Avaliação da aprendizagem em Filosofia e a Pedagogia das Competências: o Estado do Conhecimento do tema no Brasil

 Evaluation of learning in Philosophy and the competency-based pedagogy: the state of knowledge on the subject in Brazil

 

 

Ruan Saboia Nunes

Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria – RS, Brasil.

ruansaboia@gmail.com

 

Recebido em 02 de dezembro de 2025

Aprovado em 01 de fevereiro de 2026

Publicado em 06 de março de 2026   

 

RESUMO

O presente trabalho se origina a partir da construção da pesquisa de dissertação de Mestrado em Educação do referido autor, dentro do contexto do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O tema da pesquisa trata da “avaliação da aprendizagem de habilidades e competências da disciplina de Filosofia no Ensino Básico” (contexto da Base Nacional Comum Curricular). Com esta temática, se torna necessário acessar as produções acadêmicas do campo de pesquisa, pois ao buscar pela literatura (produção científica) de um tema específico de modo sistemático e reflexivo, é possível então subsidiar a dissertação tanto em sua produção textual, quanto na adequação do tema, metodologia e proposições a serem desenvolvidas às necessidades de seu próprio campo científico. Portanto, o Estado do Conhecimento (EC)  é uma ferramenta metodológica que visa a “[...] identificação, registro, categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo congregando periódicos, teses, dissertações e livros sobre uma temática específica.” (Morosini, 2014, p. 102). Visei, no VIII Encontro do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, apresentar descritiva e reflexivamente o processo de construção, execução e resultados obtidos do EC realizado no presente ano, de acordo com a proposição metodológica das pesquisadoras Marília Costa Morosini (2014) e Pricila Kohls Santos (2021), delimitado pelo objetivo de identificar e analisar como a avaliação da aprendizagem em filosofia, no contexto da pedagogia das competências, é descrita e analisada nas produções obtidas pela pesquisa.

Palavras-chave: Avaliação; Ensino de Filosofia; Pedagogia das Competências; Estado do Conhecimento;

    

ABSTRACT

This work originates from the research for the author’s Master’s thesis in Education, within the context of the Postgraduate Program in Education at the Federal University of Santa Maria (UFSM). The research topic addresses the “evaluation of learning skills and competencies in the subject of Philosophy in basic education” (context of the National Commom Curricular Base). With this theme, it becomes necessary to acess academic productions in the research field, because by systematically and reflectively searching the literature (scientific production) on a specific topic, it is possible to support the dissertation both in its textual production and in the adaptation of the theme, methodology, and propositions to be developed to the needs of its own scientific field. Therefore, the State of Knowledge (EC) is a methodological tool that aims at “[…] identification, registration, and categorization that lead to reflection and synthesis on the scientific production of a given area, period of time, bringing together journals, theses, dissertations, and books on a specific theme” (Morosini, 2014, p.102) At the VIII Meeting of the Wroking Group Philosophizing and Teaching Philosophy, I aimed to present descriptively and reflectively the process of construction, execution, and results obtained from the EC carried out this year, according to the methodological proposition of the researchers Marília Costa Morosini (2014) and Pricila Kohls Santos (2021), delimited by the objective of identifying and analyzing how the evaluation of learning in philosophy, in the context of competency-based pedagogy, is described and analyzed in the productions obtained by the research.

Keywords: Evaluation; Philosophy Teaching; Competency-based pedagogy; State of knowledge.

 

A ESTRUTURA DO ESTADO DO CONHECIMENTO

            Santos e Morosini (2021), atentam que o EC contribui com o pesquisador (a) não somente com a aglutinação sistêmica da bibliografia, mas além disso com uma melhor percepção do campo que pesquisa. Oferecendo contexto histórico das produções, influências das instituições nas quais foram realizadas, onde se localizam, etc. De modo resumido, permite “conhecer sistematicamente a realidade da construção do conhecimento científico de um determinado campo, em um determinado espaço e tempo [...]” (Santos; Morosini, 2021, p.125). Este ponto se torna de extrema relevância, se levarmos em conta que já há um tempo se discute como o campo do Ensino de Filosofia no Brasil têm pleiteado sua cidadania-filosófica institucional e epistemologicamente, como uma subárea genuína da Filosofia nos departamentos das universidades brasileiras. Sendo assim este trabalho visou contribuir também, mesmo que de maneira singela, com um objetivo secundário de se tornar um referencial atualizado sobre a temática, aglutinando fontes anteriormente esparsas e de difícil acesso em um único trabalho, que poderá servir como um manancial para consulta caso outros (as) pesquisadores (as) queiram levar o campo/tema adiante, no futuro.

