Universidade Federal de Santa Maria

Ci. e Nat., Santa Maria v.42, e58, 2020

DOI:10.5902/2179460X41844

ISSN 2179-460X

Received 14/01/20  Accepted: 14/01/20  Published:26/08/20

 

 

 

Geo-Sciences

 

 

Análise da presença de micropoluentes de origem antrópica em nascente do Lajeado Erval Novo, Bom Progresso/RS

 

Analysis of the presence of anthropogenic micro-pollutants in Lajeado Erval Novo source, Bom Progresso/RS

 

Luma Schervenski TejadaI

Robson Evaldo Gehlen BohrerII 

Ramiro Pereira BisogninIII

Danni Maisa da SivaIV

Eduardo Lorensi de SouzaV

Divanilde GuerraVI

Maiara Ramires FigueiredoVII

Daniela Mueller de LaraVIII

 

I     Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - lumatejada@yahoo.com.br

II    Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - robson-bohrer@uergs.edu.br

III   Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - ramiro-bisogni@uergs.edu.br

IV   Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - danni-silva@uergs.edu.br

V    Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - eduardo-souza@uergs.edu.br

VI   Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - divanilde-guerra@uergs.edu.br

VII  Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - maiara_agroin13@yahoo.com.br @uergs.edu.br

VIII Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, Três Passos, Brasil. - daniela-lara@uergs.edu.br

 

 

RESUMO

Considerando os riscos de contaminação da água pelas atividades antrópicas, objetivou-se analisar os impactos das atividades instaladas na bacia de contribuição de uma das principais nascentes do Lajeado Erval Novo, zona rural do Município de Bom Progresso/RS. Limítrofe à nascente, após a mata ciliar, ocorre ocupação agrícola com manejo de culturas anuais. Distante 280 m a montante da nascente opera um aterro sanitário. A avaliação de contaminação por micropoluentes foi realizada através da análise de indicadores físicos, químicos e microbiológicos, além da procura por agrotóxicos. Foram realizadas quatro campanhas analíticas ao longo do ano de 2018, com amostragens nos meses de janeiro, abril, julho e outubro. Entre as conclusões do estudo destaca-se que o aterro sanitário possui potencial desprezível de contaminação para a água da nascente e que não foram encontrados elementos característicos de material lixiviado de aterro nas amostras. A elevada concentração de alumínio e o pH levemente ácido das águas podem ser de origem natural. Os teores de sulfatos e nitratos, bem como a elevada contagem de coliformes totais e termotolerantes podem indicar contaminação agrícola. Não foram quantificadas moléculas de agrotóxicos. Concluiu-se ainda pelo enquadramento do manancial como Classe 3.

Palavras-chave: Contaminação da água; Micropoluentes; Poluição agrícola

 

ABSTRACT

Considering the risks of water contamination by anthropic activities in general, objectified aimed to analyze the impacts of activities installed in the contribution basin of one of the main springs of Lajeado Erval Novo, rural area of the municipality of Bom Progresso/RS. Bordering the source, after the riparian forest, there is agricultural occupation with management of annual crops.. Far 280 m upstream from the source operates a landfill. The evaluation of contamination by micro pollutants was performed through the analysis of physical, chemical and microbiological indicators, as well as the search for pesticides. Four analytical campaigns were conducted during 2018, with sampling in January, April, July and October. Among the findings of the study it is noteworthy that the landfill has negligible potential for contamination to spring water and that no characteristic elements of landfill leachate were found. The high concentration of aluminum and the slightly acidic pH of the waters may be of natural origin. Sulphate and nitrate contents, as well as the high total and thermotolerant coliforms count may indicate agricultural contamination. No pesticide molecules were quantified. It was also concluded by the classification of the source as Class 3.

Keywords: Water contamination; Micro pollutants; Agricultural pollution

 

 

1  INTRODUÇÃO

 

As Bacias Hidrográficas são sistemas complexos e, por esta razão, em seus estudos devem-se considerar características como ocupação, tipo de solo, substrato geológico, forma e tamanho da bacia, condições climáticas, entre outros fatores (ROCHA et al., 2008). Ainda de acordo com os mesmos autores, os variados processos que influenciam na qualidade da água de um manancial fazem parte de um equilíbrio frágil, sendo que alterações de ordem física, química e biológica ocorrentes na Bacia Hidrográfica podem modificar suas características.

Atualmente o Estado do Rio Grande do Sul (RS) está dividido em três grandes Regiões Hidrográficas: Guaíba, Uruguai e Litoral. Estas três, por sua vez, se subdividem em 25 Bacias Hidrográficas (RIO GRANDE DO SUL, 1994). Na região Noroeste do RS, onde o presente estudo foi realizado, a Bacia Hidrográfica do Rio Turvo - Santa Rosa - Santo Cristo abrange 52 municípios, e ocupa uma área territorial com 10.827,74 km2, o que representa 3,84% do território do Estado (RIO GRANDE DO SUL, 2012). Uma das principais nascentes do Lajeado Erval Novo, contribuinte da Bacia Hidrográfica dos Rios Turvo – Santa Rosa – Santo Cristo, está localizada no município de Bom Progresso, cujo fluxo é direcionado para os municípios de Três Passos e Humaitá, na sequência. A micro bacia do Lajeado Erval Novo possui área de 68 km2 e a ocupação do solo caracteriza-se pela atividade agrícola mini fundiária, predominando o cultivo de soja, trigo, milho e a criação de bovinos leiteiros, aves e principalmente suínos (FOLLMAN et al., 2018).

