Pesquisar como entramar: gestos diariados, colagens e cartografias entre práticas e Políticas de Educação Especial Inclusiva

 

Researching how to intertwine: gestures and cartographies between practices and policies of inclusive special education

 

Anelice Ribetto[1]

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

Raquel Reis[2]

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

PMN-RJ /PMSG-RJ

 

Resumo

Este texto parte de uma pesquisa produzida numa Universidade Pública do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Valendo-se de uma aposta cartográfica (como trama), a pesquisa se desenhou a partir do conceito de rizoma (Deleuze;Guattari, 2011) traçando linhas entre relações que iam sendo produzidas com o mundo, com a vida, com  a escola e entrando pelo meio, no campo da educação na diferença. Esse movimento se fez pela escrita de diários trazidos como imagem (em transparência) de um mural escolar e por meio de colagens, dispositivos que contam o modo de fazer uma pesquisa movimentada como teia, multiplicando pensamentos de duas autoras que de maneira implicada se perguntam: Como produzir uma pesquisa como gestos e em tramas? Como as Políticas se amarram com a vida? Ensaia-se, assim, uma trama com três dispositivos legais: a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), a Carta Regimento da Rede de Educação de Niterói (2015) e a Deliberação de n.35/2017. Sem desconsiderar a importância de outros modos acadêmicos de pesquisar, trazemos uma composição de gestos no sentido que Agamben (2008, 2017 e 2018) dá a esse conceito, para pensar as tramas de uma pedagoga entre políticas e gestos com professoras, famílias e estudantes diagnosticados com deficiência numa escola pública em Niterói/ RJ. Tais tramas possibilitaram pensar a produção de conhecimentos como gesto de pesquisa e a expandir a palavra incluir num sentido mais ético (como gesto) do que normativo/técnico no meio da relação educativa.

 

Palavras-chave: Políticas; Gestos; Rizoma, Educação Especial Inclusiva.

 

 Abstract

This text stems from research conducted at a public university in the State of Rio de Janeiro, Brazil. Using a cartographic approach (as a web), the research was designed based on the concept of the rhizome (Deleuze;Guattari, 2011), tracing lines between relationships that were being produced with the world, with life, with school... entering through the middle, into the field of education in difference. This movement was carried out through the writing of diaries presented as images (in transparency) on a school mural and through collages, devices that recount the way of conducting research that moves like a web, multiplying the thoughts of two authors who, in an implicated way, ask themselves: How to produce research as gestures and in webs? How do policies connect with life? Thus, a web is explored using three legal instruments: the National Policy on Special Education from the Perspective of Inclusive Education (2008), the Charter of Regulations of the Niterói Education Network (2015), and Deliberation No. 35/2017. Without disregarding the importance of other academic research methods, we present a composition of gestures, in the sense that Agamben (2008, 2017 and 2018) gives to this concept, to consider the interplay of a pedagogue between politics and gestures with teachers, families, and students diagnosed with disabilities in a public school in Niterói/RJ. These interplays made it possible to consider the production of knowledge as a research gesture and to expand the word "include" in a more ethical sense (as a gesture) than in a normative/technical sense within the educational relationship.

 

Keywords: Policies; Gestures; Rhizome; Inclusive Special Education.

 

Tramas em aberturas

        Esta escrita à quatro mãos, é parte de um trabalho de pesquisa que une a trama de pensamentos de duas autoras na aposta de modos de fazer uma tese de doutorado num Programa de Pós Graduação em Educação numa Universidade Pública/ Brasil. Valendo-se de uma aposta cartográfica (como trama), a pesquisa, se desenhou diariando e traçando linhas entre as relações que iam sendo produzidas com o mundo, com a vida, com  a escola, com a universidade e com... com...