                Iniciaremos com uma consideração inicial e humildemente resumida do que é um Estado do Conhecimento: o EC é uma consulta sistemática à bibliografia científica sobre determinado tema a ser estudado, visando conhecer e catalogar o que foi e está sendo desenvolvido em termos de pesquisa sobre o assunto visado. Isto para que tanto se obtenha referenciais teóricos, quanto se delimite vácuos a serem preenchidos por sua própria pesquisa, a fim de contribuir com a linha de pesquisa. Este processo se dá de maneira sistemática, observando um protocolo de pesquisa bem estabelecido, assim como a busca em si através de mananciais de teses, dissertações e artigos (primariamente) e posteriormente a anotação dos resultados encontrados, sua sistematização, categorização e por fim proposição de novos estudos sobre a área. Visto que segundo a autora, o EC

[...] pode ser uma estratégia para ampliar o escopo sobre determinado tema de estudo, sendo esta uma maneira de também encontrar perspectivas que ainda não foram abordadas, pontos de vista que ainda não foram pensados e que podem ser inovadores para a realização de uma nova pesquisa. (Santos; Morosini, 2021, p. 125)

            Sendo assim, tendo como referência os estudos de Santos e Morosini (2021) e também do texto “Estado de conhecimento: a metodologia na prática” (2021), passarei a uma análise mais atenta da estrutura do EC, esta que se organiza em: definição do objetivo geral e protocolo básico (escolha das fontes de produção científica e seleção dos descritores de busca), bibliografia anotada (organização do corpus de análise), bibliografia sistematizada (identificação e seleção das fontes), bibliografia categorizada (construção das categorias e análise do corpus) e bibliografia propositiva (considerações acerca do campo e do tema de pesquisa).

            Um EC a ser realizado é baseado em seus objetivos gerais e específicos da sua pesquisa. Portanto, o primeiro passo é delimitar a meta a ser perseguida com sua pesquisa bibliográfica:

[...] para iniciar a pesquisa é preciso definir o objetivo geral para a construção do estado do conhecimento, pois toda a pesquisa irá utilizar este objetivo como fio condutor da busca, exploração, seleção, sistematização, categorização, análise e construção do texto final do Estado do Conhecimento. Para a realização da pesquisa do tipo EC se faz necessário realizar o design da pesquisa, que parte da definição do objetivo, e a escolha da metodologia de análise dos dados. (Santos, Morosini, 2021, p. 127)

            Por exemplo, o objetivo do presente EC foi delimitado como: “Conhecer e analisar as publicações, dissertações e teses realizadas, possíveis de se recuperar (em qualquer data no Brasil, países lusofalantes e hispanofalantes), acerca da avaliação da aprendizagem em filosofia em relação à pedagogia das competências.” Este objetivo delineou o protocolo no qual a busca bibliográfica foi realizada, que destaco a seguir:

Questões de Pesquisa:

            (Q1) Quais são as compreensões sobre a avaliação da aprendizagem de habilidades e competências em filosofia no ensino médio, na literatura educacional?

            (Q2) Quais são as compreensões sobre a avaliação da aprendizagem em filosofia no ensino médio, na literatura educacional?

Bancos de dados/repositórios:

            Os repositórios de teses/dissertações/periódicos escolhidos para a realização da pesquisa foram: BTD CAPES¹, BDTD do IBICT2 e Google Acadêmico3.

 

Quadros das strings de busca (palavras-chave pesquisadas)

Questão

String

Q1

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Habilidades” OR “Habilidades Filosóficas”) AND (“Competências”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

Q2

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

Tabela 1: Fonte: projeto de dissertação de mestrado do autor do artigo.

 

Critérios de inclusão

Identificação

Critérios de inclusão e exclusão para a definição do corpus de análise.

Cr.1

Apresentar concepções/metodologias de avaliação da aprendizagem na disciplina Filosofia.

