Poéticas do envolvimento para habitAR a vida e a educação em ciências: cartas para mundos possíveis

 

Poetics of involvement for inhAIRbit life and education: letters to possible worlds

 

 

Tiago Amaral Sales[1]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Fernanda Monteiro Rigue[2]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Roger da Silva Wegner[3]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Erika Cristina Guido Miranda[4]

Universidade Estadual de Campinas

 

Karen Daniela de Sousa Custódio[5]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Miliam Juliana Alves Ferreira[6]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Breno Filo Creão de Sousa Garcia[7]

Universidade Federal do Pará

 

Júlia Francisca Gomes Simões Moita[8]

Universidade Federal de Uberlândia

 

Resumo

Esta experimentação poética, realizada em coletivo, tem o intuito de fazer e pensar diante das mudanças climáticas, por meio das potências do envolvimento. A partir de interações com múltiplas epistemes, propomos o conceito de "habitAR", por meio da escrita de cartas abertas que expõem nosso posicionamento diante das ruínas e catástrofes. Nossas práticas sensíveis destacam, sobretudo, a importância de enfrentar os desafios do Antropoceno, de utilizar a linguagem para convocar alianças possíveis entre seres humanos e mais-que-humanos e realizar atos de criação e regeneração de mundos.

Palavras-chave: Poéticas; Cartas; HabitAR; Fabulação Especulativa; Educação.

 

Abstract

This poetic experiment, carried out collectively, aims to create and reflect upon climate change through the power of involvement. Through interactions with multiple epistemologies, we propose the concept of "inhAIRbit," using open letters that expose our position in the face of ruins and catastrophes. Our sensitive practices highlight, above all, the importance of confronting the challenges of the Anthropocene, of using language to forge possible alliances between human and more-than-human beings, and of carrying out acts of creation and regeneration of worlds.

Keywords: Poetics; Letters; Inhabit; Speculative Fabulation; Education.

 

Introdução

Vivemos tempos complexos. As mudanças climáticas e as catástrofes ambientais demarcam as precariedades de territórios de vida em ruínas que nos demandam uma capacidade de atenção ao mundo e de envolvimento com os seres que nele habitam (Haraway, 2023; Tsing, 2019). Em meio a este cenário, nós, enquanto coletivo de estudos e pesquisas que se situa na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Campus Pontal – uma universidade pública nas periferias do Sudeste brasileiro –, pensamos em como nos engajar de maneira ativa e propositiva. Experimentar a vida, a docência, a pesquisa e a educação em ciências para além da lógica única – e tantas vezes ressentida – da denúncia é um caminho que se mostra não apenas como possível, mas como necessário.

Entendemos e afirmamos a universidade pública enquanto um espaço propício a potentes habitações. Ela é um território fértil de múltiplos encontros entre humanos e mais-que-humanos. Em seu domínio, além de pensar, tensionar limites e fazer ciências, é possível constituir coletivamente ambientes de compartilhamento e de vida. Contudo, o excesso de cientificidades e burocracias que tem nos atravessado contribui expressivamente para a ampliação do isolamento e do cansaço nas relações.

Investir na imprevisibilidade dos acontecimentos e, portanto, nas suas potências inventivas tem a ver com a ampliação de espaços de escuta, troca, atentividade, compartilhamento e envolvimento – na direção de uma desaceleração das ciências (Stengers, 2023). Compreendemos a atentividade, a partir de Van Dooren, Kirksey e Münster (2016), como o cultivo de habilidades para prestar atenção aos outros e responder significativamente, deslocando o perceber de uma atitude meramente contemplativa para uma disposição implicada nas relações. Sabendo disso, a questão de interesse que atravessa o presente escrito é a seguinte: como cultivar poéticas do envolvimento em tempos de mutações climáticas (Latour, 2020) para habitAR a educação em ciências, a universidade, a vida e o mundo?

Partimos, nesse caminho de experimentação e de escrita criativa coletiva, a partir dos encontros do grupo de estudos e pesquisas habitAR: grupo de estudos e pesquisas em educação, ciência e vida, vinculado à UFU-Pontal. Experimentamos o conceito de habitAR, inspirados na noção de habitante/habitação criada por Tim Ingold (2015, p. 247): “O ocupante ocupa uma posição em um mundo já pronto; o habitante contribui através da sua atividade para a contínua regeneração do mundo”. Fazemos um deslocamento deixando as letras ‘A’ e ‘R’ em maiúsculo como modo de aerar, oxigenar, habitAR os ares e ventos que nutrem o nosso respirar. Como atividades de extensão, são realizados os Ciclos de Encontros e Diálogos: Conexões entre Ciências, Vidas e Educações, os quais possuem o caráter de ler, dialogar, pensar conjuntamente acerca de diferentes temas e, como proposição, também criar juntos.