A partir do conceito de rizoma (Deleuze, Guattari, 2011) entra, no meio, o campo da educação na diferença desde o fazer a pesquisa (metodologia) como uma experiência de formação, sentindo-a como uma trama de gestos: algo que foi crescendo e alinhavando escola e universidade e que reuniu duas mulheres pesquisadoras: uma professora universitária de uma instituição superior pública que coordena a pesquisa e uma pedagoga que conta a trama de gestos produzidos entre políticas inclusivas com professoras, famílias e estudantes diagnosticados com deficiência numa escola pública em Niterói/ RJ. Apostando na trama com as políticas pensamos um sentido outro, mais relacional do que normativo, técnico nos encontros. Assim, se abrindo ao processo de pesquisar como gestos e concebendo a diferença como campo problemático, algo que está para além dos termos prescritos nas legislações, entrecruzamos uma conversa  entre políticas e gestos, acolhendo três linhas institucionais: a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008[3]), a Carta Regimento da Rede Municipal (Niterói, Deliberação, 031/2015) que prescreve as atribuições de uma pedagoga, e a Deliberação n.035/2017 que regulamenta a inclusão de estudantes com deficiência nessa rede. Pensando as políticas para além do que já se pensa saber sobre elas no campo da ação legal, produzimos “um método de tipo rizoma” (Deleuze, Guattari, 2011, p. 23).

Pensamos a política inclusiva investindo na esfera dos gestos no sentido que Agamben (2008) dá a esse termo: algo que “se inscreve na esfera da ação, mas [se] distingue claramente do agir e do fazer” (p. 12) como meta ou finalidade. “O gesto rompe a falsa alternativa entre fins e meios que paralisa a moral e apresenta meios [...] sem se tornarem por isso, fins” (Agamben, 2008, p. 13). O gesto, por isso, “faz aparecer um meio [...] e desse modo abre a dimensão ética” (Agamben, 2017, p. 59) de um fazer. Esticando as tramas do pensar nos perguntamos: como uma pesquisa se materializa como uma trama de gestos? E ainda: Como as Políticas se amarram com a vida?

Figura 1- Diário em Tramas

Gestos, apenas gestos... Quais por exemplo Bom, neste momento me ocorrem alguns. Fico a pensar... Cada vez que leio um texto ou componho colagens, ou abro o computador para escrever, recorto papéi

Fonte : Arquivo Pessoal

 

         Como pesquisadoras, acreditamos que um texto, um artigo, um livro ou uma tese faz conexões múltiplas, portanto, não se produz como um saber estruturado apenas academicamente. Ele cresce entre [no meio] de múltiplos sentidos e de um conjunto relações que entramos. Curioso como nesse meio, o conhecimento “já não é de ninguém”, mas “está entre todo mundo” (Deleuze; Parnet, 1998, p. 17). Isso também é o que nos conta Machado (2010), fazendo agenciamentos com Deleuze, ao afirmar “os diferentes modos de exercício do pensamento a partir da produção filosófica, literária, artística e até mesmo científica”(p. 11) e nos lembra que: “não existe privilégio [nem superioridade] de uma dessas disciplinas sobre as outras. Cada uma delas é criadora” (p. 14). É assim que pensamos, portanto, a relação com o conhecimento e a feitura de uma pesquisa: o conhecimento  sobre o mundo é sentido, é pensado, é um saber que se produz entre. É trama! É gesto! É conexão! É rizoma!  Desse modo, assumindo outras possibilidades numa produção investigativa que se liga “com qualquer outro ponto, e deve sê-lo” (Deleuze; Guattari, 2011, p. 22), trazemos dois gestos que criaram rizoma numa tese contando o fazer de uma pesquisa escrita entre diários a partir de uma imagem (em transparência) de um mural escolar, e por produção de colagens.

Tramando um gesto: Colagens e diários como modo de fazer pesquisa

 

        Como se compõe uma pesquisa em seu caminho de tramar gestos? Se pesquisar é uma composição de gestos que nos afeta em meio a vida, compor um gesto de pesquisa, tem a ver com sentir o processo. É como nos conta Kastrup (2023, p. 167) quando expressa que: “a prática da escrita vai criando, a um só tempo, o texto escrito e aquele que o escreve”. Num mesmo movimento o gesto de pesquisar produz as pesquisadoras e o texto. Mas, vejam bem:

 

Não é simples colocar a experiência cartográfica num texto escrito. Não falamos da dificuldade em compreender teoricamente as pistas do método da cartografia, mas de narrar a experiência cartográfica e escapar da política cognitiva da representação (Kastrup, 2023, p. 165).