Cr.2

Comparar concepções/metodologias de avaliação da aprendizagem na disciplina Filosofia.

Cr.3

Conceituar os aspectos de avaliação da aprendizagem de habilidades e competências de Filosofia.

Cr.4

Analisar criticamente a avaliação de habilidades e competências de Filosofia.

Cr.5

Mostrar a prática de avaliação de habilidades e competências de filosofia em escolas.

Tabela 2: Fonte: projeto de dissertação de mestrado do autor do artigo.

            Vale ressaltar que esteve vigente durante todo o processo de inclusão/exclusão de produções científicas no corpus de análise, os seguintes critérios de qualidade: estar disponível em sua versão completa via web e de forma gratuita, apresentar coerência e coesão textual e nos casos específicos de periódicos, não houveram eliminações por critério de Qualis e sim apenas dos critérios de elegibilidade.

            Dessa forma, a execução do protocolo de pesquisa, acessando um manancial de banco de dados de trabalhos acadêmicos e realizando a pesquisa de estudos através das palavras-chave, a realização de uma leitura flutuante dos resultados obtidos respeitando os critérios de elegibilidade previamente determinados, resultará no passo 2, a bibliografia anotada. Isto é “anotação dos trabalhos que versam sobre os critérios de seleção estabelecidos.” (Santos, Morosini, 2021, p. 132)

            Esse passo fundamentalmente define o corpus de análise da revisão bibliográfica, a reunião de todos os documentos, ou produções a serem contempladas na pesquisa. Que devem ser todos reunidos pelo pesquisador (a) e salvos em um banco de dados, e catalogados na seção que versa sobre este passo no trabalho, pois “A Bibliografia anotada oferece o cenário – dados demográficos – contexto sobre o material a ser analisado, por exemplo, quantos foram publicados por região, por ano, por programa, quais as palavras-chave mais recorrentes, etc.” (Santos, Morosini, 2021, p. 133). Contando com uma identificação única para cada trabalho (geralmente se usa números), o ano de publicação, o título, as palavras-chave e o resumo de cada um. Preferencialmente se organizando em uma tabela, para melhor compreensão de seu corpus de análise.

Resultado da busca sistemática:

 

Alcance da configuração de busca:

Banco de Dados

String

Resultados

Inclusões

Primeira busca

BTD CAPES

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Habilidades” OR “Habilidades Filosóficas”) AND (“Competências”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

11

0

Segunda busca

BTD CAPES

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

202

1

Primeira busca BDTD do IBICT

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Habilidades” OR “Habilidades Filosóficas”) AND (“Competências”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

46

0

Segunda busca BDTD do IBICT

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

394

2

Primeira busca Google Acadêmico

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Habilidades” OR “Habilidades Filosóficas”) AND (“Competências”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

+3000

4

Segunda busca Google Acadêmico

(“Avaliação” OR “Avaliação da Aprendizagem”) AND (“Filosofia” OR “Ensino de Filosofia”) AND (“Ensino Médio”)

+5000

6

Tabela 3: Fonte: projeto de dissertação de mestrado do autor do artigo.

Bibliografia Anotada:

Imagem 1: Fonte: projeto de dissertação de mestrado do autor do artigo.

A totalidade dos resultados encontrados e incluídos no banco de dados desse EC, a partir da pesquisa nos repositórios foram: 2 dissertações de mestrado, 1 trabalho de conclusão de curso/monografia, 1 relatório final de mestrado e 9 artigos científicos do ano de 1996 até o ano de 2021. Não foram encontrados nos mananciais pesquisados, produções em língua espanhola.

            Ao final deste passo, dependendo dos critérios de elegibilidade e objetivos determinados, o corpus provavelmente ainda terá algumas produções que não se encaixam totalmente nos objetivos da análise, visto que foram incluídos apenas a partir do protocolo base, palavras chaves, leitura do resumo. Portanto é necessário sistematizar estas produções, obtendo mais informações acerca delas a partir de uma leitura flutuante das mesmas. Passando então para o terceiro passo, Bibliografia Sistematizada e

“Nessa etapa já se inicia a seleção mais direcionada e específica para a temática objeto da construção do conhecimento e outros indicadores de acordo com o objeto de estudo do pesquisador.” (Santos, Morosini, 2021, p. 134)

            Ao sistematizar, excluindo ou não trabalhos por não compreenderem os critérios e objetivos, a fase de identificação e seleção das fontes chega ao fim. O corpus de análise está pronto para o processo categorização de suas particularidades e efetivamente da análise do seu conteúdo de modo pormenorizado, visando extrair informações concretas de cada produção de modo sistemático e organizado.