Dentre todas as leituras que realizamos no grupo de estudos e pesquisas, destacam-se nas primeiras edições dos Ciclos de Encontros e Diálogos: o livro A terra dá, a terra quer, do autor quilombola brasileiro Antônio Bispo dos Santos (2023); Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno; do antropólogo francês Bruno Latour (2020); e Antropologia e/como Educação, do antropólogo britânico Tim Ingold (2020). Os três livros foram disparadores para agenciar as cocriações coletivas e aterradas nas linhas que aqui se seguem, buscando experimentar poéticas de um habitAR o mundo em tempos de crise, como é o caso do novo regime climático, experimentando caminhos possíveis mesmo quando os discursos de modernização contrastam com as mutações climáticas (Latour, 2020).

 

Inspirações teóricas

A produção científica moderna consolidou-se historicamente a partir de regimes discursivos que se apresentam como universais, neutros e contínuos. Em Arqueologia do Saber, Michel Foucault (2008) nos ensina que os discursos são formados por regras históricas muitas vezes inconscientes, que moldam tanto o que pode ser dito quanto os modos de compreensão do mundo, incluindo aquilo que se convencionou chamar de senso comum. Para o autor, a concepção moderna de história como linear, contínua e racional sustenta a ideia de um sujeito originário do conhecimento, capaz de apropriar-se do passado como totalidade consciente. Tal modelo, ao naturalizar determinadas formas de produção de saber, invisibiliza as rupturas, as descontinuidades e os atravessamentos de poder que estruturam os discursos científicos.

É justamente contra essa pretensa neutralidade que Donna Haraway (1995) propõe a noção de saberes localizados. Para a autora, todo conhecimento é necessariamente situado, corporificado e atravessado por relações históricas e políticas, sendo ilusória qualquer pretensão de objetividade desincorporada. Haraway (1995) argumenta que a ciência opera como uma prática de convicções capaz de produzir realidades, objetos e verdades, ao mesmo tempo em que se exime de responsabilização ao se apresentar como universal. Sua defesa de uma objetividade feminista, entendida como conhecimento situado, reivindica a explicitação dos lugares de fala, das posições corporais e das relações de poder implicadas na produção do saber.

Esses tensionamentos dialogam diretamente com o pensamento decolonial latino-americano, sistematizado por autoras como Ballestrin (2013), ao analisar o Grupo Modernidade/Colonialidade e o conceito de colonialidade do poder desenvolvido por Quijano. Tal perspectiva evidencia que as estruturas coloniais não se encerraram com o fim formal do colonialismo, mas permanecem organizando hierarquias raciais, econômicas e epistemológicas na modernidade. O chamado “giro decolonial” emerge, nesse contexto, como movimento teórico e político que busca desnaturalizar a centralidade eurocêntrica na produção do conhecimento, denunciando a divisão em que o Sul Global fornece experiências enquanto o Norte Global monopoliza a teorização. Entretanto, autores como Antonio Bispo dos Santos (2023) tensionam o próprio vocabulário decolonial, propondo a noção de contracolonialismo como prática de defesa e afirmação de modos de vida não subordinados às lógicas coloniais. Para Bispo (2023), trata-se menos de desconstruir o colonialismo a partir de seus próprios referenciais e mais de fortalecer cosmologias, saberes e práticas que historicamente resistiram à colonização. Essa perspectiva desloca o debate para formas de conhecimento integradas à vida, à oralidade, à coletividade e à relação com o território.

É nesse horizonte teórico que se insere a escolha pela escrita das cartas como forma de comunicação, produção de reflexão e conhecimento. Ao privilegiarem múltiplas subjetividades, o endereçamento, a presença e a experiência situada, as cartas rompem com o modelo impessoal e universalizante da escrita científica canônica. Mais do que um recurso narrativo, configuram-se como uma prática epistemológica (Foucault, 2008) coerente com os saberes localizados (Haraway, 1995), com a crítica à colonialidade do conhecimento e com a valorização de formas relacionais de produção científica. Do mesmo modo, a constituição de um coletivo multidisciplinar amplia as fronteiras do saber ao promover o encontro entre diferentes áreas (como Química, Matemática, Artes, Biologia, Ciências Sociais e Administração, entre outras), territórios e experiências, produzindo conhecimento em rede, em diálogo e em travessias com envolvimento(s).

