Tecnologias Digitais e Plataformização: Uma análise sobre seus impactos nas dinâmicas sociais e educacionais
Digital Technologies and Platformization: An analysis of their impacts on social and educational dynamics
Universidade Federal de São Carlos, São Carlos – SP, Brasil.
matheusluchesi@estudante.ufscar.br
Recebido em 03 de março de 2025
Aprovado em 29 de outubro de 2025
Publicado em 27 de dezembro de 2025
RESUMO
A revolução tecnológica, impulsionada pelas tecnologias digitais, redes e plataformização, transformou as dinâmicas da sociedade e acelerou o ritmo dessas mudanças nos campos social e educacional. Esse artigo busca analisar como a crescente divisão entre o mundo real e digital, resultante das mudanças tecnológicas e econômicas, está impactando as dinâmicas sociais e educacionais contemporâneas. O objetivo do artigo é discutir sobre os novos desafios impostos pelas tecnologias digitais e plataformização educacional que reconfigura a prática pedagógica, as relações humanas, os modos de comunicação e as formas de aprendizagem, bem como a produção e transmissão do conhecimento. Os conceitos de Sociedade em rede e Capitalismo de vigilância serão apresentados na tentativa de nos aproximar de uma proposta de ensino que propicie uma reflexão crítica acerca da realidade pedagógica em rede. A partir dessas perspectivas, este artigo propõe uma análise dos efeitos da plataformização digital e suas consequências sociais e educacionais.
Palavras-chave: Tecnologias digitais; Plataformização educacional; Sociedade em rede; Capitalismo de vigilância.
ABSTRACT
The technological revolution, driven by digital technologies, networks and platformization, has transformed the dynamics of society and accelerated the pace of these changes in the social and educational fields. This article seeks to analyze how the growing divide between the real and digital world, resulting from technological and economic changes, is impacting contemporary social and educational dynamics. The objective of the article is to discuss the new challenges posed by digital technologies and educational platformization that reshape pedagogical practice, human relations, modes of communication and forms of learning, as well as the production and transmission of knowledge. The concepts of Network Society and Surveillance Capitalism will be
presented in an attempt to bring us closer to a teaching proposal that provides critical reflection on the network pedagogical reality. From these perspectives, this article proposes an analysis of the effects of digital platformization and its social and educational consequences.
Keywords: Digital technologies; Educational platformization; Network society; Surveillance capitalismo.
Nas últimas décadas, a sociedade tem vivenciado uma aceleração tecnológica sem precedentes, facilitada pelo desenvolvimento das redes digitais e plataformas online. Esse fenômeno, que pode ser descrito como plataformização digital, afeta diretamente diversos âmbitos da vida humana, desde as interações sociais até os processos de produção e transmissão de conhecimento. A educação, em especial, tem sido um campo perpassado por essas transformações, exigindo uma reavaliação constante das práticas pedagógicas e do papel do educador.
No contexto específico do ensino de Filosofia, a plataformização digital pode gerar grandes desafios. As ferramentas tecnológicas alteram a dinâmica da sala de aula, a maneira como o conhecimento é compartilhado e como os alunos interagem com as ideias filosóficas. Conforme afirma Castells (1999, p. 41), “nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser”. Diante dessa realidade, o estudo dos conceitos- chave propostos por autores como Manuel Castells e Shoshana Zuboff proporcionam uma base teórica importante para compreender as mudanças nas dinâmicas sociais e educacionais.
Em um cenário marcado pela constante atualização tecnológica, faz-se necessário questionar como a Filosofia pode se posicionar frente às novas configurações do saber e às transformações sociais decorrentes da presença das plataformas digitais no cotidiano escolar. Castells (1999), em sua obra A sociedade em rede – a era da informação: economia, sociedade e cultura, explica como a comunicação e a organização social são transformadas pela conectividade.