Segundo Araújo et al. (2016), em um cenário em que a água, recurso natural essencial à vida, pode estar sendo indireta ou diretamente afetada pelas atividades agropecuárias e antrópicas, a gestão das bacias hidrográficas assume grande importância. Pondera-se que não se pode iniciar a gestão recuperadora ou conservacionista de um manancial sem a realização de um diagnóstico da situação atual de conservação e de sua qualidade. Um dos principais pontos que afetam os mananciais e sua qualidade são os impactos ambientais gerados a partir do gerenciamento e/ou tratamento inadequado de esgotos sanitários, dejetos de animais, resíduos sólidos, agrotóxicos, efluentes agrícolas e resíduos industriais. Também contribui para a redução da qualidade dos mananciais hídricos o uso intensivo do solo, segundo o modelo agrícola oriundo da Revolução Verde, o qual afeta negativamente a disponibilidade e qualidade da água para consumo humano, tendo em vista a dependência de agrotóxicos e de biotecnologia, mecanização, irrigação, monocultura e concentração de terras (ARAÚJO et al., 2016).

Os micropoluentes resultantes do deflúvio superficial das áreas adjacentes aos mananciais podem conter além de sedimentos, nutrientes, agroquímicos e microrganismos patogênicos à saúde humana. Por meio do ciclo hidrológico, as precipitações nessas regiões carreiam sedimentos e poluentes para a rede de drenagem. Dessa forma, o curso hídrico é um integralizador dos fenômenos ocorrentes na Bacia (MINGOTI et al., 2016). Para Dellamatrice e Monteiro (2014), a contaminação ocorre principalmente em áreas próximas aos locais de aplicação de agroquímicos por deflúvio superficial ou contaminação do lençol freático. Os autores esclarecem que as propriedades do agente químico e variáveis ambientais, como tipo de solo, declividade, presença de cobertura vegetal e clima afetam o transporte para o meio aquático, comprometendo sua qualidade.

Segundo Dellamatrice e Monteiro (2014), os estudos de monitoramento de resíduos de agrotóxicos sinalizam que resíduos de agroquímicos estão presentes na atmosfera (MOREIRA et al., 2012) e em águas superficiais e subterrâneas (DORES et al., 2008). Resende (2002) acrescenta ainda que, em geral, metais possuem menor mobilidade no solo e assim a ocorrência de contaminação mais provável se dá por processos erosivos.

Outro potencial de contaminação dos recursos hídricos são os locais de disposição de resíduos sólidos urbanos (RSU), como os lixões, aterros controlados e aterros sanitários. Estes locais, segundo Tejada e Aguiar (2016), possuem grandes áreas abertas, que podem gerar águas residuárias, oriundas das chuvas, carregando muitas vezes substâncias orgânicas e inorgânicas. O fluído lixiviado dos aterros pode conter altas concentrações de metais pesados, sólidos suspensos e compostos orgânicos originados pela degradação de substâncias como carboidratos, proteínas e gorduras. Por apresentar substâncias altamente solúveis, quando não geridos adequadamente, podem escoar e alcançar os recursos hídricos superficiais ou até mesmo infiltrar-se no solo e atingir as águas subterrâneas, comprometendo sua qualidade e potenciais usos (CELERE et al., 2007). Teixeira et al. (2016) acrescentam que de forma geral, o material lixiviado contém, em concentrações variadas, compostos orgânicos e inorgânicos, além de metais pesados que podem contaminar o ambiente e ser tóxicos aos seres vivos.

Tendo em vista a importância da manutenção e preservação dos mananciais hídricos, o presente estudo objetiva analisar e avaliar os impactos das atividades agropecuárias e antrópicas adjacentes a uma das principais nascentes do Lajeado Erval Novo, localizada na zona rural do Município de Bom Progresso/RS.

 

 

2.  METODOLOGIA

 

A metodologia de pesquisa baseou-se em entrevista com proprietários e responsáveis pelas áreas adjacentes, caminhamento nas áreas de estudo, campanhas analíticas e emprego de revisão bibliográfica para análise dos resultados. Os detalhamentos são descritos nos itens a seguir.

 

2.1     Caracterização da área de estudo

A nascente do Lajeado Erval Novo, localizada sob as coordenadas geográficas Latitude -27º34’44,4” e Longitude -53º52’12,51”, é um afloramento natural de água subterrânea protegida por vegetação nativa, em estágio médio de regeneração em um raio que varia entre 12 e 20 metros. A vegetação encontrada na área de abrangência da nascente é um resquício da floresta existente antes da expansão agrícola, que teve início a partir da década de 1950. Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica (2017), essa mata é considerada floresta estacional decidual. Imediatamente após à área ocupada por cobertura vegetal da mata ciliar ocorre a ocupação agrícola com culturas graníferas de ciclo anual em regime de sucessão de culturas de inverno (trigo e aveia) e verão (soja e milho).

