Universidade Federal de Santa Maria

Ci. e Nat., Santa Maria v.42, e57, 2020

DOI:10.5902/2179460X33089

ISSN 2179-460X

Received 14/06/18   Accepted: 25/11/19  Published:26/08/20

 

 

 

Geo-Sciences

 

 

Uso de Geotecnologias no Estudo da Degradação das Terras da Bacia do Rio Sucuru, na Paraíba

 

Use of Geotechnology in the Study of Land Degradation in the Sucuru River Basin, Paraíba

 

 

Erinaldo Irineu dos SantosI

Maria Leide Silva de AlencarII

Vanessa Batista SchrammIII

Joelma Sales dos SantosIV

Maria Teresa Cristina Coelho do NascimentoV

 

I   Unidade Acadêmica de Tecnologia do Desenvolvimento, Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido, Universidade Federal de Campina Grande, PA, Brasil - naldinho.sume@hotmail.com

II   Unidade Acadêmica de Tecnologia do Desenvolvimento, Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido, Universidade Federal de Campina Grande, PA, Brasil - leide@ufcg.edu.br

III  Unidade Acadêmica de Engenharia de Produção, Centro de Ciências e Tecnologia, Universidade Federal de Campina Grande, PA, Brasil - vanessa@ufcg.edu.br

IV  Unidade Acadêmica de Tecnologia do Desenvolvimento, Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido, Universidade Federal de Campina Grande, PA, Brasil - joelmaufcg@gmail.com

V   Centro de Tecnologia e Recursos Naturais, Coordenação de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola, Universidade Federal de Campina Grande, PA, Brasil - teresacristina.eng@gmail.com

 

RESUMO

Objetivou-se mapear espacial e temporalmente a degradação das terras da bacia do Rio Sucuru na região do Cariri Paraibano. Utilizou-se o programa SPRING 5.2.7 para o processamento digital de imagens orbitais e as chaves fotointerpretativas para avaliação dos níveis de degradação, visitas de campo, consultas a literaturas e órgãos públicos. Houve uma regeneração das áreas que anteriormente se encontravam nos níveis de degradação muito grave e moderado grave, isso devido a fatores como a seca que vem dificultando a exploração agrícola, assim como a redução da exploração pecuária e do extrativismo arbóreo. As margens dos corpos hídricos da bacia, em sua maior parte, encontram-se no nível de degradação grave, decorrente da retirada dessa vegetação em função da exploração dessas áreas para os mais variados usos. Os processos de degradação, aliados ao uso incorreto das terras da bacia estudada tiveram como principal consequência, o êxodo rural, necessitando da intervenção do poder público para que as comunidades locais possam desenvolver atividades sustentáveis, considerando aspectos sociais, econômicos e ambientais.

Palavras-chave: Bacia Hidrográfica; SIG; Degradação ambiental; Cariri Paraibano

 

 

ABSTRACT

The objective was to map spatially and temporally the degradation of the lands of the Sucuru River basin in the region of Cariri Paraibano. The SPRING 5.2.7 program was used for the digital processing of orbital images and the photointerpretative keys for evaluation of levels of degradation, field visits, consultations with literature and public agencies. There was a regeneration of the areas that previously were in the levels of degradation very serious and moderate severe, due to factors such as the drought that is hindering the agricultural exploration, as well as the reduction of the animal exploitation and of the arboreal extractivism. The banks of the water bodies of the basin, for the most part, are at the level of severe degradation, resulting from the removal of this vegetation due to the exploitation of these areas for the most varied uses. The degradation processes, together with the incorrect use of the lands of the studied basin had as main consequence, the rural exodus, requiring the intervention of the public power so that the local communities can develop sustainable activities, considering social, economic and environmental aspects.

