Resenha de/ Review of

FIGUEIRA, Felipe L. G. Nietzsche e o eruditismo. Curitiba [PR]: CRV, 2018. 1ª edição

 

 

Rogério Luis da Rocha Seixas

Professor no Instituto Federal do Paraná, Paranavaí, Paraná, Brasil.

rogeriosrjb@gmail.com

ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0932-5787

 

 

Recebido em 09 de junho de 2019

Aprovado em 19 de setembro de 2019

Publicado em 07 de janeiro de 2020

 

 

RESUMO: O tema referente à crítica de Nietzsche ao Eruditismo construída pelo professor Felipe Gomes Figueira, historiador e pedagogo brasileiro, atuante como docente no Instituto Federal do Paraná, demonstra a questão do filósofo alemão com relação ao seu diagnóstico e o seu ataque, contra o vazio do pensamento, ao ilustramento do nada e a educação que não forma para estimular e intensificar a potência da vida, mas somente para a preservação da sobrevivência do homem, causando de fato, um total menosprezo pela vida em sua potencialidade. Tem-se assim uma temática atualíssima, sendo esta também alvo da problematização desenvolvida pelo professor Figueira, partindo da crítica nietzschiana ao eruditismo.

Palavras-chave: Educação; Ensino de Filosofia; Erudição, Nietzsche.

 

 

 

O tema referente à crítica de Nietzsche ao Eruditismo construída pelo professor Felipe Gomes Figueira, historiador e pedagogo brasileiro, atuante como docente no Instituto Federal do Paraná, demonstra a questão do filósofo alemão com relação ao seu diagnóstico e o seu ataque, contra o vazio do pensamento, ao ilustramento do nada e a educação que não forma para estimular e intensificar a potência da vida, mas somente para a preservação da sobrevivência do homem, causando de fato um total menosprezo pela vida em sua potencialidade. Tem-se assim uma temática atualíssima, sendo esta, também alvo da problematização desenvolvida pelo professor Figueira, partindo da crítica nietzschiana ao eruditismo.

Nesta obra, dividida em três capítulos, ao utilizar-se do ferramental crítico nietzschiano, Figueira denuncia a práxis cada vez mais dominante da simples passagem de informação por parte da educação erudita ou para se colocar de modo mais claro, a condição de transmissão da pseudoformação, vazia de qualquer tipo de conhecimento para o enriquecimento da vida e farta em acumulação supérflua de dados e conceitos que Figueira, através de Nietzsche, identifica e critica, como forma de erudição eminentemente mais nociva para a vida em nossa contemporaneidade, do que aquela criticada pelo próprio Nietzsche em sua época, embora esta crítica se configure sempre como atemporal que retoma o sentido de extemporaneidade, pois tratando-se aqui mais do que uma mera contraposição à sua época, apresenta-se como um combate em torno das contradições imanentes a nós, homens modernos.

No capítulo I de “Nietzsche e o Eruditismo”, Figueira, tratando da valorização nietzschiana da tragédia e a eventual crítica ao socratismo científico, já aponta para um alvo muito importante: o homem teórico enquanto figura exemplar do eruditismo científico, criticado por Nietzsche e desmascarado por Figueira, enquanto indivíduo (o erudito) que acumula tanta informação que sufoca a experiência em toda a sua potência. Este é o homem teórico que diz e escreve muito, mas não cria absolutamente nada que potencialize a vida. Não experimenta o trágico. Ao contrário, temendo-o, visa inclusive repeli-lo e suprimi-lo para dele se proteger, por meio de seu conhecimento erudito estéril e formalista. O homem erudito não suporta as contradições da vida.

