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Universidade Federal de Santa Maria

Voluntas, Santa Maria, v. 16, n. 1, e94222, 2025

DOI: 10.5902/2179378694222

ISSN 2179-3786

Submissão: 27/10/2025 Aprovação: 06/11/2025 Publicação: 28/11/2025

1 INTRODUÇÃO.. 2

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS. 17

 

Estudos Schopenhauerianos

Schopenhauer e Kant: sobre a noção de degeneração

Schopenhauer and Kant: on the notion of degeneration

 

Eduardo Ribeiro da Fonseca IÍcone

Descrição gerada automaticamente

 

I Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

RESUMO

Nosso texto propõe uma tentativa de melhor compreensão do sentido da noção de degeneração (Degeneration, Ausartung) em Schopenhauer, em contraste com o pensamento de Kant (Ausartung) referente aos temas da variação e da degeneração de um ponto de vista racial, evidenciando que os filósofos exibem contrastes importantes no que concerne à forma como ambos encaram o valor humano a partir das ideias de racialidade, pureza e miscigenação.

Palavras-chave: Degeneração; racialidade ; Adão negro

ABSTRACT

Our text proposes an attempt to better understand the meaning of the notion of degeneration (Degeneration, Ausartung) in Schopenhauer and to contrast it with Kant's thought (Ausartung) regarding the themes of variation and degeneration from a racial perspective, highlighting that the philosophers exhibit important contrasts concerning how both view human value based on the ideas of raciality, purity, and miscegenation.

Keywords: Degeneration; Raciality; Black dam

1 INTRODUÇÃO

O presente texto propõe uma tentativa de melhor compreensão do sentido da noção de degeneração (Entartung/ Degeneration/ Eintheilungen/ Ausartung, degeneration, degenerazione, dégénérescence) em Schopenhauer, em contraste  com o pensamento de Kant no que se refere aos temas da variação e da degeneração de um ponto de vista racial, evidenciando que os filósofos em certa medida exibem contrastes importantes no que concerne à forma como ambos encaram o valor humano a partir das ideias de racialidade, pureza e miscigenação.

Inicialmente pretendo esboçar alguns elementos importantes para fundamentar a discussão do tema da degeneração em Schopenhauer. É uma situação complexa, porque em sua obra coexistem o metafísico da vontade e o cronista da cultura, o filósofo e o artista. Nele persistem também o materialista e o idealista. Sua obra equilibra e combina elementos díspares, porém tendo como centro e ponto de referência o conceito de vontade.

1.1 Schopenhauer e a degeneração

A metafísica imanente nos faz refletir sobre as noções de recorrência e de oscilação de características, ainda que admita processos evolutivos e involutivos, civilizatórios e descivilizatórios no âmbito inessencial da História (o essencial seria o que persiste ao fundo desses fatos, e não o que muda). Nesse sentido, a análise de sua forma de encarar o problema da degeneração precisa sempre considerar o caráter transitório dos costumes e de nossas opiniões a não ser no que concerne às suas relações com a vontade, ela sim recorrente e verdadeiramente essencial, inclusive no que respeita à sua influência sobre as nossas operações intelectuais, marcadas pela individualidade, pelo caráter, e, a partir disso, pelo desejo, pela paixão, pelo medo e pela aversão[1]. É nessa chave que os teóricos da degeneração que lhe antecedem, como Pinel[2]  e Bichat, e os que lhe são contemporâneos ou o sucedem historicamente, como Morel, Lombroso e Nordau, podem ser analisados, especialmente de acordo com os capítulos XVII e XIX dos Complementos à sua Obra Magna. A posição que cada um desses pensadores ocupa frente à esperança e ao temor de certa maneira define a propensão da teoria a fantasiar a realidade, tomada aqui já como realidade psíquica e, superando a evidência empírica, qualquer coisa que produz uma peça ficcional (seja heurística, ou até mesmo despojada de contato com o dado intuitivo) apoiada na autoridade do cientista, que legitima também os desejos e os medos que estão por trás das ações políticas e da defesa dos interesses econômicos.

A vontade é o que persiste inalterado, mesmo quando faltam possibilidades ao corpo, seja por constituição ou por alguma forma de degeneração ou limitação. Nesse sentido, Schopenhauer sugere que o maior erro de Gall e de sua Frenologia é a equiparação psicofísica. Para o filósofo, não é possível criar órgãos físicos para as qualidades morais (e essa é uma das falácias do racismo, por exemplo.). A vontade não tem a sua sede no cérebro, e mais ainda, como a parte metafísica, ela é o prius do cérebro, bem como de todo o corpo[3].

Além disso, há a referência à especiação como Ideia. Como ato originário da vontade, o verdadeiro “ser-em-si-mesmo de toda coisa viva reside primariamente em sua espécie”[4], ainda que essa espécie viva unicamente através dos indivíduos. A vontade alcança a autoconsciência apenas através do indivíduo, e desse modo conhece a si mesma diretamente apenas como indivíduo, portanto como organismo e relações de descendência e ascendência no contexto material.