Keywords: Watershed; GIS; Environmental degradation; Cariri Paraibano

 

 

1 INTRODUÇÃO

Atualmente, a preocupação mundial com a preservação dos recursos naturais e ambientais faz com que pesquisas sejam desenvolvidas a fim de identificar as principais causas, os causadores e as principais consequências da degradação do meio ambiente, bem como buscar alternativas para minimizar os problemas trazidos pela degradação. Conforme Hayes e Nadkarni (2001) e Alier (1998), a degradação ambiental ocorre tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento, tanto no meio urbano como no rural, através, sobretudo, da pressão que a produção e a população exercem sobre os bens e serviços gerados pelo uso dos recursos naturais.

No Brasil, a exploração dos recursos naturais, principalmente na zona semiárida, tida como ambiente ecologicamente instável e de forte ação antrópica, faz com que esta região seja considerada bastante susceptível ao desencadeamento de processos de degradação de terras (AB’SABER, 1977 in ARAGÃO et al., 2014)

Para Lima e Freitas Filho (2015), as questões ambientais estão no centro das discussões. Os estudos de degradação ambiental, a cada dia, fazem-se mais necessários. Isso porque as formas que o homem se apropria do espaço quase sempre são realizadas de maneira inadequada e inconsciente, gerando consequências que são em quase sua totalidade, irreversíveis.

Os desastres ambientais podem ser traduzidos pela dilapidação e crescente escassez dos recursos naturais em decorrência, quase sempre, das ações antrópicas associadas a fenômenos naturais como a seca, exigindo rapidez e eficiência nas intervenções. Neste sentido, o desenvolvimento de tecnologias, que possibilitem o monitoramento dos problemas ambientais e ou a elaboração de levantamentos e prognósticos capazes de prevenir ou minimizar os impactos ambientais, são de fundamental importância para equacionar o binômio: desenvolvimento e equilíbrio ambiental (PEIXE et al., 2011).

Segundo Valêncio et al. (2013) e Taddei (2010), uma das soluções que tem recebido investimento no Brasil é o uso da tecnologia da informação para suporte a gestão ambiental, que vem se mostrando um importante aliado para a preservação dos recursos naturais e recuperação das áreas degradadas, no que se refere a recursos hídricos, solo, matas ciliares e outros. Esse investimento tem o suporte da lei federal 9.433/97, que prevê a utilização de sistemas de informação como uma das ferramentas de apoio à caracterização da situação dos recursos hídricos (BRASIL, 1997).

As geotecnologias aplicadas ao estudo e caracterização de bacias hidrográficas proporcionam uma maior espacialização do ambiente estudado, assim, como maior dinamização do processo de geração de informação, aumentando a produtividade e proporcionando um manuseio mais versátil dos dados, além de proporcionar atualizações em tempo real e baixo custo de aquisição e de operação. Contudo, o uso de técnicas de geoprocessamento permite realizar análises complexas ao integrar dados de diversas fontes em bancos de dados georreferenciados, isto é, que possuem coordenadas de latitude, longitude e altitude, fundamentais para a manutenção de registros do uso dos recursos naturais ao longo do tempo.

Frente a essas reflexões, neste trabalho, buscou-se mostrar a aplicação de geotecnologias para mapear e analisar os níveis de degradação presentes na bacia hidrográfica do Rio Sucuru, na Paraíba, para possibilitar melhoria na qualidade ambiental e consequentemente na qualidade de vida da população local.

 

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 Área de Estudo

A bacia do Rio Sucuru representa parcela significativa da bacia do Alto Rio Paraíba e está localizada no semiárido paraibano, na Mesorregião da Borborema e na Microrregião Homogênea do Cariri Ocidental, centro do Estado da Paraíba, com área territorial de aproximadamente 1.652,5 km2; engloba total ou parcialmente os municípios de Amparo, Monteiro, Ouro Velho, Prata, Sumé, Serra Branca e Coxixola. A área se encontra entre as coordenadas geográficas: 7º 27’ 24” e 7º 51’ 20” de latitude sul e 37º 12’ 17” e 36º 31’ 37” de longitude oeste (Figura 1).