Ainda no primeiro capítulo, onde se identifica a postura de Nietzsche em afirmar a condição da tragédia grega, enquanto genuína reflexão existencial, Figueira desenvolve todo o diagnóstico nietzschiano referente à morte da tragédia em Eurípides e Sócrates, objetivando ressaltar a questão que lhe é mais própria: a ruptura da educação moderna com a formação autêntica e ideal dos educadores, acarretando na desvinculação do ato de educar com a vida. Assim, objetiva-se diagnosticar que o eruditismo envernizado por um excessivo cientificismo, esquece de educar a humanidade, isto é, negligencia a sua função primordial. Este esquecimento causado pela contaminação da educação pelo eruditismo, segundo Felipe Figueira, demonstra que mais e mais em nossa época, não educamos o homem para experenciar o que a vida oferece em toda sua vitalidade, inclusive e principalmente o seu estatuto trágico. Figueira ao aplicar o desafio de Nietzsche: quanto o homem está disposto a sofrer para subir uma montanha? O realiza com o intuito de criticar que o homem erudito não está disposto a suportar nenhum tipo de dor, muito ao contrário, quer dela escapar, refugiando-se na erudição estéril.

Figueira, utilizando-se do diagnóstico crítico de Nietzsche enquanto ferramenta própria, alerta para a ameaça cada vez mais comum de que este cientificismo abstrato que estimula o eruditismo, contamine as ditas ciências que tratam da humanidade. Assevere-se que não se deve pensar que tenhamos uma postura anticientificista nesta reflexão, mas bem ao contrário, observa-se um chamamento para que a ciência se preocupe em valorizar a vida. Caso esta preocupação não ocorra, abre-se espaço para a barbárie e a perda do sentido de viver, tornando-se a experiência de viver uma abstração erudita.

Destaque-se que a preocupação mais direta tratada por Figueira, se expressa, partindo da crítica de Nietzsche, com referência ao valor da História para a vida. História que esteja a favor da potencialização da vida e não para sua despotencialização, causada pelo eruditismo que só se preocupa com o excesso de conteúdos e dados a serem acumulados. Por este motivo, no capítulo II a História é objeto de análise crítica, a partir do olhar nietzschiano, que se coloca contrário ao aspecto erudito concebido para a História e sua consequente inutilidade para a vida.

Ressalta-se que Figueira observa que a interpretação muito comum de que Nietzsche propõe a total desvalorização ou mesmo a abolição da História, não passa de um equívoco, afirmando-se que o principal alvo do filósofo alemão e por conseguinte, também o de Figueira, enquanto historiador, localiza-se no mau uso da história pelo eruditismo e na sua supervalorização da memorização, desprezando-se o valor do esquecimento para a saúde da vida, evitando-se o acúmulo do supérfluo.  Esquecimento enquanto mecanismo que evita o excesso de informações que adoece o homem. Assim, a História deve favorecer a saúde da vida e não torná-la doente.

No capítulo III, Figueira explora a consideração intempestiva “Schopenhauer como educador” e o texto intitulado como “Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino”, com o objetivo de tratar da temática do eruditismo em seu cerne principal: a formação erudita no ensino secundário e universitário, que se preocupa somente em formar indivíduos obedientes e úteis ao Estado e ao mercado, colocando em prática para tal constituição de sujeitos obedientes e úteis, um ensino visando explorar apenas o utilitarismo do vitalismo do homem, que passa a ser formado somente para a produção e o consumo. Tal situação, observa Figueira, acarreta na formação oca e vazia, sem beneficiar a vida em sua potencialidade máxima. Identifica-se assim uma educação do rebanho, marcada por um eruditismo, que mais uma vez se utilizando do diagnóstico crítico de Nietzsche, Figueira denuncia como extremamente presente em nossos estabelecimentos de ensino e na prática educacional em nossa sociedade contemporânea. Uma sociedade utilitária, que Figueira, através da denúncia de Nietzsche, cultua a erudição como expressão de genialidade. Uma educação que contaminada pelo eruditismo e direcionada pelo utilitarismo, nada revoluciona ou transforma positivamente para a expansão da vida.

 Neste capítulo III, Figueira destaca que surgiram duas tendências nefastas para a educação e para a cultura em geral: a extensão máxima e o enfraquecimento da própria cultura. Já a atividade do jornalismo, por sua vez, é demonstrada enquanto superficial e banalizadora, gerando e fortalecendo tanto a extensão quanto o enfraquecimento da cultura e por consequência o enfraquecimento da própria educação. Figueira faz menção à crítica de Nietzsche contra a cultura de massas, perpetuada tanto pela educação quanto pelos jornais, como sendo criadoras de uma cultura medíocre, condição esta que Figueira assevera como se configurando de forma bastante atual.