Os solos das áreas adjacentes foram caracterizados como Latossolos Vermelhos conforme Streck et al. (2008)

A área onde está localizado o aterro sanitário do Consórcio Intermunicipal de Gestão Multifuncional (CITEGEM) e a área de contribuição da nascente do Lajeado Erval Novo como um todo ocorre principalmente sobre domínio vulcânico caracterizado pelas rochas vulcânicas que compõem o Sistema Aquífero Serra Geral (SASG), sendo este sistema caracterizado como um reservatório fissural, no qual a água está associada à presença de descontinuidades na rocha, responsáveis por uma porosidade secundária associada a falhas, fraturas e diaclases (RADAM/BRASIL,1986). A topografia da área é suavemente ondulada, apresentando declividade entre 3% e 8% (TEJADA e AGUIAR, 2016).

 

2.1.1 Delimitação da bacia de contribuição da nascente do Lajeado Erval Novo

A fim de demonstrar a área superficial da bacia de contribuição da nascente do Lajeado Erval Novo elaborou-se a Figura 1. A imagem fora obtida com auxílio do software Bing Maps e posteriormente importada para o software Auto Cad Civil 3D 2016 que fornece a ferramenta para criação das curvas de nível na imagem de satélite importada. A área fora delimitada a partir da interpretação das curvas de nível traçadas na superfície.

 

Figura 1 – Área de contribuição da nascente do Lajeado Erval Novo

Fonte: Autores (2019)

 

O círculo em azul escuro demarca a localização da nascente envolta imediatamente pela faixa de mata ciliar. A poligonal em amarelo delimita a área ocupada pelo consórcio público localizado a uma distância próxima a 280 metros a montante da nascente. As demais áreas circunvizinhas são as áreas agrícolas. Em verde escuro têm-se fragmentos de vegetação nativa em meio às áreas agrícolas.

 

2.1.2 Caracterização das atividades antrópicas circunvizinhas à nascente

A caracterização das atividades antrópicas circunvizinhas à nascente foi realizada por meio de caminhamento, e observação de imagens de Satélite (Google Earth, 2019). O aterro sanitário do CITEGEM está instalado no local desde o ano 2000, o mesmo realiza triagem de RSU e destinação final de rejeitos em células de aterro impermeabilizadas. O consórcio atende doze municípios da região Noroeste do RS. O CITEGEM está inserido na Região Geomorfológica do Planalto das Missões, sendo que esta área se refere a uma das áreas agrícolas mais importantes na economia do RS, as formas do relevo são homogêneas e suaves. O solo local é profundo, possui textura argilosa e é bastante desenvolvido. A área de estudo ocorre sobre o Sistema Aquífero Serra Geral (SASG) (RADAM/BRASIL,1986). O nível estático médio do lençol freático na área do Consórcio Público CITEGEM é de 18 metros de profundidade e o solo possui permeabilidade baixa, inferior a 10-7 cm/s (TEJADA e AGUIAR, 2016).

A atividade agrícola desenvolvida na área de contribuição da nascente pertence a um único proprietário, o qual se submeteu a descrever o cronograma agrícola realizado no local, bem como, os tratamentos químicos utilizados para adubação, controle de plantas espontâneas, pragas e doenças (Anexo 1). A fim de confirmar as informações repassadas pelo proprietário realizou-se entrevista com técnico representante de empresa que comercializa insumos agrícolas na região. Com relação a adubação orgânica o proprietário informou fazer uso de dejetos de suínos apenas esporadicamente, não relatando dosagem e frequência.

 

2.2     Parâmetros indicadores de qualidade

A qualidade da água da nascente será avaliada por meio de ensaios físicos, químicos e microbiológicos. A escolha dos parâmetros fora baseada nas principais atividades antrópicas encontradas na área adjacente à nascente (lavoura e aterro sanitário) buscando avaliar parâmetros indicadores de características de contaminação, além de consulta bibliográfica. Optou-se por indicadores que possuem padrões de referência expressos na legislação brasileira com destaque para a PRC (Portaria de Consolidação) nº 5/2017. A PRC nº 5/2017 estabelece padrões de potabilidade para consumo humano, incluindo padrões para agroquímicos.

Utiliza-se para avaliação de contaminação por micropoluentes os padrões de potabilidade pois os mesmos expressam a face mais restritiva da legislação brasileira no que tange à presença de micropoluentes em águas de abastecimento. A Resolução CONAMA 396/2008, por exemplo, que dispõe sobre a classificação e diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas, utiliza os padrões de potabilidade como limítrofes para avaliação de contaminação. Da mesma forma, a Resolução CONAMA nº 357/2005, que dispõe sobre o enquadramento de águas superficiais, utiliza padrões semelhantes aos de potabilidade para os indicadores de enquadramento dos mananciais de Classe 1. Atendendo aos padrões de potabilidade atende-se às resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA nºs 357/05 e 420/09) e Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA 355/17) que delimitam padrões de lançamento de efluentes líquidos, e ainda, a Resolução CONAMA nº 430/2011, indicadora de parâmetros de contaminação de solos e águas subterrâneas. A Resolução CONAMA nº 357/05 foi utilizada para enquadramento da nascente do Lajeado Erval Novo.