 

 

       Para dar lugar aos gestos, assumimos ao pesquisar um modo de investigação que difere de um método programado, estabelecido. Apostamos em conexões que fluam junto com a vida na pesquisa, algo que expresse uma maneira sensível permitido sentir/contar o processo em conexão com o viver. Por isso, ganhou força em nossa produção a cartografia como um dos princípios do rizoma, pois, como afirmam Deleuze e Guattari (2011), a cartografia remete-nos à multiplicidade - ideia contida também na noção de rizoma. É preciso, no entanto, chamar atenção que não há tentativa de estabelecer um método quando falamos da cartografia aqui. A cartografia não se pauta em um método mas em possibilidades de caminhos. Eis nosso desafio! A cartografia aqui não se trata de uma ferramenta instrumental, técnica, trata-se de uma posição ética. Esse mesmo pensamento é explicitado num texto de Bedin Costa (2020) chamado: “A cartografia parece ser mais uma ética (e uma política) do que uma metodologia de pesquisa”. Nas palavras deste autor:

 

Embora pesquisadoras e pesquisadores, especialmente no Brasil, tenham assumido a cartografia como um método de investigação, o que se lê em Deleuze e Guattari é uma série de apontamentos em prol do que poderíamos chamar de uma ética cartográfica, aqui sustentada como um lugar de partida, e não de chegada (Costa, 2020, p. 11).

 

 

      Num gesto de conversa, Costa (2020) sustenta a diferença entre a produção de uma ética cartográfica e a forma metodológica chamada cartografia. Para ele, a cartografia “trata-se de uma posição ética porque coloca em questão o próprio sujeito operador de uma intervenção, na medida em que ele também se assume enquanto uma instituição a ser analisada (2020, p. 14). A perspectiva ética nada tem a ver com a moral “não diz respeito aos códigos de ética que norteiam determinadas práticas profissionais, uma vez que estes, embora importantes, situam-se no domínio dos deveres, e não necessariamente dos devires, que é onde as linhas de fuga se fazem [...] (p. 14).  Apesar de não haver uma ideia estabelecida sobre o que seria ética no pensamento de Deleuze, podemos distingui-la da moral, pois, segundo Costa, (2020) a ética nos aproxima da ideia de liberdade (criação de possibilidades de relação com o mundo) e de um ethos como um movimento de experimentação, de partida, “não enquanto morada do ser, não é um lugar de chegada a ser ocupado” (p. 15).

           Ousamos dizer que ao tramarmos uma ética cartográfica em nossas pesquisas nos lançamos num emaranhado de linhas, relações e sentidos que nos compõe e compõem simultaneamente nossos desejos de pesquisa e aí, para além de um método, “é necessário pensarmos no quanto estamos eticamente dispostos a experimentar e a suportar o mundo em sua imprevisibilidade e variação” (Costa, 2020, p. 14), pois, somos nós mesmos que seguimos as tramas combinando diferentes efeitos que nos acontecem. Uma outra pessoa fazendo a mesma pesquisa certamente produziria tramas nada iguais, pois, seria afetada por outras possibilidades, composições, outras tramas. Assim, a pesquisa cartográfica não se pretende um método, muito menos um método universal. Então, desde o tecer das palavras algo nos passa entre o processo de pesquisar e tramar nossas linhas de vida, de força, de formação nos fazendo pensar a pesquisa como acontecimento.

 

Figura 2 - Tramas gestuais com colagens.

Fonte: Arquivo Pessoal

 

Com Deleuze e Guattari, pensamos que uma composição, um texto qualquer é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes (Deleuze; Guattari, 2011, p. 18). É um agenciamento, dado que num plano implicacional a produção de conhecimentos se mistura com as linhas de vida, com a vida corriqueira dessas pesquisadoras. Assim, o texto torna-se multiplicidade. “O livro [o artigo]  imita o mundo, como a arte, a natureza: por procedimentos que lhe são próprios” (Deleuze; Guattari, 2011, p. 19). Tudo ganha uma enorme complexidade e uma força singular que não está dada de antemão, mas se produz por uma infinidade de sentidos no experimentar os processos em curso.