 

Figura 1 - Localização da área estudada

Fonte: Alencar, 2008

 

De acordo com a classificação de Koppen (PDRH-PB, 1996), o clima predominante na região é do tipo Bsh (semiárido quente), precipitações médias anuais muito baixas, em torno de 400 mm, com estação seca que pode atingir até 11 meses.

A vegetação é basicamente composta por Caatinga hiperxerófila, com trechos de floresta caducifólia, com o clima caracteristicamente do tipo tropical semiárido (ALBUQUERQUE et al., 2002). Essa vegetação tem porte arbóreo baixo ou arbóreo arbustivo, apresentando alta densidade, exceto em alguns trechos já devastados pelo homem ou de solos muito degradados. Destacam-se, como características desta área, as seguintes espécies: pereiro (Aspidos-permapyrofolium MartApocynaceae), quixabeira (Bumeliasertorum Mart – Sapotaceae), xique-xique (Pilocereusgounellei weber – Cactaceae), aroeira (Astroniumurundeuva Engl – Anacardiaceae), baraúna (Schinopsisbrasliensis Engl – Anacardiaceae), mandacaru (Cerus Jamacaru DC – Cactaceae) e marmeleiro (Crotonsp – euphorbiaceae), cuja concentração de cactáceas e bromeliáceas é relativamente alta (ALENCAR, 2008)

Segundo Souza et al. (2009), os solos predominante na região são os das classes Luvissolo Crômico e Neossolo Litólico, onde ocupam juntos 8.659,7 km² de toda a região, o que equivale a 77,3% do território em questão. A localização destes solos, em termos topográficos, é muito variável, embora estejam mais presentes nas áreas de declividade suave à moderada. Além disso, ocupam extensas áreas no entorno dos principais rios da região. O relevo pouco declivoso, a presença próxima dos recursos hídricos, sua grande extensão territorial e boa fertilidade natural fizeram, historicamente, com que esses solos apresentassem elevada concentração populacional e uso antigo, o que os torna mais passíveis ao processo de desertificação.

 

2.2 Mapeamento da Degradação Ambiental

O mapeamento da degradação ambiental da área foi realizado por meio de pesquisas bibliográficas, visitas técnicas e com uso de ferramentas e técnicas de geoprocessamento, nas quais foi feito o registro de características relevantes à degradação dos recursos naturais.

O registro dos locais visitados ocorreu mediante o uso de GPS e máquina fotográfica, cujas informações passaram a ser posteriormente relacionadas às respostas espectrais dos alvos apresentadas nas imagens de satélite, juntamente com dados das entrevistas realizadas de modo informal com os moradores das comunidades rurais, contribuíram para a elaboração dos mapas de degradação das terras.

A fim de analisar o quantitativo da cobertura vegetal, utilizou-se das imagens do sensor TM (Thematic Mapper) do satélite LANDSAT 5 e 8, com resolução espacial de 30 por 30 metros, que recobrem a área de estudo. As imagens foram adquiridas no catálogo de imagens do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Para elaboração dos mapas temáticos foi utilizado o software SPRING desenvolvido pelo INPE e informações cartográficas disponíveis na Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (AESA), pelo qual auxiliaram na localização da rede hidrográfica da região.

 

2.3 Avaliação da Degradação das Terras

Para melhor análise da degradação das terras, os níveis de degradação ambiental foram assim definidos: (i) muito grave; (ii) grave; (iii) moderado grave; (iv) moderado; (v) moderado baixo; e (vi) baixo. Cada nível possui características físicas distintas, segundo Barbosa (2005):

 

2.4 Níveis de degradação grave e muito grave

Estes níveis de degradação foram conferidos às áreas com os seguintes indicadores (Tabela1):

 

Tabela 1 - Níveis de Degradação Grave e Muito Grave

Indicadores

Características

 

 

Vegetação

Rala, muito rala a inexistente. Porte predominante arbustivo com poucos exemplares arbóreos (nível grave) ou raquitismo da vegetação que não consegue se desenvolver (nível muito grave). Presença de alguns poucos representantes da fauna, principalmente pássaros, pequenos roedores e répteis.