            Devido a leitura flutuante e análise qualitativa dos textos (Resumo, Metodologia, Conclusões e Bibliografia/Referências), ou então por ter sido identificado um desvio do tema no qual é o objetivo do presente EC os resultados 03, 09 e 12 foram excluídos da construção do corpus de análise. Resultado 03: Contempla apenas parcialmente Cr.5: mostrar a prática de avaliação de habilidades e competências de filosofia em escolas. Não contempla nenhum outro critério. Resultado 09: Não contempla nenhum critério em seu resumo, conclusão e referências. Resultado 12: Contempla apenas parcialmente Cr.1: Apresentar concepções/metodologias de avaliação da aprendizagem na disciplina Filosofia. Porém desvia do objetivo e perguntas de pesquisa. Portanto seguirei adiante, na investigação e extração de dados aprofundadas dos 10 resultados que mantiveram-se, tanto em qualidade quanto em consonância temática, alinhados com o objetivo da presente pesquisa.

            Continuo então para o quarto passo, Bibliografia categorizada.

O principal objetivo desta etapa é realizar, o que podemos chamar de “agrupamento” das produções por temáticas, as quais podemos nominar de “Categorias”. Ou seja, com os trabalhos selecionados deve ser realizado o reagrupamento das produções segundo blocos temáticos. Por exemplo: os descritores utilizados na pesquisa inicial, podem ser utilizados como unidades de sentido para compor denominada categoria. (Santos, Morosini, 2021, p. 136)

            A base desta etapa continua sendo as informações produzidas no passo anterior, porém utilizando de uma leitura mais aprofundada para construir as categorias ou agrupamentos de trabalhos através de unidades de registro nelas encontradas. Estas que deverão ser conceituadas e explicadas formalmente através do viés teórico que une aquelas produções. Seja metodologia dos trabalhos ou fundamentação teórica que aproxima as produções, por exemplo, deve ser enunciado no corpo do texto, para todas as categorias produzidas. Vale ressaltar que durante este passo o pesquisador (a) estará fazendo inferências acerca das informações que analisa, isto é, estará agindo ativamente em reconhecer a existência de categorias, de mover as produções para elas, etc. Isto já começa a dar forma a algumas proposições do texto final.

Categorização:

            A partir de uma leitura analítica mais pormenorizada dos resultados encontrados e sistematizados, foi possível identificar duas categorias principais. A primeira em que os textos lançam mão de defender que existe uma gama de especificidades no Ensino de Filosofia, que acabam por gerar a necessidade de construção de uma Avaliação da Aprendizagem específica para a disciplina de filosofia. Se distanciado de metodologias tradicionais. Ao voltar seus olhares para a realidade escolar em nosso país, os pesquisadores (as) identificam em seus textos, que a metodologia mais utilizada de avaliação apresenta problemáticas, que vão além de sua característica tradicional já entendida como atrasada. Um ponto de destaque (dentre vários) dos pesquisadores (as) é a característica criativa, crítica e propositiva da filosofia, no sentido de aprender os conteúdos para pensar a partir deles algo novo. Sendo assim, uma avaliação em filosofia precisa ser mais do que um conjunto de questões com respostas prontas e fixadas, na qual os (as) estudantes precisam ter decorado anteriormente. Buscam defender a criação de um modo específico de realizar avaliações de filosofia, atrelado a um sentido formativo e representa a maioria dos trabalhos. Chamarei esta categoria de “ Avaliação da filosofia”.

            Quanto à segunda categoria, compreendo que são as produções que estão partindo para um segundo momento da discussão sobre a avaliação. Isto é, já compreendem a existência deste modo de avaliar específico do campo da filosofia (citado pela primeira categoria), e então, focam a atenção de sua pesquisa para como atrelar a avaliação de habilidades e competências a este sentido específico da filosofia. Nesse sentido, buscam entender como essa aproximação pode ser feita na prática dentro da escola ao ensinar competências de filosofia e avaliá-las de modo formativo. Chamarei esta categoria de “Avaliação da filosofia + competências”.

