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Universidade Federal de Santa Maria

Voluntas, Santa Maria, v. 17, n. 1, e96663, 2026

DOI: 10.5902/2179378696663

ISSN 2179-3786

Submissão: 11/05/2026 Aprovação: 26/05/2026 Publicação: 03/07/2026

REFERÊNCIAS. 6

 

XI Colóquio Internacional Schopenhauer

Schopenhauer nos escritos metafísicos de Macedonio Fernández

Schopenhauer in the Metaphysical Writings of Macedonio Fernández

José Thomaz BrumI Ícone

Descrição gerada automaticamente 

I Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro , Rio de Janeiro, RJ, Brasil

RESUMO

Nos seus escritos metafísicos, publicados no oitavo volume de suas obras completas, Macedonio Fernández (1874-1952) refere-se muitas vezes a Schopenhauer. Procurarei comentar essas passagens sublinhando o idealismo proposto por Macedonio, um autor que chegou a corresponder-se com William James e de quem Jorge Luis Borges se considerava discípulo.

Palavras-chave: Arthur Schopenhauer; Idealismo; Macedonio Fernández; Metafísica

ABSTRACT

In his metaphysical writings, published in the eighth volume of his complete works, Macedonio Fernández (1874-1952) often refers to Schopenhauer. I will attempt to comment on these passages, highlighting the idealism proposed by Macedonio, an author who corresponded with William James and whom Jorge Luis Borges considered his disciple.

Keywords: Arthur Schopenhauer; Idealism; Macedonio Fernández; Metaphysics

 

Estudar a presença de Schopenhauer nos escritos metafísicos de Macedonio Fernández não é apenas uma curiosidade literária, mas algo mais. Sabemos o eco que suscita em nós, schopenhauerianos, a expressão “curiosidade literária”.  Wilhelm von Gwinner, biógrafo e médico de Schopenhauer, nos conta que, na noite de 18 de setembro de 1860, o filósofo lia o seu último livro: Curiosities of Literature de Isaac Disraeli[1]. Esse algo mais mencionado acima é que o encontro entre Schopenhauer e Macedonio representa um momento importante na recepção schopenhaueriana na América do Sul.

Schopenhauer teve grande influência na intelectualidade espanhola do século XIX. E, portanto, nas classes letradas dos países hispano-americanos como a Argentina, terra natal de Macedonio. Macedonio Fernández (1874-1952) foi colega de turma e amigo íntimo do pai de Jorge Luis Borges que, por sua vez, conviveu com ele desde jovem.  Macedonio foi uma espécie de mestre oral, de “Sócrates” de Borges, e ambos apreciavam os mesmos filósofos, sobretudo Schopenhauer. Além de sua memorável e antirrealista Museo de la novela de la eterna (publicada postumamente em 1967, graças a seu filho Adolfo de Obieta), obra feita de fragmentos de um livro que nunca começa, com inúmeros prefácios, existem – entre outros textos seus – os escritos metafísicos, publicados no oitavo volume de suas Obras completas (editora Corregidor). O livro se chama No todo es vigilia la de los ojos abiertos e inclui, além do texto original homônimo publicado em 1928, vários textos afins de 1896 a 1950.

Em No todo es vigilia Macedonio defende, como diz Sueli Barros Cassal, sua tradutora e prefaciadora brasileira, um “idealismo absoluto que decreta a irrealidade do mundo”[2]. Um universo idealista, imóvel, é então apresentado: só existe o presente, ambíguo e onírico. O que chamamos “realidade” é um sonho acordado. E Macedonio está consciente de que eliminar as fronteiras entre sonho e vigília é um artifício para nos livrar da déspota contingência, um artifício para “exorcizar” a morte. Percebemos, então, a atmosfera e os temas do parágrafo 5 de O mundo como Vontade e Representação, aquele que trata do “problema da realidade do mundo exterior”. São inúmeras as passagens de No todo es vigilia que se referem – direta ou indiretamente – a Schopenhauer. Por exemplo:

[...] Todos los fenomenos de un ensueño son possibles absoluta y relativamente, porque sus elementos constitutivos son los mismos que los da vigilia, es decir, estados visuales, auditivos, táctiles, de temperatura etc..., o sea evocaciones, reviviscencias de sensaciónn, y las combinaciones que con ellos forma el ensueño son  el trabajo de la imaginación cuyos productos todos son possibles en el sentido absoluto [...][3].