Na concepção do filósofo, a história natural encena o drama da persistente objetivação da Vontade, primeiro fora do tempo (Representação incondicionada, cuja imagem é a espécie, representada por ele através de um arco-íris imóvel), e depois no tempo (Representação condicionada ou individuação, descrita na imagem das gotas que caem de uma rumorejante cachoeira)[5]. É importante notar que a perspectiva lógica da evolução das espécies não implica necessariamente na perspectiva natural da adaptação ao longo da história dos organismos, com as espécies animais saindo umas das outras, no transcorrer do tempo.  Para Schopenhauer, o conjunto da natureza é de fato um sistema de fins recíprocos, ao qual está subordinado todo mecanismo natural. No entanto, os diversos domínios têm suas próprias leis originárias, que não podem remeter-se a leis mais universais. Portanto, ao fundo de uma concepção de unidade de plano da natureza persiste o caráter originário das forças e das formas existentes em plena e permanente disputa pela matéria.   Disso surge uma lacuna que precisa ser preenchida, portanto, necessita algo que não esteja submetido às leis materiais, mas que pressuponha a Representação no espaço e no tempo como sua expressão[6].

 Schopenhauer situa a atividade orgânica no âmbito do querer-viver, isto é, na relação entre a forma inata e o organismo e seu modo de atividade específico que, por definição, é um simples ímpeto à existência sem finalidade e independente da consciência. Isso põe Schopenhauer em um lugar peculiar quando nos propomos a falar das teorias materialistas ou criacionistas da degeneração.

1.1.1 A terminologia de Schopenhauer no contexto da degeneração

Na obra de Schopenhauer, não é encontrada nenhuma ocorrência do termo que atualmente está mais identificado à noção de degeneração no idioma alemão, Entartung[7]. Esse termo é utilizado na língua culta antes de Schopenhauer, por exemplo nas obras de Friedrich Schlegel[8]. No entanto, ele foi popularizado pela obra de Max Nordau, Entartung (1896) e depois foi também integrado francamente à linguagem nazista nos anos 1930, no contexto do racismo pseudocientífico e da censura cultural e artística, de que um dos exemplos foi a famosa exposição itinerante denominada Entartete Kunst, Arte Degenerada, que foi uma exposição itinerante organizada e realizada de modo inaugural em Munique, Alemanha,  pelo Ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, em 1937, e considerada a “história mais truculenta da cultura ocidental, no que diz respeito à pilhagem e ao confisco de obras de arte em período de guerra, em nome de teorias estéticas antimodernas”[9]. Essa exposição percorreu a Alemanha e tinha como objetivo ridicularizar e condenar as obras de arte moderna, que os nazistas consideravam “degeneradas” do ponto de vista artístico e subversivas do ponto de vista político.

Schopenhauer, por outro lado, em geral, utiliza o termo de origem latina Degeneration, que também significa degeneração. Ele aparece duas vezes na obra do autor de O mundo como vontade e representação. Esse uso é típico na linguagem de Schopenhauer, e, se não indica o conhecimento ou não do termo Entartung (dificilmente não conheceria), nem indica a clara preferência por Degeneration, ainda que em geral esse uso seja típico em sua linguagem filosófica, no sentido de que a degeneração é uma simples representação do sujeito cognoscitivo e não alguma coisa de caráter essencial, o que geralmente atrairia o uso de um termo alemão. Isto ocorre, por exemplo, no que corresponde ao uso dos pares Leib (que estabelece a ponte possível com a vontade) e Organismus (um Körper entre outros corpos).

No caso que temos em vista imediatamente, de duas citações no contexto dos Parerga e Paralipomena, o termo latino específico a que remete a escolha por Degeneration, feita pelo filósofo é Degeneratio, que é também a raiz etimológica mais direta para a palavra “degeneração” em diversas línguas modernas. Significa literalmente “um desvio do caminho original”, indicando um processo de deterioração ou decadência, mas que não expressa necessariamente um juízo moral sobre o processo (pode ser uma variação do ponto de vista biológico, ou uma mudança cultural do ponto de vista humano). Em latim, os termos que no meu entendimento estariam mais ligados ao juízo moral são corruptio (significa corrupção, deterioração ou perversão, indicando uma mudança para pior) e ruina (significa ruína mesmo ou destruição, podendo ser usada para descrever um estado de degeneração completa)[10]. Essa escolha terminológica corresponde ao drama das existências biológica, cultural e individual das pessoas e das comunidades humanas, mas não carrega em si mesmo nenhuma conotação essencial, a não ser pelo fato de expressar as oscilações da experiência no contexto da objetivação da vontade.

1.1.2 Degeneration: o desvio metafísico

São duas as ocorrências do termo na obra e são elucidativos. Ambos se encontram nos Parerga e Parilopema, em Vereinzelte, jedoch systematische geordenet Gedanke [Pensamentos isolados, mas sistematicamente organizados], capítulos 12 e 16.

A primeira ocorrência é no texto Nachträge zur Lehre von Leiden der Welt [Complementos à doutrina do sofrimento do mundo], §. 153, no qual o filósofo compara a felicidade do ser humano e dos animais e, como o faz em outros pontos de sua obra, chega à conclusão de que os animais são mais felizes porque sofrem menos, por viverem predominantemente no presente, enquanto o ser humano, com o seu sistema nervoso mais potente, sente mais o prazer, mas também tem mais potencializada a dor. Quão incomparavelmente mais profunda e violenta é a forma pela qual sua mente é movida, “para, no fim, chegar ao mesmo resultado: Saúde, alimento, abrigo, etc.” [11].