Ao todo foram realizadas quatro campanhas para verificação da qualidade da água da nascente. As amostragens ocorreram no ano de 2018 nos meses de janeiro, abril, julho e outubro sendo que foram escolhidos dias ensolarados e sem registros pluviométricos em dias anteriores. O objetivo da amostragem quadruplicada foi aumentar o grau de confiabilidade dos resultados, além de compará-los com os tratamentos agrícolas dos diferentes períodos ao longo de um ano agrícola.

O plano utilizado para amostragem atendeu ao Standart Methods for the Examination of Wather, SMEW 22ª Ed. (2012). Os frascos para amostragem foram preparados e enviados pelo laboratório que executou os ensaios analíticos, o qual é credenciado junto ao órgão ambiental estadual e certificado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO).

Os parâmetros analisados foram: 2.4 D, 2.4.5-T, Alacloro, Alcalinidade total, Aldicarbe+Aldicarbesulfona+Aldicarbesulfóxido, Aldrin+Dieldrin, Alumínio total, Atrazina, Cádmio total, Carbendazim+Benomil, Carbofurano, Chumbo total, Clordano (Cis+Trans), Cloretos, Clorpirifós+Clorpirifós Oxon, Cobre total, Coliformes termotolerantes, Coliformes totais, Condutividade elétrica, Cromo total, DBO5, DDT (p,p-DDT+p,p-DDE+p,p-DDD), Diuron, DQO, Endossulfan (+β+sulfato), Endrin, Glifosato+AMPA, Lindano(ʸ-HCH), Mancozebe, Manganês total, Mercúrio total, Metamidafós, Metolacloro , Molinato, Níquel total, Nitrato, Nitrito, Oxigênio Dissolvido (OD), Paration, Pendimentalina, Permetrina, pH, Potássio, Profenofós, Simazina, Sólidos dissolvidos totais, Sólidos totais, Sulfato, Tebuconazol, Temperatura, Terbufós, Trifuralina e Zinco total. Esses indicadores foram analisados seguindo os respectivos métodos padronizados pela Environmental Protection Agency (EPA, 2009) e SMEWW 22º. O detalhamento dos métodos analíticos e limites de detecção e quantificação adotados são apresentados no Anexo 2.

Para determinar se a amostra está ou não com a presença de um determinado contaminante, os resultados limítrofes foram expressos pelo laboratório em limites de quantificação do método (LQ), de forma que, além do limite do equipamento, também foram considerados limites da metodologia e incertezas.

 

2.3     Determinação do potencial de contaminação do aterro sanitário sobre o aquífero local

A metodologia utilizada para esta etapa baseia-se na avaliação de risco proposta por Eiras e Santos (2018). O método consiste em uma adaptação da determinação de vulnerabilidade à contaminação de aquíferos, índice GOD, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Este índice faz uso de dados físicos dos sistemas relativamente simples de serem encontrados, como:  ocorrência de lençol freático livre ou confinado, seu nível estático e o tipo de solo predominante. Variando em uma escala de zero a um, sendo zero atribuído ao aquífero menos vulnerável e um ao mais vulnerável (GUINGUER; KOHNKE, 2002).

O aprimoramento do método se deu pela inclusão de notas obtidas por meio do Índice de Qualidade de Aterros de Resíduos (IQR). O IQR é um índice que avalia as condições gerais de aterros sanitários, fazendo o uso de notas variando de zero a dez (CETESB, 2019). Para tanto, avalia se os sistemas promovem condições adequadas, controladas ou inadequadas (Anexo 3) e foi proposto pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB). O peso aos parâmetros utilizados pode ser visto na Figura 2.

 

Figura 2 - Pesos dos parâmetros de avaliação

Fonte: Eiras e Santos (2018), adaptado de Guinguer e Kohnke (2002)

 

As informações referentes ao tipo de solo local, nível estático do aquífero e tipo de aquífero, foram trazidas por Tejada e Aguiar (2016), em estudo realizado utilizando a rede de monitoramento das águas subterrâneas instalada no Consórcio Público CITEGEM.

 

 

3.  RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os resultados obtidos nas campanhas analíticas realizadas no ano de 2018 são apresentados no Quadro 1. Juntamente com os resultados, apresentam-se os padrões de potabilidade estabelecidos pela PRC nº 5/2017, bem como os padrões de potabilidade adotados pela EPA, (2009).

