Universidade Federal de Santa Maria

Ci. e nat., Santa Maria, V. 42, Special Edition, e23, 2020

DOI: http://dx.doi.org/10.5902/2179460X40592

Received: 10/10/2019 Accepted: 10/10/2019

 

by-nc-sa

 


Special Edition

 

 

O resgate do uso de Plantas Alimentícias Não Convencionais: atividades na escola de Cerro Branco - RS

 

The rescue of the use of unconventional food plants: activities in the school of Cerro Branco - RS

 

 

Rosana Santos de MoraesI

Viviane Dal-Souto FrescuraII

Janessa Aline ZappeIII

 

Universidade Federal de Santa Maria, Campus Cachoeira do Sul, Brasil - rosana-moraes95@hotmail.com

II Universidade Federal de Santa Maria, Campus Cachoeira do Sul, Brasil

IIIUniversidade Federal de Santa Maria, Campus Cachoeira do Sul, Brasil

 

 

Resumo

Muitas plantas denominadas “matos”, “inços” ou “ervas daninhas” desempenham importante papel econômico, ecológico, nutricional e medicinal. Essas plantas ou parte delas são denominadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Por causa do desconhecimento dessas plantas pela população, são necessárias ações para resgatar o uso das PANC. Nesse sentido, como objetivos do trabalho, considera-se a realização de palestras e degustações de alimentos produzidos com PANC no Colégio Estadual Cerro Branco, de Cerro Branco - RS. Além disso, no encontro os participantes responderam questionários que buscaram investigar os conhecimentos prévios sobre PANC. Através dos questionários constatou-se que, de cento e trinta e seis participantes, apenas nove conheciam as PANC e que a PANC mais reconhecida e consumida era a amora (Morus nigra L.). Já com relação à chuva de ouro (Cassia fistula L.), apenas quarenta alunos conheciam e nenhum consumia, demonstrando que há necessidade de informações sobre PANC na comunidade escolar, incentivando o consumo no dia a dia.

Palavras-chave: Educação; PANC; Extensão

 

 

Abstract

Many plants called “bushes”, “innos” or “weeds” make an important economic, ecological, nutritional and medicinal role. These plants or part of them are called Unconventional Food Plants (PANC). Because of the lack of knowledge of these plants by the population, actions are needed to rescue the use of PANC. In this sense, as objectives of the work, it is considered achievement of lectures and tastings of food produced with PANC at the Cerro Branco State College, in Cerro Branco - RS. In addition, at the meeting participants answered questionnaires that sought to investigate previous knowledge about PANC. From the questionnaires it was found that, out of a hundred and thirty-six participants, only nine knew the PANC and that the most recognized and consumed PANC was the blackberry (Morus nigra L.). Regarding the golden rain (Cassia fistula L.), only 40 students know and none consume, showing that there is a need to disseminate information about PANC among the school community, encouraging the consumption of PANC on a daily basis.

Keywords: Education; PANC; Extension

 

 

1 Introdução

Nas pesquisas da área é consenso a grande diversidade de plantas encontradas no Brasil, umas reconhecidas e outras que ainda precisam ser estudadas. Entretanto, a maioria da população utiliza poucas espécies vegetais na alimentação.  O desafio, dessa forma, é utilizar mais espécies como fonte de alimento (BIONDO et al., 2018).

Dentre essa diversidade estão as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), que são plantas ou partes de plantas, chamadas de “matos”, “inços” ou “ervas daninhas”, que podem ser utilizadas na alimentação e desempenhar importante papel econômico, ecológico e medicinal (KINUPP; LORENZI, 2014).

Segundo Kinupp e Barros (2004), no Brasil existem 2000 espécies não convencionais. Esses mesmos autores confirmam que não há uma listagem completa com todas as espécies de PANC existentes no mundo.

Devido ao desconhecimento por parte da população, são necessárias ações para resgatar o uso das PANC e mudar hábitos alimentares. Além disso, é importante o desenvolvimento de pesquisas que auxiliem na identificação correta das espécies. Dessa forma, Kinupp e Lorenzi (2014), publicaram um livro com trezentos e cinquenta e uma espécies classificadas como espontâneas, exóticas, cultivadas, silvestres e nativas, com guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustrativas, de maneira simples e de fácil compreensão.

O presente trabalho teve por objetivo realizar a aplicação de questionários, palestras e degustações de alimentos produzidos com PANC no Colégio Estadual Cerro Branco, de Cerro Branco - RS.

 

2 Plantas Alimentícias Não Convencionais

Diferentes denominações já foram utilizadas para classificar o que são Plantas Alimentícias Não Convencionais: Plantas Alimentícias Silvestres, Plantas Alimentícias Alternativas, Plantas Alimentícias Regionais, Plantas Alimentícias Espontâneas. Dentre essas denominações, o conceito de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) é o que abrange mais espécies. Além disso, PANC contempla todas as plantas ou parte de plantas que podem ser consumidas na alimentação (KINUPP; LORENZI, 2014).

