A Poética do Espaço de Gaston Bachelard: a colagem como método para compreensão e ampliação de conceitos em arquitetura e urbanismo
The Poetics of Space by Gaston Bachelard: collage as a method for understanding and expandig concepts in architecture and urbanism
Marina Belloli Pedroso[1]
Universidade Federal de Santa Maria
Samara Baggiotto[2]
Universidade Federal de Santa Maria
Ana Elisa Moraes Souto[3]
Universidade Federal de Santa Maria
Josicler Orbem Alberton[4]
Universidade Federal de Santa Maria
Resumo
Este artigo parte do contexto dos Cursos de Arquitetura e Urbanismo, nos quais a obra A Poética do
Espaço, de Gaston Bachelard, constitui-se como referência fundamental para as reflexões sobre o espaço vivido. Observa-se, contudo, que muitos estudantes de graduação e pós-graduação deixam de aprofundar-se nesse texto em razão de sua densidade conceitual e linguagem poética. Diante disso, o objetivo deste trabalho é destacar as principais elaborações teóricas do autor que dialogam com o universo da arquitetura por meio de um procedimento metodológico que utiliza a colagem como ferramenta de interpretação e síntese. Como resultados, emergem narrativas visuais que representam conceitos centrais da obra, revelando sua importância para a formação crítica e projetual nos cursos de arquitetura e urbanismo. Conclui-se que a colagem se configura não apenas como recurso didático, mas como prática investigativa capaz de ampliar as leituras do espaço arquitetônico e reafirmar as visualidades como linguagem legítima na produção acadêmica.
Palavras-chave: Gaston Bachelard; Procedimento metodológico; Colagem; Arquitetura e urbanismo.
Abstract
This article stems from the context of Architecture and Urbanism programs, in which Gaston Bachelard’s The Poetics of Space stands as a fundamental reference for reflections on lived space. However, it is observed that many undergraduate and graduate students refrain from delving deeply into this text due to its conceptual density and poetic language. In this regard, the objective of this study is to highlight the author’s main theoretical elaborations that dialogue with the architectural field, through a methodological approach that employs collage as a tool for interpretation and synthesis. As a result, visual narratives emerge that represent central concepts of the work, revealing its relevance for critical and design education in architecture and urbanism. It is concluded that collage functions not only as a didactic resource, but also as an investigative practice capable of broadening interpretations of architectural space and reaffirming visuality as a legitimate language in academic production.
Keywords: Gaston Bachelard; Methodological procedure; Collage; Architecture and urbanism.
A Poética do Espaço, do filósofo francês Gaston Bachelard, tornou-se referência na Arquitetura e Urbanismo por sua abordagem subjetiva do espaço vivido. Distanciando-se das leituras técnicas tradicionais, na obra o autor propõe uma compreensão poética do espaço a partir da imaginação, memória e devaneio. Apesar de frequentemente incluída nas ementas das disciplinas dos cursos, sua leitura é desafiadora para estudantes não familiarizados com textos mais densos e filosóficos. Essa dificuldade, somada às exigências curriculares intensas, faz com que a maioria dos alunos não conheça a obra, nem mesmo de modo superficial. Além disso, durante a graduação, o estudante de arquitetura e urbanismo passa por um processo formativo que valoriza a produção de materiais visuais, sobretudo os que abordam a representação projetual, relegando, quase sempre, a leitura e a produção textual ao segundo plano.
Nesse contexto, torna-se fundamental buscar estratégias didáticas que ampliem as possibilidades de leitura e interpretação de obras complexas, utilizando formas de compreensão que vão além da linguagem verbal. Com base na ideia de que a imagem pode ser uma forma autônoma de pensamento (Cunha, 2015), este artigo parte do pressuposto de que a técnica da colagem pode ser uma ferramenta potente para a apreensão dos conceitos, neste caso da obra de Bachelard (1993), ao mesmo tempo em que valoriza o conhecimento e as habilidades visuais dos estudantes de arquitetura.
Este artigo surge a partir da experiência das autoras em uma disciplina da Pós-graduação em Arquitetura Urbanismo e Paisagismo na qual foi proposta a criação de um baralho de imagens a partir das principais elaborações teóricas de alguns livros centrais para esta área do conhecimento. Ademais, a partir de uma busca exploratória por artigos que tratam de temas relacionados ao autor Gaston Bachelard, identificaram-se trabalhos que fazem referência às obras do filósofo.