Na página 212, Macedonio diz:

El ser, el mundo, el estado, la vida, el existir, lo sentido, todo cuanto es, tiene la realidad    de un sueño, es decir la más intensa, limpia, genuina realidad. Y, por conseguinte, no pudiendo haber sino lo que sentimos, misterio no tiene este mundo y ningún mundo, y ningún sentir o ser, para nosotros. La plena conocibilidad de todo es la única metafísica. Toda otra actitud es negación de la metafísica[4].

E na página 216: “Si por un minuto yo no existiera el mundo habría cesado durante el. Seria un minuto sin mundo”. E também na mesma página: “Hay sólo una existencia, no sólo eterna sino incessantemente contínua,...”[5].

Macedonio não é, evidentemente, um filósofo metódico nem um intelectual acadêmico. Ele lança suas ideias a partir de leituras de Schopenhauer, de Spencer, de Bergson, mas destaca o filósofo alemão quando afirma: “Schopenhauer sí, paréceme tocado del asombro del ser”, contrariamente a Kant, a quem considera “genial analista de la espacialidad, de la representación”[6].

Na página 332, em uma espécie de síntese conclusiva, Macedonio diz:

Llamo estado a toda ocurrencia de la sensibilidad, o sea: sentimientos, sensaciones de dolor y placer e imágenes. Esto es todo lo que existe en toda forma concebible de existencia o Ser. Es todo lo que somos y todo lo que es, en múltiple variedad o especificidades simples[7].

Apresentei sumariamente as ideias metafísicas de Macedonio, sem comentá-las, para atingir o que penso ser o essencial: localizá-las de forma preliminar.

Borges tem um texto importante sobre Macedonio[8] que se encontra no livro Prólogos con un prólogo de prólogos. Esse escrito serviu de prefácio a uma seleção de textos de Macedonio publicada em 1961 na Argentina. Nele encontramos duas menções interessantes a Schopenhauer.

Na página 80:

[Macedonio] había acostumbrado a sus sentidos a no percibir lo desagreable y a    demorarse en un agrado cualquiera: el olor del tabaco inglés, de un mate curado o de un volumen – El mundo como voluntad y representación, recuerdo – encuadernado en pasta española[9].

Na página 85: “Macedonio, con una soñadora gravedad, nos refería que había dejado en el Club Alemán un volume descabalado [“desemparelhado”, “incompleto”] de Schopenhauer, con su firma y con anotaciones a lápiz”[10].

O que é certo, diz Borges, é que Macedonio tinha como tema preferido a “essência onírica do Ser”, tema schopenhaueriano por excelência: “das traumhaft Wesen des Lebens”. É certo também que negava uma “materia duradera” (“durável”, “estável”) por trás das aparências e também um “yo que percibe las aparencias”. Conclui Borges: “No sé que afinidades o divergencias nos revelaria el cotejo [“a comparação”] de la filosofia de Macedonio con la de Schopenhauer...”[11].

Como elemento introdutório de uma resposta a isto, devo dizer que as ideias de Macedonio parecem ser um comentário muito particular da célebre passagem de O mundo como Vontade e Representação, parágrafo 5, que diz:

A vida e os sonhos são folhas de um livro único, a leitura seguida (Das Lesen im Zusammenhang) dessas páginas é aquilo que se chama a  vida real (wirkliches Leben); mas quando o tempo habitual da leitura (die jedesmalige Lesestunde) [o dia] passou e chegou a hora do repouso (Erholungszeit), continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso, em tal  e tal local, e caindo tanto numa página já lida, como em uma que não conhecíamos, mas é sempre no mesmo livro que lemos (aber immer aus demselben Buch)[12].

Macedonio parece mais interessado em sublinhar a identidade entre vida e sonho: a vida é um sonho acordado, aliás “la vida es sueño”, como diz Calderón “inspirador” de Schopenhauer[13].

Nos Manuscritos de Berlim, fragmento 124, Quartant, de janeiro de 1826, Schopenhauer esclarece o que quer dizer quando fala de Metafísica:

A filosofia em sentido estrito é metafísica, porque em vez de limitar-se a descrever o existente e a examinar a conexão do mesmo, concebe tudo o quanto existe como um fenômeno no qual se apresenta uma coisa-em-si, um ser distinto de sua manifestação, que prova mediante a interpretação e o comentário do fenômeno em seu conjunto. Ultrapassa o fenômeno para chegar ao que se manifesta, até ao que se oculta por trás dessa manifestação fenomênica, το μετα το φυσιχον[14].