Esses autores também citam várias plantas, ou partes delas, que são comestíveis, ou seja, flores, folhas, frutos, rizomas, tubérculos, raízes tuberosas, sementes, entre outros. As PANC podem ser utilizadas como temperos, no preparo de bebidas, podem ser consumidas in natura, saladas, doces e óleos.

O valor nutricional depende de cada espécie, que possui uma porção significativa de cálcio, proteína, ferro, zinco, vitaminas, carboidratos, entre outros, necessários na alimentação humana (BREDARIOL, 2015). Nesse sentido, a ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata Mill.), também conhecida como lobrobô e carne-de-pobre, da família Cactaceae, é considerada uma verdura rica em proteína (25 a 35%), com a presença de aminoácidos essenciais como leucina, lisina, valina e fenilalanina (KINUPP; LORENZI, 2014; MARINELLI, 2016). Na culinária se utilizam os ramos foliares, flores e frutos: as folhas podem ser utilizadas como farinha na preparação de pães e massas, as flores em saladas e omeletes e os frutos em geleia, licor e mousse.

Outra PANC é a amora (Morus nigra L.), também conhecida como amora-preta que pertence à família Moraceae. Suas folhas podem ser utilizadas no preparo de sopas e chás (KINUPP; LORENZI, 2014). Possui propriedades medicinais e os frutos podem ser utilizados em xarope, geleia, polpa, sorvete, vinagre e álcool (GUNDOGDU et al., 2011).

Ainda, Gundogdu et al. (2011) constataram teores significativos de ácido clorogênico e antioxidantes nos frutos da amora, compostos que possuem características antimutagênicas e anticarcinogênicas, o que enfatiza sua importância para a saúde.

A chuva de ouro (Cassia fistula L.), também conhecida como cássia-imperial, pertencente à família Fabaceae, pode ter suas partes utilizadas em refogados e sopas, além de usadas na produção de pães e como salada crua (KINUPP; LORENZI, 2014). Além disso, estudos relatam que a espécie pode ser utilizada como anti-inflamatório, antibacteriana, antifúngica, entre outros (JUNIOR et al., 2006).

Outra planta que pode ser consumida na alimentação é a taioba roxa (Xanthosoma violaceum Schott), também conhecida como taioba-verdadeira pertencente à família Araceae. Costuma-se utilizar na culinária as folhas em preparos de refogado e panqueca e os rizomas cozidos, fritos, caramelizados e em chips crocantes (salgadinho) (KINUPP; LORENZI, 2014). Segundo Chaves e Andrade (2013), estudos demonstram a grande aceitação do consumo desta PANC no preparo de chips. A taioba roxa é fonte de carboidratos, aminoácidos totais e proteínas.

Dentre outras PANC temos também a soja (Glycine max (L.) Merr.), conhecida também como feijão-soja e pertencente à família Fabaceae. Utiliza-se na alimentação as vagens e os grãos imaturos, grãos maduros e folhas. As vagens são processadas e utilizadas na alimentação, como por exemplo, na preparação de purê, muito usadas na culinária oriental. Além disso, os pés verdes de soja sem as folhas são vendidos em supermercados como hortaliças. As folhas são consumidas como salada crua ou cozida. Os grãos tanto imaturos como maduros podem ser consumidos como salada (KINUPP; LORENZI, 2014), além disso, o grão maduro pode ser utilizado como complemento em bolinho de carne.

A soja possui 40% de proteína, nesse sentido é a única do reino vegetal que serve como opção de substituição da carne, saciando a fome e colaborando para a saúde, e também é um alimento rico em nutrientes (PENHA et al., 2007).

 

3 Metodologia

O projeto foi executado no Colégio Estadual Cerro Branco, localizado no município de Cerro Branco, interior do estado do Rio Grande do Sul (Figura 1).

 

Figura 1 – Localização do município de Cerro Branco no estado do Rio Grande do Sul

 

Os alunos e servidores da escola participaram das atividades propostas, que envolveram aplicação do questionário para investigar o conhecimento dos participantes sobre PANC, palestra sobre PANC e degustação de alimentos. Participaram seis turmas de Ensino Médio, que frequentavam a escola nos turnos da tarde e noite, além de servidores da escola, totalizando cento e trinta e seis pessoas.

Na investigação inicial através do questionário, os participantes responderam se sabiam o que eram as PANC e, em caso afirmativo, como conheceram, quais espécies conheciam, se consomem, quanto tempo faz que consomem e de que maneira e se cultivam PANC. Além disso, imagens das PANC foram expostas aos participantes, para que respondessem quais reconheciam e quais consumiam.