Para nós, a noção de mutação climática, de Bruno Latour (2020), é fundamental para definir o novo regime climático em que vivemos, o qual sinaliza a profunda crise existencial, política e filosófica de nossos modos de vida sob a égide da industrialização e da produção em larga escala, que nos distanciam da possibilidade efetiva de continuar habitando o planeta, já que ele é finito. A partir dessa compreensão, alinhamo-nos ao compromisso de nos envolvermos e “aterrarmos” (Latour, 2020) com as coisas que nos atravessam, como estratégia para aprender a habitAR o mundo com os diferentes seres humanos e mais-que-humanos. Como caminho para habitAR as ruínas ocasionadas por esse novo regime climático, aterramos em nossas próprias vidas, relações e cultivos, para dar a ver e a “pensar-com” a partir da questão de interesse que aqui relembramos: como cultivar poéticas do envolvimento em tempos de mutações climáticas para habitAR a educação em ciências, a universidade, a vida e o mundo?

 

Modos de feitura

Como caminho de pesquisa, tivemos intentos metodológicos movidos pelas escritas epistolares. Escritas que, na literatura, por muito tempo foram consideradas apenas como uma expressão do foro íntimo e privado. Até que houve a ampliação do interesse público pelas escritas de processo de artistas e trocas de cartas, provocadas pelos estudos da crítica genética, durante a segunda metade do século XX. Em paralelo, a produção artística contemporânea também teve um papel de destaque neste processo de abertura entre as instâncias do foro privado e do público. Neste contexto destacamos Sophie Calle (2007), que produziu o projeto instalativo “Cuide de Você” com base em uma específica troca de mensagens amorosas, com o intuito de produzir reflexões a respeito das relações entre as pessoas na contemporaneidade.

Gilles Deleuze e Félix Guattari (2015), no campo da filosofia e da crítica literária, se debruçaram sobre as cartas publicadas de Franz Kafka, à sua revelia, para sustentar uma defesa conjunta pela potência das literaturas ditas “menores”. Para eles, expressões como as cartas são capazes de subverter os signos hegemônicos por meio da experimentação com a linguagem, com a convocação de alianças políticas e pela presença do coletivo. Nossas cartas possuem o intento de atender a este chamado. Sandro Santos e colaboradores (2025) defendem que as cartas, no âmbito da educação em ciências, podem se estabelecer como um território estratégico e formativo para a criação de possíveis na docência e na pesquisa. Segundo os autores, tais dispositivos são potentes por permitirem uma leitura situada do mundo, sem neutralidade, articulando discussões acadêmicas a questões coletivas, éticas e políticas. Ao mesmo tempo, as cartas ativam novas linguagens e percepções que fissuram os discursos e mecanismos de controle, já que dão ênfase às subjetividades e a concepções outras que habitam os corpos de quem as escreve.

Percebemos e afirmamos que a escrita de cartas, em nosso trabalho coletivo, “[...] apontam para um potencial educativo que conecta nossos corpos às nossas atividades, nossos fazeres docentes. Fragmentos, lampejos e dobras que permitem criar vidas, modos de existir, atualizar a própria forma de se relacionar com o mundo, as práticas, as pesquisas, e... e... e…” (Rigue; Sales, 2023, p. 307). Desse modo, “[...] as cartas se mostraram como modo de experimentar a escrita em um trajeto sensível que desse vazão ao que nos atravessa” (Santos; Custódio; Sales, 2026, p. 67).

Experimentamos, enquanto coletivo, a escrita de cartas, as quais foram inicialmente feitas de forma individual e, depois, lidas e misturadas de modo a compor uns com os outros e emaranhar os afectos[9] e perceptos[10] que pediam passagem. Entendemos que, a partir da nossa questão de pesquisa, experimentamos a escrita de cartas como prática artística, criativa e experimental como forma de envolvimento com o corpo, com outros seres, tecnicidades, com espaços e lugares.