Cattani (2005), por exemplo, discute as influências de Gaston Bachelard no desenvolvimento do pensamento arquitetônico ao mesmo tempo que, Rocha e Souza (2021) propõem um paralelo entre o filósofo francês Gaston Bachelard e o brasileiro Evaldo Coutinho, explorando como ambos se relacionaram com a arquitetura a partir de suas respectivas abordagens filosóficas. Essas pesquisas representam uma amostra dos resultados encontrados que apontam para uma ausência de artigos científicos nacionais que abordem, especificamente, a obra A Poética do Espaço.
Dessa forma, o objetivo deste artigo consiste em tecer reflexões sobre as elaborações teóricas de Gaston Bachelard encontradas no livro A poética do Espaço por meio da utilização de um procedimento metodológico que adota a técnica da colagem como ferramenta para a compreensão de ideias centrais. O ineditismo desta pesquisa encontra-se tanto na sua contribuição para as discussões sobre essa obra quanto na apresentação da colagem como recurso investigativo, capaz de favorecer a síntese, estimular novas interpretações e legitimar o papel das visualidades na produção do conhecimento. O texto organiza-se em uma seção de fundamentação teórica, seguida pela descrição dos procedimentos metodológicos, apresentação dos resultados e considerações finais.
Gaston Bachelard e as contribuições de sua obra para a arquitetura
O filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962) construiu sua trajetória através da articulação entre ciência, imaginação e poesia. Sua obra costuma ser dividida em duas categorias: a diurna, voltada à epistemologia das ciências e à análise racional do conhecimento; e a noturna, dedicada à arte, à imaginação e ao devaneio poético (Cattani, 2005). É nesta segunda vertente que propõe uma leitura sensível da experiência humana, fundamentada na fenomenologia da imaginação e na potência simbólica dos espaços vividos.
Formado em física e matemática, Bachelard atuou como professor de ciências antes de se dedicar à filosofia e aos estudos sobre a construção do conhecimento científico (Costa, 1998). Com base em suas investigações no campo da epistemologia das ciências, publicou obras fundamentais sobre o pensamento racional. A partir da década de 1930, no entanto, Bachelard passou a explorar uma nova vertente de reflexão, centrada na imaginação e na subjetividade. Essa mudança em sua trajetória intelectual o conduziu à elaboração de uma filosofia poética, cuja dupla abordagem tornou-se marca essencial de sua obra.
Por situar-se entre a engenharia e a arte, a arquitetura enfrenta desafios relacionados a ambas as esferas do conhecimento (Furtado, 2005). Esse diálogo estimula novas compreensões do habitar, como a topoanálise proposta por Bachelard, e citada por autores consagrados da área, como Juhani Pallasmaa e o geógrafo Yi-Fu Tuan (1930–2022), autor de Espaço e Lugar: A Perspectiva da Experiência. Segundo Furtado (2005), enquanto a análise técnica se baseia em noções geométricas e funcionais, Bachelard propõe uma abordagem fenomenológica do espaço, que valoriza o espaço vivido, desejado e imaginado, intimamente ligado à vida e à maneira como habitamos o mundo.
De acordo com Cattani (2005), compreender o desenvolvimento da arquitetura exige o ampliamento dos referenciais teóricos para além dos limites da própria disciplina. Considerar categorias epistemológicas oriundas de outros campos, como a filosofia, pode ampliar as análises sobre essa prática que transita entre arte e técnica. Nesse sentido, o pensamento de Bachelard oferece uma contribuição significativa, ao permitir uma abordagem do espaço arquitetônico que não se limita à sua funcionalidade, mas considera suas dimensões simbólicas, afetivas e poéticas.
Em sua obra A Poética do Espaço, publicada pela primeira vez em 1958, Bachelard propõe uma leitura fenomenológica da casa e de seus espaços íntimos. Embora não trate os espaços como objetos arquitetônicos em termos técnicos, sua reflexão sobre o modo como são vividos e imaginados tornou-se referência no campo da arquitetura, sendo um de seus trabalhos mais emblemáticos neste meio. A força da obra reside em provocar o leitor a compreender poeticamente o espaço que habita, percebendo-o como uma construção simbólica.
