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Descrição gerada automaticamente

Universidade Federal de Santa Maria

Voluntas, Santa Maria, v. 14, n. 2, e87398, 2024

DOI: 10.5902/2179378687398

ISSN 2179-3786

Submissão: 05/04/2024 Aprovação: 05/04/2024 Publicação: 05/04/2024

REFERÊNCIAS. 5

 

Apresentação

Apresentação Dossiê Catástrofe

Foreword – ‘Catastrophe’ Dossier

Maurício Fernando PittaIÍcone  Descrição gerada automaticamente , José Fernandes WeberIÍcone  Descrição gerada automaticamente

IUniversidade Estadual de Londrina, Londrina, PR, Brasil

 

É significativo que, neste ano de 2024, o aclamado colóquio internacional Os Mil Nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra, que contou com a presença de autores como Bruno Latour, Ailton Krenak, Dipesh Chakrabarty, Isabelle Stengers e Eduardo Viveiros de Castro, comemore seu aniversário de dez anos e que, mesmo desse tempo, continue necessário a ponto de motivar a republicação das palestras, no formato de livro em dois tomos, pela Editora Machado (Danowski; Viveiros de Castro; Saldanha, 2022; 2023). O ano que acaba de findar, 2023, foi não à toa classificado como o ano mais quente da história do planeta Terra em, pelo menos, 100 mil anos1, chegando próximo ao aumento médio de 1,5ºC na temperatura planetária em comparação aos níveis pré-industriais2 — limite que, diga-se de passagem, os países signatários do Acordo de Paris, de 2015, prometeram, em vão, não ultrapassar. As cartas, pelo visto, já foram lançadas, e o bonde desfila diante dos olhos atônitos de todo o vulgo, afetando desproporcionalmente povos e nações historicamente desconsideradas no grande esquema geopolítico global: as previsões mais otimistas apontam para a possibilidade real de um 2024 ainda mais quente3, com recordes vindouros de temperatura até 2050 e a possibilidade já quase efetiva de descumprimento do Acordo de Paris.4

Ao mesmo tempo em que, com efeitos catastróficos vistos semana após semana, no Brasil e no mundo5, sucumbe o clima, sintoma principal do Antropoceno, época na qual o ser humano se fez força geológica destrutiva, outras catástrofes fazem coro à emergência climática: conflitos se acirram entre potências globais (Ng, 2024; Ellyatt, 2023; Piper, 2024; Gambrell; Baldor, 2024), mais massacres ocorrem na Faixa de Gaza (Gaza, 2024), a concentração de renda acelera vertiginosamente (Concentração, 2024a; Concentração, 2024b), as instituições de cooperação multilateral definham (Wright; Radford, 2023; Chade, 2022) e as novas tecnologias confirmam que, se é problemático o exagerado pessimismo tecnófobo, também o é o otimismo sorridente dos aceleracionistas tecnófilos, com seus delírios de viagens espaciais e processadores nanoscópicos — o fenômeno do machine learning e das novas inteligências artificiais (Marr, 2023), a caixa-preta dos algoritmos de redes sociais e sua arquitetura “cismogênica” (Cesarino, 2022, p. 178) e o impacto ambiental das criptomoedas (UN, 2023) devem também ser vistos sob a chave da catástrofe, como tem afirmado autores como Yuk Hui (2024) há já alguns anos (o texto dele que, nesta edição, apresentamos pela primeira vez em português data originalmente de 2015, há nove anos, o que demonstra sua incrível, ainda que infeliz, persistência).

Todos esses são motivos de alarde que, a cada ano, se repetem em uma frequência mais e mais exaustiva, impulsionada pelo frenesi sem descanso dos algoritmos. Cada um desses eventos, no impulso rítmico de sua repetição cumulativa, faz-nos ecoar termos milenares, de origem muitas vezes trágico-mítica, que hoje se secularizam com a concretude dos acontecimentos. Um deles é o termo “catástrofe”, καταστροφή (katastrophé): uma virada súbita, uma síncope quase cardíaca que solapa, desarranja e produz uma cesura aguda, marcando o culminar de uma peça trágica e, com isso, a suspensão de um tempo diegético e a reentrada nos confins do real — ou a entrada em um outro tempo, como a queima do Parlamento britânico, “casa dos senhores e dos comuns” à beira do rio Tamisa, anunciava, nas potentes pinturas de J.M.W. Turner, a futura derrocada do império neocolonial britânico e a passagem de trono ao novo império estadunidense. Como se vê, os étimos, como as estatísticas, são ineficazes e ilusórios perto das imagens poéticas para traduzir o real sentido profundo da catástrofe; mais potente seria expor o buraco dos olhos de Édipo, o fígado lacerado de Prometeu ou, como na também poderosa arte povera de Alberto Burri, o plástico derretido, amalgamado ao vermelho que, junto ao fundo preto salpicado de branco, evocam “o céu estrelado” de Kant na ausência de qualquer máxima universal no interior do eu, como que aludindo ao fato de que quando o céu desaba, o sujeito é pouco.

