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Universidade Federal de Santa Maria
Voluntas, Santa Maria, v. 16, n. 2, e92731, 2025
Submissão: 03/07/2025 • Aprovação: 28/08/2025 • Publicação: 03/09/2025
2 AFETIVIDADE, AFETO E EMOÇÃO – UMA PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO CONCEITUAL
3 AFETIVIDADE SITUADA: ESTADO DA ARTE
4 AVANÇANDO PARA ALÉM DO MODELO USUÁRIO/RECURSO
5 A MENTE SOCIALMENTE INVADIDA I: AFETIVIDADE DISTRIBUÍDA
6 A MENTE SOCIALMENTE INVADIDA II: O CASO DO AFETO NO AMBIENTE DE TRABALHO
7 PERSPECTIVAS: RUMO A UMA FILOSOFIA POLÍTICA DA MENTE
Tradução
Invasão mental, afetividade situada e o Life Hack corporativo, de Jan Slaby
Mind Invasion, Situated Affectivity and the Corporate Life Hack, by Jan Slaby
I Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG, Brasil
O campo de pesquisa da afetividade situada, uma sub área da filosofia das emoções inaugurada em 2008 com a publicação do capítulo Emotions in the Wild: The Situated Perspective on Emotion de Paul Griffiths e Andrea Scarantino, tem exibido um certo sucesso em explorar e tornar saliente uma perspectiva filosófica mais externista sobre as emoções. A afetividade situada é uma aplicação específica do quadro teórico da cognição situada a fenômenos afetivos, que parte da ideia de que emoções devem ser compreendidas e investigadas não como manifestações psicológicas internas e individuais mas como fenômenos constitutivamente sustentados por interações intersubjetivas em contextos normativos sociomateriais. Nas duas últimas décadas, pesquisas no campo da afetividade situada produziram conceitos importantes no estudo das emoções, como andaimes afetivos (Colombetti & Krueger, 2015), emoções estendidas (Krueger, 2014), artefatos afetivos (Piredda, 2020), arranjos afetivos (Slaby et al., 2019), entre outros. Tais pesquisas mostram que o ambiente não aparece apenas como causa ou estímulo de emoções individuais, mas como elementos que sustentam, ampliam e realizam experiências afetivas.
Mas mesmo que a produtividade e ganho teórico oriundos da afetividade situada sejam inegáveis, isso não quer dizer que esse campo de estudos não tenha seus problemas e pontos cegos, que merecem ser identificados e tratados com atenção. Um deles em especial foi apontado pelo filósofo alemão Jan Slaby no artigo Mind Invasion: Situated Affectivity and the Corporate Life Hack, que aparece nessa edição especial da revista Voluntas traduzido em português pela primeira vez. Esse ponto cego diz respeito à tendência de teóricos da afetividade situada a desconsiderar a dimensão normativa e política dos ambientes afetivos, particularmente no que diz respeito às assimetrias de poder implicadas na sua constituição e funcionamento. Embora a literatura sobre cognição e afetividade situada tenha enfatizado o papel do ambiente na constituição agente afetivo, ela frequentemente o faz a partir de uma perspectiva puramente funcionalista ou descritiva, negligenciando o fato de que tais ambientes são intencionalmente projetados, muitas vezes por agentes institucionais com interesses específicos. Slaby denuncia que, ao não problematizar o controle e a instrumentalização desses ambientes afetivos — como ocorre por exemplo em contexto corporativos, um tema importante explorado no texto —, essa abordagem acaba naturalizando formas de opressão que operam por meio da manipulação afetiva. Em outras palavras, o ponto cego consiste em ignorar que os suportes situados da afetividade podem ser veículos de dominação, moldando a subjetividade de modo a torná-la funcional a regimes de produtividade e conformidade, e não meramente ampliando ou distribuindo capacidades afetivas (como sugerido pela afetividade situada).
Jan Slaby ocupa uma posição privilegiada para observar esse ponto cego. Professor na Freie Universität Berlin, Slaby se notabiliza por uma abordagem que articula a tradição fenomenológica, a literatura pós-foucaultiana de poder e subjetivação, os estudos culturais neo-marxistas e a filosofia da cognição situada. Seu trabalho investiga como os afetos constituem modos de enraizamento do sujeito no mundo social, sendo assim centrais para a formação da subjetividade. Em interlocução constante com autores como Michel Foucault, Lisa Guenther, Melissa Gregg e John Protevi, Slaby propõe uma compreensão dos afetos como eventos distribuídos e politicamente carregados, com ênfase nas maneiras pelas quais estruturas institucionais e tecnológicas participam ativamente da constituição da vida afetiva. Seu projeto filosófico, portanto, excede a descrição analítica da experiência emocional para engajar-se criticamente com os regimes afetivos que moldam o existir contemporâneo, oferecendo ferramentas conceituais para resistir à captura neoliberal das emoções e da vida mental.
A originalidade da análise de Slaby reside em sua articulação entre filosofia da mente, estudos críticos da afetividade e uma leitura crítica da racionalidade neoliberal. Ao invés de conceber o sujeito como um agente soberano que escolhe intencionalmente explorar recursos ambientais para a ampliação e sustentação de sua vida afetiva, o autor denuncia a assimetria de poder implicada na engenharia afetiva corporativa: os indivíduos são frequentemente interpelados e moldados por condições que não dominam, inseridos em ambientes projetados para induzir determinados afetos e comportamentos. Tal configuração implica uma forma de alienação afetiva na qual os próprios estados emocionais dos sujeitos deixam de ser autênticos ou espontâneos, tornando-se resultados previsíveis de um aparato normativo-tecnológico. Assim, o conceito de Mind Invasion oferece não apenas um diagnóstico crítico das formas contemporâneas de governo da subjetividade, mas também um convite à resistência filosófica frente às novas modalidades de colonização da vida afetiva.
Claro, isso não significa que Slaby rejeita totalmente a afetividade situada. Na verdade, o artigo apresentado aqui é um convite para se repensar os pressupostos teóricos e metodológicos desse campo de estudos, para que passemos a enxergar os imbricamentos inevitáveis entre a dimensão política/normativa e a dimensão descritiva/processual da mente, ou, nos termos de Slaby, para que passemos a nos engajar em uma “filosofia política da mente”. O artigo traz uma crítica filosófica incisiva à apropriação corporativa de estruturas afetivas por meio do que Slaby denomina “mind invasion” — uma forma de colonização da mente que opera a partir da manipulação sistemática dos dispositivos situados da afetividade. O “life hack corporativo” mencionado no texto não apenas modula estados emocionais e disposições afetivas em nome da produtividade e da otimização do desempenho, mas também produz uma forma específica de subjetividade — uma subjetividade adaptada aos imperativos neoliberais de flexibilidade, responsividade e autoaperfeiçoamento constante.
Se a afetividade situada é hoje uma das sub áreas da filosofia das emoções em maior crescimento, trazer a leitura de Slaby para esse campo torna-se uma tarefa imprescindível. Caso contrário, continuaremos a perder de vista o fato de que o ambiente externo, que tanto aparece na afetividade situada como elemento constitutivo aos afetos, não é normativamente neutro mas palco de constantes disputas e dinâmicas políticas, e que, portanto, qualquer filosofia das emoções já é, por si só, uma filosofia das emoções política. Esperamos que essa tradução possa ser útil a pesquisadores e pesquisadoras lusófonas que se interessam pelas emoções e pela afetividade, e que possa contribuir para o avanço desse campo de estudos no Brasil e em outros países de língua portuguesa.
Imagine que você comece um emprego como um/a estagiário/a inexperiente em uma grande empresa. Independentemente dos detalhes de suas tarefas, é provável que seus primeiros dias na firma sejam marcados por experiências como as seguintes: você percebe que os funcionários permanentes falam, agem, se movem e se comportam de maneiras que lhe são desconhecidas em vários aspectos. Não apenas suas rotinas de trabalho serão novas para você, mas também seus estilos de interação, seus modos de se portar, suas formas de ressoar afetivamente uns com os outros, os modos de tratamento interpessoal, de conversar com superiores, de usar o humor para iniciar uma conversa ou aliviar um momento de tensão, quando e como demonstrar certos sentimentos abertamente (como entusiasmo ou orgulho após uma conquista) ou suprimir outros (como medo ou insegurança), e assim por diante. Consequentemente, muito mais será exigido de você do que apenas aprender como executar as rotinas regulares de trabalho. Você também precisará se habituar de diversas maneiras informais para se tornar "um deles", onde esse "ser um deles" incluirá crucialmente inúmeras formas de conduta afetiva e um estilo afetivo particular.
Agora imagine que, após um estágio bem-sucedido, você seja contratado/a como funcionário/a permanente e, após alguns meses ou anos no trabalho, seja designado/a para auxiliar um/a novo/a estagiário/a em seus primeiros dias na empresa. Ao ver o/a iniciante andar hesitantemente pelo escritório, inseguro/a até mesmo sobre como falar, como sentar, quando sorrir, a quem (e como) pedir conselhos, ocorre a você o quão profundamente você mesmo/a foi inculcado/a no "estilo de jogo" (uma mistura de fazer e ser, sempre visível) específico da empresa. Você pode se lembrar de como tudo aquilo lhe pareceu estranho em seus primeiros dias, e de como agora tudo lhe parece incrivelmente fácil. Em um momento de reflexão, você talvez comece a perceber o quão profunda e abrangente de fato é a habituação nesse ambiente de trabalho. Repentinamente, você compreende o quanto passa despercebido: como se espera que os colegas demonstrem energia, ânsia e entusiasmo, como todos estão visivelmente dispostos a trabalhar longas horas, como os funcionários internalizaram completamente os objetivos de seus setores (a ponto de parecer que literalmente sofrem ou se alegram de acordo com as oscilações da empresa), como a conversa com aqueles nos escalões superiores deve ser decididamente informal, solta e casual, enquanto se deixa notavelmente pouco espaço para opiniões dissidentes, quão pouca tolerância há para tempo offline, ou como é difícil encontrar ouvidos receptivos para preocupações alheias a questões de relevância imediata para o trabalho, e assim por diante. De fato, esta é uma terra estranha para o/a novato/a, e o que parece natural aqui pode parecer bastante antinatural - contingente, tendencioso, até mesmo francamente hostil - quando visto de fora.