Além de ‘A Poética do Espaço’, outras obras de Bachelard oferecem contribuições relevantes para a arquitetura e o urbanismo. Em ‘A Psicanálise do Fogo’ (1938), ele investiga a simbologia do fogo a partir do desejo e da imaginação, perspectiva ampliada em ‘A Chama de uma Vela’ (1961). Em ‘O Ar e os Sonhos’ (1943), aborda leveza, ascensão e movimento, ampliando a compreensão do espaço aéreo, enquanto ‘A Água e os Sonhos’ (1942) associam a água à introspecção, profundidade e fluidez emocional (Alberton, 2021). Já ‘A Terra e os Devaneios da Vontade’ (2013) e ‘A Terra e os Devaneios do Repouso’ (2019) são livros que exploram a solidez, permanência e repouso, qualidades da terra como lugar de segurança e transformação lenta.
Apesar da variedade de temas abordados, a leitura da obra de Bachelard ainda representa um desafio para muitos estudantes de arquitetura devido à densidade conceitual e à linguagem filosófica, distante dos padrões técnicos e visuais com que estão mais familiarizados. Soma-se a isso o contexto das graduações em arquitetura, marcado por múltiplas demandas, sobretudo relacionadas à representação de projetos, que faz com que muitos alunos não priorizem a leitura no cotidiano acadêmico.
Imagens e imaginários na arquitetura
Na formação em arquitetura e urbanismo, a imagem ocupa posição central na construção do pensamento, não apenas como representação gráfica, mas como forma autônoma de raciocínio. Entretanto, Cunha (2015) aponta que, no meio acadêmico, ainda prevalece a ideia de que a linguagem verbal é mais adequada para expressar pensamentos e argumentos teóricos, criando uma hierarquia entre linguagens. Desde cedo, aprende-se a privilegiar a palavra, como se a imagem necessitasse de explicações textuais para ser compreendida. Isso se reflete na academia, onde imagens costumam ser acompanhadas por legendas e descrições que apenas comprovam o que já foi dito visualmente.
Em muitos casos, passaram a ter autonomia em relação ao texto, criando narrativas próprias e funcionando como metáforas visuais do mundo.
Apesar disso, no meio acadêmico, a imagem ainda atua majoritariamente como registro. Cunha (2015) denomina esse cenário como "analfabetismo visual", efeito da hegemonia da linguagem verbal na produção do saber. Em contrapartida, pesquisas mais recentes, especialmente na área da educação, têm investigado metodologias baseadas em visualidades, compreendendo as imagens como dados, modos de expressão e formas legítimas de produzir conhecimento. As imagens, portanto, devem ser reconhecidas como discursos autônomos, capazes de evocar o subjetivo e o poético e ampliar conhecimentos.
No campo da Arquitetura e Urbanismo, o papel das visualidades é ainda mais marcante, pois a prática projetual está atrelada a linguagem imagética. Durante a graduação, os estudantes lidam com uma vasta produção gráfica. Essa predominância da linguagem visual constitui a base do ensino de arquitetura e urbanismo, pois é por meio dela que se pensa, se comunica e se projeta o espaço. Por outro lado, essa ênfase na produção de visualidades dificulta ainda mais a aproximação dos alunos graduandos com obras teóricas, com a leitura e com a produção textual.
A perspectiva de uma escrita acadêmica que desafia a rigidez racionalista, proposta por Mossi e Oliveira (2018), ecoa diretamente na crítica de Cunha (2015) à hegemonia da linguagem verbal na produção do conhecimento. Os autores abordam o uso de imagens como camadas sensíveis de pensamento, ampliando os modos de comunicar saberes. Tal abordagem reconhece nos materiais visuais um lugar de práticas metodológicas que valorizam as imagens e sua atuação crítica, como forma autônoma de pensamento e condutora para construção de conhecimentos.
No contexto específico da formação arquitetônica, esse entendimento possibilita o uso da imagem como ferramenta cognitiva e crítica. Ao invés de representar objetos finalizados, a imagem permite acessar camadas simbólicas e afetivas da experiência do espaço, principalmente as imagens poéticas.