A escritura das cartas, produzidas à mão e digitadas, impulsionou um exercício de proliferação de imagens com base nos afectos despertados pelos textos. Posteriormente, com o apoio de um dos autores, Breno Filo, que é artista multimídia, as cartas criadas individualmente foram metamorfoseadas em cartas-imagens: uma elaboração de experimentações gráficas e imagéticas que compunham, com as escritas, uma cartografia (Deleuze; Guattari, 2011) inventiva deste processo poético-criativo coletivo.

O presente trabalho é feito a muitas mãos, por muitos corpos, explorando dimensões poéticas para pensar no habitAR um mundo em tempos de mutações climáticas (Latour, 2020). Podemos compreender esta experimentação como também em aliança com os procedimentos metodológicos da pesquisa em arte (Rey, 1996), tendo em vista que ela se baseia em uma prática de experimentação artística fundada em uma prática. Seja pessoal e/ou coletiva, como em um ateliê/laboratório sensível que, inclusive, pode produzir saberes teóricos, porém atrelados à adesão ou mesmo à invenção de técnicas e formas de produção de escuta e partilhas afetivo-sensíveis.

Movimentamo-nos, a partir dos encontros, das experiências e dos envolvimentos dos pesquisadores e das pesquisadoras, com a temática investigada. Entendemos que a escrita realizada em forma de cartas foi escolhida por possibilitar um fazer narrativo, autobiográfico/autoficcional e fabulativo, promovendo aproximação com diversificadas formas de produção de conhecimento multidisciplinar na universidade, entremeando pesquisa em educação, ciências e arte.

Nesta escrita, as cartas são realizadas como maneira de fuga à lógica da escrita acadêmica como mera documentação, registro e/ou análise, mas como narrativas que apresentam/tensionam experiências, reflexões, posicionamentos e sentimentos construídos ao longo do processo do trabalho. Assim, buscamos escrever cartas abertas e públicas, visando construir uma relação com quem lê e com quem a escreve, corroborando com um diálogo permanente com o tema de interesse. Além disso, salientamos que não desejamos nos manter neutros ou distantes diante do tema, uma vez que houve o envolvimento com o campo, com os assuntos abordados e com as cartas-imagens produzidas.

As cartas são fruto de uma experimentação a partir de afectos e perceptos (Zordan, 2019) pessoais, para a produção de uma conexão sensível com a multidão humana e mais-que-humana que habita o planeta. Nosso destinatário, ao fim e ao cabo, é a Terra – nosso planeta – e a terra – solo que habitamos. Assim, “Grafamos  Terra,  em  maiúsculo,  em  referência  ao  nosso  planeta  e,  em  minúsculo,  pensando  no  solo  que pisamos” (Santos; Sales, 2026, p. 6) – territórios de vida e de habitação.

As cartas foram criadas buscando promover a reflexão sobre o tema investigado, incluindo nossas experiências, leituras teóricas e vivências. As escritas das cartas ocorreram ao longo dos encontros realizados no projeto de extensão do grupo habitAR, sem roteiro fixo ou categorias já definidas. A cartografia (Deleuze; Guattari, 2011) adotada como procedimento nesse estudo permitiu uma aproximação processual e sensível com o contexto real em que a pesquisa acontece, acompanhando os processos poéticos ao construir e repensar os significados relacionados às nossas práticas, experiências, relacionamentos e contextos sociais.

Declaramos, também, que para a construção deste texto foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa estritamente para a revisão de língua portuguesa, traduções e normas ABNT, além de auxiliar na edição das imagens aqui presentes. Reforçamos que a autoria do texto se faz a partir do trabalho coletivo das oito pessoas que o assinam em cocriações que emergiram nos encontros do habitAR.

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartas para envolver e habitAR o mundo

Imagem 1 – Fernanda Rigue, Compostar I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Imagem 2 – Fernanda Rigue, Compostar II, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Imagem 3 – Fernanda Rigue, Compostar III, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Imagem 4 – Roger Wegner, Minha necessária e querida Teoria da Liderança Transformacional[11] para a Sustentabilidade Ambiental I, 2026. Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Imagem 5 – Roger Wegner, Minha necessária e querida Teoria da Liderança Transformacional para a Sustentabilidade Ambiental II, 2026. Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

Imagem 6 – Roger Wegner, Minha necessária e querida Teoria da Liderança Transformacional para a Sustentabilidade Ambiental III, 2026. Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

Imagem 7 – Erika Cristina Guido Miranda, Delineamentos históricos das Mudanças Cromáticas I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