Segundo Schopenhauer, isso decorre, em primeiro lugar, do fato de que em nós tudo recebe uma poderosa intensificação através do pensamento no que está ausente e no que é futuro, pelo que a ansiedade, o medo e a esperança começam por entrar na existência, mas depois afligem-no muito mais fortemente do que a realidade presente dos prazeres ou sofrimentos a que o animal está limitado. Nós aumentamos deliberadamente as nossas necessidades, que, de início, são apenas um pouco mais difíceis de satisfazer do que as do animal, daí “o luxo, as iguarias, o tabaco, o ópio, as bebidas espirituosas”, a ambição pelo poder, o sentimento de honra e vergonha, a opinião alheia, entre outros[12], e isso não nos leva muito longe no que realmente importa. Para o filósofo, em suma, o saldo de tudo isso é que as pessoas alcançam os seus objetivos verdadeiramente naturais na vida tão raramente quanto os animais: “porque a antinaturalidade [grifo meu] de seu modo de vida, juntamente com seus trabalhos e paixões, e a degeneração [Degeneration] da raça [Rassen] causada por tudo isso, raramente permitem que ele o alcance”[13].

A segunda ocorrência tem ao fundo a questão do uso da linguagem e especialmente da língua alemã, que é algo importante para ele, reconhecidamente um grande escritor. Está no §16 do mesmo texto já mencionado. É ali que Schopenhauer usa pela segunda e última vez o termo Degeneration. Escreve que a corrupção da língua é sempre um sinal seguro da degeneração da literatura de um povo: “A corrupção da língua é sempre um sinal claro da degeneração da literatura de um povo. Que a ignorância procure outro lugar para se divertir que não seja a língua alemã!”[14].

O diagnóstico do filósofo é de que o miserável período histórico do assim considerado “apressado utilitarismo” estaria ameaçando estragar a língua alemã para sempre, através de modificações que, na opinião dele, a estariam empobrecendo de modo radical. Naturalmente, se considerarmos o que dissemos antes, o assunto talvez seja um tanto quimérico, mas, certamente, o uso da linguagem expõe a vivacidade, a complexidade e a dramaticidade do mundo como vontade e representação, se considerarmos que é através dos usos da linguagem que expressamos essa dupla natureza, e, especialmente, a natureza efêmera e inconstante do que se apresenta como fenômeno. E nisso consiste também, pensamos nós, a expressão possível do caráter trágico da existência.

1.1.3 A terminologia de Schopenhauer e suas implicações

Porém, a distinção levantada acima entre os usos de Degeneration e Entartung, a saber, as implicações de não existirem ocorrências do vocábulo de origem alemã, mas sim o de origem latina em Schopenhauer, perdem um pouco a sua importância quando percebemos a utilização de outros termos alemães do universo semântico de Entartung em contextos específicos.

O primeiro deles é o termo Eintheilungen (na ortografia moderna: Einteilungen), que significa, neste contexto epistemológico: divisões, classificações ou subdivisões sistemáticas, consideradas em relação à noção de Mannigfaltigkeit, que é a matéria desordenada do conhecimento, que precisa ser moldada e estruturada pela forma da subordinação lógica. O termo está ligado à noção de degeneração em Schopenhauer de modo peculiar. Schopenhauer sugere que a ciência deva ser construída por meio de divisões (Eintheilungen) que são progressivamente mais específicas, utilizando conceitos intermediários (Mittelbegriffe). Para ele, isso impede que a ciência seja apenas uma “variedade incalculável”[15] de fatos desorganizados sob um conceito geral, garantindo que cada peça de conhecimento tenha o seu lugar exato no sistema.

No contexto dos erros que, na filosofia de Schopenhauer, estão relacionados ao uso da razão, a correta ordenação e subordinação – Eintheilungen - dos conceitos da ciência permite o combate ao obscurantismo que se manifesta, por exemplo, no contexto do racismo. Um exemplo extraordinário está em um texto dos Parerga e Paralipomena, que trata do “Adão negro” e do ”Jesus negro” (na verdade, até mesmo do “Deus negro”).

Schopenhauer inverte a lógica pela qual Kant ordena o seu raciocínio sobre o racismo, a partir do qual a raça branca seria como que uma raça originária e, mediante essa classificação, justifica-se, por um lado, a supremacia branca, e por outro, a pele branca representa também o progresso rumo às luzes. Em Schopenhauer, permanece a noção lógica do tronco comum e, também o reconhecimento do atraso vinculado ao meio ambiente mais quente que também aparece em Kant, e da exigência de trabalho ligada ao ambiente frio e inóspito europeu, mas não há mais uma justificativa vinculada a uma pretensa “metafísica da branquitude”.