            É claro, as pesquisas encontradas tratam de maneira muito mais aprofundada de diversos sentidos que surgem ao se abordar tal problemática. Porém, criar uma categoria para cada ponto específico que se repete nas diferentes pesquisas, tornaria este processo demasiadamente segmentado e provavelmente confuso. Portanto, mantenho-me conciso ao cerne (principal propósito) de cada pesquisa e assim, compreendo que estas duas categorias construídas são suficientes para alocar os 10 resultados incluídos.

       Categoria 01 – Avaliação da Filosofia é composta pelos itens: 01, 02, 04, 05, 08, 10.

       Categoria 02 – Avaliação da Filosofia+Competências é composta pelos itens: 06, 07, 11, 13.

            Com a categorização realizada, passamos para o quinto passo, a Bibliografia propositiva. Nesta etapa, se visa utilizar dos avanços no entendimento das pesquisas após a leitura mais aprofundada para sua categorização, para buscar propostas emergentes daquelas produções como por exemplo: indicadores, ações pontuais, políticas, etc, também é importante buscar “achados” ou seja informações, conceituações, resultados, etc. que foram propostos pelo trabalho e que podem ser citados na escrita o texto final do EC. Assim como delimitar as proposições e considerações próprias do revisor acerca do campo e do tema de pesquisa estudado.

“Em relação as “Proposições” a intenção é que o Estado do Conhecimento, além das inferências sobre as pesquisas analisadas, apresente também, se houver, quais foram as propostas levantadas e/ou sinalizadas pelos autores das teses, dissertações e artigos científicos. [...] As Proposições “Do estudo”, então, são aquelas elencadas pelos autores das publicações e as Proposições “Emergentes” são aquelas que a análise dos trabalhos suscitou, ou seja, a partir da realização do Estado do Conhecimento quais são as possíveis propostas que o autor do EC pode fazer sobre os trabalhos analisados.” (Santos, Morosini, 2021, p. 139)

                Por fim, após análise propositiva do corpus, a metodologia do EC está coesa e o pesquisador já deve estar pronto para iniciar a escrita do seu texto final. “Para além do levantamento das publicações, objetiva-se a compreensão de um determinado campo de conhecimento” (Santos, Morosini, 2021, p. 142) Assim como as proposições de possíveis avanços para com este campo na sua determinada área, oferecendo uma reflexão sobre como está o estado do conhecimento que não só reúne informações mas problematiza, busca categorias ainda não propostas, lacunas a serem preenchidas, espaços para novas pesquisas, etc4.

 

CONSIDERAÇÕES PROPOSITIVAS SOBRE O  ESTADO DO CONHECIMENTO

 

            Creio que é importante começar entendendo o contexto da estrutura do campo de estudo e suas pesquisas, em especial pelo fato de ele ter início em 1996 em Portugal, através do artigo de Silva que versa sobre o contexto europeu da avaliação da filosofia, mas que por lançar mão das primeiras conceituações de uma avaliação pensada de maneira orgânica ao processo de ensino filosófico e não como um corpo estranho, metodológico e alheio como uma ferramenta, se tornou o texto-base da discussão no Brasil e referência para o início do campo no país. Apesar de não tratar especificamente sobre a realidade brasileira.