Interrompo aqui esta pequena excursão ficcional ao mundo corporativo. Com ela, quero apontar para uma dessas zonas expandidas da vida contemporânea em que a afetividade humana é profundamente moldada e modulada, de modo que as disposições afetivas e emocionais de um indivíduo se alinhem diretamente com as rotinas de interação prevalentes nesses domínios. O ambiente corporativo é apenas uma área entre outras, um campo de modulação afetiva aprofundada. Algo semelhante ocorre no ensino superior, no mundo dos esportes, em várias subculturas baseadas em redes sociais, em departamentos acadêmicos, para não mencionar aqueles campos clássicos de modulação existencial como as forças armadas, a polícia ou o setor de segurança que está em constante expansão, entre outros. O que caracteriza esses domínios sociais em geral é que eles tanto demandam quanto efetivam uma profunda moldagem da personalidade, incluindo de modo importante a afetividade. Considerações sobre como esses domínios sociais formativos operam, como os indivíduos são habituados por eles, como o comportamento individual, os estilos afetivos e as rotinas processuais desses campos se entrelaçam, estão em grande parte ausentes das discussões recentes sobre afetividade situada na filosofia. Isso é parte da razão para uma certa unilateralidade, para não dizer miopia, da literatura em grande parte útil sobre o tema. No que segue, darei alguns passos no sentido de corrigir essa situação, primeiro revisando trabalhos recentes sobre a afetividade situada, e depois esboçando uma proposta construtiva, voltada para a complexidade de casos como o afeto no ambiente de trabalho contemporâneo de colarinho branco.
A questão central diz respeito a ampliar o escopo do debate para abranger os efeitos de subjetificação dos domínios sociais. Argumentarei que o sujeito individual cuja afetividade é dita situada, corporificada ou mesmo estendida é ela mesma já um "produto" complexo da modulação sustentada por domínios sociais afeto-intensivos. A habituação afetiva continua ao longo da vida adulta, com impactos potencialmente profundos sobre indivíduos que muitas vezes têm pouca escolha a não ser se deixar enquadrar de maneiras variadas. Assim, parte de minha afirmação é que certas formas de afetividade socialmente distribuída - como o estilo emocional e os modos de engajamento afetivo prevalentes em um ambiente de trabalho corporativo, crucialmente apoiados e possibilitados pela tecnologia e outros tipos de arranjos materiais - são anteriores a, e formativas dos, repertórios emocionais individuais e estilos afetivo-corporais, que por sua vez são parte integrante de estruturas mutáveis de subjetividade.
Se mudarmos nossa perspectiva sobre a afetividade situada dessa forma, uma série de casos surge em que pode ser mais preciso falar em "invasão mental" do que em "extensão mental" ver Protevi (2013, cap. 5). Aqui, os indivíduos não buscam voluntariamente ampliar seu repertório mental ao se acoplarem a dispositivos externos para pensar melhor ou sentir mais "extensão mental"; ver Clark (1997); Clark & Chalmers (1998); Menary (2010). Em vez disso, domínios sociais em que modos específicos de interação afetiva são prevalentes e funcionais efetivamente "buscam" indivíduos ingênuos ao domínio para transformá-los em expoentes genuínos dos processos operativos daquele domínio. As mentes desses novatos podem ser "hackeadas", por assim dizer, especialmente quando inclinações ou vulnerabilidades individuais são especificamente direcionadas para que essas pessoas passem a sentir e se comportar de formas perfeitamente alinhadas com rotinas condizentes com o domínio em questão, ou até mesmo ajustem seus hábitos para que a busca pelos objetivos do domínio lhes pareça natural. Se isso ocorre visivelmente contra as orientações prévias desses indivíduos, e se é a longo prazo prejudicial ao seu florescimento pessoal, temos um caso de "invasão mental". Argumentarei que várias manifestações de interação afetiva sustentada por tecnologia no ambiente de trabalho contemporâneo de colarinho branco são casos exemplares de invasão mental.
2 AFETIVIDADE, AFETO E EMOÇÃO – UMA PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO CONCEITUAL
Para preparar a discussão específica sobre afetividade situada, alguns breves comentários sobre a compreensão relevante de afeto, afetividade e emoção serão úteis a partir de agora. Em primeiro lugar, abordo o campo dos fenômenos afetivos com uma orientação inclusiva, considerando que os fenômenos afetivos possuem um escopo amplo que abrange desde tipos categóricos de emoção com conteúdos intencionais específicos (raiva, medo, felicidade ou vergonha), passando pelas dinâmicas afetivas inicialmente inominadas e pré-intencionais da interação social, até humores inespecíficos, sentimentos de fundo ou atmosferas afetivas. Grande parte do meu interesse específico neste artigo diz respeito ao afeto no sentido de dinâmicas transpessoais intensivas que conectam vários interagentes enquanto também os ancoram em seus ambientes. Essa compreensão do afeto, prevalente especialmente no campo dos "estudos afetivos" culturais por exemplo Massumi (2002); Gregg & Seigworth (2010), pode ser diferenciada em três subclasses intimamente conectadas:
1. Episódios ocorrentes de afetar e ser afetado de forma situada (cenas contínuas de intra-ação afetiva)
2. Disposições afetivas individuais no sentido da capacidade estável de uma pessoa de ressoar afetivamente de maneiras específicas ver Muhlhoff (2015); e
3. Padrões sócio-institucionais de afetividade inerente a um domínio, por exemplo, o "clima afetivo" particular ou modo(s) padrão(ões) de relacionalidade afetiva que caracterizam um ambiente de trabalho corporativo, em parte em virtude de seu design específico, layout instrumental e procedimentos operacionais regulares ver, por exemplo Gregg (2011)
Parte do ponto que quero fazer com as considerações a seguir é que essas três dimensões estão densamente interrelacionadas, notavelmente na direção de fora para dentro: ou seja, um "arranjo afetivo" particular prevalente em um domínio social (tipo 3 acima) evoca regularmente tanto cenas ocorrentes de relacionamento afetivo (tipo 1) quanto, ao longo do tempo, habitua as capacidades ou disposições estáveis dos indivíduos para afetar e ser afetado de maneiras específicas (tipo 2). Embora não esteja no primeiro plano neste artigo, uma história semelhante poderia ser contada para tipos categóricos de emoção e repertórios emocionais individuais, exceto que mais ênfase deveria ser colocada nos conteúdos intencionais ou padrões de conteúdo dos tipos de emoção em consideração ver Ahmed (2004); Wetherell (2012).
Como ficará claro a partir dos vários exemplos discutidos abaixo, afeto e emoção nunca são meramente questões de "estados mentais internos", nem apenas formas restritas de ser afetado, mas geralmente abrangem sequências de engajamento ativo com o mundo, geralmente de maneiras altamente sociais e relacionais ver Slaby & Wuschner (2014). Isso por si só os torna alvos adequados de avaliações normativas, pois pode-se perguntar se uma determinada sequência de engajamento afetivo se alinha adequadamente com a gama particular de atividades, interações ou expressões permitidas (ou de outra forma sancionadas) no domínio social relevante. Mais do que isso, geralmente é possível perguntar se a sequência afetiva em questão contribui para a realização do “propósito” do domínio no qual (ou como parte do qual) ela se desenrola, ou seja, se o episódio afetivo é suficientemente significativo em relação ao que está, em última instância, em jogo e em questão nesse domínio (tendo em mente que essas questões e interesses específicos do domínio estão eles próprios abertos à contestação normativa, ao refinamento contínuo, à eventual revisão e até mesmo ao abandono; ver Rouse (2015, cap. 10).
Como indicam essas breves clarificações terminológicas e conceituais, afetividade e emoção apresentam um campo complexo de fenômenos que é notoriamente disputado. Assim, nunca se pode esperar uma palavra final sobre como melhor sistematizar esse campo. Consequentemente, é aconselhável que pesquisadores e pesquisadoras se concentrem seletivamente em aspectos significativos de maneiras precisas e elaborem um mapa conceitual que seja ao mesmo tempo suficientemente alinhado com insights e desenvolvimentos-chave no campo mais amplo da pesquisa sobre os afetos, e específico o bastante para destacar aquelas características do fenômeno-alvo que são mais relevantes para abordar o interesse de pesquisa particular. No presente caso, isso significa (entre outras coisas) que formas de afetividade social-relacional dinâmicas, e não episódios emocionais individuais, devem estar no centro das atenções.[1]
3 AFETIVIDADE SITUADA: ESTADO DA ARTE
As discussões
filosóficas recentes sobre afetividade situada contêm insights importantes,
pois levaram a uma mudança fundamental de perspectiva na filosofia das emoções.