De acordo com Schopenhauer, é tomado como fato que, entre os povos brancos, as classes mais baixas, que trabalham arduamente, são geralmente mais escuras do que as classes mais altas, o que é explicado pelo suposto fato de que elas suando mais, escureceriam, o que, em grau muito menor, teria um efeito análogo ao clima quente. De qualquer modo, a origem do tronco comum da Humanidade nas regiões de clima quente (o oposto do que diz Kant), deixa-nos entrever que o “Adão da nossa raça” deveria ser imaginado como negro. Para o filósofo. “é ridículo que os pintores retratem este primeiro homem como branco, com a cor resultante do desbotamento”, uma vez que, além disso, se, de acordo com a Escrituras, “Jeová o criou à sua imagem”, o próprio Deus deveria “ser retratado como negro nas obras de arte”.  Para Schopenhauer, “o fato de a cor branca do rosto ser uma degeneração e algo antinatural é comprovado pelo nojo e repulsa que ela provoca em alguns povos da África interior quando a veem pela primeira vez”. Para esses povos, a branquitude parece como uma “degeneração patológica”[16].  Em seguida, aparece no raciocínio de Schopenhauer a justificativa lógica, portanto, a Eintheilungen. Para ele, aqueles que falam “com toda a confiança das raças branca, amarela [vermelha] e negra, baseando suas divisões principalmente na cor”, estão equivocados. Na verdade, para ele, isso não é essencial e sua diferença não tem outra origem senão a maior ou menor e mais ou menos antigo afastamento de uma tribo da zona quente, na qual apenas a raça humana é indígena e, portanto, fora dela só pode existir sob cuidados artificiais, passando o inverno em estufas, como as plantas exóticas, mas degenerando gradualmente, começando pela cor”[17].

1.1.4. Ausartung: Um problema ligado ao uso do tema em Schopenhauer

Um caso específico, no entanto, merece uma análise específica e que nos remete ao que investigaremos a seguir no que se refere à degeneração em Kant, e se trata de uma utilização do termo Ausartung em Schopenhauer. A origem do verbo ausarten remonta ao Médio-Alto Alemão, onde o termo já era usado para descrever um desvio da norma ou da linhagem esperada. No sentido original, no âmbito biológico ou familiar. Originalmente, era usado para descrever quando um indivíduo (ou uma planta, ou um animal) não se assemelhava ou não correspondia mais ao seu Art (seu tipo ou espécie, ou a linhagem familiar esperada). Era um termo de distinção e alteração. Com o tempo, o uso de ausarten passou a carregar uma forte conotação pejorativa, ligada a “deterioração” ou “deterioração moral”. Hoje, ausarten significa: 1. Degenerar/perder o controle: (O sentido mais comum) Ex.: "A discussão degenerou (artete aus) em briga.". 2. Variação Biológica/Degeneração: (Sentido biológico, como usado por Kant) Desviar-se das características da espécie.

É nesse contexto de modificações do uso terminológico que os usos de Schopenhauer e Kant, que detalharemos a seguir, ocorrem.

Em Schopenhauer, há um uso determinado da palavra ausarten que é, por assim dizer, deveras polêmico e que se aproxima do uso kantiano, pelo seu acento biológico.

No Anexo ao §44 dos Ergänzungen, Schopenhauer nos coloca diante de uma situação que aos olhos dele é extraordinariamente complexa. Trata-se da metafísica diante da experiência efetiva da homossexualidade. Em suma, ele se pergunta, como pode algo que lhe parece tão “completamente contrário à natureza”[18], de fato, algo que vai contra a natureza em sua finalidade mais importante e que inspira mais cuidados, “deva surgir da própria natureza”. Tratar-se-ia, para ele, de um paradoxo inaudito [unerhörtes Paradoxon]”[19].

A solução da questão de como a natureza produziria um instinto tão equivocado em relação à sua própria finalidade, a reprodução, é profilática, no sentido de que preveniria um mal maior. De algum modo, a suposta preponderância da homossexualidade nos muito jovens e nos muito velhos, seria explicada pela imaturidade sexual, no caso dos primeiros, e pelos riscos da velhice à reprodução, no caso dos segundos. Parece-nos uma peça de literatura fantástica que, por um lado, realça a naturalidade da experiência homoafetiva em todas as épocas e lugares, e, por outro, a razão pela qual a própria natureza se encarregaria de utilizar o instinto como um ardil, para impedir parte da população de procriar. Também poderíamos pensar, no tocante a isto, que, em outros lugares, embora não faça parte do argumento nesse anexo, Schopenhauer alude à exuberância da natureza que não necessita de todos os indivíduos e por isso, desperdiça-os aos milhares todos os dias. Mas, interessa-nos, sobremaneira, que ele utiliza a seguinte forma de expressão ligada ao nosso tema, para se referir à solução deste aparente enigma:

Minha intenção com esta exposição foi, em primeiro lugar, resolver o problema evidente acima exposto; mas também confirmar minha doutrina, exposta no capítulo anterior, de que, em todo amor sexual, o instinto conduz as rédeas e cria ilusões, porque a natureza antepõe o interesse da espécie a todos os outros, e que isso permanece válido mesmo no caso da repugnante perversão e degeneração do instinto sexual aqui em questão; pois também aqui, como última razão, os objetivos da espécie se revelam, embora, neste caso, sejam apenas de natureza negativa, uma vez que a natureza age de forma profilática. Esta consideração lança, portanto, luz sobre toda a minha metafísica do amor sexual. De modo geral, porém, essa exposição revelou uma verdade até então oculta que, apesar de toda a sua estranheza, lança uma nova luz sobre a essência interior, o espírito e a atividade da natureza. Assim, não se tratou de uma advertência moral contra o vício, mas da compreensão da essência da questão[20].

