As contribuições do pensamento socrático para o ensino de filosofia

 

The contributions of socratic thought to the teaching of philosophy

 

 

Robson Pontes Custódio

Professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, Limoeiro do Norte, Ceará, Brasil.

robson.custodio@ifce.edu.br

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7772-0693

 

 

Recebido em 08 de junho de 2019

Aprovado em 21 de outubro de 2019

Publicado em 07 de janeiro de 2020

 

 

RESUMO: Diante do desafio ou da problemática existente na questão do ensino de filosofia, este artigo, tem como objetivo destacar algumas das principais contribuições socráticas para a filosofia e para o ensino de filosofia. Para isso, afirma-se em primeiro lugar, a importância da educação e do ensino para o ser humano. A fundamentação teórica acerca do problema abordado é encontrada na história da educação brasileira, em que se percebe uma forte influência das ideias pedagógicas conhecidas como tradicionalismo e tecnicismo. Depois, apresenta as características da filosofia socrática por meio da maiêutica na busca da virtude e do bem viver. E a conclusão é feita na percepção de como o pensamento socrático se atualiza e na aplicabilidade dos ensinamentos socráticos para o ensino de filosofia nos dias atuais.

Palavras-chave: Educação; Sócrates ; Maiêutica ;Ensino de filosofia.

 

ABSTRACT: Faced with the challenge or problematic that exists in the issue of philosophy teaching, this article aims to understand the Socratic contributions to philosophy and philosophy teaching. For this, it is firstly affirmed the importance of education and teaching for the human being. The theoretical foundation about the problem addressed is found in the history of Brazilian education, in which a strong influence of the pedagogical ideas known as traditionalism and technicalism is perceived. Then it presents the characteristics of Socratic philosophy through maieutics in the pursuit of virtue and good living. And the conclusion is made in the perception of how Socratic thinking is updated and in the applicability of Socratic teachings to the teaching of philosophy today.

Keywords: Education; Socrates; Maieutics; Teaching philosophy.

 

 

 

Introdução

 

 Antes mesmo da educação ou do ensino passar a ser algo institucionalizado, o ser humano, na busca de sua conservação e ao mesmo tempo do seu desenvolvimento, ensina suas crianças e seus jovens. No intuito de conhecer e enfrentar o mundo, a educação é um processo vital para o homem. Esse processo acompanha toda a história humana e atualmente é ponto de reflexão filosófica e pedagógica. É nesse sentido que Hannah Arendt (2001) afirma que a educação das crianças e dos jovens é de responsabilidade dos adultos.

 Nas palavras de Arendt (2001):

 

 

Na medida em que a criança não conhece ainda o mundo, devemos introduzi-la nele gradualmente; na medida em que a criança é nova, devemos zelar para que esse ser novo amadureça, inserindo-se no mundo tal como ele é. No entanto, face aos jovens, os educadores fazem sempre figura de representantes de um mundo do qual, embora não tenha sido construído por eles, devem assumir a responsabilidade, mesmo quando, secreta ou abertamente, o desejam diferente do que é. Esta responsabilidade não é arbitrariamente imposta aos educadores. Está implícita no fato de os jovens serem introduzidos pelos adultos num mundo em perpétua mudança. (ARENT, 2001, p.10)

           

 

Concordando com Arendt (2001) na questão da responsabilidade dos adultos sobre a educação, esse processo de apresentação do mundo às crianças e aos jovens é e será sempre desafiador e necessário em qualquer nação e em qualquer período histórico.

Visto o que foi dito acima e trazendo o olhar para o Brasil, percebe-se que esse desafio de educar crianças e jovens torna-se um tanto maior e destaca-se aqui dois motivos observados na história dessa nação. O primeiro é que no decorrer da história a educação brasileira se mostra elitista, logo, excludente diferenciando ricos e pobres. E o segundo motivo, que é onde vamos nos deter mais, é a forma como foi trabalhada a pedagogia dentro das escolas brasileiras durante a história, ou seja, as ideias pedagógicas no Brasil que têm em sua história uma presença marcante e predominante do tradicionalismo e do tecnicismo, fazendo com que a escola seja um espaço de aprendizado sem a reflexão, sem a criticidade, sem o debate, sem situações-problemas a serem discutidas, enfim, crianças e jovens no Brasil não são sujeitos ativos do conhecimento. São apenas instruídos e não educados, e isso é preocupante, já que pessoas apenas instruídas não são capazes de perceber e entender sobre o mundo, e suas responsabilidades nele, tais como responsabilidades políticas, éticas e sociais. Pessoas apenas instruídas pela memorização e pelo aprender a fazer, não estão sendo preparadas pelo que Hannah Arendt (2001) nos diz mais acima para receber o mundo e posteriormente entrega-lo nas mãos da geração seguinte.