Afetos e emoções não são mais vistos meramente como processos limitados ao
organismo, mas sim como decisivamente sustentados e, discutivelmente, às vezes
até parcialmente constituídos por estruturas ou processos no ambiente do
agente Griffiths & Scarantino (2009); Thompson & Stapleton (2009);
Slaby
(2014); Krueger (2014ª); Colombetti & Krueger (2015). Essa ideia levou a
vários desenvolvimentos frutíferos e inspirou muito intercâmbio
interdisciplinar. Algumas publicações recentes começaram a esclarecer ainda
mais o panorama conceitual nessa área - por exemplo, tornando mais precisos os
significados de termos como a suposta corporificação, situacionalidade e
extensão (embodiment, embeddendess e extension) de uma emoção Wilutzky
et al. (2011); Stephan et al. (2014). Esses esclarecimentos podem ter contido
um pouco a empolgação dos mais entusiastas, pois estabeleceram padrões bem
altos para as tentativas de estabelecer casos de genuína extensão mental
afetiva. Mas eles não interromperam o fluxo de trabalhos sobre a
situacionalidade do afeto em termos mais amplos. Várias publicações recentes
analisaram em detalhes uma ampla gama de cenários, avaliando até que ponto
estes merecem ser chamados de casos de "andaimes afetivos" (affective
scaffoldings) ou mesmo de "emoções estendidas" (ver, por exemplo,
Krueger (2014a,b); Candiotto (2015); Colombetti & Krueger (2015); Carter et
al. (2016); e também várias contribuições para esta edição especial da
Frontiers[2].
Na presente seção, revisarei algumas posições-chave dessa literatura. Restringirei minha discussão a abordagens que ficam aquém da tese forte da "emoção estendida". Embora eu ache que a perspectiva das emoções estendidas ainda mereça uma chance justa (contra alguns de seus críticos recentes), uma proposta menos radical basta para meus propósitos atuais.
3.1 As “Emoções na Natureza” de Griffiths e Scarantino
O recente aumento da literatura sobre afetividade situada foi iniciado por um artigo programático intitulado "Emoções na natureza" (Emotions in the Wild) de Griffiths e Scarantino (2009). Nele, os autores propõem uma abordagem naturalista, inspirada na psicologia social e na biologia evolutiva, das emoções como movimentos estratégicos dentro de relações sociais que estão profundamente inseridas em estruturas ambientais, tanto sincrônica quanto diacronicamente. Além de inserir o tópico da afetividade situada na pauta e desenvolver argumentos convincentes a seu favor, Griffiths e Scarantino merecem crédito por não enquadrar a discussão nos termos do debate sobre a mente estendida (por exemplo, nos termos estabelecidos por Clark & Chalmers (1998); ver também Clark (2008; 2009). Ao permanecerem neutros sobre a questão de o ambiente poder literalmente "estender" - no sentido de "tornar-se parte constitutiva de" - a mente individual, eles contornam muitas das dificuldades que atrapalham esse debate. Em vez disso, eles enfatizam a noção menos ontologicamente comprometedora de andaime ambiental (environmental scaffolding). Um andaime externo - um conceito introduzido por Clark (1997) com um aceno para Vygotsky (1986 [1962]) - é qualquer item ou estrutura no ambiente que fornece suporte confiável para processos cognitivos, de modo que rotinas cognitivas explorarão regularmente essas estruturas para melhorar sua funcionalidade e eficácia. Exemplos primários são a linguagem pública e outros sistemas de símbolos e notações, mas também outros artefatos como computadores, calculadoras ou infraestruturas de comunicação, e igualmente os dispositivos e truques das várias "artes da memória" ou práticas materiais da mente, remontando à antiguidade ver também Donald (1991); Sutton (2010). Expandir essa noção de andaime para abranger a afetividade parece uma mudança natural a ser feita Colombetti & Krueger (2015).
O que é ainda mais útil é a compreensão de Griffiths e Scarantino das emoções como engajamentos ativos temporalmente expandidos com - em vez de meras experiências passivas instantâneas de - o mundo, especialmente o mundo social. Essa linha de pensamento está ganhando renovada popularidade nos últimos anos, muito depois de ter sido proposta por fenomenólogos como Sartre ou Merleau-Ponty. Isso destaca a maneira pela qual a afetividade pode ser uma questão de atos repetidos de estruturação ativa do ambiente por um agente ou grupo de agentes, com o objetivo de alcançar metas relacionais e efetuar mudanças no mundo que sejam condutoras ao curso favorito de ação e experiência dos agentes.
Em consonância com essa compreensão da afetividade como engajamento ativo, Griffiths e Scarantino retomam insights importantes de trabalhos recentes da sociologia e psicologia social das emoções especialmente de Parkinson et al. (2005), nos quais o entrelaçamento de comportamentos afetivos individuais com práticas sociais, processos grupais ou até mesmo a cultura em geral é um tema proeminente. O resultado que a abordagem de Griffiths e Scarantino compartilha com essas vertentes de trabalho é que as emoções individuais são estratégias complexas de configuração de relacionamentos dentro da vida comunitária, inseridas em estruturas de suporte ambiental substantivas. Os supostos andaimes afetivos são coisas tão diversas quanto itens da cultura material, práticas e rituais arraigados de interação comunitária, ou até mesmo partes da configuração institucional de uma sociedade - como direitos de propriedade, leis etc. Além disso, a distinção de Griffiths e Scarantino entre uma dimensão diacrônica e sincrônica dessas estruturas de inserção fornece uma diretiva metodológica valiosa para trabalhos futuros: essas duas dimensões constituem linhas separadas de análise em um suposto caso de afeto situado, informando tanto sobre a modelagem ambiental direta e contínua ("on-line") dos processos afetivos quanto sobre o desenvolvimento histórico de longo prazo das estruturas de suporte em questão.
3.2 Andaimes Afetivos e Teoria da Construção de Nicho
Colombetti e Krueger (2015) expandiram a base fornecida por Griffiths e Scarantino com uma proposta própria sobre andaimes afetivos, inspirada no filósofo da biologia Kim Sterelny (2010; 2012). Eles seguem Sterelny ao transpor trabalhos na teoria evolutiva da construção de nicho Odling-Smee et al. (2003); Odling-Smee & Laland (2009) para a vida social humana, adicionando afetividade à mistura para enriquecer a imagem da “mente socialmente sustentada”[3]. A construção de nicho equivale a uma abordagem teoricamente mais desenvolvida do andaime ambiental, pois a noção biológica de nicho ecológico permite uma compreensão sistemática das maneiras pelas quais organismos e ambientes passam a estar estruturalmente entrelaçados de maneiras cada vez mais intrincadas ao longo do tempo evolutivo. O avanço crucial da teoria da construção de nicho sobre paradigmas anteriores do adaptacionismo é a ideia de interação recursiva de desenvolvimento entre organismos e seu ambiente. Em vez de uma história linear de uma adaptação passo a passo de uma espécie a seu ambiente considerada mais ou menos estável, as abordagens de construção de nicho sustentam que os organismos modificam seus habitats de várias maneiras enquanto seus próprios projetos funcionais continuam a ser moldados pelo layout de seus respectivos nichos. O resultado é um processo complexo de co-construção de organismos e ambientes. Um caso exemplar é, mais uma vez, a linguagem, originalmente uma técnica cultural à qual os sistemas nervosos humanos contemporâneos estão complexamente adaptados, de modo que não faz sentido perguntar se a linguagem foi em última instância "cultural" ou "biológica" Deacon (1997). Se a abordagem da construção de nicho estiver no caminho certo, esse insight se generaliza para muitas outras capacidades humanas.
Colombetti e Krueger aplicam a abordagem de Sterelny à afetividade. Consequentemente, discutem vários casos de nichos afetivos. O que Colombetti e Krueger discutem sob o rótulo de "nicho afetivo" são, principalmente, subdomínios da vida social humana; domínios como música popular, cinema, religião ou áreas da cultura de consumo. Por exemplo, a música e os vários arranjos sociotecnológicos que possibilitam, enquadram e aprimoram a experiência de escuta são um caso evidente: um subdomínio da vida social que é eficaz em gerar experiências afetivas recorrentes. Mas até mesmo um caso tão mundano quanto a seleção de roupas a depender do humor - como vestir uma roupa de cores vivas para combater a monotonia de um dia chuvoso - compreende um nicho afetivo na proposta liberal desses autores Colombetti & Krueger (2015, p. 1163). Um caso ainda mais surpreendente é o de uma bolsa e seus conteúdos personalizados, presumivelmente indutores de afeto:
Uma bolsa - incluindo seu conteúdo - funciona como uma coleção altamente portátil e autodefinida de tecnologias escolhidas especificamente para regular o afeto: amuletos e talismãs para boa sorte e paz de espírito, que influenciam a avaliação e a capacidade de lidar com situações específicas; fotos, lembranças variadas (como ingressos antigos de teatro e recibos de restaurante), fragmentos de notas e cartas de entes queridos que trazem memórias afetuosas de indivíduos e evocam sentimentos específicos; e armas ou ferramentas pequenas que afetam a consciência das possibilidades de ação, gerando consequentemente sentimentos de confiança, poder e segurança. Colombetti e Krueger (2015, 1163).
Essa descrição da bolsa como um nicho afetivo portátil e personalizado ajuda a mostrar a onipresença de tais formas de andaimes afetivos em geral, tanto nos espaços privados do lar quanto nos espaços projetados da vida civilizada (cinemas, shoppings, arenas de eventos esportivos e de entretenimento, ambientes de trabalho modernos, etc.). Ela também acentua a relevância da cultura material para o andaime afetivo, um tema até agora subestimado na filosofia da emoção.
Tal gama ampla de exemplos pode suscitar dúvidas: se qualquer objeto indutor de afeto for uma instância de andaime afetivo, a proposta seria vazia. Confiança, integração e individualização são os critérios discutidos por Colombetti e Krueger que distinguem os indutores de afeto ocasionais daqueles sustentados e regulares que merecem ser chamados de "andaimes afetivos". Assim, o jogar habitual, com seu “fluxo" afetivo e o envolvimento prazeroso que ele possibilita de forma confiável é um caso de andaime afetivo, da mesma forma que eventos de entretenimento e vários itens de design de interiores em arranjos propositais o são. Por outro lado, acordar de bom humor porque o sol da manhã por acaso ilumina meu quarto não o é, nem o sorriso ocasional de um companheiro de viagem no metrô que pode me animar por alguns momentos. A bolsa indutora de afeto se qualifica, entre outras razões, porque esquecer de levá-la pode levar à "sensação de que algo está faltando, que não estou completo (...) é como se eu estivesse amputado" Kauffman (2011, p. 157) citado em Colombetti & Krueger (2015, p. 1165).