Desse modo, os gestos se anunciam desde uma escolha ética em como escrevemos, quais materiais escolhemos, com as afetações, com as leituras que compõem o entramar da escrita; com as nossas mãos que digitam o teclado do computador; da caneta que anota um pensamento potente.... É como se o gesto de pesquisar ao mesmo tempo se conectasse ao mundo inteiro como algo que vai além de uma utilidade ou eficácia. A escrita, os encontros, os pensamentos, a produção de colagens etc... tudo se cria enquanto tramas gestuais.

              Lendo Deleuze e Guattari, também cruzamos linhas com Fuão (2011) que nos possibilitou pensar a colagem como modo de fazer pesquisa, já que a produção de colagens não é uma técnica, não é algo que apenas faz unir pedaços de papéis ou qualquer material como um procedimento, senão, como um gesto que no meio conta sua beleza, pois, cada movimento é carregado de forças, muitas vezes desconhecidas. Na colagem uma imagem pode remeter a encontros pessoais, viagens, sensações e, ao mesmo tempo, podemos nos descobrir outros. A colagem torna-se um processo de criação na pesquisa, um modo de deixar o mundo falar através das imagens. O gesto de colar também não se remete a algo simplista ou técnico como ação: de recortar, colar, separar, unir, num jogo de binarismos ignorando o que se dá no meio dessas etapas. O gesto de colar em nossa pesquisa foi ensaiado a partir da escolha de alguns materiais: fotografias impressas, desenhos de crianças, objetos com texturas múltiplas, linhas , folhas etc. que singularizaram o processo de pesquisar.

           Mas, importa dizer que o sentido da colagem não está na beleza, na perfeição, o “sentido da colagem está justamente na imperfeição [...] na improvisação, na interrogação eterna” (Fuão, 2011, p. 67) que vai dando novos sentidos, pois “mesmo antes de ser colada cada coisa já está dentro de outra coisa” (p. 67). A processualidade da colagem numa pesquisa nos possibilita pensar que também colamos pensamentos ao escolhermos citações, autores com os quais expandimos nossos problemas de pesquisa, cortamos e recortamos, fazemos conexões.

 

Escrever como um gesto (diariar) ... como assim?

Tramar uma pesquisa é também urdir sua escrita, esboçar linhas, pensamentos, perpassando o texto para além dos modos de organização convencional. Não disfarçar o que se sente na escrita. Desse modo, uma pesquisa por meio de uma escrita diariada e colada pode  produzir experiência formativa. Pôde, por exemplo, fazer conexões dos encontros entre uma pedagoga que tem toda sua formação tensionada junto às famílias, professoras e estudantes diagnosticados com deficiência na escola para tramar gestos entre aquilo que está no planejamento pedagógico, nas leis, na atuação de uma pedagoga, mas também nos encontros que parecem não pertencer a nenhuma regulamentação jurídica ao estar com os outros. Mas essa formação também se tece por entre gestos que, no processo, contam a forma singular de uma pedagoga por entre as regulamentações de uma função oficial, as políticas e a relação educativa com os outros.

Já dissemos que enquanto pensamos a produção da pesquisa expomos o que se passa em nós ao escrevê-la. Com isso sentimos que a pesquisa se faz por entre urdiduras como um dispositivo de linhas (experiências) cujos fios correm por baixo e por cima, desenham a trama da vida por entradas múltiplas. Por isso, se faz importante dizer que no processo de compor uma pesquisa escrita em diários, nos acompanhou com força, a imagem de um mural escolar produzido pelas crianças. Imagem (reverberada) que tornou-se uma criação através de um recurso virtual chamado Canva, um dispositivo que nos permitiu trazer esteticamente ao fundo dos diários, a transparência que se conecta a um sentido tramado entre a força da escrita e a experiência vivida na escola.

Vale a pena dizer que tais produções experimentadas sustentaram, por isso, o ethos metodológico, político, estético na produção de uma pesquisa nos ajudando a tecer um contar entre encontros e tornando-se parte de nossos gestos e escritas.