 

Com essa afirmação ele, por um lado, expõe a naturalidade de todas as tendências humanas do ponto de vista metafísico e do ponto de vista natural, ainda que, no caso em questão neste Anhang), a natureza apenas se previna de males maiores, ou, considerando outras teses do filósofo em outros pontos do mesmo livro, assimile todas as tendências possíveis, na medida em que dispõe de indivíduos em quantidade suficiente para a sua finalidade maior, a procriação, e, nesse sentido, possa desperdiçá-los dessa forma, como em outras, por exemplo, as relações sexuais que não resultam em reprodução (aqui o estratagema é iludir o indivíduo com finalidades egoístas, tais como o prazer, a felicidade e a beleza,  enquanto persiste em sua finalidade maior, a reprodução).

Importa-nos aqui, para pensarmos em contraste a Kant, a seguinte expressão:

 

Em todo amor sexual, o instinto detém as rédeas e cria ilusões, porque a natureza antepõe o interesse da espécie a todos os outros, e que isso permanece válido mesmo no caso da repugnante perversão e degeneração do instinto sexual aqui em questão; pois também aqui, como última razão, os objetivos da espécie se revelam, embora, neste caso, sejam apenas de natureza negativa, uma vez que a natureza age de forma profilática[21].

 

As palavras “repugnante perversão e degeneração” utilizadas no trecho acima trazem algo de uma retórica para agradar os conservadores, talvez, enquanto, por outro lado, naturaliza a questão de modo talvez inaceitável para um mundo no qual, em grande medida, a homossexualidade era criminalizada. Por outro lado, o uso de um vocábulo que, em Kant aparece tão associado a aspectos biológicos chama a atenção e mostra, essencialmente a ambiguidade que nos sugere a eventual explicação para impulsos de natureza homossexual reprimidos no próprio Schopenhauer, tal como Magee sugere em seu texto sobre o assunto. A insinuação de que se trataria de uma inclinação de natureza metafísica, portanto natural, de certo modo ignora que o impulso homoafetivo não se restringe a jovens e idosos e que, muito pelo contrário, tal afirmação denuncia uma arbitrariedade fantasiosa em relação a isso, que apenas busca uma explicação na profilaxia, mas que poderia se justificar muito mais, deixando de lado a análise ingênua, para assim reafirmar a posição de Schopenhauer de que a homossexualidade faz parte da profusão metafísica do fenômeno da vontade como querer-viver. Em parte, o anexo distorce esse aspecto da filosofia de Schopenhauer, introduzindo uma explicação um tanto ingênua.

1.1.5. O conceito de Ausartung no Kant pré-crítico

O conceito de degeneração em Kant está primariamente circunscrito à sua fase pré-crítica, especialmente no escrito Von der verschiedenen Racen der Menschen [Das Diferentes Raças da Humanidade] (1775/1777).

Kant, no que concerne às suas ideias sobre degeneração, parece ter como objetivo criar um sistema coerente de categorias para a natureza. Este filósofo, influenciado pela história natural do século XVIII (Lineu, Buffon), tentou estabelecer uma taxonomia da humanidade dividida em raças. A razão taxonômica opera distinguindo espécies (Art) e raças (Rasse) com base em características empíricas (como a cor da pele, o clima, e a capacidade de gerar prole fértil), usando termos como “Abartungen” (derivações) e “Ausartungen” (degenerações) para fixar essas divisões.

O problema filosófico surge quando essa função da razão descritiva e empírica é modificada e se torna arbitrariamente normativa. A classificação racional de Kant, ao tentar “organizar” a diversidade humana, acabou por legitimar uma forma de hierarquia racial (a razão a serviço do preconceito), o que nos parece que entra em profunda contradição com a razão prática universalista que ele mesmo fundou na Crítica da Razão Prática (que exige que todos os seres humanos sejam tratados como fins em si mesmos, independentemente de classificações empíricas).

Portanto, a “razão taxonômica” é o instrumento intelectual que tenta impor ordem e categorias fixas à complexidade da natureza, mas que em Kant (e em grande parte do Iluminismo) falhou ao traduzir uma observação empírica (diferença de cor) em uma lei moral e hierárquica (diferença de valor). Segundo Fabio Ciracì, em seu livro Sul razzismo (2024),

(...) para quem escreve, é doloroso, mas ainda mais kantianamente necessário, destacar em Kant temas que adotam o processo de racialização em sentido naturalista, sem deixar de projetar preconceitos discriminatórios, estabelecendo assim hierarquias entre homens superiores e inferiores. Também não se pode evitar observar que certas afirmações são incompatíveis com os pressupostos fundamentais e sistemáticos tanto da Crítica da razão prática quanto de Para a paz perpétua. Mas o historiador da filosofia tem a tarefa de não esconder ou justificar, mas sim compreender e avaliar, sem dogmatismos ou posições de princípio. Aqui não se discute a grandeza ou a profundidade filosófica de Kant. Discute-se, em vez disso, a sua posição face ao racismo, precisamente pelo valor que o pensamento kantiano assumiu e assume face às barbáries irracionais e discriminatórias do nosso tempo[22].