Imagem 8 – Erika Cristina Guido Miranda, Delineamentos históricos das Mudanças Cromáticas II, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

 

 

 

Imagem 9 – Erika Cristina Guido Miranda, Delineamentos históricos das Mudanças Cromáticas III, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

Imagem 10 – Tiago Sales, Carta ao desconhecido I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

 

Imagem 11 – Tiago Sales, Carta ao desconhecido II, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

 

Imagem 12 – Káren Custódio, Transbordamento dos encontros orgânicos I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

 

Imagem 13 – Káren Custódio, Transbordamento dos encontros orgânicos II, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

 

 

 

Imagem 14 – Júlia Moita, Sobre cartas, pombos e garrafas I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

Imagem 15 – Júlia Moita, Sobre cartas, pombos e garrafas I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

 

Imagem 16 – Miliam Ferreira, Carta para meus eus… I, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Imagem 17 – Miliam Ferreira, Carta para meus eus…II, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

 

Imagem 18 – Miliam Ferreira, Carta para meus eus…III, 2026, Colagem Digital. Projeto Gráfico e Tratamento de Imagem: Breno Filo.

Fonte: Acervo coletivo do habitAR, 2026.

 

Possíveis

Criar e reunir cartas é o gesto de um coletivo disposto a pensar e agir diante dos desafios impostos pela catástrofe em nosso horizonte comum. Juntos e juntas, expressamos o desejo de romper com a lógica apocalíptica vigente. Convocamos cartas-imagens de um futuro, talvez inevitável, com um franco apelo à insistência na produção de projetos/práticas contra o desenvolvimentismo desenfreado que destrói e arrasa paisagens e diferentes formas de vida. Convidamos, também, uma criança para conversar sobre algumas expressões de um certo passado escolar que, apesar de vinculados à propagação de informações no formato de slogans e palavras de ordem (Corrêa, 2024), hoje aparecem reatualizados: “cuide da água”, “devemos preservar o meio ambiente”.

Provocamos as pessoas em posição (ou necessidade) de liderança, diante de comunidades (humanas e mais-que-humanas) imersas em contextos afetados pelas transformações climáticas. Uma personagem nos aponta uma série de mudanças no fluxo cromático do mundo, que é consequência direta da violência exercida pela humanidade sobre ele. Um território que perde cores também perde vida. Isso inclui os lugares do conhecimento. O que pode instaurar cores, na produção de saberes? A criação (e a manutenção) de espaços de escuta e partilha que fissuram as barreiras disciplinares? A invenção e investimento em pedagogias experimentais? A consolidação de parentescos entre espécies e existências? Deixarmo-nos invadir pela poesia, entre pombos-correios e garrafas lançadas ao sabor das marés?

As cartas carregam um desejo de retorno. Mesmo que seja impreciso, ou duvidoso. Mesmo sob a forma de novos questionamentos e incertezas, pois temos a (cons)ciência da complexidade dos cenários descritos.

 

Considerações finais

As narrativas apresentadas em forma de cartas-imagens, elaboradas por diferentes corpos – professores, professoras e estudantes –, explicitaram a potência da multiplicidade, das inter-relações e da força que é habitAR espaços com diferentes seres e vidas. Os corpos que narram costuram histórias que, por vezes, se assemelham e, em outros momentos, se diferenciam devido às suas marcas e composições específicas.

Ocupar espaços em meio às questões do nosso tempo, como é o caso das mutações climáticas (Latour, 2020), e se propor a deslocar-se do lugar de conforto e segurança proposto e muito bem alicerçado pelas grades das áreas específicas do conhecimento, não é um movimento esperado no Antropoceno, era na qual vivemos. Uma era que gera separação, pela necessidade imediata de prazer, de reconhecimento, de imposições, de maquinização das produções dos saberes, de pensamentos automatizados, de rotulações dos humanos e mais-que-humanos como meras mercadorias.

HabitAR o mundo por meio da produção de cartas-imagens, para além de ocupar um espaço e saber localizado (Haraway, 1995), também pode se constituir na confluência (Santos, 2023) entre diferentes espaços, com diferentes sujeitos, formas de vida, que confluem, e que, sobretudo, se propõem a dar vazão a linguagens e subjetividades outras na escrita e pesquisa em educação em ciências. Através da especulação e da atentividade – entendida como a disposição de prestar atenção aos outros e responder significativamente às relações que nos constituem (Van Dooren; Kirksey; Münster, 2016), outras subjetividades florescem na direção de viver e existir, inclusive na educação em ciências e na pesquisa, resistindo ao modus operandi excessivamente moderno, universalista, racionalista e excludente, e investindo em outras linguagens e possibilidades de criações éticas, estéticas e políticas. Assim, tecemos cartas-imagens inspiradas na poética como um rigor (Sales, 2026).