Defino agora, a partir da leitura de José Carlos Libâneo (1992) e Dermeval Saviani (2013) , os conceitos de educação tradicional e tecnicista, e relaciono essas ideias pedagógicas com dois momentos históricos para entendermos um pouco melhor sobre como são educados jovens e crianças no Brasil.

Por pedagogia tradicional Libâneo (1992) define como aquela que se caracteriza em dissociar os conteúdos e os procedimentos didáticos do cotidiano do aluno e com as realidades sociais. É aquela na qual predomina a palavra do professor, das regras impostas, numa aprendizagem exclusivamente intelectual. Dessa forma, relaciono aqui a educação tradicional com a fortíssima influência jesuítica(Ratio studiorum) na educação brasileira que por mais de duzentos anos cuidou da educação desse país deixando marcas profundas de doutrinação e catequização o que nos mostra uma educação tradicionalista na qual o professor é o centro do processo de ensino-aprendizagem, com a missão de ser aquele que transmite conhecimento e instrui a ler, escrever e aprender o ofício, tornando o aprendiz num sujeito extremamente passivo na sua formação humana.

Saviani (2013) sobre essa ideia pedagógica nos diz que:

 

 

A organização das classes dava-se pela reunião de alunos aproximadamente da mesma idade e com o mesmo nível de instrução aos quais se ministrava um programa previamente fixado composto por um conjunto de conhecimentos proporcionais ao nível dos alunos, sendo cada classe regida por um professor. Os exercícios escolares tinham como objetivo mobilizar, no processo de aprendizagem, as faculdades do aluno. Baseando-se na escolástica, o modus parisienses tinha como pilares a lectio, isto é, a preleção dos assuntos que deviam ser estudados, o que podia ser feito literalmente por meio da leitura; a disputatio, que se destinava ao exame das questiones suscitadas pela lectio; e as repetitiones, nas quais os alunos, geralmente em pequenos grupos, repetiam as lições explanadas pelo professor diante dele ou de um aluno mais adiantado. Os mecanismos de incentivo ao estudo implicavam castigos corporais e prêmios, louvores e condecorações, além da prática da denúncia e da delação. (SAVIANI, 2013, p.52)

 

 

Para ratificar o que está dito acima sobre o elitismo, essa educação que teve um início voltado para aculturação e catequização dos índios, a partir do momento que ganha força e estrutura com o Ratio Studiorum, passa a cuidar dos filhos dos colonos, deixando de lado os indígenas. Mais uma vez, dialogando e confirmando sobre esse elitismo percebe-se por meio da leitura de Saviani (2013), quando ele afirma:

 

 

O plano contido no Ratio era de caráter universalista e elitista. Universalista porque se tratava de um plano adotado indistintamente por todos os jesuítas, qualquer que fosse o lugar onde estivessem. Elitista porque acabou destinando-se aos filhos dos colonos e excluindo os indígenas, com o que os colégios jesuítas se converteram no instrumento de formação da elite colonial. (SAVIANI, 2013, p.56)

     

 

    Quanto ao tecnicismo, essa ideia pedagógica é definida por Libâneo como aquela que subordina a educação à sociedade, no sentido de preparar o estudante para mão de obra da indústria e o essencial nessa pedagogia é o aprender a fazer, aprender a técnica (LIBÂNEO,1992). No Brasil, se pode associar esse momento com o processo de industrialização e sua relação com a educação no sentido de que a escola cada vez mais tem como objetivo atender demanda de mercado e por isso vai modelando o comportamento humano através de técnicas específicas no intuito de gerar habilidades, ou seja, produzir adultos competentes para o mercado de trabalho. A pedagogia tecnicista se firma de vez no Brasil, durante o século XX, com palavras que ganham força nas escolas como: eficiência, eficácia, produtividade e operacionalização. Isso tudo faz com que o aprendiz, a criança, o jovem, apenas aprenda a fazer. Fazer sem a menor reflexão, sem poder de crítica, sem poder de questionar, o que dificulta muito em sua formação humana o que conhecemos como autonomia no sentido kantiano da palavra. Ora, um adulto sem autonomia é um desastre para ele com ele mesmo, para ele na relação com o outro e para o mundo que o abriga. Saber fazer sempre foi e é necessário ao ser humano em sua formação ontológica, porém, dissociado da reflexão ou do saber o porquê, isso traz consequências preocupantes. E é sobre isso que Rios (2001) afirma:

 

 

A técnica tem, por isso, um significado específico no trabalho, nas relações. Esse significado é empobrecido, quando se considera a técnica desvinculada de outras dimensões. É assim que se cria uma visão tecnicista, na qual se supervaloriza a técnica, ignorando sua inserção num contexto social e político e atribuindo-lhe um caráter de neutralidade, impossível justamente por causa daquela inserção. (RIOS,2001, p. 94).

 

 

Assim, vimos até aqui como é real e histórica a grande influência ainda hoje dessas duas ideias pedagógicas na educação brasileira. Some-se a isso ainda, que no século XXI, o individualismo proporcionado pelas tecnologias de comunicação trouxe o que conhecemos como mundo virtual, e temos um problema realmente desafiador para a educação brasileira.

E pensando esse problema para o caso do ensino de filosofia, ele toma proporções ainda maiores! Pois não existe filosofia sem o poder de abstração, sem o pensamento reflexivo sobre a vida, a existência, a política, a moral, etc. O estudante de filosofia não pode ser apenas um sujeito passivo que memorize informações e aprenda a fazer para atender demanda de mercado. Filosofia vai para muito além disso. Essa angústia, ou esse problema no ensino de filosofia é percebido nas salas de aula e/ou na sala dos professores do ensino médio. Essa foi a motivação pela qual surgiu esse artigo, ou seja, como trazer uma boa educação filosófica para crianças e jovens? Sobre boa educação concordamos com Rios (2001), que:

 

 

Dizemos que a educação é um processo de socialização da cultura, no qual se constroem, se mantêm e se transformam os conhecimentos e os valores. Ao definirmos assim a educação, nos reportamos à categoria da “substância”. Se esse processo de socialização se faz com a imposição de conhecimentos e valores, ignora as características dos educandos, diremos que é uma má educação. Se tem, ao contrário, o diálogo, a construção da cidadania, como propriedade, nós a chamaremos de uma boa educação. Toda educação tem qualidades. A boa educação que desejamos e pela qual lutamos, é uma educação cujas qualidades carregam um valor positivo.  (RIOS, 2001, p.70)           

 

Portanto, o presente artigo visando refletir sobre a importância da educação dita mais acima por Hannah Arendt (2001) e o problema da educação brasileira marcada por um forte tradicionalismo e tecnicismo nas escolas, destaca especificamente o ensino de filosofia e traz como proposta perceber no filósofo grego Sócrates suas contribuições numa reflexão acerca do ensino, e especificamente do ensino de filosofia para os dias atuais. Ensinar filosofia é essencial para a formação humana. Porém, o ensino de filosofia possui muitos desafios e um deles é justamente a pergunta sobre como ensinar os conceitos filosóficos de forma filosófica. Ensinar filosofia, não se resume em transmitir conteúdos de filosofia. A partir dessa problematização, surgiu a ideia de investigar e perceber quais as contribuições de Sócrates para o ensino de filosofia. Esse pensador tem sido alvo de estudos, devido ao fato de sua filosofia ter também um caráter educativo, e de seus ensinamentos serem percebidos na sua própria conduta de vida. Filosofia e vida estão intimamente ligadas no pensamento socrático, seu modo de viver anunciava sua filosofia e é por isso que se encontra em Sócrates contribuições sempre atualizadas para o ensino de filosofia. Dessa forma, serão abordadas características da filosofia socrática tais como: a investigação do saber a partir dos discípulos, a ironia, a maiêutica, o diálogo, a necessidade do outro, o não-saber, a busca da virtude, do autoconhecimento e da felicidade, de forma que essas características sejam percebidas como contribuições socráticas para o ensino de filosofia.