 

 

 

Uso da terra

Uso da terra: áreas de vegetação nativa intercaladas com áreas de cultura e pastagem. Geralmente, as culturas são desenvolvidas nos baixios. Em parte mais elevada predomina o pasto plantado. Nas partes mais elevadas observou-se o plantio de milho em que, após a colheita, a palha seca serve de pasto para os animais. Manejo inadequado – plantio morro abaixo. Pecuária extensiva e semiextensiva (nível grave). Terras abandonadas (nível muito grave)

 

 

Solos

Um pouco mais preservados, às vezes com pedregosidade alta; afloramento de rochas; manchas de solos desnudos frequentes, sem proteção contra os raios solares (clareiras) (nível grave). Praticamente sem fertilidade e muito rasos ou inexistentes (o substrato rochoso aflora na superfície). Afloramentos de rocha. Pedregosidade de média a alta (nível muito grave).

 

Erosão

Acentuada. Nas áreas de relevo plano a suave-ondulado predomina a erosão laminar. Em relevo mais declivoso podem aparecer sulcos e, em alguns pontos, ravinas e voçorocas.

Detritos orgânicos na superfície

Poucos, nas áreas da vegetação nativa (nível grave) ou ausente (nível muito grave).

Indicadores

Características

Infestação por insetos (formigas e cupim)

Alta. Predomina o cupim (nível grave). Baixa no nível de degradação muito grave.

Densidade populacional

Média a média-alta. Casas abandonadas. Migração (nível grave). E baixa a muito baixa (nível muito grave).

Lixo

Geralmente o lixo é jogado a céu aberto, tal como o esgoto (nível grave). Ausente (nível muito grave).

Fonte: Barbosa (2005), Organização: O próprio autor

 

2.5 Níveis de degradação moderado grave, moderado e moderado baixo

Os níveis de degradação moderado grave, moderado e moderado baixo foram conferidos às áreas com os seguintes indicadores (Tabela 2):

 

Tabela 2 - Níveis de Degradação Moderado Grave; Moderado; Moderado Baixo

Indicadores

Características

Vegetação

Densidade média, porte predominante arbustivo com exemplares arbóreos. Presença de representantes da fauna como pássaros, pequenos roedores como o mocó. Já aparece a raposa.

Uso da terra

Vegetação nativa, pecuária extensiva, agricultura de sequeiro e pequena irrigação.

 

Solos

Mais preservados, mais profundos, com poucos afloramentos de rochas e pedregosidade média a baixa. Manchas de solo exposto não muito frequentes.

Erosão

Moderada, laminar, com ou sem a presença de sulcos incipientes.

Detritos orgânicos na superfície

Presente em quantidade média; a cobertura por gramíneas e herbáceas já se faz presente em alguns pontos.

Infestação por insetos (formigas e cupim)

 

Baixa. Predomina o cupim.

Densidade populacional

Densidade populacional média a alta, predominância de casas de alvenaria e eletrificação. Casas abandonadas.

Lixo

Pouco ou ausente.

Fonte: Barbosa (2005), Organização: O próprio autor

 

2.6 Nível de degradação baixo

O nível de degradação baixo foi conferido às áreas com os seguintes indicadores (Tabela 3):

 

Tabela 3 - Nível de Degradação Baixo

Indicadores

Características

 

Vegetação

Densidade alta, porte arbóreo e arbustivo. Presença de representantes da fauna: pássaros; pequenos roedores; répteis; animais de pequeno porte; Os animais de grande porte, como as onças, praticamente foram exterminados.

 

Uso da terra

Vegetação nativa, culturas agrícolas; pasto; pecuária extensiva em pequena escala. Manejo florestal.

Solos

Conservados, com pedregosidade baixa ou ausente.