Algumas PANC mencionadas na investigação inicial foram: pimenta rosa (Schinus terebinthifolius Rddi), taioba roxa (Xanthosoma violaceum Schott), butiá (Butia odorata (Barb. Rodr.) Noblick&Lorenzi), picão branco (Galinsoga quadriradiata Ruiz &Pav), beijo-turco (Impatiens walleriana Hook. f.), palma forrageira (Nopalea cochenillifera (L.) Salm-Dyck), chuva de ouro (Cassia fistula L.), soja (Glycine max (L.)Merr.), amora (Morus nigra L.), pitanga (Eugenia uniflora L.) e malvavisco (Malvaviscus arboreus Cav.).

Após essa etapa do projeto, os estudantes e os servidores participaram de palestra sobre a importância ecológica, econômica, nutricional e medicinal das PANC e degustação de pães com ora-pro-nóbis, geleias de mirtilo, butiá e amora, bolos de pitanga, barquetes com pimenta-rosa, pizzas com picão branco e flores de beijo-turco e malvavisco in natura.

Além disso, os estudantes tiveram a oportunidade de participar de um jogo do tipo batalha naval, com algumas modificações, a fim de investigar o que entenderam a partir da palestra e incentivar a consumir os alimentos com PANC trazidos para a degustação.

 

4 Resultados e discussão

Através da análise dos questionários, constatou-se que, de cento e trinta e seis participantes, apenas nove sabiam o que são as PANC. Entretanto, poucos participantes mencionaram exemplos de PANC que conhecem. Dessa forma, entende-se que os alunos e os servidores têm conhecimento vago sobre esse tipo de planta, obtidos através de jornais, revistas, internet ou reportagens de televisão, ou seja, não sabem quais espécies de plantas se enquadram nessa classificação.

A PANC mais consumida e reconhecida pelos participantes foi a amora: apenas 2% dos participantes não reconhecem essa planta (Figura 2). Esse resultado era esperado pois árvores de amora são facilmente encontradas na região da escola, sendo comum os participantes consumirem amora in natura.

 

Figura 2 - Resultado do questionário sobre Amora (Morus nigra L.)

 

Já a chuva-de-ouro, utilizada em ornamentação de ruas e jardins (KINUPP; LORENZI, 2014), foi reconhecida por apenas quarenta participantes (29%), mas nenhum deles a consumia (Figura 3).

 

Figura 3- Resultado do questionário sobre Chuva de ouro (Cassia fistula L.).

 

Outra PANC utilizada no estudo foi a taioba-roxa, não sendo consumida por nenhum dos participantes (Figura 4), encontrada próxima aos cursos d’água ou lagoas, onde se desenvolve de forma espontânea, propagando-se pelo rizoma, utilizada para fins ornamentais (KINUPP; LORENZI, 2014). A espécie foi reconhecida por 79% dos participantes.

 

Figura 4 - Resultado do questionário para a espécie taioba roxa (Xanthosoma violaceum Schott)

 

Apesar do uso cotidiano da soja em óleos, somente 31% dos participantes afirmou consumir essa planta, resultado que indica a falta de informação dos participantes sobre o que se alimentam (Figura 5). A soja é uma herbácea anual de crescimento muito rápido e que se propaga por sementes (KINUPP; LORENZI, 2014). No ano de 2017, de acordo com a CONAB (2018), a soja e seus derivados como o óleo e o farelo foram os principais produtos a serem exportados, representando 14,10% de toda a exportação brasileira, composta também pelo minério e pelo petróleo. Levando em consideração esses dados, ainda assim a soja é considerada uma PANC, pois não é comercializada in natura em escala nos supermercados. Nesses estabelecimentos, encontra-se soja na forma industrializada.

 

Figura 5 - Resultado do questionário sobre soja (Glycinemax (L.) Merr.)

 

Há diversidade de plantas com potencial alimentício, porém é comum alimentação monótona em sabores, cores e nutrientes. Dessa maneira, as PANC têm potencial para diversificar e melhorar a fonte de renda das famílias, com vendas de seus produtos em feiras ou a agroindústrias e restaurantes (KINUPP; LORENZI, 2014). Esses mesmos autores citam que o Brasil pode diversificar a merenda escolar nas escolas, nesse sentido, citam a utilização de geleias à base de PANC como sendo saudáveis e nutritivas.

 

5 Conclusão

Com o desenvolvimento das atividades, os participantes conheceram e reconheceram as PANC: entenderam que o resgate do uso e a valorização dessas espécies representam ganho importante no aspecto ambiental, cultural, econômico, social e nutricional.

Há necessidade de disseminar informações sobre PANC entre os alunos, servidores e famílias das escolas, incentivando-os a consumi-las no seu dia a dia.

 

Agradecimentos

Agradecimentos ao Fundo de Incentivo à Extensão – FIEX.

 

Referências

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KINUPP VF, LORENZI H. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. Instituto Plantarum: São Paulo. 2014. 768p.

 

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