            Escrever não é algo simples, então, quando a escrita se torna um gesto numa pesquisa? Quando escrever não é pensado apenas como mera ação, um sistema, um código, mas quando “sobrevém o titubeio, a dúvida, a palavra partida ao meio, a afirmação da fragilidade” (Skliar, 2014a, p. 140), algo transborda ali e o desejo do corpo falar, faz aparecer gestos... um olhar possível acolhedor de sensações das quais não se sabe… o que faz tremer e treme na escrita de uma pesquisa?

 

Figura 3: Diário em Tramas:

Fonte: Arquivo Pessoal

 

O gesto de escrita vai expressando desde os dilemas da própria atuação no contexto educativo até algo que surge como imprevisível. Ao escrever atualizamos a experiência que nos atravessa e tentamos colocar nas palavras o que sentimos em meio às experiências produzidas nos encontros na universidade, na escola, nos planejamentos com professoras, na conversa com as famílias, com os estudantes, com instituições, com leituras, com a escrita. A partir dos dilemas, histórias de vida, conhecimentos etc.. vamos produzindo gestos.

 

É então isso, pintar, compor, escrever? Tudo é questão de linha, não há diferença considerável entre a pintura, a música e a escritura. Essas atividades se distinguem por suas substâncias, seus códigos e suas territorialidades respectivas, mas não pela linha abstrata que traçam que corre entre elas e as leva para um destino comum (Deleuze; Parnet, 1998, p. 88).

 

Depois dessa citação só podemos dizer que a escrita, no sentido que nos convida a pensar Deleuze e Parnet (1998), é também um gesto vital, algo que não se move apenas pelo funcionamento/movimento das mãos. A escrita faz rizomas! No meio de muitas atividades, ela cruza diferentes potências que habitam um corpo. O gesto de escrever torna-se tão vital quanto outras atividades: falar, comer, caminhar... Há forças que desenham múltiplas linhas abrindo passagens, processos de criação, entrelinhas na vida. Linhas que correm, envolvem, traçam algo na profundidade daquilo que se tece.

 O gesto de escrever não é algo que tem a ver com uma ação técnica ou mesmo de interpretação ou comunicação. Aí pode haver talvez, letras, mas não gestos. Às vezes nos acontece o seguinte: no meio de uma escrita, tentamos dizer (numa primeira preocupação gramatical) aquilo que remeta algum sentido ou informação para quem lê, mas, por vezes, ao continuar o movimento de escrever temos a sensação de que algo ali é indizível, escapa o domínio da técnica gramatical da escrita e nos perguntamos, como é que vamos contar isso? As palavras desaparecem no instante em que tudo pareceria ser interpretado como código pela escrita. Mas também percebemos, por vezes, algo incrível no meio de uma escrita: ela vai mostrando generosamente um movimento: mostra sensações indecifráveis daquilo que se deixou escrever, mostra no meio nossas mãos, nosso olhar, nosso rosto e vai se tornando outra... É que no meio, a escrita se tornou um gesto, uma força, uma expressividade num instante jamais capturado, justamente porque, agora, não é traçada como mera ação: se tornou nesse entre, gestualidades, pelo muito afeta e anda com a vida.

 

De como se entramam Políticas e gestos

 

  Numa pesquisa que transborda o escrito apostamos, assim, em pinçar, cortar palavras citadas na Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) fazendo tramas com os modos em que uma pedagoga produz os gestos de educar junto aos outros. Ao cortar e colar palavras sentimos que uma palavra também pode ser tramada em sentidos diferentes: pode ser pensada como ações jurídicas, pode ser pensada como ação pedagógica do ponto de vista de um Regimento que prescreve as atribuições de uma pedagoga numa rede de educação, ou pode ainda ser pensada como gestos produzindo um terceiro sentido.

         Somos atravessadas por dispositivos (jurídicos, institucionais, normativos etc...) e com eles compomos algo na escola. De algum modo essas linhas entram na relação educativa passando por todos os lugares e produzindo um vai e vem. As legislações são dispositivos com os quais operamos e que nos permitem pensar o campo inclusivo entre nossas práticas como uma meada. Falamos exatamente disto: de uma multiplicidade de linhas que compõem uma trama no interior de um fazer pedagógico. A dimensão política e a trama de gestos é uma conexão, um agenciamento entre linhas. São tramas que se cruzam e se multiplicam dentro de uma rede de sentidos. No meio, produzimos algo (e não apenas ações da lei).