Nesse cenário, os estudos de Georges Didi-Huberman são fundamentais. O autor resgata e desenvolve as proposições de Aby Warburg (1866-1929), historiador de arte alemão, especialmente por meio da leitura do Atlas Mnemosyne (Gerencer e Rozestraten, 2016). Para Warburg, o conhecimento não se organiza apenas por categorias conceituais, mas também por constelações visuais: montagens de imagens que produzem sentido por justaposição e associação. O Atlas, composto por dezenas de painéis de imagens coladas sobre fundo preto, buscava narrar visualmente a cultura ocidental por meio da articulação simbólica das imagens, sem recorrer a textos explicativos.
Em ‘Atlas: como levar o mundo nas costas?’, Didi-Huberman (2010) afirma que a montagem visual permite reordenar as coisas e produzir novos sentidos por meio de gestos poéticos e críticos. A exposição dos painéis era uma ferramenta para compreender o pensamento visual. Ao reunir imagens em constelações móveis, cria-se um método de investigação não cronológico, baseado em associações simbólicas. Essa lógica oferece liberdade de reorganização, revelando relações inesperadas entre imagens. Desta alteração da ordem esperada, novas analogias e pensamentos emergiram como uma nova possibilidade de lidar e interpretar os fatos históricos. O objetivo do Atlas não é concluir ou classificar, mas reunir fragmentos do mundo e revelar relações, respeitando a multiplicidade e a heterogeneidade. Assim, a montagem torna-se recurso para imaginar novos modelos de pensamento e representação.
Essa perspectiva é reforçada por Ernst Cassirer, que em Ensaio Sobre o Homem (2021) argumenta que o ser humano é, por essência, um criador de símbolos. Não vivemos apenas em um mundo de fatos objetivos, mas em um universo simbólico formado por linguagem, mito, arte, religião e ciência. Cada forma simbólica acessa dimensões distintas da realidade e atua como instrumento válido de conhecimento. Cassirer afirma que as imagens, especialmente na arte e no mito, não apenas refletem o mundo, mas constroem sentidos e participam ativamente da realidade simbólica.
A colagem como técnica que auxilia na construção do conhecimento
A palavra colagem deriva do francês collage, cujo verbo coller significa colar, pegar ou aderir. Fuão (2014) define a collage como uma forma de representação composta por instrumentos e etapas, cuja interação entre seus elementos permite um espaço de significados e temporalidades múltiplas. Conforme Fuão (2014), a colagem é frequentemente vista como uma contradição entre o recortar e o colar, ignorando o intervalo significativo que ocorre entre essas duas etapas. É justamente o movimento e a experimentação das figuras que fazem emergir suas possibilidades, estimulando reflexão e criatividade. Para Magoga (2023), a colagem é uma técnica artística que promove experimentação e transformação de significados ao sobrepor e conectar figuras para gerar novas descobertas e sentidos. Sejam digitais ou manuais, é na integração das etapas e instrumentos que surgem conexões e interpretações diversas.
A partir das definições desses autores, a produção de uma colagem pode ser entendida como uma técnica que estimula a interpretação, ao levar o sujeito a refletir sobre os elementos e significados que cria. Fuão (2014) estabeleceu as principais etapas da collage: o recorte, através do qual se escolhem as figuras e elementos a serem destacados; os encontros, onde esses elementos são justapostos para gerar novos sentidos; e o uso da cola, momento em que as figuras são fixadas entre si ou a um suporte. Ao justapor elementos aparentemente desconexos, a colagem cria zonas de sentido que mobilizam a experiência subjetiva do observador. Mais do que ilustrar um conceito, essas composições visuais interpretam e provocam novas leituras. A partir disso, compreende-se a colagem como uma técnica que auxilia na construção do conhecimento, ideia que se fortalece quando analisada sob a perspectiva da taxonomia de Bloom.
Segundo Ferraz e Belhot (2010), a taxonomia de Bloom é uma estrutura projetada para classificar objetivos educacionais e aprimorar o processo de ensino-aprendizagem, especialmente no que se refere ao desenvolvimento cognitivo. Esses autores (Ferraz; Belhot, 2010) explicam que a taxonomia de Bloom é composta por seis categorias, revisadas ao longo do tempo, que representam níveis hierárquicos de habilidades cognitivas, das mais simples às mais complexas, sendo necessário dominar um nível antes de avançar para o seguinte. As seis categorias atualizadas são: lembrar, entender, aplicar, analisar, avaliar e criar (Ferraz; Belhot, 2010).