 

 

 

Contribuições socráticas para o ensino de filosofia

 

Não é novidade nenhuma pontuar que entre os estudiosos da educação existe a crítica à compreensão de que ensinar se restringe apenas a repassar conteúdos. Paulo Freire (2016) em sua obra Pedagogia da Autonomia, já afirma exatamente que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Na sua crítica ao que ele denomina como ensino bancário, diz ainda que o jovem em seu aprendizado pode se desvencilhar dessa forma de conhecer. Sobre isso Freire (2016) afirma:

 

 

Em que pese o ensino “bancário”, que deforma a necessária criatividade do educando e do educador, o educando a ele sujeitado pode, não por causa do conteúdo cujo “conhecimento” lhe foi transferido, mas por causa do processo mesmo de aprender, dar, como se diz na linguagem popular, a volta por cima e superar o autoritarismo e o erro epistemológico do ‘bancarismo’ (FREIRE,2016, p.27).

 

 

Ora, se ensinar de uma forma geral, não se resume à transmissão de conteúdos, ensinar filosofia então, jamais pode ser simplesmente repassar para o discente conteúdos de filosofia! A filosofia enquanto disciplina escolar é, por excelência, a disciplina da reflexão, da criticidade, do diálogo, da busca sedenta pelo saber por parte do aprendiz e do educador. Diante desse contexto, Sócrates, filósofo grego da antiguidade (470-399 a.C), dialoga com a atualidade e se mostra como um filósofo que nos liberta desse ensino que Paulo Freire (2016) chama de bancário.

Em Sócrates, ensinar não significa que alguém, sendo detentor do conhecimento repasse para outrem conteúdos prontos e acabados; não significa também usar da autoridade e apresentar respostas definitivas. É exatamente o contrário! Na filosofia socrática, o não-saber não tem respostas prontas, e isso faz com que aprender seja reencontrar-se por intermédio de um sábio. E é a partir dos questionamentos do não-saber socrático que se apresentam as contribuições do que está sendo construído em termos de conhecimento, ou se apresentam as contribuições para a refutação de um preconceito ou de um falso saber. “ O mais importante da arte de Sócrates é sua capacidade, potência, para ser, de qualquer forma uma pedra de toque para o pensamento do jovem, alguém que pondera se dá a luz a uma imagem e a uma mentira ou a algo fecundo e verdadeiro”. (KOHAN, 2011, p.130)

Sócrates, em sua filosofia, busca o autoconhecimento, o desenvolvimento da virtude e a felicidade através da maiêutica, demonstrando em sua própria existência que essa busca é entrelaçada com o processo educativo do ser humano.

Kohan (2011) observa que:

 

 

Com Sócrates, a filosofia nasce como uma forma de vida em situação educacional. Para o ateniense, filosofar é viver interrogando-se a si e aos seus semelhantes, ocupando-se de si e dos outros, cuidando de que todos cuidem de si, transmitindo sua paixão igualitária. Sem essa dimensão pedagógica, a filosofia não tem sentido; uma vez que a filosofia seja uma forma de vida que não afeta o modo de vida dos outros, a própria vida também perde o sentido. (KOHAN, 2011, p.144)

 

 

Na obra de Platão (2001), o Teeteto, Sócrates afirma que seu trabalho filosófico na busca da verdade consistia em ser parteiro de almas, ou seja, o processo de investigação mais adequado para se chegar a verdade acontece pelo método de escutar e objetar por meio da ironia respostas já estabelecidas sem reflexão. É óbvio que esse método só é realizado por meio do diálogo e que Sócrates, afirmando o só sei que nada sei, na sede do conhece-te a ti mesmo, não traz enquanto mestre, respostas prontas e acabadas, mas que por meio de perguntas faz com que o discípulo seja sujeito ativo na investigação do saber e da verdade.