 

Quadro 1 - Quantificação de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos da nascente

Parâmetro

Unidade

jan/18

abr/18

jul/18

out/18

Média

VMP EPA1

VMP BR2

Alcalinidade total

mg.L-1

15,8

17,4

19,3

20,9

18,35

-

-

Alumínio total

mg.L-1

<0,145

1,375

<0,145

0,452

0,46375

0,005 a 0,2

0,2

Cádmio total

mg.L-1

<0,0005

<0,0005

<0,0005

<0,0005

<0,0005

0,005

0,005

Chumbo total

mg.L-1

<0,001

<0,001

<0,001

<0,001

<0,001

0,01

Cloretos

mg.L-1

10,22

7,89

5,81

2,8

6,68

250

250

Cobre total

mg.L-1

<0,028

0,037

<0,028

<0,028

0,03

1,3

2

Coliformes termotolerantes

NMP/100mL

>2420

>4839

2599

>4839

3674,25

Presença em até 5% das amostras em 1 mês

Ausência em 100mL

Coliformes totais

NMP/100mL

68

790

12

651

380,25

Zero

Ausência em 100mL

Condutividade elétrica

µS/cm

75,4

6431

83

83,9

1668,33

-

-

Cromo total

mg.L-1

<0,048

<0,048

<0,048

<0,048

<0,048

0,1

0,05

DBO5

mg.L-1

13,6

8,4

<3,4

<3,4

7,20

-

-

DQO

mg.L-1

20,4

16,1

<8,6

<4,97

12,52

-

-

Manganês total

mg.L-1

<0,009

0,05

<0,009

<0,009

0,02

0,05

0,1

Mercúrio total

mg.L-1

<0,0001

<0,0001

<0,0001

<0,0001

<0,0001

0,002

0,001

Níquel total

mg.L-1

<0,063

<0,063

<0,063

<0,063

<0,063

0,07

Nitrato

mg.L-1

3,02

3,54

1,477

1,463

2,38

10

10

Nitrito

mg.L-1

<0,015

<0,015

<0,015

<0,015

<0,015

1

1

OD

mg.L-1

4,92

6,45

7,7

10,03

7,28

-

-

pH

-

6,26

6,26

5,7

6,34

6,14

6,5 a 8,5

6 a 9

Potássio

mg.L-1

1,098

0,877

7,183

0,606

2,44

-

-

Sólidos dissolvidos totais

mg.L-1

83

564

124,5

24

198,88

500

1000

Sólidos totais

mg.L-1

81,5

1435

100,5

75

423,00

-

-

Sulfato

mg.L-1

2,69

1070

0,063

0,978

268,43

250

250

Temperatura

ºC

19

18

19

22,5

19,625

-

-

Zinco total

mg.L-1

<0,018

<0,018

<0,018

<0,018

<0,018

5

5

Legenda: Potável, Não potável, Não previsto na PCR nº 5/17 VMP – Valor máximo permitido. 1 - National Drinking Water Regulations EPA/2009; 2 - PRC nº 5/2017 Anexos 7, 10 e 13 do Anexo XX

Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos laudos analíticos fornecidos pelo laboratório responsável (2019)

 

Os padrões acima dos limites de potabilidade são alumínio total, coliformes totais e termotolerantes, pH, sólidos dissolvidos totais e teor de sulfatos. Percebe-se que o mês mais crítico para a qualidade da água da nascente foi o mês de abril, mês em que fora realizado na área circunvizinha o manejo pré-colheita da cultura da soja, colheita da soja e semeadura do trigo.

O baixo pH da água da nascente condiz com o pH das águas subterrâneas amostradas na área em estudo realizado por Tejada e Aguiar (2016). O pH em torno de 5 consiste em uma característica natural das águas subterrâneas no local, o que pode ser explicado pelas propriedades do solo, altamente intemperizado e ácido. Segundo Tejada e Aguiar (2016), o aquífero local fornece águas com pH em torno de 5,5. Sendo assim, para fins de consumo humano, a água captada no manancial eventualmente precisaria ter seu pH corrigido.

O baixo pH do solo local, também pode ser explicação, indiretamente, pela a ocorrência do metal alumínio (Al3+) em concentrações elevadas na água da nascente. À medida que a intemperização dos solos ácidos avança, pela alta atividade dos íons hidrogênio (H+) em solução, cria-se condição para que o alumínio presente no solo possa ser liberado para a solução de solo, ocorrendo percolação de cátions alcalinos e alcalinos terrosos, ou seja, lixiviação de bases (SILVA et al., 2016).

Embora a presença de alumínio em águas superficiais possa ser de ocorrência natural, não se pode descartar o potencial de liberação desse contaminante por atividades antrópicas como a agricultura e a lixiviação proveniente de aterros sanitários. É importante destacar que a presença de alumínio acima do padrão de potabilidade representa riscos à saúde pública, uma vez que metais na água são absorvidos pelo organismo humano através do trato gastrintestinal. O efeito cumulativo do alumínio, a longo prazo, pode causar encefalopatia grave em pacientes que sofrem diálise renal, podendo levar a distúrbios neurológicos, entre outras doenças que afetam o sistema nervoso central (FREITAS et al., 2001).

Quanto à elevada concentração de sulfato na água da nascente no mês de abril é preciso ponderar que a discrepância do resultado em relação a concentração detectada nas demais campanhas, ou seja, a não repetibilidade do resultado, pode indicar uma possível falha analítica nesta campanha. Entretanto, não se pode ignorar que vários outros parâmetros apresentaram concentrações críticas no mês de abril, tais como alumínio, teor de sólidos, coliformes totais e termotolerantes, além de ser o único mês em que fora detectado manganês na água, quase ultrapassando o padrão de potabilidade norte americano para este metal.  Segundo Prado et al (2011), os sulfatos são os íons mais abundantes em águas naturais, podendo ser de origem geológica, resultante de contaminação por águas residuais, fertilizantes (sulfato de amônio) e intrusão salina.