A partir disso, é possível relacionar as categorias da taxonomia de Bloom com as etapas da collage propostas por Fuão (2014), embora a taxonomia de Bloom e os conceitos de Fuão (2014) apresentem embasamentos teóricos diferentes. A perspectiva de Fuão (2014) sobre as colagens valoriza a complexidade e a subjetividade, enquanto a taxonomia de Bloom possui um caráter enraizado nas ciências exatas. Contudo, entende-se que um diálogo justificado a partir de múltiplas perspectivas pode enriquecer as reflexões desta investigação.
A ideia da colagem como técnica capaz de auxiliar na construção do conhecimento é reforçada pelo diagrama da Imagem 01, que mostra sua articulação com as categorias da Taxonomia de Bloom, estimulando saberes desde o início do processo criativo. Durante as etapas 01, 02 e 03, compreendidas como momentos de planejamento, o indivíduo retoma conhecimentos, busca compreendê-los e define o que deseja transmitir e quais elementos utilizar. Já ao longo das etapas 04, 05 e 06, que envolvem a busca por imagens, a experimentação de composições e a produção final, são mobilizadas a criatividade e a interpretação, permitindo a construção de novos significados.
Imagem 1 – Construção do conhecimento através da colagem.
Fonte: as autoras (2025).
Ao articular múltiplos elementos visuais e simbólicos, as colagens favorecem a construção ativa do conhecimento e o engajamento do sujeito no processo de aprendizagem. Além disso, em uma mesma composição podem coexistir diversos pontos de vista e perspectivas, reunindo referências perceptivas que se expressam de forma singular no espaço-tempo da colagem (Magoga, 2023). Assim, a colagem se mostra uma técnica potente para o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e reflexivo, capaz de integrar saberes e estimular novas maneiras de pensar e representar o mundo.
Procedimentos metodológicos
Os procedimentos metodológicos deste artigo foram organizados em quatro etapas: leitura do livro A Poética do Espaço (etapa 1); seleção das elaborações teóricas mais relevantes de cada capítulo (etapa 2); escolha de imagens e elementos que representassem essas elaborações (etapa 3); e elaboração de colagens para expressar as interpretações de cada capítulo (etapa 4).
O procedimento ora apresentado parte da técnica da colagem, entrelaçando suas etapas conforme definidas por Fuão (2014), com os níveis de habilidades cognitivas da Taxonomia de Bloom, conforme apresentados por Ferraz e Belhot (2010). O diagrama a seguir (Imagem 2) ilustra essa interseção, reforçando a validade dos processos adotados para a construção do conhecimento.
Imagem 2 – Procedimentos metodológicos.
Fonte: as autoras (2025).
As etapas de leitura e seleção das elaborações teóricas (etapas 1 e 2) ocorreram de forma paralela, com as ideias mais relevantes sendo anotadas ao longo da leitura e organizadas por capítulos em um documento de texto. O resultado dessas etapas foi uma síntese dos capítulos, composta por diversas elaborações teóricas, que serviu de base para a etapa 3: a seleção para cada capítulo, de imagens e elementos que melhor representassem ou se relacionassem com essas elaborações. A partir disso, emergiram imagens e elementos que deram início à elaboração da colagem (etapa 4). Nessa fase, ocorreram encontros, conforme definido por Fuão (2014), nos quais diferentes combinações, sobreposições e recortes de imagens foram experimentados até a constituição da colagem final.
Interpretações sobre a obra ‘A poética do espaço’ a partir de colagens
O procedimento metodológico aplicado facilitou os aspectos interpretativos e a partir disso emergiram reflexões que permitiram compreender as principais elaborações teóricas que o autor apresenta no livro.