A presença das novas tecnologias e das plataformas digitais no ensino de Filosofia tem o potencial para reconfigurar os modos de aprendizagem e transmissão do conhecimento filosófico, como também disseminar informações e conteúdos de forma massiva e muitas vezes desregulada, afetando o desenvolvimento crítico dos alunos e seu comportamento na vida em sociedade.
Apesar de serem organizadas em paradigmas oriundos das esferas dominantes da sociedade (por exemplo, o processo produtivo, o complexo industrial militar), a tecnologia e as relações técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, penetrando no poder e na experiência modificando-os. Dessa forma os modos de desenvolvimento, modelam toda a esfera do comportamento social, inclusive a comunicação
simbólica. (Castells, 1999, p. 54).
Shoshana Zuboff (2018), por sua vez, em sua obra A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder, analisa aspectos do capitalismo de vigilância1 e a mercantilização da experiência humana2 no mundo digital. No cenário atual, observa-se uma certa dependência do uso de ferramentas digitais no ensino da educação básica. As tecnologias muitas vezes vistas como instrumento de aprimoramento educacional, também podem ser usadas para exercer poder e controle institucional sobre professores e alunos, além de gerar capital para as empresas que operam nas plataformas digitais. Zuboff afirma que:
Embora não haja nada de inusitado na perspectiva de empreendimentos capitalistas em busca de todo tipo de vantagem em conhecimento em um mercado competitivo, as capacidades do capitalismo de vigilância que traduzem ignorância em conhecimento são sem precedentes porque se baseiam no único recurso que distingue os capitalistas de vigilância dos utopistas tradicionais: o capital financeiro e intelectual que permite a real transformação do mundo, materializada nas arquiteturas do Grande Outro em contínua expansão. (Zuboff, 2018, p. 586)
Nessa perspectiva, entende-se que essa "dependência social" das tecnologias digitais cria um paradoxo entre os âmbitos educacional e político. Embora as ferramentas digitais sejam apresentadas como soluções para o avanço educacional, oferecendo a promessa de progresso e melhoria no aprendizado, elas também impõem uma vigilância constante. Alunos e professores são monitorados por sistemas que registram dados e comportamentos, desempenho acadêmico e interações. De acordo com Zuboff (2018, p. 51), “essa dependência social está no cerne do projeto de vigilância. Necessidades fortemente sentidas como essenciais para uma vida mais eficaz se opõem à inclinação para resistir ao projeto de vigilância”. No entanto, esse paradoxo se revela na busca contínua por aprimoramento do conhecimento e da educação, ao mesmo tempo em que esses avanços impactam as esferas políticas e sociais.
A inserção das novas tecnologias e plataformas digitais no ensino de Filosofia, evidenciam a complexidade dos desafios que surgem da convivência dos avanços tecnológicos e das práticas educacionais. Embora as ferramentas digitais apresentem possibilidades para o aprimoramento do ensino e o desenvolvimento do pensamento crítico, elas também impõem um controle sobre os processos pedagógicos e a prática profissional, podendo transformar a especificidade da Filosofia em uma ferramenta de vigilância e poder institucionalizados.
Dessa forma, é necessário que professores e alunos estejam atentos às políticas educacionais e às dinâmicas sociais que influenciam a implementação das plataformas digitais no ambiente escolar, para evitar que a educação se torne um instrumento de controle e mercantilização do conhecimento. Nessa perspectiva, percebe-se que a Filosofia é capaz de despertar o senso crítico dos alunos. O professor como mediador do aprendizado, deve utilizar as plataformas digitais não para transmitir conhecimento, mas para orientar os alunos na construção de um pensamento autônomo.
O final do século XX foi um período de grandes transformações nos âmbitos tecnológico, econômico e social, o que reconfigurou as estruturas da sociedade global. As mudanças ocorridas nesses setores alteraram o modo de produção e a organização do trabalho, afetando a maneira como as pessoas se relacionam, comunicam e constroem identidades coletivas. A interdependência econômica, a reestruturação do capitalismo e as mudanças nas identidades e valores são exemplos de uma era de transformações e desafios.