 

1.1.6. Terminologia e Conceito

Kant, aderindo ao monogenismo bíblico (Naturgattung), empenha-se em distinguir espécie, tomada por um critério de semelhança, de raça (Rasse/Race), tomada por um critério de descendência que produz derivações. Ele define a Ausartung (variação ou degeneração) como uma derivação (Abartung) hereditária que se afasta do tronco original a ponto de não poder mais ser reconstituída (em contraste com as Nachartungen, que se mantêm conformes à origem).

A Ausartung é o termo-chave para legitimar a fixidez e a hierarquia. A miscigenação, representada pelos Blendlinge (mestiços) ou halbschlägtigeKinder (filhos híbridos), é vista como o sinal mais claro dessa degeneração, comprometendo a “pureza” do tronco[23].

Segundo Ciracì, o uso kantiano da degeneração é profundamente essencialista e determinista[24]. A raça é considerada imutável e é o fundamento de qualquer desenvolvimento humano, incluindo a inteligência. Kant chega a estabelecer uma hierarquia explícita na qual o branco está em posição superior, e, nesse sentido, impõe o valor da pele branca como insígnia da superioridade racial, na medida em que as outras raças são vistas como degenerações desse tipo fundamental.

Ainda de acordo com Ciracì, este essencialismo biológico, fundado no conceito de Ausartung racial, entra em contradição radical com o universalismo moral que Kant viria a fundar na sua fase crítica (Faktum der Vernunft). A razão prática postula um sujeito racional universal, irredutível à lógica da diferença entre as raças, sendo esta a condição essencial para a legislação moral e o direito cosmopolita (como fica claro em Pela Paz Perpétua):

 

Não há dúvida de que a virada crítica de 1781 desempenha um papel revolucionário não apenas para a teoria kantiana do conhecimento, mas também para a abordagem analítica de Kant às questões do mundo, no sentido de uma evolução interna ao seu próprio pensamento, que tem enormes repercussões também na antropologia e na ética: a fundação da moral postulada sobre a liberdade humana, o chamado Faktum der Vernunft, de acordo com a lei apodíctica da razão prática, pressupõe a existência de um sujeito racional universal, portanto irredutível à lógica da diferença entre as raças, porque é condição essencial de uma humanidade composta por homens iguais e de uma legislação universal[25].

 

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Termos alemães utilizados por Schopenhauer e Kant como Ausartung (degeneração), ausartet (degenerado), Verfall (deterioração, decadência, ruína), Fall (queda no sentido comum), Auflösung (dissolução), Vereizelte (declínio), entbehren (renunciar), Entbehren (privação, renúncia) apresentam conotações diversas em suas obras, algumas vezes em contextos problemáticos. No entanto, percebe-se que no mais das vezes, essas utilizações não dizem propriamente respeito aos problemas de uma suposta degeneração de um tipo superior em inferior, da corrupção de uma forma idealizada, ou de algo que ainda não se atingiu, no sentido de um progresso. Em geral, especificamente em Schopenhauer, são representações ardorosas e um tanto melancólicas da própria transitoriedade e de seus esforços fracassáveis, dadas pelo fato de que o próprio filósofo existe em seu corpo transitório, em sua vida social e em seu tempo, carregando com ele as implicações da existência efetiva. O filósofo quase sempre se opõe ao caráter eminentemente eurocêntrico e preconceituoso do uso que se manifesta não apenas em Kant, mas que é uma tendência predominante na antropologia pseudocientífica que tende à justificação do racismo e à opressão cultural desde Buffon e que encontra também muitos exemplos antes e depois do filósofo de Frankfurt, tais como Lombroso, Nordau, e, em sentidos específicos, também os antropólogos Morgan, Tylor e Frazer.

Schopenhauer, por outro lado, apresenta ambiguidade no que concerne à homossexualidade, vista como forma degenerada de sexualidade, mas também como uma forma profilática de proteção da espécie, bem como também uma curiosa forma de liberalidade da Vontade, que não precisa de todos os indivíduos para a consecução de seus objetivos e, ademais, em sua exuberância e profusão extrema ligadas ao querer-viver, admite o desperdício de formas de vida e a destruição de incontáveis possibilidades de existência.

Schopenhauer utiliza os termos Degeneration e Ausarten totalmente alheio ao debate que veio a se dar anos mais tarde e que Norbert Elias resumiu como um conflito entre Kultur e Zivilisation (Cultura e Civilização), ao analisar cuidadosamente a peculiar utilização dos termos entre os alemães[26]. Nesse contexto, Civilização é processual, aprimora uma situação original, vista como suscetível de melhoria continua. Por outro lado, o termo cultura enfatizaria algo de natureza essencial, supostamente bem-acabado, venerável e já próximo do perfeito. Algo que sofre corrupção, decadência, justamente no processo civilizatório, considerado então degradante e indesejado. Civilização é humanista e universalista, cultura é usada no sentido de identidade que exclui, ou seja, o que Freud chamava de narcisismo das pequenas diferenças. Parece-nos que, tendo em vista esta concepção, Schopenhauer é de fato um homem civilizado, no sentido de esclarecido, mas que também se apega à língua alemã e aos seus usos históricos, em um caso específico.