Erosão

Baixa - laminar. Ausência de sulcos.

Detritos orgânicos na superfície

Quantidade de média a alta; cobertura razoável por gramíneas e herbáceas.

Infestação por insetos (formigas e cupim)

Baixa. Predomina o cupim

Densidade populacional

Densidade populacional baixa a média; poucas casas abandonadas.

Lixo

Praticamente ausente

Fonte: Barbosa (2005), Organização: O próprio autor.

 

2.7 Processamento Digital das Imagens

Os processos digitais aplicados às imagens são descritos a seguir:

2.7.1 Registro das Imagens

O registro associa as coordenadas das imagens (linha, coluna) com as coordenadas geográficas (latitude e longitude). Foi utilizada como base cartográfica no processo de registro das imagens a carta topográfica na escala 1:100000, folha (SB.24-Z-D-V SUMÉ). Em seguida, esta imagem foi utilizada como referência para o registro imagem-imagem (INPE, 2003).

 

2.7.2 Operações Aritméticas: Razão entre Bandas – IVDN das Bandas 4 e 3

Nestas operações, utiliza-se uma ou duas bandas de uma mesma área geográfica, previamente georreferenciadas. A operação é realizada pixel a pixel, através de uma regra matemática definida, tendo como resultado uma banda representando a combinação das bandas originais. Estas operações podem requerer um fator de ganho (multiplicativo) ou “offset” (aditivo) para melhorar a qualidade de contraste de imagem.

Para aumentar o contraste entre o solo e vegetação, utilizou-se a razão entre bandas referentes ao vermelho e infravermelho próximo, constituindo assim, os chamados índices de vegetação (IVDN).

 

2.7.3 Composição Multiespectral Ajustada das Bandas 3 + IVDN + Banda 1

Consiste de uma transformação RGB, onde o canal vermelho estará na banda 3, no verde a imagem IVDN e no azul a banda 1. Nesta combinação, as áreas de altos valores IVDN em verde (ocorrência de vegetação) e as áreas de baixos valores de IVDN aparecerão em vermelho ou azul (ocorrência de solos expostos).

 

2.7.4 Segmentação das Imagens por Crescimento de Regiões

É uma técnica de agrupamento de dados, na qual somente as regiões adjacentes espacialmente podem ser agrupadas. Inicialmente, este processo de segmentação rotula cada pixel como uma região distinta. O critério de similaridade baseia-se em um teste de hipótese estatístico que testa a média entre regiões. A seguir, divide-se a imagem em um conjunto de subimagens e então se realiza a união entre elas, segundo um limiar de agregação definido (CÂMARA, 1996).

 

2.7.5 Classificação das Imagens

Classificação é o processo de extração de informação em imagens para reconhecer padrões e objetos homogêneos. Consiste em estabelecer correspondência entre as regiões ou pixels existentes na imagem e os temas e ou classes da área em estudo; durante a classificação, padrões são reconhecidos e associados aos diversos temas. Foi realizada neste trabalho a classificação por regiões de uma imagem segmentada, utilizando o classificador Battacharya. Este classificador requer interação com o usuário, o que na etapa de classificação é denominado treinamento (CÂMARA, 1996). A definição das classes foi feita a partir da análise visual das tonalidades de cinza, na tela do computador. As imagens classificadas foram vetorizadas através da função mapeamento, o que permitiu fazer uma quantificação das diferentes classes de vegetação, solo e água para a bacia estudada.

Essas técnicas de processamento digital constituíram a sequência de etapas seguidas para a confecção dos mapas temáticos.

 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 Mapeamento da Degradação das Terras

A partir das imagens de satélites obtidas, dos anos de 1990 e 2013, foram confeccionados os mapas digitais de degradação das terras da bacia do Rio Sucuru. Os mapas sintetizam a real situação da região que sofreu mudanças morfológicas em sua paisagem ao longo do período analisado. É possível através dessa análise temporal, observar a dinâmica dos processos de degradação e identificar as regiões que são mais vulneráveis à degradação e consequentemente à desertificação.