Essa concepção do “aparecer” (ou manifestar-se) parece não interessar a Macedonio, imerso no pensamento da unicidade de um presente contínuo e eterno. Como ele diz no título de seu livro No todo es vigilia: vivemos um devaneio contínuo no qual não há nada por trás de nada, nem mesmo algum “eu” que estaria em alguma “exterioridade”. Pois “ser e presente são uma única noção”[15].

REFERÊNCIAS

BORGES, J. L. Prólogos con un prólogo de prólogos, Madrid: Alianza Editorial, Edição de bolso, Biblioteca Borges, 2005. (Edição original 1975).

BRUM, J. T. O legado espanhol – Calderón e Gracián inspiradores de Schopenhauer. In: Salles, João Carlos (Org.), Schopenhauer e o Idealismo alemão. Salvador: Quarteto, 2004. p. 115-119.

FERNÁNDEZ, M. No todo es vigilia la de los ojos abiertos. Buenos Aires: Corregidor, 2007.

FERNÁNDEZ, M. Tudo e nada: pequena antologia dos papéis de um recém-chegado. Organização e tradução Sueli Barros Cassal. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

GWINNER, W. Arthur Schopenhauer aus persönlichem Umgang dargestellt, Frankfurt am Main: Kramer, 1987. (Edição original 1862).

SCHOPENHAUER, A. Manuscripts Remains. Volume III, Berlin Manuscripts (1818-1830). Tradução inglesa de E. F. J. Payne. Oxford/New York/Munich: Berg, 1988.

SCHOPENHAUER, A. Sämtliche Werke, Band I, ed. Löhneysen, Stuttgart/Frankfurt am Main: Cotta-Insel, 1960.

 

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA

1 – José Thomaz Brum

Doutorado em Filosofia pela Universidade de Nice

https://orcid.org/0009-0002-3540-8586 • matildelima36@yahoo.com

Contribuição: Escrita – Primeira Redação

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

Brum, J. T. Schopenhauer nos escritos metafísicos de Macedonio Fernández. Voluntas Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria - Florianópolis, v. 17, n. 1, e96663, p. 01-06, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.5902/2179378696663.



[1] Gwinner, Wilhelm. Arthur Schopenhauer aus persönlichem Umgang dargestellt, p. 188. O texto alemão diz: “Am Abend dieses Tages sprach ihn zum letztenmal. Er saß auf dem Sofa und klagte über intermittierendes Herzklopfen, während seiner Stimme nichts von der gewohnten Stärke fehlte. Er las in d'Israelis Curiosities of Literature (...)”.

[2] Fernández, Macedonio. Tudo e nada: pequena antologia dos papéis de um recém-chegado, p. 14.

[3] Fernández, Macedonio. No todo es vigilia la de los ojos abiertos, p. 115-116.

[4] Fernández, Macedonio. No todo es vigilia la de los ojos abiertos, p. 212.

[5] Fernández, Macedonio. No todo es vigilia la de los ojos abiertos, p. 216.

[6] Fernández, Macedonio. No todo es vigilia la de los ojos abiertos, p. 310.

[7] Fernández, Macedonio. No todo es vigilia la de los ojos abiertos, p. 332.

[8] Em 2018, por ocasião do Colóquio Internacional Cioran, realizado na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, tive a oportunidade de conversar com o livreiro Alberto Casares (Suipacha 521), íntimo do círculo de Borges. Falamos sobre Macedonio, de quem frisou a vida modesta em pensões portenhas. Casares, fundador da mítica livraria que leva o seu nome, faleceu em 6 de agosto de 2025 aos 82 anos.

[9] Borges, Jorge Luis. Prólogos con un prólogo de prólogos, p. 80. A expressão “pasta española” refere-se a um tipo de encadernação com pele de animal polida.

[10] Borges, Jorge Luis. Prólogos con un prólogo de prólogos, p. 85.

[11] Borges, Jorge Luis. Prólogos con un prólogo de prólogos, p. 90.

[12] SW, p. 50 (Tradução para o português de J. T. Brum).

[13] Sobre essa questão consultar Brum. O legado espanhol – Calderón e Gracián inspiradores de Schopenhauer.

[14] HN III, p. 274-275.

[15] Cf. Fernández, Macedonio apud CASSAL, Sueli Barros. Apresentação. In: Fernández, Macedonio. Tudo e nada: pequena antologia dos papéis de um recém-chegado, p. 14.