É a partir desse contexto de recorrência de catástrofes de todos os tipos que nós, junto à Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, apresentamos a vocês, leitoras e leitores, esta edição especial da revista, sob o título de Dossiê Catástrofe. Neste dossiê, apresentamos textos de múltiplas perspectivas que abordam o conceito e as ocorrências da catástrofe em suas diversas acepções trágica, algorítmica, ecológica, sociopolítica, existencial, étnico-racial, literário-artística etc. Todos dialogam de algum modo com a Filosofia e as Humanidades em geral e, ainda que totalmente divergentes em estilo e postura, todos entram em acordo ao posicionar a catástrofe como uma questão filosófica de primeiríssima monta.

Em virtude dos diferentes referenciais de pesquisa dos editores deste dossiê, apesar de suas convergências de ideias, da muito solícita disponibilidade da revista Voluntas e da intensa resposta após a divulgação da chamada para esta edição, com uma grande quantidade de artigos recebidos, resolvemos dividir este dossiê em dois eixos, de centros temáticos distintos, mas que planam sobre o mesmo terreno problemático da catástrofe. No primeiro eixo de nosso dossiê, apresentamos artigos centrados no problema da catástrofe sob a perspectiva de Schopenhauer e Nietzsche, autores que, a despeito de suas diferenças, têm em comum uma mesma espinha dorso-conceitual e uma preocupação profundamente interconectada com as questões do trágico, do pessimismo e do niilismo. Em nosso segundo eixo, abrimos o escopo para a caracterização contemporânea da catástrofe em suas muitas efetivações concretas, sobretudo sob a luz do conceito de Antropoceno, da emergência de novas tecnologias em tensão com o colapso socioambiental planetário e do embaralhamento das fronteiras entre o natural, o humano e o maquinal.

Esperamos que as discussões apresentadas neste Dossiê Catástrofe sejam proveitosas a vocês, leitoras e leitores, e que possam iluminar vias de pensamento em meio a um mundo em colapso.

Tenha uma boa leitura!

 

REFERÊNCIAS

BARDAN, R. “NASA Analysis Confirms 2023 as Warmest Year on Record”. Press Release. Nasa, 12 jan. 2024. Disponível em: https://www.nasa.gov/news-release/nasa-analysis-confirms-2023- as-warmest-year-on-record/. Acesso em: 17 jan. 2024.

CESARINO, L. O mundo do avesso: Verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

CHADE, J. “Bolsonaro ignorou todas as recomendações da ONU para a defesa de indígenas”. UOL,          19       mai.    2022.            Disponível      em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/05/19/bolsonaro-ignorou-todas-as-recomendacao-da-onu-para-a-defesa-de- indigenas.htm. Acesso em: 17 jan. 2024.

CONCENTRAÇÃO de renda para os mais ricos bate recorde histórico no Brasil, diz pesquisa. Economia. UOL, 17 jan. 2024. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/agencia- brasil/2024/01/17/concentracao-de-renda-bate-recorde-historico-no-brasil-diz-pesquisa.htm. Acesso em: 17 jan. 2024.

CONCENTRAÇÃO de riqueza se acentuou desde a pandemia, diz relatório. Extra. Nexo, 14 jan. 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/extra/2024/01/14/concentracao-de- riqueza-se-acentuou-desde-a-pandemia-diz-relatorio. Acesso em: 17 jan. 2024.

COPERNICUS: 2023 is the hottest year on record, with global temperatures close to the 1.5ºC limit. Press Release. Copernicus: Europe’s eyes on Earth, 9 jan. 2024. Disponível em: https://climate.copernicus.eu/copernicus-2023-hottest-year-record#:~:text=Press%20releases-,Copernicus%3A%202023%20is%20the%20hottest%20year%20on%20record%2C%20with%20global,the%201.5%C2%B0C%20limit. Acesso em: 17 jan. 2024.