Mais relevantes para os propósitos atuais são os casos de andaimes afetivos interpessoais. Sobre eles, Colombetti e Krueger discutem vários exemplos em que a companhia regular de outras pessoas - como entes queridos ou amigos - traz sentimentos positivos de formas confiáveis que podem se tornar profundamente arraigadas e que se desenrolam de maneiras personalizadas, como em certos estilos interacionais ou formas repetidas de troca humorística. Isso traz à tona uma ampla gama de cenários, desde os sentimentos levemente reconfortantes de familiaridade que temos na presença de colegas de trabalho ou conhecidos casuais até as emoções intensas e os profundos sentimentos de fundo que experimentamos na presença de nossos companheiros mais queridos.
Colombetti e Krueger fornecem uma visão geral ampla, começando pelas interações afetivas iniciais entre bebê e cuidador/a até o design material socialmente orquestrado de espaços públicos, como igrejas, por exemplo. Locais de culto - para usar o exemplo dos autores - não apenas induzem de forma confiável sentimentos como admiração, solenidade ou alegria, mas fazem isso de formas que estão sujeitas a modificações deliberadas que respondem a gostos ou necessidades cambiantes ver Colombetti e Krueger (2015, 1172).
Um ingrediente central na abordagem dos autores sobre andaimes afetivos e construção de nicho é a capacidade dos indivíduos de desenvolver, exibir e ajustar certos "estilos corporais-afetivos". Com esse conceito, adotado de forma modificada a partir de Husserl e Merleau-Ponty, Colombetti e Krueger começam a teorizar sobre a "interface" ou o entrelaçamento complexo entre o comportamento individual e os vários nichos afetivos que compõem o mundo social:
Importante para nossos propósitos é o fato de que o estilo de uma dada pessoa não é fixo; em vez disso, exibimos estilos diferentes em nichos diferentes. Por exemplo, pense em como seu estilo se transforma ao lecionar em uma sala de aula cheia de alunos de graduação, comparado às interações com seu/sua parceiro/a ou filhos/as, a forma como se apresenta a colegas de trabalho pela primeira vez, ou quando sai à noite com um grupo de velhos amigos. Certos estilos só parecem se manifestar - (...) - quando sustentados pela presença de grupos sociais específicos. Colombetti & Krueger (2015, p. 1169).
Essa noção de estilo corporal-afetivo, com sua oscilação entre a estabilidade relativa do hábito e a versatilidade relativa exigida por múltiplos pertencimentos a esferas sociais, aborda um importante desiderato teórico. Parte do argumento é que esses estilos afetivo-corporais não estão ancorados exclusivamente no comportamento e na expressão individuais, mas podem ser compartilhados pelos membros de um grupo— como uma família, um time esportivo ou uma equipe de trabalho —, e que algo semelhante pode ocorrer em lugares comunitários ou domínios sociais na forma de um padrão recorrente de interação afetiva que se condensa em uma atmosfera ou clima emocional. O que vem à tona aqui é uma certa "porosidade" situacional do sujeito corporificado à medida que ele circula entre diferentes esferas de pertencimento afetivo ver Blackman (2012). Devido ao seu papel como "zona de trânsito" dinâmica entre indivíduo, grupo social e nicho material, a noção de estilo corporal-afetivo é especificamente relevante para minha própria proposta desenvolvida nas seções “A Mente Socialmente Invadida I: Afetividade Distribuída” e “A Mente Socialmente Invadida II: O Caso do Afeto no Ambiente de Trabalho”.
4 AVANÇANDO PARA ALÉM DO MODELO USUÁRIO/RECURSO
Antes de esboçar minha própria proposta sobre a afetividade situada, abordarei agora uma problemática que considero relativamente difundida na literatura sobre situacionalidade, pelo menos como uma tendência saliente na superfície visível desses debates. Parte do trabalho sobre a mente situada e sobre a afetividade situada é tomada por uma inclinação característica: o que chamo de predominância do "modelo usuário/recurso". A mentalidade básica em muitos dos casos em discussão é a de um agente cognitivo individual plenamente consciente ("usuário") que se propõe a realizar uma tarefa bem definida por meio do emprego intencional de um equipamento ou da exploração de uma estrutura ambiental ("recurso"). Esse esquema frequentemente recorrente - particularmente prevalente na teoria da mente estendida ao estilo de Andy Clark - pode ser parte da razão pela qual os proponentes de abordagens situadas deixaram de reconhecer amplamente as questões políticas potencialmente problemáticas que a perspectiva da situacionalidade pode revelar.
Para entender melhor o que quero dizer com o domínio do modelo usuário/recurso, basta olharmos para as muitas formulações sofisticadas que Andy Clark usa para explicar sua posição sobre a mente estendida. O famoso paciente Otto com Alzheimer e seu caderno de anotações Clark & Chamers (1998); os seres humanos como "chimpanzés com Filofaxes[4]" Clark (2002, p. 37), anedotas com iPhones ou diversos tipos de cenários em que indivíduos navegam pelas exigências de uma vida urbana e profissional acelerada com um conjunto de “apoios e recursos” cognitivos, como laptops, telefones celulares ou dispositivos de monitoramento ver, por exemplo, Clark (1997; 2008). Obviamente, Clark também discute a inserção de agentes cognitivos no ambiente mais amplo como uma estrutura de suporte duradoura para suas operações mentais; ainda assim, os principais casos são aqueles em que o emprego intencional de uma ferramenta isolada por um agente individual está no centro das atenções.[5]
Embora seu design teórico seja diferente do de Clark e presumivelmente mais condutivo a uma leitura estrutural, Colombetti e Krueger também às vezes gravitam em direção a cenários individuais de "ferramentas para sentir" em seus exemplos. Mesmo quando falam sobre como as igrejas mudaram seus designs de interiores, decorações e padrões de ritual como um exemplo aparente de andaime social, eles invocam as demandas de uma nova geração de fiéis como impulsionadoras dessas transformações - ou seja, demandas de usuários ditando como a religião é feita no século XXI. O famoso caso da bolsa, as formas de usar a música para se sentir melhor durante tarefas tediosas como exercícios, ou a prática afetiva de envolver interlocutores e amigos pelo uso bem dosado de humor, todos se encaixam no modelo do usuário/recurso. Da mesma forma, a abordagem de configuração de relacionamento favorecida por Griffiths e Scarantino tem mais do que um toque de retórica de usuário/recurso, embora os autores certamente vejam o potencial para uma aplicação mais ampla e estrutural. Mas mesmo onde o milieu mais amplo é explicitamente reconhecido como um andaime estrutural, ainda parece haver uma urgência em destacar intenções e comportamentos individuais, pelo menos em muitos dos exemplos em discussão.
Historiadores da ciência e da tecnologia que começam a olhar para os anos 1980 vincularam esse padrão de pensamento - e o surgimento do tipo social "usuário" em geral - aos relacionamentos frequentemente estreitos entre CEOs do Vale do Silício, engenheiros e profissionais de marketing e proeminentes cientistas cognitivos e filósofos da mente por exemplo, Turner (2006); Streeter (2011). O modelo individualista do "usuário/recurso" parece ser o modo natural de pensar sobre a subjetividade humana, no estilo libertário amigável pós-1980 da Califórnia. Não irei tão longe a ponto de acusar Clark e outros de uma campanha publicitária explícita em prol de computadores pessoais e estilos de vida em redes sociais - embora os esforços coordenados de veículos como Edge.org e círculos de especialistas associados possam nos levar à reflexão ver Stadler (2014). O que quero destacar é uma certa unilateralidade, um possível ponto cego no trabalho recente sobre a situacionalidade, nos quais o indivíduo com seus interesses, inclinações, intenções e estratégias é tomado como um ponto de partida dado que é então colocado em uma conjunção deliberada com um dispositivo técnico ou uma estrutura ambiental, de modo que o resultado seja um sistema acoplado eficaz de “usuário mais ferramenta”. Os habitantes modernos de cidades e escritórios podem gostar de pensar em si mesmos, nessa concepção presumivelmente emancipada, como agentes soberanos em pleno controle de suas atividades. Mas além de uma perigosa tendência a naturalizar o consumidor como um modelo para a pessoalidade, essa maneira de pensar corre o risco de perder de vista uma grande variedade de efeitos estruturais inadvertidos que acontecem fora ou às margens de nosso campo de visão individual. O termo “invasão mental” visa capturar algumas das maneiras pelas quais não se trata exatamente de uma decisão individual minha empregar uma ferramenta mental na busca de objetivos que eu mesmo declarei, mas sim de formas de enquadramento e moldagem pervasivos, efetuadas por aspectos da infraestrutura técnica e das realidades institucionais. Protevi (2013); ver também Verbeek (2011).
Nesses casos, a "intencionalidade afetiva" relevante em jogo em um determinado cenário não é a intencionalidade dos indivíduos envolvidos, mas sim aquela que é estruturalmente implementada de maneira distribuída no domínio social em questão. As dinâmicas afetivas gerais prevalentes nesses casos têm um propósito, podem estar orientadas para objetivos operacionais específicos do domínio e provavelmente exibem uma responsividade sistemática aos eventos relevantes do domínio. Isso não é apenas um resultado linear e ascendente das orientações afetivas ou emocionais dos indivíduos implicados nas atividades do domínio em questão (ver abaixo para uma elaboração mais completa desse ponto).