             Escolhemos aqui, então, a palavra incluir para pensar como essa palavra coexiste com nossos gestos. Incluir é uma palavra política, uma palavra pedagógica ou pode ser uma palavra  tramada com algo dentro?

 

Incluir (uma ação discursiva no plano da política pública?)

O movimento mundial pela educação inclusiva é uma ação política, cultural, social e pedagógica desencadeada em defesa de todos os estudantes, estarem juntos, aprendendo e participando sem nenhum tipo de discriminação.” (Brasil, 2008, n.p. Grifo nosso)

 

  § 2º. As Unidades de Educação que integram o Sistema Municipal de Ensino de Niterói devem garantir a matrícula dos alunos, cabendo às escolas organizarem-se para a inclusão em classes regulares de ensino [...] aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos. (Niterói, Deliberação CME 035/2017 n. p. Grifo nosso)

 

Incluir (uma ação pedagógica no plano da regulamentação da função oficial?)

                                         Art. 43- São atribuições do pedagogo:

VII- Acompanhar o processo de desenvolvimento dos alunos em colaboração com os professores, demais profissionais da educação, pais, responsáveis, fazendo as mediações necessárias. (Niterói, Deliberação CME 031/2015. Grifo nosso)

 

 Incluir: pode ser um gesto? (um gesto forjado na trama da escola?)

 

Figura 4: Diário em Tramas

 

Março de 2023. Passo pelo pátio da escola, vejo as crianças do quarto ano brincando, dou bom dia à elas e subo as escadas em direção a uma das turmas de terceiro ano para entregar bilhetes sobre a

 

 Fonte: Arquivo Pessoal

        É aí que nos perguntamos pelos gestos. 

       (En) tramemos...

 

 

Figura 5: Tramas gestuais com colagens

Fonte: Arquivo pessoal

 

 Um gesto sustentado no mínimo: para pronunciar uma trama pedagógica

 

Art. 53: São atribuições do pedagogo:

VII- Acompanhar o processo de desenvolvimento dos alunos em colaboração com os professores, demais profissionais da educação [...] (Niterói, Deliberação CME 031/2015)

 

Um aviso a ser entregue às professoras... um bilhete aos pais dos estudantes da turma comunicando algo. Uma ação tão rotineira, repetida em qualquer escola. O que nos surpreende na experiência de educar?

Os gestos.

          “Acompanhar o processo de desenvolvimento dos alunos” (Niterói, Deliberação, CME, n. 031/2015) pode ser muita coisa nesta experiência que trazemos. Isso traduziu-se para nós em gestos mínimos: olhar para a sala de aula, conversar com professoras, perceber um acontecimento, sentir os sorrisos dos estudantes em relação à descoberta do amigo, ver a alegria da professora que diariamente atua como mediadora e não se conteve por sentir “os pequenos sucessos” de um saber; perceber o leve sorriso do menino que apresentou um saber “mínimo” diante de outros saberes requeridos no sistema escolar! Gestos que escapam à escrita oficial impossíveis de serem medidos pelas atribuições de uma pedagoga!

            Como calcular o tamanho, a medida de uma alegria, quando se trata de alguém que, para além de ser incluído por uma professora, uma pedagoga, uma escola, vivencia no interior de uma relação educativa o mínimo que não pode ser visto por um simples olhar da lei, mas por um olhar que brota no meio, entra no meio do campo oficial, coexiste com pequenos gestos?

Gestos que requerem tempo, cuidado, espera...

Gestos que enunciam uma relação ética com aquilo que se faz para além da inclusão como palavra capturada pelas políticas oficiais. Incluir é também produzir pequenos gestos! Gestos mínimos no meio da enormidade de tarefas pedagógicas!             Gestos silenciosos que, às vezes, nada têm a ver com ações e objetivos prescritos e esperados. Quando falamos de gestos detemo-nos de novo ao pensamento de Agamben que não chama de gesto “qualquer movimento corpóreo, em particular os movimentos que tendem a exprimir um significado” (Agamben, 2018, p. 2). O gesto não conhece a dualidade entre fins e meios. Ele acontece entramado!