Para cada capítulo foi elaborada uma colagem, resultando em dez composições visuais que buscam transmitir, de forma imagética, as elaborações teóricas do autor. Em cada colagem, identificou-se uma elaboração teórica que sintetiza as ideias-chave apresentadas. Magoga (2023) aponta que a colagem, por combinar e justapor imagens de maneira experimental, gera sentidos renovados e transforma o significado original. Nesse sentido, as colagens não têm o objetivo de resumir o livro ou oferecer uma interpretação fechada, mas de estabelecer conexões entre figuras e instigar novas reflexões a partir das ideias do autor. A Imagem 3 apresenta as cinco primeiras composições, enumeradas segundo os títulos dos capítulos: A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana (1); A casa e o universo (2); A gaveta, os cofres e os armários (3); O ninho (4); e A concha (5).
Imagem 3 – Colagens dos capítulos um ao cinco.
Fonte: as autoras (2025).
A primeira colagem, identificada como número um (Imagem 3), representa o capítulo O sentido da cabana, no qual Bachelard apresenta a casa como espaço primordial de ancoragem do ser no mundo. A morada deixa de ser apenas uma estrutura física, tornando-se lugar de acolhimento, proteção e formação da identidade. A casa de madeira remete à cabana como forma primordial do habitar, enquanto as mãos que a envolvem evocam proteção. Ao fundo, o universo simboliza a totalidade da essência do ser, ancorada na casa.
Já a colagem de número dois (Imagem 3) relaciona-se ao capítulo A casa e o universo, no qual Bachelard contrapõe a casa às forças externas do mundo. A morada emerge como espaço de abrigo e resistência frente às hostilidades do exterior, intensificadas no inverno. A casa isolada em meio à água simboliza proteção e enraizamento, enquanto os raios expressam a hostilidade do universo.
A terceira colagem (Imagem 3), vinculada ao capítulo A gaveta, os cofres e os armários, representa os espaços interiores da casa como pequenos mundos fechados que abrigam segredos, lembranças e devaneios. Esses compartimentos concentram a intimidade silenciosa do ser e carregam profunda dimensão simbólica. Na colagem, a gaveta aberta sugere a revelação de memórias ocultas, enquanto os objetos em seu interior remetem aos devaneios e ao universo inconsciente. O cadeado aberto, assim como os pássaros e borboletas em voo, simboliza a libertação dessa interioridade para o exterior.
Na quarta colagem (Imagem 3), o ninho simboliza a forma mais íntima de abrigo, conforme o capítulo O ninho, de Bachelard, no qual esse elemento expressa a confiança primordial no mundo, associada às origens infantis. Assim como o ninho protege o filhote, a casa é vivida como espaço de conforto essencial e recolhimento. A mão adulta segurando a mão infantil simboliza amparo, enquanto as nuvens criam uma atmosfera onírica que remete à leveza da infância e à proteção frente à hostilidade do mundo.
A quinta colagem (Imagem 3), por sua vez, representa o capítulo A concha, na qual esse elemento surge como metáfora de uma morada formada a partir do próprio ser. Rígida e sensível, a concha simboliza um abrigo orgânico de introspecção e proteção emocional, que cresce de dentro para fora como extensão do sujeito. A figura emergindo da concha expressa a dualidade entre o recolhimento seguro e o risco do isolamento, enquanto as ondas azuis remetem ao fluxo emocional e à possibilidade de expansão.
A Imagem 4 apresenta as colagens dos capítulos seis a dez, nomeados como: Os cantos (6); A miniatura (7); A imensidão íntima (8). A dialética do exterior e do interior (9); e A fenomenologia do redondo (10).
Imagem 4 – Colagens dos capítulos seis a dez.
Fonte: as autoras (2025).
A colagem número 6 (Imagem 4) revela a interpretação do capítulo ‘Os cantos’ e simboliza o refúgio como a elaboração teórica central deste capítulo. A imagem da pessoa recolhida em um canto da janela, com elementos de nuvens e ramos próximo à cabeça, representa o refúgio e o despertar da imaginação que emergem ao acolher-se em um canto da casa. Bachelard (1993) aborda a ideia de refúgio referindo-se aos espaços onde gostamos de nos encolher em busca de segurança e acolhimento, esses espaços geralmente são os cantos.
Já a colagem número 7 (Imagem 4), simboliza o capítulo ‘A miniatura’, onde identificou-se o ato de miniaturizar como a principal elaboração teórica. A diferença de escalas entre as imagens dos objetos e da mão humana simboliza que olhar para as coisas pequenas permite compreender as coisas grandiosas. Os elementos que simbolizam o tempo, como a lupa e a ampulheta, remetem ao tempo necessário para miniaturizar. Interpreta-se que miniaturizar é atentar-se ao detalhe de modo profundo, o que exige a pausa, a reflexão e conexão afetiva.