Também foram detectados coliformes totais e termotolerantes nas quatro campanhas analíticas deste estudo. Embora sugira não potabilidade, a análise da presença de coliformes totais deve ser feita a luz do conhecimento das características ambientais do local de amostragem e considerando o tratamento aplicado à mesma, para a amostra em questão não há tratamento, bem como não há captação para consumo humano.  O parâmetro coliformes termotolerantes é predominantemente caracterizado pela presença da bactéria Escherichia coli, indicadora de contaminação fecal.

Não é incomum a detecção de contaminação microbiológica em bacias ocupadas por atividades agropecuárias. Segundo registros fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde do município de Bom Progresso, 82% das vertentes e poços utilizados como fonte de água pela população rural não atendida por rede pública de abastecimento apresentaram algum tipo de contaminação microbiológica entre os anos de 2015 e 2016 (TEJADA e AGUIAR, 2016). Estudo publicado pela revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) verificou situação semelhante quando analisou a qualidade microbiológica da água em trinta propriedades rurais na região Nordeste do Estado de São Paulo. Na ocasião, divulgou-se como resultado a constatação de que 90% das águas de consumo humano (fontes, poços, nascentes ou reservatórios) estavam fora dos padrões de potabilidade no período chuvoso e 83,3% estavam nas mesmas condições em períodos de estiagem (AMARAL et al., 2003).

No meio rural, as principais fontes de abastecimento de água são os poços rasos e nascentes, fontes bastante susceptíveis à contaminação. Conboy & Gossi (2000) citam que a deposição de resíduo orgânico animal no solo, prática muito disseminada no meio rural, aumenta o risco da contaminação das águas subterrâneas. Para Follmann et al. (2018), o efluente da atividade suinícola pode contribuir para a contaminação do solo, especialmente pelo escoamento superficial que pode atingir os recursos hídricos influenciando negativamente na qualidade da água.

Com relação aos defensivos agrícolas, entres os resultados obtidos nenhuma molécula fora quantificada através dos métodos analíticos utilizados (Quadro 2), entretanto, substâncias como 2,4 D, 2,4,5-T, Alacloro, Aldrin+Dieldrin, Clordano, Endossulfan, Metolacloro e Paration, igualmente não puderam ser quantificadas mas foram expressas acima do limite de detecção, ou seja, podem estar presentes nas amostras em concentrações bastante reduzidas.

 

Quadro 2 - Quantificação de moléculas orgânicas presentes em defensivos agrícolas

Parâmetro

Unidade

jan/18

abr/18

jul/18

out/18

2.4 D

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

2.4.5-T

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Alacloro

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Aldicarbe+Aldicarbesulfona+Aldicarbesulfóxido

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Aldrin+Dieldrin

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Atrazina

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Carbendazim+Benomil

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Carbofurano

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Clordano (Cis+Trans)

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Clorpirifós+Clorpirifós Oxon

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

DDT (p,p-DDT+p,p-DDE+p,p-DDD)

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Diuron

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Endossulfan (+β+sulfato)

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Endrin

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Glifosato+AMPA

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Lindano(ʸ-HCH)

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Mancozebe

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Metamidafós

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Metolacloro 

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Molinato

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Paration

mg.L-1

<LQ

<LQ

<LQ

<LQ

Pendimentalina

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Permetrina

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Profenofós 

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Simazina

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Tebuconazol

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Terbufós

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

Trifuralina

mg.L-1

ND

ND

ND

ND

LQ – Limite de quantificação do método ND – Não detectado.

Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos laudos analíticos fornecidos pelo laboratório responsável (2019).

 

Embora a PRC nº 5/2017 disponha de uma lista considerável de padrões para a avaliação de agrotóxicos em águas potáveis, o número de ingredientes ativos ainda é pequeno em relação à quantidade de agrotóxicos utilizados nas culturas para o controle de doenças e pragas de plantas. Segundo Soares et al. (2016), mesmo em baixas concentrações as moléculas de agrotóxicos representam riscos à saúde pública devido sua toxicidade e potencial de acumulação em diferentes compartimentos ambientais.

É importante salientar ainda que os métodos empregados para o tratamento de águas existentes não possuem capacidade de remoção desses micropoluentes e o Lajeado Erval Novo é fonte de abastecimento para a população do município de Três Passos. Sugere-se que esta investigação seja ampliada para pontos à jusante da nascente do Lajeado Erval Novo, bem como, que o estudo venha a delimitar a investigação de moléculas especificamente utilizadas na área, considerando seu comportamento no ambiente.

 

3.1     Possibilidade de contaminação proveniente do aterro sanitário

O Índice de Qualidade de Aterro de Resíduos (IQR) do empreendimento somou 7,5 pontos em um máximo de 10 pontos (Anexo 3), sendo que, pela classificação proposta pela CETESB (2019), está em condições adequadas de funcionamento. No Quadro 3 apresenta-se o valor atribuído ao aterro sanitário pela metodologia GOD-IQR.

 

Quadro 3 -  Pontuação do aterro sanitário – Método GOD.IQR.