É digno de nota que Schopenhauer foi considerado como um gênio degenerado da filosofia por Lombroso, em sua obra O homem de gênio, na qual exalta  uma concepção de normalidade no contexto da qual as pessoas excepcionais são expressões degeneradas tanto biológica quanto culturalmente. Schopenhauer é o homem de gênio citado diversas vezes por seus supostos estigmas, a hipersensibilidade, particularmente nomeada como hiperestesia, o “excesso de autonomia” denominado Misoneísmo, entre outros qualificativos que estão na rota oposta da exaltação do gênio filosófico e artístico feita pelo Filósofo nos dois tomos de O mundo como Vontade e Representação. Mas, se Schopenhauer, um liberal esclarecido, não viveu para conhecer a obra O homem de gênio, e perceber as implicações diagnósticas de sua presença no mundo em um tempo em que as coisas se encaminhavam lentamente para uma política de extrema direita baseada em pretensos fatos científicos, ainda assim compartilhou, de certa forma, de um clima de certa inquietação com as mudanças sociais decorrentes da ascensão da burguesia na Europa, apenas adotando, como Baudelaire e outros criticados, uma postura em favor das pessoas de exceção. Por um lado, Schopenhauer sofre os efeitos alienantes de sua educação burguesa e alienada a uma classe social economicamente favorecida, por outro, defende ardorosamente a excepcionalidade do gênio e o abandono de todo apego à existência representada na figura do asceta.

De qualquer modo, Schopenhauer, em vez de se alinhar com a noção de degeneração biológica ou de melhoria biológica, aprofunda-se na consideração das forças irracionais e inconscientes da psique humana e nas condições inerentes à existência.

 O filósofo de Frankfurt postula a primazia de uma força irracional e inconsciente – a vontade – como a essência do mundo e de cada indivíduo. Essa Vontade é uma busca insaciável e cega, que leva ao desejo constante e, consequentemente, ao sofrimento, considerado inevitável. Para Schopenhauer, a irracionalidade e a miséria não são sinais de degeneração de um estado ideal, mas sim a condição inerente e fundamental da existência. Não para onde ir e nem para onde voltar.

O pessimismo de Schopenhauer não deriva de uma crença em um declínio da humanidade (degeneração), mas da convicção de que a própria vida, impulsionada pela Vontade, é um ciclo de desejo e dor, com a felicidade sendo apenas a ausência temporária de sofrimento. Ele não vê uma “doença” que pode ser curada biologicamente ou socialmente, mas sim uma condição metafísica.

Comportamentos considerados “anormais” ou “irracionais” (que, por exemplo, Kant, Nordau e Lombroso poderiam classificar como degenerados) seriam, para Schopenhauer, apenas manifestações mais cruas ou mais diretas da Vontade. Ele valoriza a introspecção e a arte como caminhos para um alívio temporário do sofrimento da Vontade, ou a ascese como uma forma de negação da Vontade, o que contrasta fortemente com qualquer ideia de “cura” biológica da degeneração. Em sua filosofia, só a autoconsciência e decepção da vontade consigo mesma podem gerar uma situação que interrompa o quadro metafísico da afirmação da existência.

Em resumo, enquanto o Kant pré-crítico exposto aqui, tal como Nordau e Lombroso, buscava explicações biológicas e hereditárias para o que considerava “degeneração” em indivíduos e na sociedade, no contexto do monogenismo ligado ao criacionismo e repudiava o poligenismo como ateístico, Schopenhauer se afasta desse determinismo aparentemente materialista, mas que, do ponto de vista de sua inspiração, apoia-se intrinsicamente em um desenvolvimento histórico judaico-cristão.

Schopenhauer eleva a “irracionalidade” (não-racionalidade) e o sofrimento à categoria de princípios metafísicos, vendo-os como a própria essência da existência impulsionada pela Vontade. Para ele, a História é de pequena importância frente à recorrência das características fundamentais da Humanidade. Do mesmo modo, a compaixão é um afeto originário e não está ligado ao cristianismo, a não ser na medida em que o próprio cristianismo expressa a verdade que há no reconhecimento metafísico da identidade comum a todos os seres como vontade e, consequentemente, na recusa do mundo como lugar de sofrimento, portanto, na necessidade e no anseio de um outro mundo. Se no cristianismo, esse outro mundo está alhures, para Schopenhauer, ele se manifesta aqui mesmo na Verneinung do desejo, do querer-viver, da vontade, enfim.

REFERÊNCIAS

Cacciola, M. L. Schopenhauer e a questão do dogmatismo. São Paulo: EDUSP, 1994.

Ciracì, F. Sul Razzismo. Strutture logiche e paradigmi storico-filosofici. Milano: Mimesis, 2024.

Elias, N.  O processo civilizatório. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

Grimm, J; Grimm, W. Entartet: verb. In: Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm. Leipzig: S. Hirzel, vol. 3, fascículo 1, 1862. Disponível em: https://www.dwds.de/wb/dwb2/entartet.