A miopia do modelo usuário/recurso é às vezes complementada por uma segunda tendência problemática. Como muito dos trabalhos nas vertentes naturalistas da filosofia da mente e da filosofia da ciência cognitiva, os autores que escrevem sobre a situacionalidade da mente muitas vezes parecem relutantes em distinguir suficientemente entre uma compreensão orientada para processos e uma compreensão normativa de seu objeto de investigação Cash (2010); Rouse (2015). Como foi apontado inúmeras vezes pelo menos desde os ataques de Frege ao psicologismo, o discurso sobre a mente é sistematicamente ambíguo entre o entendimento de um "processo operativo" e de um "status normativo" (esses termos são utilmente levantados por Rouse (2015, cap. 1). É claro que uma abordagem da mente humana que se preze deve ser capaz de abordar ambas essas dimensões sem confundi-las arbitrariamente (que isso não aconteça com muita frequência é uma história diferente; ver Brandom (2009). O desinteresse pela normatividade — ou a presunção ingênua de que a teoria computacional da mente de alguma forma resolveu a questão Fodor (2000) — não tem sido favorável às perspectivas de reconhecimento da estruturação social profunda da mente, sua dependência constitutiva em relação a padrões socionormativos complexos (seja na prática discursiva ou em estruturas institucionais como o direito; ver também Haugeland (1998; 2002) sendo o último texto uma crítica direta à suposta cegueira normativa de Clark.
Esses dois pontos cegos estão relacionados. Se houver uma inclinação para entender a mente apenas em termos de processos operacionais, pode parecer natural pensá-la em termos de capacidades mentais inatas de um indivíduo que são materialmente ampliadas, sustentadas ou estendidas por algum recurso ambiental. Assim, acaba-se facilmente com algo que se assemelha ao modelo usuário/recurso. Em contraste, em uma visão da mente humana que leva suficientemente em conta sua dimensão normativa, em que os estados mentais individuais são mais como movimentos públicos em um jogo regido por regras - ou como os compromissos e direitos acumulados para os jogadores de um jogo em virtude de seus movimentos ver Brandom (1994) - será mais natural assumir que padrões socionormativos complexos permitem e restringem estados mentais individuais, muitas vezes de formas que não são explicitamente refletidas - transcendendo assim o escopo do modelo usuário/recurso. A “extensão mental" poderia então potencialmente se expandir para cobrir normas comunitárias e instituições sociais, por exemplo, tal como discutido pelo trabalho sobre a "mente socialmente estendida" Gallacher & Crisafi (2009); Cash (2010).
Esta última abordagem provavelmente trará à tona importantes questões adicionais: quais das muitas demandas estruturantes impostas pelos domínios sociais são tais que merecem o endosse reflexivo dos participantes? E quais são aquelas que enxergamos como uma violação de nossa liberdade, como obstáculos sutis (ou não tão sutis) ao nosso florescimento individual ou coletivo, de modo que necessitam urgentemente de reforma ou até mesmo de abolição? Uma questão correlata seria: os indivíduos afetados têm, individual ou coletivamente, em um determinado caso de situacionalidade mental, influência suficiente para determinar o rumo futuro que as infraestruturas técnicas e institucionais irão tomar? Com essa orientação expandida, acabamos no domínio do político - o debate sobre situacionalidade se transforma no que chamo de uma "filosofia política da mente" (novamente, com muita ressonância com o importante trabalho de John Protevi; ver Protevi (2009; 2013) ver também Massumi (2015). A questão da constituição das capacidades mentais individuais é aqui inseparável da questão de uma organização normativamente adequada da realidade sócio-política em geral - onde "normativamente adequada" significa aqui, no mínimo: digna de endosso reflexivo por parte dos interessados. Nesse sentido, a mente humana é uma questão política tanto quanto qualquer outra coisa ver também Rorty (1988). Por essas razões, aplaudo a virada hegeliana moderada que alguns autores na filosofia da ciência cognitiva recentemente promoveram Gallagher & Crisafi (2009); Gallacher (2013); Merrit et al. (2013).
Em um nível um pouco mais profundo, essa perspectiva traz à vista uma problemática que é capaz de tornar a situação ainda mais difícil, a saber, que pode não haver "usuários" plenamente constituídos - ou seja, indivíduos autônomos – pré dados, pelo menos em muitos casos concretos de situacionalidade afetiva. Em vez disso, o recurso ambiental em questão — incluindo as práticas comunitárias normativas das quais faz parte — desempenhará ele mesmo um papel na constituição e capacitação do agente, bem como em sua transformação de diversas maneiras. Essa constituição do sujeito material-discursivo ou "subjetificação" não está restrita às fases iniciais do desenvolvimento, mas é uma questão de enquadramento efetivo e remodelação da subjetividade e da identidade pessoal ao longo da vida adulta. Basta pensar nos profundos impactos que as tecnologias de comunicação e as redes sociais tiveram em nossas vidas, afetando de forma duradoura nossa capacidade atencional, estruturas de recompensa afetiva e hábitos relacionais das mais diversas formas. De maneira ainda mais abrangente, pense nas práticas de generificação que permeiam todo o curso da vida, afetando todas as áreas da conduta e da existência humanas Young (2005). Portanto, esta é outra tendência problemática inerente às abordagens do “usuário/recurso”: a tendência a pressupor - e não assumir como amplamente problemático - sujeitos humanos plenamente constituídos que então passam a empregar este ou aquele recurso ambiental. Excluindo as versões mais sofisticadas da teoria da construção de nicho, relativamente pouca atenção tem sido dada às maneiras pelas quais a subjetividade individual é continuamente moldada por estruturas ambientais, práticas, maquinaria, normas e instituições. Esta é a questão da subjetificação afetiva. Ela também destaca a necessidade de uma consideração mais explicitamente política de nichos sociais, práticas cotidianas e tecnologias diversas de estilo de vida. E isso coloca a presente abordagem em correspondência com trabalhos anteriores sobre subjetificação e a "vida psíquica do poder" Butler (1997); ver também Focault (1995 [1975]); Guattari (1995); Hacking (2002); Haslanger (2012); entre outros.
5 A MENTE SOCIALMENTE INVADIDA I: AFETIVIDADE DISTRIBUÍDA[6]
Uma boa maneira de começar a pensar em instâncias de afetividade que estão além do modelo do “usuário/recurso” e que podem se qualificar como casos de "invasão mental" é seguir uma sugestão oriunda do debate sobre cognição distribuída por exemplo Hutchins (1995); Tribble (2005); Tollefsen (2006); Sutton (2010). Isso tem a vantagem de não restringir o domínio ontológico que supostamente realiza um determinado estado afetivo a um portador individual. Quando Hutchins discute as capacidades de navegação de um navio como sendo realizadas por meio dos diversos atos contributivos, porém distintos, dos membros da tripulação, ou quando Tribble invoca o elaborado desenho de palco e os equipamentos materiais de uma companhia teatral da era moderna para explicar sua capacidade de manter um repertório ativo impressionantemente vasto de peças, torna-se evidente que o estado ou capacidade em questão é algo que só pode ser realizado por um coletivo de indivíduos que lidam de maneira hábil e coordenada com os tipos apropriados de artefatos:
Assim como na cognição de navegação especializada descrita por Hutchins, a arquitetura física do Teatro Globe, os artefatos, a estrutura social e as características das peças se combinam para sustentar o sucesso coletivo da performance da companhia Sutton (2010, p. 202).
Em uma reviravolta útil na parte final de sua exploração das diferentes formas que a perspectiva da afetividade situada pode assumir, Stephan et al. (2014) aplicam os insights da estrutura da cognição distribuída à afetividade. Eles começam dando um exemplo surpreendentemente radical, invocado primeiro por Max Scheler, de uma mãe e um pai no túmulo de seu filho que, "como um coletivo, compartilham (não metaforicamente) a mesma dor (Leid)" Stephan et al. (2014, p. 76). Isso soa bastante próximo a um caso de emoção genuinamente estendida, algo temido por esses autores. Mas não nos detenhamos em minúcias exegéticas. Outros exemplos discutidos no mesmo artigo são menos controversos e mais alinhados com o que estou propondo aqui. Por exemplo, Stephan et al. falam de atmosferas afetivas ou da modelagem mútua contínua da afetividade durante o curso de uma interação social, como em uma discussão conjugal. Aqui está o que eles consideram como o resultado sistemático desta investigação:
Casos como esses, em que sistemas supra-individuais não são (...) compostos por um indivíduo acoplado a algum artefato técnico ou não técnico ou recurso natural, mas por grupos de indivíduos interagentes, são os melhores candidatos para fenômenos afetivos que cruzam os limites de um indivíduo. (...); a motivação para não restringir fenômenos afetivos desse tipo a indivíduos (ou seus cérebros) é que eles são essencialmente algo coletivo e emergente. Primeiro, assim como um navio não é navegado por um navegador que usa seus companheiros de navio como recursos extracorporais, mas pela tripulação como um todo, (...), a atmosfera opressiva que emerge quando uma entrevista de emprego não vai bem e se torna constrangedora, a euforia contagiosa ou o pânico de uma multidão não têm um único indivíduo como portador, mas estão distribuídos sobre coletivos supraindividuais de indivíduos interagentes (...) [E]les são emergentes no sentido de que os estados e ações afetivas de cada membro individual influenciam-se continuamente e reciprocamente e são eles próprios moldados e amplificados de cima para baixo pela dinâmica geral do grupo como um todo Stephan et al. (2014, 77).