            O contexto das produções brasileiras é de um campo composto majoritariamente por artigos científicos, que buscam jogar luz a problemáticas encontradas na atuação docente ou então evidenciadas a partir da percepção da falta de atenção que o tema da avaliação da filosofia tem dentro dos cursos de formação de professores (as). Com o objetivo de apresentar referenciais teóricos que podem ser utilizados para refletir sobre essa realidade frente a própria concepção de avaliação dos autores (predominância de metodologia de pesquisa teórica e abordagem qualitativa). Estão majoritariamente situados na região sudeste e nordeste do país e predominam uma epistemologia teórico crítica na produção do discurso (assim como são majoritariamente a composição da categoria 1). Quanto às produções como dissertações de mestrado, há uma busca pelas conceituações de metodologias de avaliação apenas no referencial teórico, autores previamente escolhidos para reforçar as bases epistemológicas do estudo a ser defendido. Visto que há apenas uma Revisão Sistemática de Literatura no Brasil sobre o tema da avaliação da filosofia (Guilherme dos Santos Pinto (2018)). E esta não busca construir o histórico do campo, suas problemáticas, proposições e conclusões como seu objetivo, mas sim apenas recuperar o máximo de conceitos diferentes de avaliação possíveis. Portanto essa parte do corpus se resume por oferecer uma defesa de determinadas concepções de avaliação da filosofia baseada em uma epistemologia pré-estabelecida e a justificativa para a importância da concepção via pesquisa teórica e abordagem qualitativa da materialidade que é o referencial teórico. Isto possui uma importância muito grande na construção da epistemologia base do campo5.

            O contexto do campo é muito pequeno para a gama de possibilidades que o Estado do Conhecimento aqui realizado recolheu como dados, até mesmo em sua dimensão teórico-bibliográfica. Apenas um artigo e uma dissertação trazem dados empíricos de dentro da escola para a análise metodológica das problemáticas e pesquisas e o mais atual data de 2018, antes da oficialização da BNCC e o currículo por competências. O estado do Rio Grande do Sul consta no campo com apenas duas produções científicas, ambas com a participação da mesma autora. Nenhuma produção no país contempla a problematização da BNCC mediante seus critérios avaliativos como estão ou não apresentados no documento (análise das normas avaliativas do documento).

            Apesar disso, existe uma situação que chamei de dissonância interpretativa acerca do tema de avaliação de habilidades e competências na filosofia, que acaba por gerar uma maior fragmentação discursiva sobre o tema, dificultando uma melhor investigação da metodologia. Isto é, maneiras diferentes e antagônicas de discursar sobre a pedagogia das competências que ao entrar em tensionamento no debate acadêmico, acabam por dificultar um estudo mais aberto sobre a temática, mesmo que se busque não perder de vista o pensamento crítico que a pesquisa requer. O ponto principal dos textos da categoria 2 busca definir do que se trata este “ser competente” em realizar um pensamento autônomo, crítico e em suma, filosófico e com caráter formativo. Outrossim, passam a discutir a possibilidade de uma “avaliação da filosofia por habilidades e competências”.

            Apresentando em suma, duas polaridades: competência filosófica a partir do estendimento do conceito geral de competência para a disciplina de filosofia, mantendo a mesma orientação de seus instrumentos que a pedagogia das competências tradicional. E por outro lado, um segundo polo com a compreensão de que competência filosófica só é possível de ser levada adiante em sala de aula se estiver baseada no campo do Ensino de Filosofia, com viés crítico acerca dos processos que possam por ventura causar uma instrumentalização do processo de ensino e aprendizagem, se estiverem vinculados à uma ideologia de mercado. Com o mesmo intuito, porém através de suas contextualizações diferentes, se forma um debate que apresenta um certo nível de dissonância na conceituação de competência filosófica, o que dificulta o estabelecimento de critérios para a avaliação do conhecimento filosófico ensinado via habilidades próprias da filosofia. Mas que permite acessar um novo manancial de referências teóricas através de proposições que ainda se mantêm alinhadas ao princípio de um ensino de filosofia como problema filosófico6.

            Com base nas discussões dos conceitos apresentados com o EC em suas duas categorias e desta análise de contexto das produções do campo. Creio que é possível delinear as seguintes proposições emergentes que podem ser pensadas como possibilidade de novas pesquisas ou objetivos de pesquisas, como a minha própria.

            Ao repensar filosoficamente a concepção de avaliação como um todo, as propostas de novas metodologias avaliativas podem e devem ser realizadas dentro dos programas de formação de professores já pesquisando na prática do ensino de habilidades filosóficas, com sentido holístico e não como uma sistematização ou corpo estranho de instrumentos neutros. Isto porque o conteúdo ministrado não somente se trata de “conteúdo programático”. Apesar de que claro, este tem importância fundamental para o ensino de qualquer disciplina. Mas também é necessário saber identificar os aspectos fundantes e fundamentais das habilidades filosóficas e competências básicas da disciplina de filosofia. Estas que apenas recentemente entraram em vigor oficialmente nas escolas brasileiras. Portanto, precisamos compreendê-las melhor para que esta metodologia seja analisada, criticada e também desmistificada dentro dos cursos formadores.