Nesse novo contexto, a sociedade passou a se organizar em redes, e as tecnologias de informação desempenharam um papel importante nesse processo, criando novas formas de interação e de comunicação que desafiaram as estruturas tradicionais. Conforme observa Castells (1999, p. 39), “uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado”. Por outro lado, a revolução tecnológica também provocou mudanças nos valores e nas identidades.
Em tempos de mudanças e desestruturação, a busca por identidade torna- se um aspecto importante, pois “cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que elas são e acreditam que são” (Castells, 1999, p. 41). É notório que a compreensão do ser no mundo é historicamente moldada e compartilhada coletivamente, apontando uma historicidade comum. Cabe-nos considerar as tentativas de resgatar um sentido de pertencimento e estabilidade em meio ao caos social e econômico.
Para dar os primeiros passos nessa direção, devemos levar a tecnologia a sério, utilizando-a como ponto de partida desta investigação; precisamos localizar o processo de transformação tecnológica revolucionária, no contexto social em que ele ocorre e pelo qual está sendo moldado; e devemos nos lembrar que a busca da identidade é tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica no registro da nova história. (Castells, 1999, p. 42)
De acordo com Rafael Capurro (2009), vivemos imersos em uma ontologia digital, onde nossas necessidades e possibilidades estão cada vez mais ligadas ao ambiente tecnológico e digital. “Vivemos em culturas digitais. A técnica digital impregna a vida cotidiana e laboral, a política e a economia, a investigação científica, a administração pública, a educação etc.” (Capurro, 2009). Apesar das controvérsias, esse ambiente nos permite entender nossa condição no presente e a configuração do que somos hoje.
As mudanças e transformações nas camadas estruturais da sociedade, que politizam as relações sociais e tecnológicas, também impactaram as dinâmicas e as práticas educacionais. As tecnologias digitais, ao serem integradas no processo educativo, criaram novas formas de ensino e aprendizagem, impondo novos desafios aos educadores. Valéria Wilke (2024) aponta que, diante dessas mudanças, é necessário repensar a identidade humana e coletiva, pois a revolução tecnológica tem o poder de modificar a produção, a educação, as instituições e as relações de poder.
Em tal cenário, a pergunta elementar por “quem somos nós” necessita considerar a vida individual e coletiva humana e não humana, os modos de produzir e reproduzir a vida, a constituição de imaginários sociais, de tecnologias de poder e de governança, de instituições, de marcos jurídicos, de modos de ensino-aprendizagem, dentre outros aspectos, a partir das possibilidades da vida compartilhada no horizonte das tecnologias digitais, que atravessam e impactam, acentuadamente, todas as dimensões do ser-no-mundo. (Wilke, 2024, p. 379)
Nessa perspectiva, à medida que a educação se adapta a essa nova realidade digital, torna-se fundamental compreender as implicações dessas transformações tanto para a formação do conhecimento quanto para o desenvolvimento de habilidades críticas nos alunos. Estudos apontam que as mudanças sociais e educacionais não podem ser dissociadas das transformações econômicas e tecnológicas que moldam as novas formas de interatividade e de produção de saber. Portanto, “o sistema educativo, tem, pois, por missão, explícita ou implícita preparar cada um para este papel social” (Delors, 2010, p. 60), a fim de garantir a adaptação dos alunos às exigências da sociedade digital.
Para Manuel Castells, tecnologia e sociedade se transformam mutuamente, criando formas de organização social e modos de vida no contexto da sociedade em rede. Nesse sentido, “o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada em suas ferramentas tecnológicas” (Castells, 1999, p. 43). Embora a tecnologia seja uma parte da
sociedade, não pode ser usada isoladamente para entender toda a complexidade social e educacional.