Deste modo, através da crítica de Nietzsche, Figueira pratica seu próprio olhar e diagnóstico sobre a educação erudita e seus efeitos nocivos para a constituição de indivíduos doentes, bombardeados pelo excesso de informação inútil e preparados somente para produção e sobrevivência. Diagnostica-se assim, a formação de gerações menos saudáveis e que se transformarão em desprezadores da vida. Indivíduos que só produzem e reproduzem ressentimento. Neste aspecto, o eruditismo impossibilita o discernimento acerca do que seja útil ou inútil para uma existência plena em todas as suas potencialidades. Felipe Figueira reelabora que o grande problema da civilização moderna, apontado por Nietzsche, passa pela impossibilidade de criar valores. Criar novas moedas de troca. A educação erudita indubitavelmente é denunciada como fator de obstrução para esta capacidade de criação.

Cometer-se-ia um grande equívoco em não se comentar que em suas considerações finais o professor Felipe Figueira, formula as seguintes questões para si mesmo, com o intuito de avaliar sua empreitada: a primeira questão faz referência ao texto e se o autor teria alcançado ou não o objetivo desejado. Apesar de cauteloso em sua avaliação, o professor Figueira reconhece que conseguiu em geral atingir a meta desejada.

O segundo questionamento levanta uma situação bem mais complexa: “será que este trabalho não foi por demais erudito”? Figueira se interroga, se talvez não tenha caído na cilada do eruditismo que visou denunciar e questionar através da reflexão nietzschiana, que adaptou para seu uso próprio, sem apenas repetir o filósofo alemão. Deve-se então ressaltar que em seu livro, Felipe Figueira não reproduz simplesmente a crítica de Nietzsche contra o eruditismo, mas a aplica e adapta para sua empreitada própria: diagnosticar a condição do educar em nosso tempo presente, partindo de sua experiência enquanto educador e docente em história, a partir de suas vivências e colocando-se a pensar a vida na vida. Um exercício de liberdade de pensar contra o eruditismo e evitar assim reproduzir uma obra meramente erudita.

Prova de tal fato é que Figueira destaca a possiblidade de fazer deste tema, aplicando a crítica de Nietzsche como fio condutor, tratar de outras diferentes e diversas problematizações, muito atuais como a questão da imigração (dos refugiados, em especial), que se configura indubitavelmente como um tragédia humana, se expressando como um fato constitutivo da nossa experiência contemporânea, enquanto uma condição de barbárie que o eruditismo simplesmente ignora, pois o erudito que se limita à bibliografia e ao conhecimento vazio, não pode dar conta de tema tão essencial que evidencia uma tragédia humanitária de enormes proporções, pelo fato de além de não suportar o caráter trágico da vida humana, ao exercer sua influência na prática educativa, forma indivíduos ressentidos e com grande menosprezo pela vida como um todo. Inclusive a vida do outro que avaliado na condição de imigrante e desprovido de qualquer tipo de importância, torna-se passível de descartabilidade.

Por esse motivo, o livro de Figueira apresenta-se como obra essencial para nos auxiliar a refletir, a respeito das consequências nefastas de uma educação que se caracteriza pela sua condição intensamente informativa, erudita, mercadológica e que tem se preocupado muito pouco ou praticamente nada, em formar seres humanos de fato. Humanos que sejam capazes de criar e transformar seus estilos de vida, atingindo tanto uma estética quanto uma ética mais plenas, além de mais saudáveis para experenciar a vida. Que possam opor-se à condição de barbárie, como observamos em nossa contemporaneidade, exemplificada pela grave crise dos refugiados ou imigrantes.

 

Referências

 

FIGUEIRA, Felipe Luís Gomes. Nietzsche e o Eruditismo. 1 ed. Curitiba: CRV, 2018.

 

 

Correspondência

 

Rogério Luís da Rocha Seixas – Rua Aquidabã, 651, apto 403, Méier, CEP: 20.720-294, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

 

 

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