O modelo de fora para dentro da afetividade situada que proponho aqui pode tomar essas observações como ponto de partida e então focar especialmente nas maneiras pelas quais a afetividade individual é recursivamente implicada nas operações de padrões distribuídos de afeto - aquilo que Stephan et al. indicam ao falar de modelagem e amplificação de cima para baixo de estados afetivos individuais pela dinâmica afetiva geral do grupo. A euforia coletiva, o espírito de equipe e o clima motivacional energizado que podem ser prevalentes em um ambiente de trabalho são um bom exemplo. Se, por um lado, esse clima afetivo geral é realizado por meio dos múltiplos afetos, expressões, interações e performances contributivas dos funcionários individuais — sustentados por características estruturantes do ambiente de trabalho, como a arquitetura ou os equipamentos dispostos intencionalmente —, por outro lado, ele exerce, ao mesmo tempo, influências formativas profundas sobre as experiências afetivas e os engajamentos afetivos dos indivíduos que nele habitam regularmente. Entendidos dessa forma, tais domínios sociais intensivos em afeto são bons candidatos para tornar mais concretas as noções de "nicho afetivo" e de "andaime afetivo" invocadas por Colombetti e Krueger.
Esta é uma característica abrangente de domínios sociais organizados em geral: eles contêm estruturas formativas - como arquitetura, arranjos tecnológicos e equipamentos - que possibilitam e ajudam a sustentar práticas recorrentes, modos de interação e dinâmicas relacionais que, tomados em conjunto, "realizam" ou "implementam" atmosferas e padrões de interação afetiva. Frequentemente, esses padrões afetivos distribuídos são deliberadamente maquinados de modo a auxiliar o domínio em questão a atingir seus objetivos operacionais, quaisquer que sejam no caso específico — por exemplo, a geração de lucro em uma empresa, a vitória em uma equipe esportiva ou o bom desempenho dos alunos em uma turma escolar, para tomar alguns exemplos triviais. Os militares com seus exercícios, disciplinas, rituais e estruturas de comando são outro caso em questão ver Protevi (2013, cap. 2), assim como as inúmeras maneiras pelas quais empresas comerciais - de shoppings a complexos de entretenimento a resorts - geram atmosferas amigáveis ao consumo ou implementam outras "tecnologias de fascínio" Thrift (2010).
Esta é, por excelência, uma formação subjetiva recursiva, ou uma “modulação existencial” — se é que algum fenômeno merece tal designação: os indivíduos contribuem de modo crucial para a constituição dos domínios sociais dos quais fazem parte, mas são, por sua vez, moldados e configurados por esses mesmos domínios. Ambos os processos ocorrem simultaneamente, de maneira múltipla e entrelaçada — por meio de pequenos atos contributivos, da concessão e recepção simultâneas de formas, do moldar e ser moldado. Aplica-se aqui a mensagem central dos trabalhos filosóficos sobre a performatividade por exemplo Butler (1993): os inúmeros atos contributivos que, tomados em conjunto, constituem a realidade humana, e as normas, regras e padrões que, supostamente, "se aplicam" a essa realidade humana, não são duas esferas separadas, ontologicamente distintas. Não é que temos a realidade física corporificada de um lado e regras abstratas ou "ideias" do outro - em vez disso, atos e regras, instâncias e padrões são co-constituídos, no mesmo plano ontológico. Normas existem apenas enquanto concretamente situadas e colocadas em ação, ao passo que não há atos que estejam fora do âmbito das regras e padrões normativos sociais. Mesmo supostas violações de normas, exceções, perversões ou inovações têm sentido e legibilidade apenas em relação aos padrões normativos estabelecidos. Aplicado a indivíduos humanos, isso obviamente significa que não pode haver um indivíduo fora do âmbito de estruturas socionormativas; literalmente, não há "corpo" que não seja constitutivamente enquadrado e moldado por regras e categorias sociais predominantes. Butler (1993) mostrou isso em detalhes no caso do gênero, seguida por Iris Marion Young - entre outras – quanto à serialidade da categorização social ver por exemplo Young (2005, cap. 1). Esse e outros trabalhos relacionados têm sido frequentemente mal interpretados como se fosse uma dissolução pós-estruturalista da realidade humana sólida, quando na verdade são uma materialização profunda das normas, ideias e regras da concepção corporificada de práticas material-discursivas interativas ver Barad (2003).
Um insight metateórico fundamental que pode ser transferido da teoria da performatividade para os estudos da afetividade é o reconhecimento de que o ponto de partida adequado para a teorização da afetividade humana não é o indivíduo isolado diante de um estímulo capaz de suscitar afeto. O ponto de partida adequado é, acima de tudo, a afetividade distribuída complexa já prevalente em um domínio social: o vai e vem contínuo da interação afetiva, dinâmicas relacionais, padrões de engajamento afetivo e como se solidificaram ao longo do tempo. Seria uma grave simplificação - repetindo o mito fundador do "individualismo abstrato" ver Marx (1973 [1858]); Focault (1998 [1967]) - começar com o indivíduo isolado e seus supostos estados afetivos individuais, e só então considerar de que maneiras esses estados afetivos individuais podem ser ainda mais aprimorados, expandidos etc. por meio de certos padrões de interação, normas sociais, ferramentas, recursos ou técnicas no ambiente. Em vez disso, a teorização tem que começar de um ponto de partida muito mais realista (no sentido de ser adequada ao mundo real). Trata-se da assunção da socialidade humana in medias res. Não há momento na vida de um ser humano em que este não esteja em exposição formativa a uma atividade social já em curso e previamente desenvolvida (a qual, evidentemente, inclui todo tipo de interação afetiva). Mesmo um bebê está situado em tudo, menos em uma constelação isenta de contexto ou desprovida de historicidade. A esfera de pertencimento de um bebê é, inevitavelmente, massivamente pré-configurada, repleta de habituações, discursos, objetos, normas e regras, estilos de interação e muitos outros elementos específicos de uma época, de uma cultura e de um meio social determinados ver Muhlhoff (2015).
Mas vamos nos concentrar em cenários de interação afetiva na idade adulta. Em qualquer domínio ou esfera da vida social, há sempre já um comércio regular, um Betrieb estabelecido de interações afetivas, para usar o termo apropriado de Heidegger (1962 [1927]) para designar o funcionamento rotineiro e específico de cada domínio. Acaba de entrar um novato. O contágio emocional, as diversas respostas sincrônicas e miméticas em um nível afetivo-corporal básico, combinam-se com exigências explícitas e mecanismos de sanção por parte dos membros já estabelecidos do domínio, de modo a garantir que o recém-chegado seja logo influenciado e sintonizado com o estilo predominante de interação afetiva, com os modos afetivos de ser que são demandados e valorizados pelo domínio em questão. Pessoas habituadas de acordo com os padrões afetivos prevalentes em um domínio social reforçarão e sancionarão a afetividade do novato desde o início, tanto abertamente quanto de uma variedade de maneiras sutis, imperceptíveis, muitas vezes pré ou subconscientes - por meio de mímicas, gestos, estilos afetivo-corporais que sinalizam aprovação ou desaprovação, encorajam ou desencorajam, recompensam com conexão calorosa ou punem com hostilidade sutil. Uma censura contínua e perfeita inere à afetividade humana, exercida constantemente de diversas maneiras sutis. Adicione a isso as diversas atmosferas, os tons coletivos de sentimento, os estilos afetivos e os níveis de energia que permeiam os lugares e espaços sociais, os quais também ajudam a inclinar o novato, ao longo do tempo, para uma sintonia consonante.
Muitas vezes há uma pré-seleção deliberada: departamentos de recursos humanos, escritórios de recrutamento ou comitês de seleção vêm equipados com procedimentos seletivos, testes e técnicas que garantem que indivíduos com as inclinações certas e também com as vulnerabilidades e "pontos fracos" corretos sejam colocados nos lugares certos, ou seja, aquelas posições onde provavelmente serão mais eficientes para a empresa, divisão do exército ou departamento acadêmico. Cada vez mais, e isso não é de forma alguma acidental, as pessoas são colocadas onde elas próprias tenderão a se sentir mais adequadas e confortáveis.
O life hack afetivo é mais do que apenas uma estrutura que ajuda as corporações a explorar seus funcionários. Ele as ajuda a extrair o máximo de seus trabalhadores justamente ao orientá-los com precisão para áreas que apresentam oportunidades de apego positivo — nichos afetivos específicos, feitos sob medida para tipos de personalidade ou perfis de funcionários pré-selecionados. Esses nichos afetivos, então, têm uma boa chance de se habituar e se tornar estruturas existenciais individuais, aspectos da identidade dos funcionários — a autoexploração pode então se desenrolar de forma suave e com um sorriso no rosto é "a alma no trabalho", ver Boltanski & Chiapello (2005); Berardi (2009).
É por isso que o conceito de life hack é apropriado: o afeto no local de trabalho - os humores e atmosferas afetivas, os estilos afetivos de interação, e também as maneiras como as tecnologias digitais e as redes sociais maquinam e canalizam a afetividade - constituem estruturas complexas de sentimento que foram configuradas com o propósito expresso de facilitar a lealdade a modos de comportamento, até mesmo modos de ser, que em última análise se mostrarão condutores para os objetivos da empresa ver Gregg (2011). E mais: não estamos todos apaixonadamente vinculados aos nossos diversos círculos de pertencimento, que abrangem muito mais do que o que outrora se chamava de a “esfera pessoal” da família, dos entes queridos e dos amigos? Quão profundos são nossos laços afetivos com nosso local de trabalho, com a nossa “equipe”, com nossos colegas, com as diversas máquinas agradáveis que tornam nosso trabalho fluido, elegante e ubíquo, e também com as recompensas espirituais às quais continuamos a aspirar — mesmo sabendo muitas vezes melhor do que isso — ao longo de nossas jornadas futuras imaginadas? Esses vínculos são complexos, ambíguos e frequentemente cruéis. Eles não são fáceis de abandonar pela simples razão de que eles são nós. Berlant (2012).