Sócrates citado por Nicola (2005) diz que:

 

 

Ora, a minha arte de obstetra assemelha-se em tudo à das parteiras, da qual difere por ser exercida sobre os homens e não sobre as mulheres, e por cuidar das almas parturientes e não dos corpos. E a sua maior qualidade é que por meio dela consigo discernir se a alma de um jovem dá a luz um fantasma e uma mentira ou algo de vital e verdadeiro. E tendo isso em comum com as parteiras, também sou estéril... de sabedoria. (NICOLA, 2005, p.58)

 

 

A pedagogia socrática acontece na vida e está no movimento do diálogo. O discípulo do mestre é despertado e instigado a conhecer. Aquele que está com a alma parturiente necessita, portanto, de um mestre que saiba conduzir o nascimento da ideia. Essa é a função do professor parteiro segundo Sócrates, ou seja, cabe ao professor saber instigar, criar possibilidades para o discípulo alcançar o pensar filosófico. “A convicção de que o discípulo pode e deve chegar, por seus próprios meios, à construção de conhecimentos, frente à mera recepção de saberes já formulados, que era o procedimento de seus antecessores, para nós, é uma das grandes novidades da pedagogia de Sócrates”. (SOFISTE, 2007, p.10)

Esse trabalho do parteiro de almas que viveu na Grécia antiga, só acontece com a presença do outro. É uma busca viva que dá sentido à vida. Filosofia em Sócrates é tão viva que o mestre ateniense não escreve, pois, filosofia não se escreve, se vive. Hoje, mesmo no século XXI, com todo desenvolvimento tecnológico e científico, percebe-se o quanto continua forte e necessário o diálogo na busca do conhecimento, do autoconhecimento, do bem viver, do conviver e da felicidade humana. É aqui que se dá a maior contribuição socrática para o ensino de filosofia nos dias atuais, ou seja, a filosofia de Sócrates se atualiza e dialoga com a contemporaneidade, quando se percebe a força vital e filosófica que habita no diálogo e, portanto, na aula dialogada. Mesmo com o mundo virtual, constata-se que o ser humano não se encontra, não se realiza no isolamento, no eu sozinho. Sem a presença do outro, sem enxergar o outro, ganha força o preconceito, a intolerância, a arrogância e a estupidez do falso saber.

Muito se discute sobre o ensino de filosofia, sobre o como ensinar filosofia, sobre como deve ser uma aula de filosofia para jovens do século XXI, como fazer para que a aula dessa disciplina não se transforme na mera transmissão de conhecimentos filosóficos, e chega a impressionar como esse filósofo, por meio da maiêutica, traz contribuições significativas para que a aula de filosofia aconteça de forma filosófica, fazendo com que o aluno desenvolva autonomia, autorreflexão, criticidade, dialogicidade, conhecimento, dando sentido à existência. Aprendendo com Sócrates, o professor de filosofia percebe que aprender a filosofar é aprender a perguntar, e dessa forma, o mesmo professor passa a desenvolver o ensino filosófico da filosofia, desenvolvendo em suas aulas a atividade do filosofar em seus alunos, libertando-se de vez daquilo que Paulo Freire chama de educação bancária. A partir de Sócrates e de suas contribuições metodológicas por meio da maiêutica, o professor de filosofia, pode despertar nos jovens o desejo e a sede pelo saber, questionando suas certezas, “quebrando a cabeça”, refletindo, reconhecendo seus não-saberes, e por meio do diálogo, buscarem não só o conhecimento pelo conhecimento em si, mas o conhecimento de si mesmo; conhecimento que transforma o humano em alguém que saiba conviver consigo mesmo, com o outro e com o mundo. O mestre Sócrates mesmo afirmando na apologia de Sócrates que não é professor de ninguém, nos ensina no século XXI que o conhecimento sendo trabalhado de forma filosófica traz sentido, é virtuoso e transformador, pois há no conhecimento socrático uma relação entre epistemologia, ética e política. 

Sócrates, em seu julgamento, afirma sobre sua missão que:

 

 

Outra coisa não faço senão andar por aí persuadindo-vos, moços e velhos, a não cuidar tão aferradamente do corpo e das riquezas, como de melhorar o mais possível a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem a virtude para os homens, mas da virtude vêm os haveres e todos os outros bens particulares e públicos. Se com esses discursos corrompo a mocidade, seriam nocivos esses preceitos; se alguém afirmar que digo outras coisas e não essas, mente. Por tudo isso, Atenienses, diria eu, quer atendais a Ânito, quer não, quer me dispenseis, quer não, não hei de fazer outra coisa, ainda que tenha que morrer muitas vezes.  (PLATÃO,1996, p.40).