            Sobre a dimensão institucional, a necessidade de examinar o texto da BNCC que versa sobre a avaliação de competências de modo a construir uma problematização sobre a dimensão institucional das escolas buscando compreender como cada Projeto Político Pedagógico irá compreender o ensino por meio de competências, a avaliação deste ensino e as metas esperadas. Para avaliar criticamente suas congruências e incongruências, a fim de reconhecer os limites que constrangem o trabalho docente e as lacunas que permitem a resistência de seu modo de atuar como professor (a) na instituição escolar.

                Quanto ao contexto da BNCC, emerge a possibilidade de realizar pesquisas visando como a interdisciplinaridade de um currículo por competências influencia no espaço da filosofia no currículo da escola, quais caminhos ela está utilizando para tornar-se presente por mais tempo nos estudos dos (as) estudantes. Seja por meio da ocupação de disciplinas do itinerário formativo pelos professores (as) de filosofia, seja por trabalho conjunto com as outras disciplinas. Ou se então, ao contrário, as outras disciplinas estão tomando ainda mais o espaço da filosofia.

            Mas a principal proposição emergente proveniente deste Estado do Conhecimento é a necessidade de construção de dados empíricos acerca de como se dá o processo avaliativo nas escolas, suas principais concepções em vigor, urgência em se adequar a pedagogia das competências, as dificuldades dos (as) docentes, os resultados, etc. Pois são quase nulos. Considerando o debate empírico sobre competências, por exemplo, este está ancorado e foi desenvolvido majoritariamente no contexto europeu, pois se deu em Portugal. Portanto é necessário realizar estudos que tenham como contexto a realidade brasileira, da escola, políticas públicas, currículo, formação de professores (as), etc. Que produzam dados localizados no Brasil. Ponto que buscarei tratar em minha dissertação de mestrado, que seguirá em construção até sua defesa no meio do ano de 2026. Com isto, concluo esta breve e resumida exposição do EC sobre o tema e agradeço ao espaço e oportunidade cedida pelo Grupo de Trabalho Filosofar e Ensinar a Filosofar.

 

REFERÊNCIAS:

 

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: <http://download.basenacionalcomum.mec.gov.br/>

 

MOROSINI, Marilia Costa. Estado de conhecimento e questões do campo científico. Educação, [S. l.], v. 40, n. 1, p. 101–116, 2014. DOI: 10.5902/1984644415822. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/15822.  Acesso em: 11 fev. 2025.

SANTOS, Pricila Kohls; MOROSINI, Marilia. O revisitar da metodologia do estado do conhecimento para além de uma revisão bibliográfica. In: Revista Panorâmica – ISSN 2238-9210 - v. 33. p. 123-145. Mai/Ago. 2021. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/revistapanoramica/index.php/revistapanoramica/article/view/1318re

 

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Notas

 

1:         https://catalogodeteses.capes.gov.br/catalogo-teses/#!/ acesso em 1/12/2024.

2:         :https://bdtd.ibict.br/vufind/  acesso em 1/12/2024.

3:         https://scholar.google.pt/?hl=pt-BR&as_sdt=0,14  acesso em 1/12/2024.

4:         Devido ao fato de que possuo poucas páginas neste texto, focarei em descrever as “proposições emergentes” que encontrei ao realizar a revisão de estado do conhecimento da avaliação da filosofia. É claro que vários dos resultados encontrados possuem diversas “proposições do estudo” mesmo, que em si já são muito potentes. Como preciso eleger o que apresentar neste pequeno texto, resolvi focar em compartilhar o que ainda creio que pode ser relevante como problemas filosóficos emergentes, válidos de novos estudos.

5:         Exemplos: Alejandro Cerletti, Jussara Hoffmann, Lidia M. Rodrigo, Paulo Freire, Silvio Gallo, entre outros (as)...

6:         O segundo polo também se põe a pensar sobre os documentos legais que propõem ensino baseado em habilidades, tome como base, por exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) de 1998 e/ou as Orientações Nacionais para o Ensino Médio de 2006, porém são todos anteriores a atual BNCC.