Característica

Condição local

Peso atribuído

Índice GOD.IQR

Tipo de aquífero

Livre

1

0,096

Tipo de solo

Latossolo

0,2

Nível estático aquífero

18 metros

0,8

Valor IQR

7,5

0,6

Fonte: Elaborado pela autora e adaptado de Eiras e Santos (2012).

 

O índice GOD.IQR para o consórcio público CITEGEM demonstra um potencial de contaminação desprezível para as águas subterrâneas (entre 0,0 e 0,1).

Considerando-se os contaminantes encontrados na nascente e desconsiderando o baixo potencial de contaminação oferecido pelo empreendimento, no que tange ao potencial de contaminação de aterros sanitários, controlados ou lixões, Mondelli et al. (2016), após experiência entre os anos de 2003 e 2008  e com base nos resultados obtidos junto à rede de monitoramento do lençol freático em aterro de resíduos sólidos urbanos, encontraram acima ou fora dos limites de potabilidade: pH, fosfato total, DBO5, chumbo, ferro e cromo, em águas subterrâneas sob influência do aterro. Oliveira et al. (2019) investigaram contaminação de solo por zinco, cobre e chumbo provenientes de um vazadouro de resíduos urbanos a céu aberto e detectaram apenas zinco como contaminante.

Teixeira et al. (2016), relatam que efluentes lixiviados de aterros de RSU contém elevadas concentrações de compostos orgânicos, nitrogênio amoniacal e cloretos, além de outros compostos solúveis que conferem ao lixiviado um grande potencial tóxico. A acentuada presença desses íons em áreas contaminadas por materiais lixiviadas de aterros, está provavelmente relacionada à elevada solubilidade apresentada pela maioria dos sais que contém estes elementos, facilitando o processo de solubilização e/ou de lixiviação. A presença desses íons em concentrações aceitáveis para os limites de potabilidade, corrobora para a hipótese de que não há contaminação proveniente das células de aterro do CITEGEM no lençol freático.

Riquetti et al. (2015), analisaram as concentrações de manganês, zinco, cádmio, chumbo, mercúrio e cromo, em amostras de chorume coletado no aterro sanitário de Dourados, Mato Grosso do Sul. Todos os metais avaliados foram detectados, sendo que os elementos manganês, zinco e chumbo apresentaram maiores concentrações nos períodos chuvosos e os demais elementos nos períodos de estiagem.

Em síntese, a composição do chorume é bastante diversificada, sendo que o mesmo pode liberar para o meio uma série de contaminantes orgânicos, inorgânicos e microbiológicos (TAVEIRA et al., 2016). O efluente de um aterro sanitário se assemelha com descargas industriais. Muitos parâmetros que podem indicar a presença de contaminantes do aterro também poderiam caracterizar contaminação agrícola, sendo assim, não se pode afirmar de forma cabal a origem dos contaminantes detectados neste estudo, contudo, há indícios que não podem ser ignorados. Não foram detectados fora dos padrões de potabilidade ou em quantidades expressivas contaminantes característicos de aterros de resíduos, tais como: cloretos, matais pesados (cádmio, chumbo, cromo, níquel e zinco), bem como, alterações nas demandas de oxigênio (DBO e DQO). Somados a essa constatação destaca-se o potencial desprezível de contaminação dos aterros do CITEGEM em sua área de influência e a distância adequada entre o empreendimento e o manancial hídrico, superior a 200 metros (ABNT, 1997).

Outrossim, Tejada e Aguiar (2016), após análise da rede de monitoramento do lençol freático instalada no CITEGEM, afirmam que os resultados obtidos foram contundentes para que se pudesse concluir que o fluxo das águas subterrâneas na área do empreendimento não indicou que estivesse ocorrendo dispersão de contaminantes provenientes das células de aterro, bem como, que dessa forma não haveria possibilidade de contaminação sub superficial da nascente que fosse proveniente do aterro de RSU.

 

3.2     Possibilidade de contaminação de origem agrícola

Embora tenha sido identificada dentro dos limites de potabilidade, a presença de nitrato na água da nascente deve ser destacada. Autores como Alaburda e Nishihara (1998), consideram que concentrações superiores a 3 mg.L-1 em amostras de água são indicativos de contaminação por atividades antropogênicas. Em estudo realizado por Rodrigues et al (2019), foram analisados seis pontos de captação de água em fontes alternativas da zona rural do município de Visconde de Rio Branco/MG, a concentração média de NO3- foi de 0,58 mg.L-1, concentração bastante inferior ao detectado na nascente do Lajeado Erval Novo (em média 2,4 mg.L-1, chegando a ser superior a 3 mg.L-1 em janeiro e abril de 2018)

Resende (2002) esclarece que o nitrato é a principal forma em que o nitrogênio está associado à contaminação da água pelas atividades agropecuárias. Devido às características químicas da molécula, o nitrato da solução de solo fica mais propenso à lixiviação, sendo conduzido às águas superficiais. Bezerra et al (2017) acrescenta que a contaminação por nitrato em águas subterrâneas tem como fontes importantes: fertilizantes agrícolas, estercos de animais e fossas sépticas. Resende (2002) destaca ainda que a elevação dos teores de nitrato na água é indicativo de risco potencial de outras substâncias indesejáveis, tais como moléculas sintéticas de defensivos agrícolas que possivelmente se comportam de forma análoga ao nitrato.