 

 

 

Conclusão

 

Com a leitura da filosofia de Sócrates, percebe-se de forma clara como seu pensamento dialoga com a atualidade e se faz oportuno nas aulas de filosofia na educação deste país, marcado profundamente em sua história por ideias pedagógicas que dificultam o pensar filosófico. Somos convidados ainda hoje para o caminho do parto das ideias, com o mesmo objetivo do “conhece-te a ti mesmo”, para a obtenção de uma vida bem vivida. No século XXI, o homem continua tendo a necessidade de se conhecer no outro, para viver bem com ele mesmo, com o outro e com o mundo. Percebe-se de forma intensa a vivacidade e como o pensamento do filósofo estudado nesse artigo dialoga com a atualidade na questão filosófica e pedagógica.

 

 

Este método, essencialmente dialógico, permanece válido até os dias de hoje para filósofos e educadores, os quais apostam que, somente a partir de uma perspectiva dialógica, chegar-se-á a um consenso, elemento indispensável à consolidação tanto do pensamento filosófico em geral quanto da prática educacional em particular, motivo pelo qual este texto advoga a importância do conhecimento do pensamento socrático como fundamento filosófico para a formação do educador. (FERREIRA, 2010 p. 51)

 

 

Portanto, se o professor de filosofia, como afirma Hannah Arendt (2001) , tem a responsabilidade de apresentar o mundo para as crianças e os jovens que passam por sua sala de aula, despertando neles autonomia para desenvolver um mundo melhor e mais justo, esse professor de filosofia, pode na realidade atual com as contribuições socráticas, por meio da aula dialogada em suas aulas, fazer acontecer o ensino de filosofia de forma filosófica. Sem chegar com conteúdos prontos e acabados, sem a preocupação apenas de transmitir conteúdos do livro didático de forma estanque e dissociadas da vida de seus alunos. Sócrates muito contribui nos ensinando que é através do diálogo, é percebendo o outro, é sendo sujeito ativo na busca do conhecimento, é sabendo fazer com que aquele conteúdo passe a ter relacionamento direto com a vida de seus alunos. Fazendo isso, o professor pode estar criando possibilidades de um aprendizado de filosofia de forma filosófica, despertando em seus alunos a criticidade, a dialogicidade, a sede e a investigação do saber filosófico, uma releitura do mundo, o autoconhecimento, o respeito e a tolerância para com o outro, enfim, a relação da filosofia com o modo de viver.

 

 

 

 

Referências

 

ARENDT, Hannah. A Crise na Educação. In: ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva. 2001.

 

FERREIRA, Stephânia Beatriz. FERREIRA, Dayana Vieira. BATISTA, Gustavo Araújo. Socrates: a defesa da filosofia aplicada a educação para a vida reflexiva- algumas considerações para a autoformação ético-politica do educador. São Paulo: Cadernos da FUCAMP, n.10, v.12, p.49-64/2010.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 54º ed. Rio de janeiro: Paz e Terra, 2016.

 

KOHAN, Walter Omar. Filosofia: o paradoxo de aprender e ensinar. Tradução de Ingrid Mulher Xavier. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

 

KOHAN, Walter Omar. Sócrates & a educação: o enigma da filosofia. Tradução de Ingrid Mullher Xavier. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.

 

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública: a pedagogia critico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1992.

 

NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de filosofia: das origens a idade moderna. São Paulo: Globo, 2005.

 

PLATÃO. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. (Coleção os Pensadores). São Paulo: Editora nova cultura, 1996.

 

PLATÃO. Diálogos: Teeteto e Crátilo. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 3º ed. Pará: editora universitária UFPA, 2001.

 

RIOS, Terezinha Azerêdo. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. São Paulo: Cortez, 2001.

 

SAVIANI, Dermeval. Histórias das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores associados, 2013.

 

SOFISTE, Juarez Gomes. Sócrates e o ensino da filosofia: Investigação dialógica uma investigação para a docência de filosofia. Petrópolis: Vozes, 2007.

 

 

Correspondência

 

Robson Pontes Custódio – Rua Tomás Rodrigues, 792, Antônio Bezerra, CEP: 60.361-000, Fortaleza, Ceará, Brasil.

 

 

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