Com a colagem número 8 (Imagem 4), que retrata o capítulo ‘A imensidão íntima’, buscou-se representar como elaboração teórica a interioridade. A sobreposição de imagens do mar com o elemento da moldura remetem às diferentes percepções construídas pela imaginação, que amplia as lembranças e faz com que sejam imaginadas maiores do que são na realidade. Em Bachelard (1993) os aspectos da percepção interior, das lembranças e da imaginação afetam a forma como interpretamos o mundo.
O capítulo ‘A dialética do exterior e do interior’ é representado pela colagem número 9 (Imagem 4). Interpreta-se que a elaboração teórica central desta seção é a percepção individual. A composição da colagem com imagens de uma pessoa olhando pela janela, com uma árvore dentro de uma silhueta e uma árvore ao fundo da paisagem simboliza que a mesma árvore pode ser interpretada de formas diferentes. Para Bachelard (1993), o indivíduo compreende o mundo a partir das suas percepções individuais, e o exterior só é entendido quando vivido e compreendido internamente.
Por fim, a colagem número 10 (Imagem 4), inspirada no capítulo ‘A fenomenologia do redondo’, expressa o aconchego como principal elaboração teórica. As imagens desta colagem remetem às formas arredondadas presentes no corpo humano e na natureza, sendo que o bebê no útero simboliza o aconchego das formas arredondadas desde o primeiro estágio da vida humana. Bachelard (1993) diz que os elementos circulares são como imagens íntimas ligadas à essência e a natureza do ser, que remetem ao aconchego, à segurança e à intimidade.
Destaca-se, assim, que a identificação da principal elaboração teórica de cada capítulo é resultado da interpretação das autoras, a partir da aplicação do procedimento metodológico com a técnica da colagem, sendo, portanto, um recorte interpretativo frente a tantas elaborações teóricas que o autor apresenta em sua obra.
Reflexões que emergiram do processo de criação das colagens
A elaboração das colagens permitiu uma aproximação sensível e reflexiva aos conceitos da obra, tanto na seleção de imagens e elementos quanto na composição final. A busca por símbolos funcionou como exercício de pensamento, exigindo o retorno às citações de cada capítulo e a escolha de representações visuais capazes de expressá-las. Ferreira e Dias (2002) destacam a imagem mental como estratégia que auxilia a compreensão do texto, representando o conteúdo lido por meio de imagens. A seleção de imagens para as colagens assemelha-se a essa estratégia, favorecendo a compreensão dos conceitos da obra. Ao elaborar colagens a partir de textos filosóficos, os estudantes não apenas representam os conteúdos, mas vivenciam a leitura como experiência estética e interpretativa.
Conforme Cunha (2015), colagens podem ser compreendidas como imagens poéticas, convocatórias ou deslizantes, formas que provocam sentidos e não se deixam esgotar por descrições. Essa prática, quando aplicada à leitura de ‘A Poética do Espaço’, aproxima-se do que Bachelard (1993) denomina de topoanálise visual: uma forma de habitar o texto com o olhar, convertendo-o em território simbólico, sensível e múltiplo. Ao reconhecer a técnica da colagem como forma legítima de expressão crítica e pensamento, entende-se que ela não apenas auxilia na compreensão dos conceitos do livro, mas também revela um processo pedagógico mais amplo, no qual se aprende a ler com os olhos, com o corpo, com a memória e com a imaginação.
Nesse sentido, as colagens desenvolvidas neste trabalho se configuram como prática metodológica facilitadora de processos de ensino e aprendizagem, uma vez que as imagens produzidas não apenas representam os capítulos de Bachelard, mas traduzem visualmente diferentes interpretações poéticas que a obra possibilita. Assim, constituem um modo alternativo de descrever a obra, funcionando como resenha visual que é ao mesmo tempo obra estudada e artefato artístico criado pelos estudantes. Para além da dimensão didática, essa abordagem abre espaço para novas leituras do espaço arquitetônico, contribuindo para a pesquisa em arquitetura ao propor interpretações sensíveis que ampliam a compreensão do habitar.