O processo histórico em que esse desenvolvimento de forças produtivas ocorre assinala as características da tecnologia e seus entrelaçamentos com as relações sociais. [...] Portanto, a nova sociedade emergente desse processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes países, conforme sua história, cultura, instituições e relação específica com o capitalismo global e a tecnologia informacional. (Castells, 1999, p. 50)
A sociedade informacional, conforme discutido por Castells, é uma sociedade em que conhecimento e informação se entrelaçam no desabrochar das experiências. As novas tecnologias digitais mudaram a maneira como as informações são geridas, distribuídas e acessadas. “As novas tecnologias da informação estão integrando o mundo em redes globais de instrumentalidades” (Castells, 1999, p. 57). Essas transformações estão impactando a educação e o ensino de Filosofia, já que o processo de ensino-aprendizagem agora se dá, em grande parte, em ambientes digitais e plataformas interativas.
Diante do exposto, a análise sobre a revolução tecnológica e sua relação com os processos sociais e educacionais tornou-se aspecto importantíssimo para se refletir sobre os impactos das tecnologias digitais na educação e como elas estão transformando as dinâmicas sociais. Nesse sentido, será discutida a relação entre a plataformização digital, suas implicações no campo educacional e a função do Capitalismo de vigilância nesse processo, especificamente no ensino de Filosofia. A reflexão se concentrará nas consequências para a prática pedagógica, a construção do conhecimento crítico no contexto da Sociedade em Rede e a formação do indivíduo como cidadão.
A crescente presença das plataformas digitais no ambiente escolar está cada vez mais modificando a prática pedagógica, e exigindo uma adaptação das metodologias de ensino tradicionais. No campo da Filosofia, por exemplo, o uso das tecnologias digitais pode modificar o modo como o conhecimento filosófico é transmitido, alterando a relação hermenêutica entre os conteúdos, os professores e os alunos. Nesse sentido, Valéria Wilke (2024) destaca que a Cibereducação e a plataformização educacional são fenômenos que emergem da Sociedade em rede e do Capitalismo de vigilância, transformando a educação ao integrar as tecnologias digitais no contexto social e econômico.
A cibereducação e a plataformização educacional são fenômenos sociais que ocorrem no cenário da Sociedade em Rede e do complexo infocomunicacional internético que, como foi visto anteriormente, é alimentado pelo modelo de negócio do Capitalismo de vigilância e das plataformas, calcado na economia de dados e nos algoritmos. (Wilke, 2024, p. 383)
A Cibereducação, entendida como a integração das tecnologias digitais no processo educativo, envolve a utilização de recursos e ferramentas digitais para mediar o ensino e a aprendizagem. De acordo com Wilke (2024, p. 384), esse conceito vai além da definição inicial. A Cibereducação abrange também a gestão das instituições e a transformação de comportamento e hábitos de todos os envolvidos no processo educativo, ampliando-se desde a prática pedagógica até a administração das redes de ensino.
Nesse contexto, a plataformização educacional refere-se ao processo pelo qual as plataformas digitais estruturam a educação e a interação entre os alunos
e professores, muitas vezes associadas à prática de monitoramento e coleta de dados. Esses fenômenos são analisados por Wilke à luz do Capitalismo de vigilância. Van Dijck, Poell e De Wall (2020, p. 4), por sua vez, investigam o modus operandi desse processo, caracterizando as plataformas como infraestruturas digitais que facilitam coleta e o controle de dados, um aspecto importante para entender a plataformização na educação.
Atualmente, observa-se uma nova racionalidade no processo de organização social, bem como a burocratização e estruturação do sistema de ensino. Shoshana Zuboff (2020) denomina esse novo tipo de poder de “instrumentarianismo”, um conceito que descreve a utilização da infraestrutura digital para concentrar conhecimentos e manipular comportamentos, transformando-os em capital.