A potência do gesto de escrita e leitura coletivas, que as cartas-imagens provocam, nos desloca no movimento da composição de possíveis em meio à paralisia da aceleração das ciências (Stengers, 2023), à produção exacerbada de informações e ao cansaço. O exercício de pensar e criar cartas-imagens em coletivo também é um convite para a experimentação da força compositiva que racha os limites disciplinares no ambiente universitário. A criação de cartas-imagens também dá corpo e vida ao que pode um grupo de estudos e pesquisas, além do que dele já é previamente esperado.

Experimentar-se com as cartas-imagens, individual e coletivamente, dá vazão a inconscientes coletivos e imaginários que, em seus próprios ritmos e tonalidades, tomam a questão de interesse como intervalo, vazio e oportunidade de pensamento ativo e vivo – algo que nos é tão caro hoje, ao nos alinharmos à necessidade de desacelerarmos as ciências, como aponta Stengers (2023).

Escrever-ler-criar-com em um grupo de estudos e pesquisas é possível e aponta para uma poética do envolvimento. Assim, como escrevem Santos e colaboradores (2025), Rigue e Sales (2023) e Santos, Custódio e Sales (2026), as cartas são terrenos profícuos para percebermos, pensarmos e criarmos juntos na educação em ciências.

Nesse sentido, esse fazer escritural apresenta diferentes formas de compreensão da vida, de vivências, encontros, aprendizados e deslocamentos ao utilizar cartas-imagens: uma ferramenta que possibilita o fluir do pensamento sem as amarras e pretensões acadêmicas de suposta neutralidade – as quais, por vezes, se apresentam de forma tóxica e limitadora, em conformidade com o novo regime climático e suas dinâmicas industriais. Com a criação de cartas-imagens, permitimo-nos instaurar diferentes modos de mobilização do pensamento e invenção de possíveis, na direção de práticas de educações científicas sensíveis e (trans)formadoras.

 

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[1] Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia, Brasil (2022). Professor Assistente da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3555-8026. E-mail: tiagoamaralsales@gmail.com  

[2] Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria, Brasil (2020). Professora Adjunta da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-2403-7513. E-mail: fernandarigue@ufu.br

[3] Doutorado em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria, Brasil (2023). Professor Adjunto da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2034-8034. E-mail: roger.wegner@ufu.br

[4] Mestranda no Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela Unicamp (2026-). Orcid: https://orcid.org/0009-0005-7756-2479. E-mail: erikacristinaguidomiranda@gmail.com  

[5] Bióloga pela Universidade Federal de Uberlândia (2026). Orcid: https://orcid.org/0009-0006-1882-0260. E-mail: kdanielasc10@gmail.com

[6] Doutorado em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Brasil (2019). Professora Assistente da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3405-9807 . E-mail: miliam.ferreira@ufu.br

[7] Mestre em Teorias e Interfaces Epistêmicas em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Brasil (2017). Professor do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico da Escola de Aplicação da UFPA, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6195-9774. E-mail: brenofilo@ufpa.br

[8] Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão, Brasil (2024). Professora Adjunta da Universidade Federal de Uberlândia, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7649-5028. Email: juliamoita@ufu.br

[9] Para Paola Zordan (2019, p. 35) “Os afectos sentem as intensidades, pois se dão nas sensações vividas nos encontros intensos e extensos entre os corpos. (...) se revelam na carne das coisas. Acontecem numa zona de indeterminação e na indiscernibilidade que se furta a identificações, por onde passam devires não humanos. (...) Os afectos são afecções transmutadas, que devêm compostos de sensações”.

[10] Perceptos “[...] são paisagens, figuras e visões, anteriores aos homens, percepções tomadas tão intensas que se sustentam por si mesmas” (Zordan, 2019, p. 35).

[11] Para saber mais: WEGNER, Roger da Silva, et al. The influence of transformational leadership for environmental sustainability on organizational citizenship behaviors. Revista Brasileira de Gestão de Negócios, v. 27, n. 2, p. e20230143, 2025.