Considerações finais
As reflexões desenvolvidas neste trabalho evidenciam que a técnica da colagem, como recurso metodológico, contribui significativamente para a construção do conhecimento, especialmente na leitura de ‘A Poética do Espaço’, de Gaston Bachelard. As colagens produzidas não apenas representam conceitos centrais de cada capítulo, mas também promoveram processos interpretativos diversos, possibilitando múltiplas leituras a partir das experiências individuais dos observadores. Essa perspectiva dialoga com o caráter poético e simbólico do texto de Bachelard, que possui capacidade de estimular aprendizagens sensíveis, afetivas e criativas sobre o espaço habitado.
As aprendizagens decorrentes da leitura da obra vão além da compreensão teórica dos conceitos, envolvendo também a construção de uma nova relação com o espaço vivido, a memória e o imaginário. Ao mesmo tempo, convidam arquitetos e urbanistas a refletirem sobre o projeto arquitetônico e os espaços que concebem. Nesse contexto, a técnica da colagem atua como catalisadora desse processo, permitindo que as ideias de Bachelard sejam experimentadas de maneira concreta e visual, por meio de associações simbólicas e imagéticas.
O procedimento metodológico permitiu fragmentar a interpretação do livro, algo fundamental diante da complexidade das obras de Bachelard para leitores não habituados à filosofia. Ao elaborar colagens dos dez capítulos de ‘A Poética do Espaço’, foi possível acessar camadas simbólicas difíceis de apreender apenas pela leitura. Nesse sentido, o método de produção das colagens potencializou a reflexão sobre o habitar simbólico e os gestos de proteção e abertura ao mundo. Além de ampliar as possibilidades de leitura e interpretação da obra, promovendo formas de aproximação que escapam à rigidez da linguagem racional e linear.
A colagem demonstrou potencial como mediadora entre leitura, pensamento e expressão. Na arquitetura, revela-se eficaz ao estimular não apenas o olhar técnico e representativo, mas também o sensível e subjetivo, dimensões essenciais à formação de um pensamento projetual crítico e imaginativo. Além de seu valor pedagógico, o procedimento apresentado constitui uma estratégia didática replicável, aplicável a outras obras e conceitos em campos que trabalham com visualidades. Contudo, essa metodologia apresenta limitações, especialmente por depender da linguagem visual, sendo adequada principalmente a áreas que recorrem à expressão imagética, como arquitetura, urbanismo, design e Artes Visuais. As colagens apresentadas operam como cartas abertas que acolhem tanto a interpretação de quem as produziu quanto de quem as observa. Assim, a técnica que faz uso da colagem reafirma a imagem como forma legítima de pensamento acadêmico, convidando a ampliar o repertório de práticas pedagógicas.
REFERÊNCIAS
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[1] Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (2024) e mestranda na mesma instituição, pesquisa cuidado no espaço público e comuns urbanos com enfoque em gênero. Atua com representação gráfica de projetos arquitetônicos. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-3149-6415. E-mail: marina.belloli@acad.ufsm.br.
[2] Arquiteta e Urbanista formada pela UFFS (2023), mestranda no PPGAUP/UFSM e bolsista CAPES/DS. Pesquisa projeto arquitetônico e qualidade do ambiente construído com enfoque em experiência estética, processos formativos e contextos de vulnerabilização social. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-2944-4302. E-mail: samara.baggiotto@acad.ufsm.br.
[3] Arquiteta e Urbanista (UFRGS), mestre e doutora em Arquitetura pela mesma instituição. Professora da UFSM (Cachoeira do Sul) e docente do PPGAUP, atua em ensino e pesquisa nas áreas de projeto arquitetônico, arquitetura moderna e contemporânea e eficiência energética em edificações. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4486-4324. E-mail: ana.souto@ufsm.br.
[4] Arquiteta e Urbanista (UFSC), mestre em Arquitetura e Urbanismo (UFSC) e doutora em Educação (UFSM). Professora Associada da UFSM, onde coordena o curso de Arquitetura e Urbanismo desde 2023 e atua em ensino, pesquisa e extensão com foco em imaginários, patrimônio e interfaces entre arquitetura e educação. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8645-2013. E-mail: josicler.alberton@ufsm.br.