Não é um gesto apenas o movimento feito pelo braço do menino que se levantou com a finalidade de levar à boca a garrafa de água, é o que está entramado ali como algo que não é a simples repetição de um movimento, mas um acontecimento movimentado no curso de muitos encontros educativos: encontros de corpos, olhares, práticas, sorrisos, tensões que sustentam toda uma trajetória escolar nada regular.

 O gesto do menino está para uma relação além de um objetivo ou finalidade, apesar de no meio responder a um saber que foi considerado necessário pedagogicamente.

 A ação tem objetivo, meta. O gesto esvazia esse lugar e só acontece entramado. O gesto ali existe no meio de um sem número de processos de acompanhamentos. No meio esse gesto exibe sua beleza. O gesto é ali abertura de algo misturado a outros gestos tecidos diariamente em sala, no entre das conversas que tivemos com a família, nos planejamentos, entre relações produzidas com os colegas da turma e tudo o que mais tornou possível conectar os movimentos singulares de um corpo.

             Ao nos perguntarmos por inclusão na escola pensamos que as Políticas - se percebidas apenas como um código de comunicação de direitos - podem se apresentar apenas como uma ação (longe da esfera do gesto descrito por Agamben)

 

Mas o que é uma política pública? [...] É possível considerá-las como estratégias que apontam para diversos fins, todos eles de alguma forma, desejados por diversos grupos [...] Com uma perspectiva mais operacional, poderíamos dizer que ela é um sistema de decisões públicas que visa ações ou omissões preventivas ou corretivas destinadas a manter ou modificar a realidade [...] por meio da definição de objetivos e estratégias [...] necessárias para atingir os objetivos estabelecidos (Saraiva, 2006, p. 29 grifo nosso).

 

 

           É preciso esclarecer que ao pensarmos por entre gestos e políticas não temos por objetivo compará-los a partir de dimensões quantitativas. Não se trata disso, senão de pensarmos nessas possibilidades entramadas. “Há alguém ali, por dentro do que é dito, por dentro do que é escrito” (Skliar, 2014a, p. 22).  Há uma diferença entre fazer algo como uma ação resumida a uma finalidade, ou uma ação oficial, institucional, como, por exemplo, “incluir” dentro da ação meramente jurídica da lei enquanto dispositivo de uma estrutura política e formal, e “una ética singular, una ética de la responsabilidade, de la afectación” (Skliar, 2017, p. 45).

             Diz Skliar (2017, p. 45) que “ ‘inclusión’ es una palavra que sobra, que no necessita ser enunciada”. Isto porque mais do que pensar a inclusão como ação vinculada a uma política de direitos, um acesso universal quanto à entrada de pessoas com deficiência na escola, ou de grandes transformações pedagógicas; mais do que currículos, didáticas, capacitações e programas, parece ficar claro que não precisaríamos falar de inclusão (como ação da política) se o gesto de estar juntos fosse algo fundante nas relações educativas para qualquer um/uma.

              Assim, os gestos sensíveis que compõem essa experiência, gestos como: conversar, olhar, sorrir, ajustar um horário para possibilitar uma alimentação dentro de uma temporalidade outra, acompanhar, ser paciente, estar ali e, talvez, calar... são gestos que ampliam com muito mais potência a dimensão do que habitualmente temos chamado de inclusão nas escolas.

           No meio das experiências de educar há gestos e não apenas ações determinadas. Podemos ainda tomar a ideia de gestos aqui para pensar a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008).          Encontramos aqui uma difícil questão, pois, não importa o que a lei fala, mas o que ela agencia com a vida.