“Instrumentalização” denota as relações sociais que orientam os titeriteiros para a experiência humana como capital de vigilância a nos transformar em meios para alcançar os objetivos alheios de mercado. O capitalismo de vigilância nos forçou a lidar com uma forma de capitalismo sem precedentes. Agora o poder instrumentário que sustém e amplia o projeto capitalista de vigilância obriga a uma segunda confrontação com o sem precedentes. (Zuboff, 2020, p. 420)
A Era do Capitalismo de vigilância opera através da plataformização da sociedade, e a educação encontra-se inserida nesse processo de evolução tecnológica que, por sua vez, exige um entendimento e resistência frente a um sistema que redefine a experiência humana em termos de capital e controle. De acordo com Zuboff, “não existe precedente histórico para o instrumentarianismo, mas há um grande precedente para esse tipo de encontro com uma espécie inédita de poder sem precedentes” (Zuboff, 2020, p. 421).
Ao considerar que os indivíduos ao longo dessa trajetória da evolução
tecnológica se tornaram perfis, significa dizer que os mesmos foram decodificados por sistemas de operacionalização e personificados de acordo com a ordem instrumental e organizacional das empresas de tecnologia. Sendo assim, “a lógica econômica do capitalismo de vigilância é direcionada pelas capacidades do Grande Outro de gerar poder instrumentário, substituindo a engenharia de almas por engenharia de comportamento” (Zuboff, 2020, p. 447), tendo em vista a finalidade da lógica neoliberal que consiste, fundamentalmente, no lucro dos acionistas.
Neste cenário marcado por uma visão neoliberal e por práticas gerenciais e digitais, a educação torna-se “um campo complexo e diversificado, particularmente propício à expansão e ao uso das tecnologias digitais” (Afonso, 2021, p. 2). A educação está sendo preparada para atender os interesses do mercado, tratando-se como um produto comercializável, e distanciando-se da sua identidade e função social. Por conseguinte, “os sistemas educativos, tornaram-se espaços de recolha de dados, regidos por algoritmos invisíveis, com efeitos de longo alcance nas práticas de ensino e aprendizagem” (Afonso, 2021, p. 8).
A Filosofia enquanto área de reflexão crítica sobre a condição humana, enfrenta o desafio de resistir à lógica instrumental do capitalismo de vigilância, cujo objetivo é transformar o processo educativo em uma atividade rentável e mensurável, monitorada por algoritmos e voltada para a maximização de dados. Segundo Wilke (2024), o valor intrínseco a Filosofia “[...] não se deve apenas à satisfação da exigência legal dos balizamentos das políticas educacionais, mas para continuar sendo ouvida na praça pública, de modo compartilhado e dialógico, os problemas do seu tempo” (Wilke, 2024, p. 387). Desse modo,
Quando repensamos os espaços de ensino de Filosofia dentro do contexto das multiformas da cibereducação, é importante que se faça o exercício preliminar de compreensão das dinâmicas das escolas que adotam tais projetos pedagógicos e implantam de maneira coercitiva a aceleração das potencialidades discentes dentro de um cenário tecnológico. (Frau e Oliveira, 2024, p. 15)
É fato que a Filosofia continua a ser essencial para o entendimento crítico dos desafios contemporâneos. Compreender as dinâmicas das escolas que adotam projetos pedagógicos tecnológicos voltados para o ensino de Filosofia é uma maneira de democratizar as políticas educacionais que versam sobre sua efetividade no campo da educação. No entanto, a inserção das tecnologias digitais e das plataformas digitais no campo da educação representa uma ameaça frente à tradição pedagógica, que valoriza o diálogo, a reflexão e o desenvolvimento crítico do pensamento.
Essa transformação no sistema de ensino, mediada pela informatização e plataformização é a divisão de aprendizado no ambiente educacional, pois atinge quem aprende, como e o que se aprende. Nesse sentido, “o capitalismo de vigilância prospera na ignorância do público” (Zuboff, 2018, p. 51), beneficiando- se da falta de conhecimento e conscientização dos seus usuários, que buscam através das plataformas cumprir com metas e obrigações institucionais.