6 A MENTE SOCIALMENTE INVADIDA II: O CASO DO AFETO NO AMBIENTE DE TRABALHO
Para fornecer um respaldo adicional a estas últimas observações, concluo com uma discussão sobre um exemplo de uma estrutura de sentimento invasiva da mente que é atualmente prevalente. Obviamente, só posso apresentar um esboço aproximado do que é uma vasta paisagem de fenômenos. Considere o que a teórica cultural Melissa Gregg chamou de "vazamento de presença" (presence bleed) no trabalho contemporâneo do conhecimento (também conhecido como "trabalho imaterial"): a tendência, decisivamente facilitada pelas tecnologias interativas, de que o tempo de trabalho invada o que antes eram os períodos de descanso — por exemplo, quando os trabalhadores de escritório tendem a estar online e disponíveis para comunicação relacionada ao trabalho dia e noite, independentemente de ser fim de semana ou feriado Gregg (2011). Da mesma forma, com a flexibilização de regimes rígidos de presença no ambiente de trabalho (como a jornada das nove às cinco ou a semana de cinco dias), o trabalho tendeu a se espalhar para dentro das casas - salas de estar, quartos, cozinhas - erodindo constantemente os limites que antes separavam o tempo de trabalho do tempo de lazer. Gregg resume o resultado desses desenvolvimentos da seguinte forma:
O vazamento de presença explica a experiência familiar em que a localização e o tempo do trabalho tornam-se considerações secundárias diante de uma lista de 'tarefas a fazer' que parece eternamente fora de controle. Ele não apenas explica o senso de responsabilidade que os trabalhadores sentem em se manter prontos e dispostos a trabalhar além das horas pagas, mas também capta a sensação de ansiedade que surge em empregos que têm uma agenda interminável de tarefas que devem ser cumpridas - especialmente quando não há trabalhadores suficientes para carregar o fardo. (...) Com o aumento do uso da tecnologia digital, cargas de trabalho que podem ter sido aceitáveis no início mostram-se propensas a acumular ainda mais expectativas e responsabilidades que não estão sendo reconhecidas - e nunca serão, se o trabalho feito em casa continuar a passar despercebido. A suposta conveniência das tecnologias obscurece a quantidade de trabalho adicional que elas demandam Gregg (2011, 2).
Como mostram essas considerações, o vazamento de presença não se trata apenas de disponibilidade tecnológica e regimes de tarefas ampliados — sob a superfície da industriosidade permanente e da disponibilidade "sempre ativa" espreitam tendências afetivas permeantes. Na verdade, um conceito como o de “estrutura de sentimento” Williams (1977) [p1] é adequado, pois lidamos não apenas com uma coloração afetiva ou acompanhamento de certos processos operacionais no trabalho, mas com uma “infraestrutura mental” de longo alcance, com padrões complexos de afeto e relações afetivas que desempenham papéis operacionais importantes no universo do trabalho de colarinho branco contemporâneo.
Sentimentos de culpa, de responsabilidade, diversos medos e ansiedades fazem parte integrante dessa constelação quase ubíqua, mas também o entusiasmo da conexão, a excitação de participar da ação à medida que ela se desenrola, ou as muitas petites affections que emergem nos contatos do ambiente de trabalho — contatos que, não por acaso, foram rebatizados como “amigos” na cultura online das redes sociais Gregg (2011, caps. 5 e 6). É essa mistura desenfreada de sentimentos e tendências afetivas que caracteriza o dispositivo contemporâneo do trabalho de colarinho branco em sociedades desenvolvidas. No jargão neo-marxista de Franco "Bifo" Berardi, o resultado disso se lê assim:
Colocar a alma para trabalhar: esta é a nova forma de alienação. Nossa energia desejante está presa no ardil do autoempreendimento, nossos investimentos libidinais são regulados segundo regras econômicas, nossa atenção é capturada pela precariedade das redes virtuais: cada fragmento da atividade mental deve ser transformado em capital Berardi (2009, 3).
Se considerarmos os tipos de afetos aqui em questão, encontramos entre eles: o medo de ser sobrecarregado pela massa de mensagens acumuladas após um período offline, as ansiedades da desconexão, o receio de perder desenvolvimentos relevantes no ambiente de trabalho, etc. Além disso, encontramos um anseio recorrente pela ambivalente satisfação que a comunicação constante proporciona, mas certamente também aquelas emoções dolorosas de autocrítica intensa, como culpa ou vergonha — que se insinuam diante de possíveis falhas no cumprimento das exigências do trabalho ou da incapacidade de corresponder às normas de etiqueta do ambiente corporativo. Sentimentos intensificados de inadequação — a sensação de estar notoriamente aquém dos padrões relevantes em seu domínio profissional — são, em parte, um efeito estrutural das novas culturas de transparência, de abertura total, e das comparações viabilizadas em rede com concorrentes ao redor do mundo. Ou pense nas formas ubíquas de competição no local de trabalho trazidas por métricas avançadas de desempenho como parte de novos regimes de gerenciamento baseado em dados.
Como um exemplo enganosamente simples, considere o modo como uma mensagem de e-mail não respondida pode pesar sobre nós, exercendo uma pressão afetiva sutil até que finalmente seja respondida. Em suma, há uma formação intrincada de várias tendências afetivas, complexamente amarradas com tecnologias móveis e em rede, com estilos atuais de gestão, com o significado simbólico de produtividade e laboriosidade, com pressões estruturais em tempos de condições de trabalho flexibilizadas e precarizadas, e com profundas transformações nos hábitos de comunicação e networking em geral. Enquanto essas tendências transformadoras mais amplas na economia do conhecimento contemporânea são bem documentadas na literatura sociológica e de estudos culturais mais recentes por exemplo Liu (2004); Boltanski & Chiapello (2005); Gill & Pratt (2008); Ross (2009); Gregg (2011), filósofos das emoções demonstraram até agora pouco interesse nas paisagens afetivas confusas do trabalho contemporâneo.
Para meus propósitos, basta neste momento examinar brevemente essa teia densa de práticas e afetos para identificar tendências exemplares de "invasão mental" afetiva. Basta considerar novamente a prática do uso de e-mail no trabalho de colarinho branco - para permanecer em um dos exemplos presumivelmente menos notáveis. Há uma excitação, uma certa expectativa inquieta sobre possuir uma conta de e-mail ativa, como qualquer participante mesmo remotamente conectado na economia da informação prontamente atestaria. Sem dar muita atenção ao quão entediante e rotineiro é, de fato, o conteúdo da maioria das mensagens, tendemos a aguardá-las com ansiedade, verificando incessantemente nossas caixas de entrada repetidas vezes nas mais diversas ocasiões. O e-mail faz parte de uma constelação estratégica de dois gumes, na qual a afetividade desempenha um papel crucial. A excitação inerente à comunicação e à conexão possibilitadas pelo e-mail está atrelada a uma ansiedade frenética sobre perder o controle ou ser deixado de fora dos procedimentos relevantes no trabalho. A caixa de entrada tornou-se a principal abertura do empregado para o mundo. O escritório corporativo — embora seja cada vez menos uma presença estável no espaço físico — ocupa um lugar no computador portátil ou no smartphone do funcionário. Desconectar-se da rede equivale a sair da cena de ação, perder o controle, desaparecer rapidamente do círculo interno de pessoas — ou, ao menos, assim parecerá, assim se sentirá.
Em termos de afetividade situada, os efeitos de conectividade que as tecnologias de comunicação móvel engendram mostram uma semelhança superficial com o caso da bolsa descrito por Colombetti e Krueger, mas esse paralelo não é muito profundo - não menos importante, porque os efeitos da conectividade no local de trabalho estão sob muito menos controle individual. Enquanto a bolsa permite que uma coleção de itens selecionados de conforto pessoal esteja prontamente disponível quando necessário, os dispositivos móveis zumbem com uma heteronomia personalizada, ao deixarem que o halo frenético do ambiente informacional de trabalho se infiltre na esfera íntima da existência — com pouca consideração pelas estratégias individuais de enfrentamento ou pela determinação resoluta dos bem organizados.
Exemplos como esses fornecem um contraponto bem-vindo ao modelo do usuário/recurso. Como vimos, grande parte do debate sobre a situacionalidade até agora destaca ampliações deliberadas de capacidades mentais selecionadas - muitas vezes estruturas e dispositivos de suporte bastante inequívocos e claramente benéficos. Mas, na verdade, as tecnologias de comunicação virtual são parte de uma estrutura de ampliação mental com um caráter muito mais abrangente, complexo e ambivalente. Esses dispositivos e a infraestrutura comunicativa à qual pertencem são ambíguos no sentido de que exercem pressões estruturais sobre rotinas cotidianas, incluindo tendências afetivas. Embora possibilitem façanhas comunicativas de vários tipos e acesso remoto ao local de trabalho e a fluxos relevantes de informação, eles estabelecem hábitos afetivos de atenção desenfreada, levam a esforços frenéticos para permanecer sintonizado, ativam ansiedades de desconexão e muitas vezes fornecem acesso contínuo a uma esfera de atividade e relacionamento que rapidamente excede o que um funcionário individual pode processar de forma confiável. O mundo do acesso ilimitado, embora seja por um lado empoderador, também invade várias esferas da existência. Ele comprime o tempo e o espaço, poupa poucos intervalos da vida de um trabalhador, contribui para instaurar e reforçar regimes abrangentes de mobilização da atenção, prontidão constante, disponibilidade e produtividade compulsória.