Analisando as imagens das Figuras 2 e 3, observa-se que o nível de degradação predominante na área de estudo para ano de 1990, é o moderado grave, ocupando uma área de 705,07 Km², distribuídos em várias regiões da bacia. Em sequência vem o nível de degradação grave, ocupando uma área de 511,09 Km², concentrando-se mais ao leste da bacia, onde este nível estava mais intensificado. O principal fator propulsor da degradação dessa área foi a ação antrópica, como também a proximidade aos centros urbanos como as cidades de Sumé e Serra Branca, assim como a pressão exercida pela agricultura local, que segue o modelo convencional de produção agrícola, não se preocupando com a sustentabilidade dos recursos naturais. Vale ressaltar que nos anos 50, a cidade de Sumé se tornou um dos maiores polos produtores de tomate do Cariri Paraibano, sendo que esse era produzido no modelo tradicional de produção agrícola, com o uso excessivo de agroquímicos, podendo nessa época de grande produtividade, os solos locais, assim como demais recursos, terem sofrido uma grande carga química, contribuindo com esses níveis de degradação atuais, soma-se a isso a irrigação sem manejo adequado o que contribui para a salinização do solo.

 

Figura 2 - Mapa digital de degradação das terras da bacia do Raio Sucuru (1990)

Descrição: C:\Users\w5nd6ws7\Desktop\RELATORIO FINAL PIBIC 2015\Degrad-90.bmp

Fonte: O próprio autor

 

Figura 3 - Gráfico da quantificação da degradação das terras para o ano de 1990

Fonte: O próprio autor

 

De acordo com Alencar (2008), em estudos realizados na região em questão, essa degradação acentuada se dá devido à população fragilizada, que, para manter sua sobrevivência, vulnerabiliza as terras e principalmente os sistemas hídricos com riscos a altos níveis de degradação; por um lado, a degradação dos solos e, por outro, a degradação dos sistemas hídricos superficiais, pelo assoreamento dos rios, açudes e lagos.

Foi possível observar que as regiões que margeiam os rios da bacia se encontram no nível de degradação moderado grave e grave, evidenciando a ausência da vegetação ciliar de maneira parcial ou total, ou seja, a vegetação foi suprimida, decorrente de diversos usos como: agricultura, pecuária e principalmente a silvicultura. A retirada da vegetação natural endêmica conduz ao desequilíbrio dos ecossistemas que são bruscamente alterados, causando, assim, a perda da funcionalidade dos mesmos, comprometendo os leitos dos rios e qualidade da água, bem como todo o meio ambiente. Klein et al. (2009) salientam que dentre os fatores que interferem diretamente sobre o volume e qualidade da água disponível no Brasil, o que mais merece destaque é a destruição da vegetação existente nas margens e no entorno das nascentes e dos cursos de água promovidos por razões e objetivos diversos.

A partir da análise do mapa da Figura 4 e do gráfico da Figura 5, observou-se que o nível de degradação moderado grave continua a ocupar maior parte da área da bacia, no entanto, tiveram uma redução, passando a ocupar 27,05% da área da bacia. A concentração desse nível está na região mais ao norte da bacia estudada. Nessas áreas aparecem várias manchas de solo exposto, erosão laminar; a vegetação natural é mais escassa e a densidade populacional nesse nível é baixa.