Contudo, a digitalização dos processos educativos, quando guiada por interesses mercadológicos, pode reduzir a Filosofia e o ensino de Filosofia a uma ferramenta utilitária e tecnicista, limitando-a às questões de eficiência e produtividade, em vez de preparar e formar os jovens para a vida em sociedade. Assim, o monitoramento e a quantificação dos resultados educacionais, características do capitalismo de vigilância, pode comprometer a autonomia e a liberdade de pensamento, pilares essenciais para a prática filosófica.
A inserção das tecnologias digitais no campo educacional representa um dos maiores desafios da educação contemporânea, principalmente no contexto da plataformização. Desde o final do século XX, observa-se que o avanço tecnológico e a ubiquidade das plataformas digitais têm reconfigurado a forma de como o conhecimento é produzido, compartilhado e compreendido filosoficamente, modificando as práticas pedagógicas e os métodos de ensino. Valéria Wilke afirma:
O filósofo naquela época já chamava a atenção para as mudanças que ocorreriam no campo educacional: para a necessidade de repensar as práticas pedagógicas, as metodologias de ensino em função de novos suportes pedagógicos, os conceitos de ensino e aprendizagem, e o próprio papel dos docentes nesse processo. (Wilke, 2023, p. 442)
É notório que enquanto a plataformização apresenta oportunidades para a inovação educacional, ela também apresenta desafios que exigem reflexão crítica, particularmente no ensino de disciplinas como a Filosofia, que se baseia na efetividade do pensamento crítico. Nesse sentido, as políticas educacionais devem orientar a adaptação das práticas pedagógicas, assegurando que as novas ferramentas tecnológicas não comprometam a qualidade do ensino. Estudos apontam que,
Com a implantação dessas políticas educacionais baseadas no uso das tecnologias para mediação do conhecimento, professores e estudantes da rede pública do Estado de São Paulo começaram a relatar que se sentem limitados e pressionados pelo sistema de plataformas digitais adotados para as aulas [...] a Secretaria de
Educação estabeleceu contratos com uma série de aplicativos educacionais, sem diálogo prévio com as comunidades escolares para a adoção do sistema, que exige que os educandos realizem uma quantidade mínima de tarefas pelas plataformas digitais, e que educadores usem o conteúdo em suas aulas. (Frau e Oliveira, 2024, p. 12)
Por um lado, observa-se que a plataformização pode ser entendida como a interação das ferramentas digitais e plataformas online que possibilitam o acesso ao processo de ensino-aprendizagem. As plataformas digitais, por sua vez, permitem que a Filosofia, tradicionalmente ensinada de forma mais discursiva e teórica, seja acessada de maneira mais dinâmica, interativa e multidisciplinar. O acesso aos recursos digitais e ambiente virtuais de aprendizagem ampliam o alcance do ensino de Filosofia. Porém, as exigências e demandas institucionalizam o conhecimento e sobrecarregam professores e alunos nas tarefas cotidianas.
Segundo Daniel Mello (2024), repórter da Agência Brasil, a comunidade escolar do estado de São Paulo critica a imposição de uso das plataformas digitais. A pressão para o uso das plataformas, o tempo e a quantidade de tarefas, bem como o Material Digital inserido nas plataformas limitam as capacidades intelectivas dos alunos, tornando-os reféns de um sistema capitalista que depende de uma liberdade de ação e do condicionamento das necessidades dos indivíduos para captar informações e mercantilizá-las. As plataformas poderiam se tornar um espaço de democratização do ensino filosófico, apesar das divergências.
Para Zuboff (2020), essa lógica capitalista que fere a liberdade e o conhecimento se insere na perspectiva do Capitalismo de Vigilância. “Os capitalistas de vigilância reivindicam a liberdade de ordenar o conhecimento e então potencializam essa vantagem em conhecimento para proteger e expandir sua liberdade” (Zuboff, 2020, p. 586). Além disso, o Capitalismo de vigilância cria um ambiente onde os indivíduos se tornam produtos a serem monitorados e comercializados.