DANOWSKI, D.; VIVEIROS DE CASTRO, E.; SALDANHA, R. [Org.]. Os mil nomes de Gaia: doAntropoceno à Idade da Terra. v.1-2. Rio de Janeiro: Editora Machado, 2022-2023.

DICKIE, G. “US scientists say one-in-three chance 2024 another year of record heat”. Environment.           Reuters,        12        jan.            2024.  Disponível      em: https://www.reuters.com/business/environment/us-scientists-say-one-in-three-chance-2024- another-year-record-heat-2024-01-12/. Acesso em: 17 jan. 2024.

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GAMBRELL, J.; BALDOR, L.C. “Chaotic wave of attacks and reprisals in Middle East fuel worries of a broader regional war”. The Associated Press, 16 jan. 2024. Disponível em: https://apnews.com/article/yemen-houthi-rebels-missiles-iran-seizure-us- 8112fbadd3b0689c71a92890895a9368. Acesso em: 17 jan. 2024.

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Contribuição de autoria

1 – Maurício Fernando Pitta

Pós-doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (PPGFIL/UEL), com financiamento CAPES/PDPG-POSDOC

https://orcid.org/0000-0002-9642-4072mauriciopitta@hotmail.com

Contribuição: Autor

 

2 – José Fernandes Weber

Professor associado C no Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

https://orcid.org/0000-0001-8402-7224  • jweber@uel.br

Contribuição: Autor

 

Como citar este artigo

PITTA, M.F.; WEBER, J.F. Apresentação Dossiê Catástrofe. Voluntas Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria, v. 14, n. 3, 2023. DOI 10.5902/2179378687398. Disponível em: https://doi.org/10.5902/2179378687398. Acesso em: dia mês abreviado. ano.



1 “2023 foi um ano excepcional, com novos recordes climáticos derrubando antigos como um dominó. Não apenas 2023 foi o ano mais quente já registrado, como também foi o primeiro ano em que cada dia esteve 1ºC mais quente que o período pré-industrial. Em 2023, as temperaturas provavelmente excederam às de qualquer outra época em pelo menos 100.000 anos” (Burgess apud Copernicus, 2024).

2 “A média anual de temperatura global aproximou-se dos 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais — o que é simbólico, dado que o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas almeja limitar o aumento da temperatura em longo prazo (a partir da média produzida ao longo de décadas, ao invés de baseado em um ano individual como 2023) a não mais que 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais” (WMO, 2024); “A temperatura média da superfície da Terra em 2023 foi a mais quente já registrada, de acordo com uma análise feita pela NASA. As temperaturas globais, no ano passado, estiveram em torno de 2,1 graus Fahrenheit (1,2 graus Celsius) acima da média para o período de referência da NASA (1951-1980), como reportaram os cientistas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais (GISS) da Nasa, em Nova Iorque” (Bardan, 2024).

3 “A NOAA [Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos] afirmou que há uma chance em três de que 2024 seja ainda mais quente que 2023, e 99% de probabilidade de que seja classificado entre os cinco anos mais quentes já registrados” (Dickie, 2024).

4 “A ONU [Organização das Nações Unidas] afirma que o mundo não se encaminha rumo ao cumprimento dos objetivos de longo prazo do Acordo de Paris, incluindo o de limitar o aquecimento global em 1,5 graus Celsius. […] De acordo com relatório [da ONU], a ‘janela’ para implementar os compromissos existentes com o intuito de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius (34,7 graus Fahrenheit) acima dos níveis pré-industriais, como enfatizado no tratado de 2015, ‘está se fechando rapidamente’. […] Alcançar um nível nulo de emissões líquidas de carbono na metade do século, outro dos objetivos do Acordo de Paris, necessitará de uma ‘descarbonização radical’, afirma o relatório, incluindo a eliminação da queima de todos os combustíveis fósseis, cujas emissões não podem ser capturadas” (Much, 2023).

 

5 Só nos dez dias que precederam a escrita desta nota (24 jan. 2024), para citar alguns exemplos, enchentes no Rio de Janeiro deixaram 20 mil pessoas desalojadas (Teixeira et al., 2024), um grande temporal causou severos danos em mais de 29 cidades no Rio Grande do Sul, com registro de um óbito (Laforé; Limana, 2024) e nevascas tardias de grandes proporções afetaram os Estados Unidos e o Canadá após meses de seca atípica (Gomes, 2024; O’Brien; McKay, 2024).