 

Figura 4 - Mapa digital da degradação das terras da bacia do Rio Sucuru (2013)

Descrição: C:\Users\pc2\Desktop\Mapa-Deg_2013-2.bmp

Fonte: O próprio autor

 

Figura 5 - Gráfico da quantificação da degradação das terras para o ano de 2013

Fonte: O próprio autor

 

Já nas regiões leste e sul da bacia, predominam os níveis de degradação grave e muito grave. Esses níveis de degradação ocupavam uma área de 472,82 km2 que corresponde a 28,62% da área da bacia. Nas áreas com esse nível de degradação, observou-se que a vegetação é basicamente composta por vegetação arbustiva a rala, representada por invasoras como malva (Malva sylvestri), Jurema (Mimosa), Pereiro (Aspidospermapyrifolium), Catingueira (CaesalpiniapyramidalisTui.) e algumas cactáceas como Facheiro (Pilosocereuspachycladus), Coroa de frade (Melocactusbahiensis), Xique-xique (Pilosocereusgounellei) e Rabo de raposa (Harrisiaadscendens). Já em outras áreas, observou-se a predominância de Algaroba (ProsopisjulifloraSw.), solos com bastante pedregosidade, erosão laminar e formação de sulcos (Figuras 6 e 7). O uso agrícola é inexistente nessas áreas, provavelmente por influência do fenômeno da seca.

 

Figura 6 - Áreas de solo exposto com vegetação rala e algaroba ao fundo

Descrição: C:\Users\Leide\Documents\Arquivos-UFCG-SUMÉ\PIVIC 2013-2014\Fotos de campo\1ª Visita\IMG_1696.JPG

Fonte: O próprio autor

 

Figura 7 - Erosão laminar com formação de sulcos (Comunidade Balanço no Município da Prata, PB)

Descrição: C:\Users\w5nd6ws7\Desktop\Mª Leide alencar\Dados da pesquisa de campo, projeto Uso de geoprocessamento no diagnóstico da degradação da zona rural do municio de Sumé PB, Erinaldo Santos\Fotos de campo\Câmera\P3212085.JPG

Fonte: O próprio autor

 

Esse fato foi confirmando nos relatos dos agricultores durante os trabalhos de campo, quando afirmaram que o solo é fator ambiental mais afetado pela degradação, seguido do fator hídrico, onde a vegetação ciliar na maioria dos casos foi retirada, favorecendo os processos erosivos (Figuras 8 e 9).

 

Figura 8 - Percentual do fator ambiental mais afetado pela degradação ambiental nas propriedades rurais

Fonte: O próprio autor

 

Figura 9 – Açude da localidade Cigana sem presença de mata ciliar

Descrição: C:\Users\w5nd6ws7\Desktop\Mª Leide alencar\Dados da pesquisa de campo, projeto Uso de geoprocessamento no diagnóstico da degradação da zona rural do municio de Sumé PB, Erinaldo Santos\Fotos de campo\Câmera\P3212096.JPG

Fonte: O próprio autor

 

A densidade populacional é muito baixa, sendo assim, há muitas casas abandonadas, em consequência do alto êxodo rural, juntamente com o abandono das terras, em decorrência das grandes secas, que deixam a população altamente vulnerável aos seus efeitos devido à situação de pobreza em que vivem e a falta de renda no meio rural (Figuras 10 e 11).

 

Figura 10 - Causas do abandono das terras

Fonte: O próprio autor

 

Figura 11 – Casas abandonadas na comunidade de Santo Agostinho (A) e comunidade Carnaúba de baixo no município de Sumé, PB (B).

Descrição: C:\Users\w5nd6ws7\Desktop\Mª Leide alencar\Dados da pesquisa de campo, projeto Uso de geoprocessamento no diagnóstico da degradação da zona rural do municio de Sumé PB, Erinaldo Santos\Fotos de campo\1ª Visita\IMG_1753.JPG

(A)

Descrição: C:\Users\w5nd6ws7\Desktop\Mª Leide alencar\Dados da pesquisa de campo, projeto Uso de geoprocessamento no diagnóstico da degradação da zona rural do municio de Sumé PB, Erinaldo Santos\Fotos de campo\Câmera\P3212072.JPG

(B)

Fonte: O próprio autor

 