A expansão da plataformização educacional tem gerado preocupações substanciais, principalmente em relação à privacidade, controle de dados e mercantilização do ensino. Em um sistema fortemente mediado por plataformas, dados sobre o comportamento, o desempenho acadêmico e as interações dos alunos são coletados de maneira sistemática. A utilização desses dados por empresas de tecnologia pode se configurar como uma forma de vigilância, que, longe de ser neutra, prioriza o lucro e a perpetuação de sistemas de controle social, conforme apontado por Shoshana Zuboff em sua crítica ao capitalismo de vigilância.
Dessa forma, o ensino de Filosofia, sob a lógica do capitalismo de vigilância pode ser transformado em um processo de controle de dados, no qual a reflexão filosófica é substituída pela busca por resultados mensuráveis e quantificáveis. O que se perde, nesse processo, é a capacidade de questionar a realidade, de refletir sobre as condições sociais e educacionais que perfilam os estudantes, e de produzir um conhecimento pautado na criticidade. Para que isso aconteça, é necessário que a prática pedagógica filosófica no contexto digital seja pensada de forma a estimular a autonomia e a reflexão crítica.
A análise das transformações sociais e educacionais provocadas pela revolução tecnológica desvenda um panorama multifacetado, particularmente no
âmbito da plataformização digital. As tecnologias digitais, originalmente concebidas para potencializar a educação, têm sido progressivamente integradas a um modelo que também inclui aspectos de vigilância e controle, levando-nos à reflexão de que, “o conhecimento é deles, mas a liberdade perdida pertence somente a nós” (Zuboff, 2020, p. 445).
A sociedade em rede, conforme apresentado por Castells, representa uma oportunidade, e ao mesmo tempo, um desafio para o avanço do conhecimento, uma vez que, “as novas tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos” (Castells, 1999, p. 69). A dualidade presente no paradigma tecnológico revela o potencial emancipador dos efeitos da tecnologia nas práticas e relações pedagógicas, produção e transmissão do conhecimento.
No campo educacional, e particularmente no ensino de Filosofia, as plataformas digitais apresentam as possibilidades de potencialização e difusão do conhecimento filosófico, facilitando o acesso às informações e estimulando novas formas de interações. No entanto, estudos apontam que “[...] o uso das plataformas digitais sinaliza para um cenário de intensificação e de maior controle sobre o trabalho docente e sobre os currículos” (Barbosa e Alves, 2023, p. 22). A lógica do capitalismo de vigilância, como pontuado por Zuboff, está transformando o processo educativo, e reconfigurando as instituições e as dinâmicas sociais e educacionais.
Desse modo, torna-se urgente repensar o papel da educação e do ensino de Filosofia, uma vez que o capitalismo tecnológico busca otimizar processos, engendrar comportamentos e determinar as ações dos estudantes. A implicações da plataformização educacional não podem ser ignoradas, principalmente quando as tecnologias digitais se tornam cada vez mais onipresentes na vida escolar. Assim, este artigo, por meio de um estudo teórico- prático, analisa a inserção das tecnologias digitais e plataformas na educação, destacando suas consequências para o processo pedagógico e o ensino de Filosofia.
Referências
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1 O capitalismo de vigilância é definido por Shoshana Zuboff como uma nova forma de capitalismo que se baseia na extração e na comercialização de dados pessoais, utilizando-os para prever e modificar comportamentos humanos em prol do lucro corporativo.
2 A mercantilização da experiência humana, segundo a autora, consiste na transformação de aspectos da vida cotidiana, como ações, emoções e interações, em dados comportamentais passíveis de serem apropriados e vendidos, convertendo a experiência individual em matéria- prima para o capital.