharia podemos aperfeioar esses sistemas para que se tornem altamente eficazes no processo de depurao de efluentes, mas tambm que no deixem de ser um ecossistema integrado a paisagem com impactos extremamente reduzidos, em consonncia com objetivos de uma sociedade consciente do seu papel na construo de um planeta mais equilibrado e justo para todos.

 

 

Agradecimentos

Agradecimento ao Laboratrio de Tratamento de gua e Efluentes, Laboratrio de Resduos Slidos, ao Departamento da Engenharia ambiental e ao do Programa de Ps Graduao em Tecnologia Ambiental. Ao CNPq pelo auxlio financeiro e a CAPES pela bolsa concedida.

 

 

Referncias

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