Tudo isso corrobora a tese que desenvolvi de forma mais abstrata acima: estruturas de sentimento socialmente instituídas, concretamente realizadas de modos específicos em domínios particulares — nas infraestruturas tecnológicas, nas rotinas de interação afetiva, nos estilos afetivos e nos comportamentos dos membros desses domínios — exercem efeitos estruturantes de grande alcance sobre aqueles que neles habitam. Destacam-se entre eles os casos em que uma experiência prazerosa, alegre ou de outro modo afetivamente gratificante é gerada como parte de rotinas que também operam de maneira exaustiva, exploratória e geradora de ansiedade. A longo prazo, tais rotinas podem não apenas minar a qualidade de vida daqueles que nelas estão envolvidos, mas também transformá-los em expoentes exemplares e “algozes voluntários” dos próprios domínios, práticas e modos processuais que produziram tais feitos.
7 PERSPECTIVAS: RUMO A UMA FILOSOFIA POLÍTICA DA MENTE
Temos boas razões para considerar essas estruturas de canalização afetiva no ambiente de trabalho tecnológico como casos de "invasão mental". Obviamente, não devemos tomar a noção de invasão mental de forma excessivamente simplista, como se fosse evidente o que seria uma mente não invadida — ou mesmo se tal coisa seria possível. Em um sentido mais geral, a mente humana adulta é estruturalmente invadida - este é o ponto da perspectiva da construção de nicho, a saber, que ambientes artificiais remodelam a constituição mental (entre muitas outras coisas) de seus habitantes. E certamente é difícil demarcar claramente quais estruturas, conteúdos ou processos mentais são privilegiados de forma específica como o "verdadeiro eu" ou o núcleo da pessoa autônoma, daqueles que são reconhecíveis como imposições externas. Pode ser difícil discernir, em um dado caso, o que merece minha adesão plena — e o que, ao contrário, constitui um invasor mental indesejado.
A mente humana é sempre, inevitavelmente, uma cristalização parcial de sua cultura ambiente - ela frequentemente reflete, mais do que adota conscientemente, os modelos, conteúdos e estilos habituais prevalecentes em seu entorno formativo. Não temos muita escolha a não ser nos tornarmos expoentes, exemplares mais ou menos típicos de nossa cultura ambiente, de maneiras das quais raramente temos plena consciência ver, por exemplo, Rorty (1988). Ainda assim, podemos — por meio de uma investigação e análise cuidadosas — distinguir estruturas sociais capacitantes daquelas que nos limitam; podemos avaliar em que medida determinados domínios sociais contribuem para instaurar padrões mentais que, a longo prazo, sejam emancipadores e propícios ao florescimento individual e coletivo, ou se, ao contrário, criam dependências nocivas, nos vinculam a rotinas opressivas, sustentam desigualdades, destroem vínculos comunitários ou promovem hábitos afetivos e mentais que nos são prejudiciais — a nós ou aos nossos ver também Honneth (2012, caps. 9 e 10).
De fato, somos aqui conduzidos ao reconhecimento da natureza profundamente política da afetividade situada, bem como da dimensão política da chamada perspectiva 4EA — a mente corporificada, situada, enativa, estendida e afetiva (embodied, embedded, enactive, extended, affective) — de modo mais geral ver Protevi (2009; 2013). Como os exemplos que discuti acima deixam claro, nem todos os domínios sociais habituam a afetividade de seus participantes de formas que podemos ou deveríamos aprovar. É necessário um entendimento suficientemente rico da afetividade situada para tornar visíveis essas constelações problemáticas e ajudar os envolvidos a enxergar além da superfície das relações de afeto positivas, em direção aos seus aspectos problemáticos. Essa questão é angustiante porque os próprios sujeitos cujas perspectivas avaliativas são necessárias para fazer essas avaliações críticas são eles mesmos os alvos - e, em última instância, os "produtos" - dessas influências formativas. Apegos afetivos dentro e para com domínios sociais complexos são uma dimensão crucial entre os fatores que nos constituem como pessoas. Consequentemente, pode parecer questionável se pode haver algo como um espaço para avaliação crítica desses mesmos domínios, práticas e rotinas que trouxeram à tona nossas perspectivas subjetivas e avaliativas em primeiro lugar. Como pode haver distância crítica suficiente quando, na realidade, somos, de forma evidente, nossos próprios apegos afetivos ambientalmente sustentados? Berlant (2012); ver também Butler (1997, 2015)
Para enfrentar esse desafio, acredito que uma "filosofia política da mente" viável precisa unir forças com aqueles que trabalham com a afetividade nos estudos culturais: com seus cuidadosos estudos de caso sobre segmentos da vida cotidiana, esses estudiosos pioneiramente desenvolveram um modo de análise crítica que está finamente ajustado às complexidades da modulação afetiva específica de cada domínio por exemplo, Stewart (2007); Ahmed (2010); Gregg (2011); Berlant (2012); Blackman (2012); Cvetkovitch (2012). Os efeitos formativos ambientalmente sustentados da realidade sociopolítica nas estruturas mentais individuais são estudados do ponto de vista de um "envolvimento esclarecido". Somente como aqueles diretamente implicados e envolvidos — o que, em última instância, inclui a todos nós — é que podemos esperar extrair insights reflexivos de nossos enredamentos contínuos com as estruturas sociais do sentir. Isso exige uma postura de autocrítica simpática que permita a investigação cuidadosa — e potencialmente dolorosa — dos próprios apegos, vínculos afetivos e constelações relacionais que nos fazem ser quem somos.
A filosofia política da mente é impossível sem o reconhecimento de que mesmo nossos apegos mais queridos e hábitos emocionais são tanto parte do problema quanto podem ser - ou podem ser transformados em - uma solução: em algo que nos ajude a "sobreviver ao dia" Gregg (2011, 88), mas também que possa eventualmente abrir caminhos para uma transformação social. Trabalhos recentes sobre afetos nos estudos culturais - por exemplo, de Lauren Berlant, Sara Ahmed, Lisa Blackman ou Melissa Gregg - podem inspirar e auxiliar uma filosofia da mente sensível em direção a uma perspectiva crítica ampliada e densamente situada. Neste artigo, tentei colocar essa abordagem em prática esboçando uma compreensão mais complexa da afetividade situada que nos permite trazer o problema da "invasão mental" afetiva para a agenda filosófica.
O trabalho neste artigo foi apoiado pela Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), como parte do Centro Colaborativo de Pesquisa Sociedades Afetivas (SFB 1171) da Universidade Livre de Berlim.
Sou grato a Jorinde Schulz por seus comentários críticos úteis em uma versão anterior, e a Rainer Mühlhoff pela discussão constante e colaboração de longa data nos fundamentos da visão delineada aqui. Também quero agradecer aos três pareceristas por suas sugestões construtivas.
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CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
1 – Felipe Nogueira de Carvalho
É professor adjunto de Filosofia no Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal de Lavras. Possui mestrado e doutorado em Filosofia e Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales/Institut Jean Nicod (Paris, França)
https://orcid.org/0000-0002-0584-3424 • felipencarvalho@gmail.com
Contribuição: Escrita - Primeira Redação
COMO CITAR ESTE ARTIGO
Carvalho, F. N. Invasão mental, afetividade situada e o Life Hack corporativo, de Jan Slaby. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria - Florianópolis, v. 16, n. 2, e92731, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5902/2179378692731. Acesso em: dia, mês abreviado, ano.
[1] Com essa ênfase em instâncias não categóricas, dinâmicas e relacionais de afeto, em oposição a tipos categóricos de emoção, minha abordagem sobrepõe-se substancialmente ao campo dos estudos afetivos culturais, pois ele igualmente enfatiza os processos muitas vezes pré-reflexivos e ainda não individualizados e não classificados de intra-ação entre corpos de vários tipos ver Blackman (2012) para um rastreamento genealógico dessa linha de trabalho, e sobre sua relação às vezes conflituosa com vertentes mais convencionais da teoria da emoção; ver também Wetherell (2012).
[2] Frontiers in Psychology 24, de abril de 2016, dossiê temático Affectivity Beyond the Skin. Veja https://www.frontiersin.org/research-topics/3755/affectivity-beyond-the-skin/magazine para mais detalhes (último acesso em 09/05/2025).
[3] N. do T: no original, socially scaffolded mind. Embora tenha se optado aqui por preservar a tradução do substantivo “scaffold” como “andaime”, o verbo “to scaffold” e o adjetivo deverbal “scaffolded” serão traduzidos como “sustentar” e “sustentada” respectivamente, com o objetivo de se alcançar uma melhor sonoridade em português.
[4] N. do T.: tipo de agenda pessoal organizadora.
[5] As abordagens da mente estendida que não se concentram em considerações de paridade Clark & Chalmers (1998), mas sim em considerações de complementaridade por exemplo Menary (2007), são menos propensas a sucumbir a uma concepção simplista de usuário/recurso. As abordagens da complementaridade sustentam que o agente cognitivo e os aparatos que estendem a mente, uma vez integrados de maneira relevante, não continuam a existir como entidades separadas, mas passam a constituir um único sistema integrado. Assim, enquanto esse novo sistema estiver em operação, não se trata mais de um usuário que realiza suas atividades com uma ferramenta adequada, mas sim de um novo “agente”, ou assemblagem, com um conjunto distinto de capacidades operacionais. Como argumentei em outro artigo, há boas razões para libertar a abordagem da mente estendida de uma fidelidade estrita ao princípio da paridade, e orientá-la, em vez disso, na direção da complementaridade Slaby (2014). Isso se alinha com as considerações desenvolvidas no corpo principal do texto, que discutem principalmente casos de subjetivação afetiva.
[6] Tomei emprestada a expressão “mente socialmente invadida” e, consequentemente, também a forma abreviada “invasão mental”, de John Protevi (2013), cujo trabalho fundamental me ensinou muito sobre como pensar de maneira produtiva a respeito da afetividade socialmente maquinada.
[p1]Colocar nas ref