 

3.3  Enquadramento da nascente do Lajeado Erval Novo

Espera-se que as águas de uma nascente tenham qualidade superior a qualquer ponto à jusante do manancial hídrico que a mesma origina. É com a finalidade de manter a qualidade das nascentes que o Código Florestal Brasileiro (BRASIL, 2012), Artigo 4º, inciso IV, delimita como Área de Preservação Permanente as áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes, qualquer que seja sua situação topográfica, no raio mínimo de 50 metros.

Segundo a Resolução nº 357 de 2005 do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), a qual dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para seu enquadramento, águas superficiais de classe especial somente aquelas que possuam condições naturais inalteradas. As alterações percebidas em alguns indicadores de qualidade da nascente a excluem dessa condição. Considerando a qualidade da água do manancial em razão da média dos valores obtidos para os parâmetros analíticos verificados ao longo do ano de 2018, o enquadramento possível foi como Classe 3. Os parâmetros que limitaram o enquadramento em uma classe de uso mais nobre foram DBO5, Alumínio, Cobre, Manganês, Sulfato e coliformes termotolerantes. Estudo realizado por Batista et al. (2017) avaliou o enquadramento do Ribeirão Paraíso, manancial localizado no Sudeste do estado de Goiás. A bacia hidrográfica deste manancial é ocupada principalmente pelo cultivo agrícola de culturas anuais, na ocasião do estudo o manancial não se enquadrou na Classe 1 devido ao excesso de Coliformes termotolerantes e fósforo. Em outro estudo, este realizado em bacia hidrográfica com ocupação de cemitério, curtumes e indústrias alimentícias, foi avaliado o enquadramento do Rio Taquarí (RS), os pesquisadores apontaram que somente a turbidez das amostras estava elevada, os demais parâmetros permitiram o enquadramento como Classe 1 (MULLER et al., 2016). Resultados como estes nos permitem, por comparação, verificar a situação de alerta referente ao enquadramento da água de uma das principais nascentes do Lajeado Erval Novo como Classe 3.

Águas doces de Classe 3 podem ser destinadas ao abastecimento humano após tratamento convencional ou avançado, à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras, à pesca amadora, à recreação de contato secundário e à dessedentação de animais (BRASIL, 2005). Reitera-se que é uma classificação bastante inferior ao que se espera para uma nascente, fato que desperta um sinal de alerta para a qualidade do Lajeado Erval Novo como um todo, manancial com bacia ocupada por atividades agropecuárias ao longo de toda sua extensão.

Conforme publicado no Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Sul, do dia 28 de dezembro de 2012, data em que entrou em vigor a Resolução nº 115/2012, que aprova o enquadramento das águas superficiais da Bacia Hidrográfica dos Rios Turvo-Santa Rosa-Santo Cristo, o Lajeado Erval Novo tem seu enquadramento como Classe 2 desde sua nascente até sua foz. A constatação de que as atividades antrópicas estão extrapolando os usos previstos para o manancial no que tange a liberação de micropoluentes para o meio deve gerar preocupação para a comunidade científica, órgãos governamentais e população como um todo. É impreterível que sejam adotadas mudanças nos sistemas produtivos e nas atividades antrópicas em geral a fim de que se possa preservar a qualidade dos mananciais hídricos.

 

 

4     CONCLUSÕES

A partir da caracterização das atividades antrópicas localizadas na área de contribuição da nascente, das campanhas analíticas realizadas ao longo de 2018 e da revisão bibliográfica utilizada, foi possível concluir:

·                    A ausência de elementos característicos de contaminação de aterros sanitários nas amostras e a identificação do potencial desprezível de contaminação do aterro sanitário pela aplicação do índice GOD-IQR, levam ao entendimento de que não há contaminação proveniente do aterro de RSU no afloramento de água que origina a nascente do Lajeado Erval Novo.

·                     A concentração de alumínio nas amostras extrapolou consideravelmente o padrão de potabilidade, aponta-se causa natural como a origem mais provável da elevada concentração deste metal nas amostras devido às características do solo local, a mesma causa é atribuída ao pH levemente ácido do manancial.

·                     A elevada contagem de coliformes totais, termotolerantes e concentração de nitratos e sulfatos na água podem indicar contaminação oriunda de áreas agrícolas, embora não seja possível comprovar tal suposição com o estudo realizado até o momento.

·                     Não foram quantificadas moléculas de agrotóxicos nas campanhas analíticas realizadas. Embora algumas moléculas possam ter sido detectadas, estavam abaixo dos limites de quantificação dos métodos analíticos, os resultados são inconclusivos para indicar a contaminação.

·                     O presente estudo permitiu o enquadramento da nascente apenas como Classe 3 (CONAMA 357/05) devido aos indicadores DBO5, Alumínio, Cobre, Manganês, Sulfato e Coliformes termotolerantes, micropoluentes estes que indicam contaminação antropogênica.

 

 

REFERÊNCIAS

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