Lombroso, C. L’uomo di genio in rapporto alla psichiatria, alla storia ed all’estetica. Roma: Fratelli Bocca, 6ª ed., 1894.

Nordau, M. Entartung. Berlin : C. Duncker, 1896.

Pinel, P. Paris : Traité médico-philosophique sur l'aliénation mentale, ou la manie. Richard, Caille et Ravier, 1801.

Schlegel, F. Sämmtliche Werke. Wien: Jakob Mayer, 1806.

Schlegel, F. Kritische Schriften und Fragmente, 6 Bde. Hersg. von Ernst Behlerund Hans Eichner, Paderbon: Ferdinand Schöningh, 1988.

Schopenhauer, A. (1986). Sämtliche Werke, ed.Wolfgang Frhr. von Löhneysen, Frankfurt, 5 vols, 1986.

Schopenhauer, A. O mundo como vontade e como representação. Tomo I. 2ª ed. Trad. Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2015 (W I).

Schopenhauer, A. O mundo como vontade e representação: Complementos, vol. 1. Tomo II. Curitiba: Editora UFPR, 2014. (W II)

Schopenhauer, A. O mundo como vontade e representação: Complementos, vol. 2. Tomo II. Curitiba: Editora UFPR, 2014. (W II)

Schwartz, J.; Monzani, M. (Orgs.). A Arte degenerada de Lasar Segall: perseguição à arte moderna em tempos de guerra. São Paulo: Museu Lasar Segal/ Museu de Arte Contemporânea USP, 2018.

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA

1 – Eduardo Ribeiro da Fonseca

Psicanalista, e pesquisador em Filosofia, membro e professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

https://orcid.org/0000-0001-9119-4151 • eduardo.fonseca@grupomarista.org.br

Contribuição: Escrita - Primeira Redação

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

Fonseca, E. R. Schopenhauer e Kant: sobre a noção de degeneração. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria - Florianópolis, v. 16, n. 1, e94222, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5902/2179378694222. Acesso em: dia, mês abreviado, ano.

 

 

 



[1] W II, 1, § 15, p. 225.

[2] Pinel deu grande impulso à tese de que uma degeneração seria transmitida hereditariamente em um sentido que culminaria na extinção da espécie humana. Ele se dedicou, em Traité médico-philosophique sur l`aliénation mentale ou la manie (1801), a um tipo especial de degeneração, a alienação mental, caracterizando-a pela presença de ideias delirantes, alucinações, comportamentos violentos e paixões descontroladas. Nesta obra, especialmente na edição de 1809, Pinel, especulou sobre as causas próprias da alienação mental, admitindo que ela possui mais de uma causa, dentre elas as “lésions phisiques” e a “disposition originaire”, ou ainda, como ficaram conhecidas, as “causes prédisposantes” (noção que remonta a Esquirol).

[3] W II, 1, § 20, p. 368.

[4] W II, 2, § 42, p. 211.

[5] W II, § 41, p. 172. A mesma metáfora é usada novamente cinco páginas adiante (p. 176) e em: WII, § 19 e § 54, bem como em outros lugares da obra.

[6] Cacciola, M. L. Schopenhauer e a questão do dogmatismo, p. 80-84.

[7] Do verbo “entarten” (degenerar). No Dicionário dos Irmãos Grimm a palavra tem as seguintes conotações: 1) Processo de degeneração; estado degenerado, regredido. 2) Forma degenerada em contraste com uma forma pura. Grimm Wörterbuch. Band 8, Spalte 1341, Zeile 23.

[8] Schlegel, F. Kritische Schriften und Fragmente, Band 5, p. 187.

[9] Schwartz, J.; Monzani, M. (Orgs.). A Arte degenerada de Lasar Segall: perseguição à arte moderna em tempos de guerra, 2018.

[10]Corruptio” e “ruina” são termos que apontam para o risco e a iminência de uma catástrofe degenerativa, o que, a partir das teorias degenerativas decorrentes do avanço do capitalismo e da urbanização e, especialmente de Lombroso, de Nordau e dos nazistas podemos associar à construção de uma paranoia social, que por sua vez tem como contraponto o mito de uma “idade de ouro” no passado como referência e à “correção da rota” na contemporaneidade no sentido de retomar essas supostas origens culturais e também biológicas, até mesmo com medidas violentas, o que é revisitado hoje pela extrema direita no âmbito mundial.

[11] PII, p. 320.

[12] PII, p. 321.

[13] PII, p. 322. [Tradução do autor]

[14] PII, p. 477. [Tradução do autor]

[15] W 1, § 14, p. 76.

[16] P 2, 171.

[17] P 2, 172.

[18] W 2, 2, p. 281.

[19] W 2, 2, p. 282.

[20] W 2, 2, p. 286. Tradução modificada pelo próprio autor.

[21] W 2, 2, p. 286. Tradução modificada pelo próprio autor.

[22] Ciracì, F. Sul Razzismo, p. 231. Trad. de Eduardo Ribeiro da Fonseca.

[23] Ciracì, F. Sul Razzismo, p. 221.

[24] Ciracì, F. Sul razzismo, p. 221.

[25] Ciracì, Sul Razzismo, p. 228.

[26] Elias, N. O Processo Civilizador, p. 24.