           Escrevendo esse texto pensamos que a lei pode ser vista como um gesto, quando, por exemplo, a expandimos sem que ela se trate de um simples registro, pois, no meio de sua emergência histórica, há gestos que não são vistos por dentro dos documentos oficiais, gestualidades de mães, familiares de pessoas com deficiência, que certamente esbravejaram; lutaram numa época em que a escola era negada para seus filhos e filhas.  Nesse processo, como um agenciamento, a lei é uma potência, é uma expressão política que possibilita abrir novas formas de posicionamento no mundo. Pensada dessa forma considero que a lei possa ser um gesto, mas, habitualmente temos percebido que ela opera muito mais como ação da norma. E “o político não nos preexiste”, lembra Skliar (2014a). “É alinhavado na duração de cada encontro [...] O político acaba ali onde homens e mulheres deixam de olhar-se [...] deixam de fazer coisas juntos” (p. 36).

 

Alguém poderia argumentar, e com justa razão, que primeiro se trata de “forçar” de uma vez o ingresso desta população nas instituições educacionais. Depois caberia desenvolver estratégias de formação, didáticas, programas e currículos adequados para que a convivência e a inclusão sejam significativas. Não acredito, honestamente, que sejam processos diferentes e /ou consecutivo, ou derivados um do outro. Não acredito que primeiro seja necessário “incluir” e depois pensar do que se trata o “habitar” e o estar juntos na escola  (Skliar, 2015, p. 5).

 

 

              Acreditamos que incluir é uma trama de gestos sensíveis que faz aparecer algo novo no meio do que fazemos numa relação educativa. Não é uma ação já instituída, prescrita ou relacionada à atribuições pedagógicas, mas algo que se passa entre elas.

            Gostamos de pensar, por isso, que as atribuições de uma pedagoga, talvez, sejam regidas por tramas mínimas, entramadas, talvez, cartografadas por gestos mais sensíveis, onde, por exemplo, acompanhar o processo possa ser também algo pequeno no meio das práticas pedagógicas do cotidiano escolar.

          “Talvez “nos hacen falta los gestos mínimos para educar, para educar a cualquiera” (Skliar, 2014b, p. 79)

            Sustentaríamos gestos mínimos em nossas tramas de educar?

            Podemos gestar um gesto?

           

 

REFERÊNCIAS

AGAMBEN. Giórgio. Notas sobre o gesto. Artefilosofia. Ouro Preto, n. 04, p. 09-14, jan. 2008. Publicado originalmente em: AGAMBEN, Giorgio. MEZZI senza fine. Note Sulla política. Torino: Bollati Boringhieri, 1996, p. 45-53. Disponível em: https://periodicos.ufop.br/raf/article/view/731/687 Acesso em: Julho de 2025.

 

AGAMBEN. Giórgio. Meios sem fim. Notas sobre a Política. Tradução Davi Pessoa Carneiro. Revisão da Tradução: Cláudio Oliveira. 1 ed. 3. reimp. Belo Horizonte: (FilÔ /Agamben) Autêntica Editora, 2017.

 

AGAMBEN. Giórgio. Por uma Ontologia e uma Política do gesto. Tradução de Vinícius Honesko. Revisão de Bernardo RB. Série Intempestiva. Caderno de Leituras. n. 76, 2018.

 

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[1] Doutora em Educação e Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora procientista da mesma instituição. Lotada no Departamento de Educação da Faculdade do Formação de Professores (UERJ/FFP/DEDU) participa de projetos de ensino, pesquisa e extensão na Licenciatura em Pedagogia e atua como professora efetiva na Linha Políticas, Direitos e Desigualdades do Programa de Pós-Graduação em Educação - Processos formativos e desigualdades sociais do qual foi coordenadora desde 2016 até 2020. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1097-4880. E-mail: anelatina@gmail.com.

[2] Doutora em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação-Processos Formativos e Desigualdades Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pedagoga da Rede Pública de Educação de Niterói e Professora Orientadora Educacional da Rede Municipal de Educação de São Gonçalo. Membro do Coletivo Diferenças e Alteridade na educação. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9550-6183. E-mail: raquel.rosa.reis@gmail.com.

[3] Vale dizer que trabalhamos com a PNEEPEI (2008) pois era a Política em vigência até o processo de finalização da pesquisa, quando foi instituída nova Politica intitulada: Politica Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva por meio do Decreto n. 12.686 em 20 de outubro de 2025.