Os níveis moderado e moderado baixo se distribuem homogeneamente na área da bacia ocupando cerca de 34%. Esse nível está caracterizado por áreas de vegetação de densidade média, arbustiva de porte médio representada basicamente por jurema (Mimosa hostilis Benth.), marmeleiro (Crotonsonderianus Muell Arg.) e alguns exemplares de catingueira (Caesalpiniapyramidalis Tul.). Algumas espécies arbóreas estão presentes, como a aroeira (Myracrodrunonurundeuva Fr. All.) e o angico (Anadenanthera columbrina (Vell.) Brenan). Observou-se ainda cactáceas como coroa de frade (Melocactussp.), rabo de raposa  (Harrisiaadscendens), mandacaru (Cereus jamacaru P.D.C.) e facheiro (Cereussquamosos Guercke ) (Figura 12).

 

Figura 12 - Aspecto da área de degradação moderada- Comunidade Santo Agostinho.

Descrição: C:\Users\Leide\Documents\Arquivos-UFCG-SUMÉ\PIVIC 2013-2014\Fotos de campo\1ª Visita\IMG_1780.JPG

Fonte: O próprio autor

 

Apresentam ainda, áreas de ocupação agrícola como culturas de subsistência: milho e feijão; algumas frutíferas como bananeira, cajueiro e coqueiro; e também o cultivo de palma e capim (Figura 13). Percebeu-se que em algumas áreas de declividade é cultivada de morro a baixo, favorecendo a erosão laminar, bem como o carreamento da camada fértil do solo.

 

Figura 13 - Área de cultivo agrícola - Comunidade Jurema

Descrição: C:\Users\Leide\Documents\Arquivos-UFCG-SUMÉ\PIVIC 2013-2014\Fotos de campo\2ª Visita\IMG_2020.JPG

Fonte: O próprio autor

 

Na Tabela 4 estão sintetizados os níveis de degradação das terras, podendo-se analisar o quadro do processo evolutivo da degradação das terras ao longo dos anos:

 

Tabela 4. Evolução dos níveis de degradação das terras para o período avaliado (1990 – 2013).

Níveis de Degradação

1990

2013

Incremento

Área (km²)

Muito Grave

102,40

89,5

- 12,9

Grave

511,09

383,2

- 127,89

Moderado Grave

705,07

446,9

- 258,17

Moderado

-

329,8

+ 329,8

Moderado Baixo

249,54

239,3

- 10,24

Baixo

76,13

158,3

+ 82,17

Fonte: O próprio autor

 

 

4 CONCLUSÃO

Esse trabalho apresentou a análise qualitativa e quantitativa da degradação das terras da bacia do Rio Sucuru na Paraíba, evidenciando os níveis indicativos obtidos através da análise dos produtos de sensoriamento remoto, geoprocessamento e dados de campo.

As áreas que se encontravam nos níveis de degradação muito grave e moderado grave (1990), conseguiram se regenerar e baixar sua intensidade de degradação. Porém, em outras áreas o nível de degradação se agravou, como é o caso do nível de degradação grave que passou a ser dominante.

As margens dos corpos hídricos da bacia do Rio Sucuru estão, em sua maior parte, no nível de degradação grave, decorrente da retirada da vegetação ciliar.

Os agricultores das áreas estudadas fazem uso desordenado do solo, provocado pelo desmatamento e queimadas. Porém, apesar da maioria das famílias não utilizarem práticas sustentáveis de cultivo do solo, elas estão sensibilizadas em relação ao processo de degradação ambiental provocada pelo desmatamento.

A falta de políticas públicas, principalmente no que se diz respeito à conservação e preservação do ambiente, seria um dos fatores primordiais para promover o uso racional dos recursos naturais, pois não existem programas com esse objetivo na localidade.

 

 

REFERÊNCIAS

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ALENCAR, M. L. S. Os sistemas hídricos, o bioma caatinga e o social na bacia do rio sucuru: riscos e vulnerabilidades / Tese (Doutorado em Engenharia Agrícola) – Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Tecnologia e Recursos Naturais 157f. : il. Campina Grande, 2008.

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