Dossiê Revista LAV
Artes e literaturas indígenas contemporâneas: forças que movimentam modos de pensar, sentir e fazer pesquisas
Alik Wunder 1
Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil.
Davina Marques 2
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, Brasil.
Cristine Takuá 3
Escola Vivas, São Paulo, Brasil.
Marilda Oliveira de Oliveira 4
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Brasil.
Clenio Perlin Berni 5
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Brasil.
Apresentação
O campo da arte e literatura contemporânea tem sido movimentado cada vez mais por escritoras.es, artistas e coletivos pertencentes a diferentes povos indígenas, que, com suas obras e presenças, deslocam sentidos de arte, escrita, imagem e vida, bem como dão a ver os modos coloniais, predatórios, excludentes e violentos do mundo ocidental em relação aos mundos indígenas e ao planeta. Como a arte e a literatura indígena contemporânea têm movimentado diversas áreas do conhecimento - educação, artes visuais, antropologia, literatura, cinema, psicologia, filosofia dentre outras?
Este dossiê multidisciplinar convidou pesquisadoras.es que têm se deixado atravessar pelas imagens, palavras e sons indígenas, no sentido de movimentar conceitos, linguagens, metodologias, cosmovisões e afetos na pesquisa. Convidamos a comunidade acadêmica a pensar em como as forças ancestrais indígenas têm nos convocado a outros modos de pensar, sentir e fazer ciência e a outros modos de nos relacionar com a terra e a vida em suas diversas dimensões.
De diversas maneiras estes movimentos, deslocamentos, rupturas e alianças nos são apresentados neste número da Revista LAV. São movimentos provindos de pesquisadoras e pesquisadores de diversas universidades: do Pará, Rio Grande do Sul, São Paulo, do estado de Zacatecas, México, em alianças com as artes, literaturas e sabedorias Krenak, Makuxi, Kariri-Xocó, Kiriri do Acré, Baniwa, Wixarica…
As pesquisadoras da Universidade Federal do Pará Mariana Xerfan e Izabela Leal, autoras do artigo “Adiar o fim do mundo: ancestralidade e ativismo na obra de Ailton Krenak”, escrevem sobre o protagonismo indígena a partir das contribuições políticas e literárias do autor e ativista indígena Ailton Krenak e destacam a importância da linguagem e da literatura para a ampliação dos horizontes estéticos e políticos para esses povos originários.
As autoras do artigo “Cartografar para adiar o fim do mundo”, pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Maria (RS), Juliana Martins Roeber, Luana Vargas Aquino e Marcele Pereira da Rosa Zucolotto, apontam a cartografia como metodologia de pesquisa capaz de acompanhar a diferença e a pluralidade nos processos de subjetivação e escrevem sobre os impactos do processo colonizatório na manutenção da perspectiva epistemológica hegemônica e nos processos de produção de subjetividade contemporâneos.
Alik Wunder, Victor Hugo da Silva Iwakami e Rafael Caetano Nascimento, pesquisadora.es da Universidade Estadual de Campinas (SP), em “Experimentações visuais em pesquisas com os povos indígenas Kariri-Xocó e Kiriri do Acré”, escrevem a partir de pesquisas e criações coletivas com o povo Kariri-Xocó (AL) e povo Kiriri (BA). Apostam nas pesquisas-experimentações em educação e nos lançam a pergunta: como pensar uma educação pelas imagens indígenas?
Em “Ver, ler e pensar com os grafismos baniwa: trançando novas tramas”, a pesquisadora Patrícia Regina Vannetti Veiga, da Universidade Estadual de Campinas (SP), nos apresenta seus movimentos de pesquisa e escrita realizados com os trançados e com a visualidade dos grafismos do povo Baniwa (AM). Com a educação, mobiliza o trançar como um instrumento que sensibiliza para novas visualizações das tramas interculturais.
A pesquisadora Ivete Souza da Silva, da Universidade Federal de Santa Maria (RS), é a autora do artigo “O Neto de Makunaimî é Doutor das Artes: a trajetória do artista indígena Makuxi Jaider Esbell” e nos traz um recorte de suas pesquisas sobre a trajetória e produção artística e literária do artista indígena makuxi Jaider Esbell (1979-2021). Segundo a autora, o artista compreendeu a complexidade dos dois mundos em que viveu, o mundo branco e o seu mundo indígena e se apropriou dos conhecimentos e espaços produzidos pelo colonizador ganhando notoriedade na arte ocidental.
Em “Historia y significado del arte y la artesanía de los huicholes”, o pesquisador Leobardo Villegas Mariscal, da Universidade Autónoma de Zacatecas (México), a partir de suas pesquisa sobre as origens e as transformações da arte do povo Wixarica, conhecidos também como Hicholes, grupo indígena estabelecido na Sierra Madre Ocidental do México. Em seu artigo aborda as tramas entre a arte ritual e as novas produções artísticas dos huicholes.
A pesquisadora María José Sánchez Usón, também da Universidade Autónoma de Zacatecas (México), em seu artigo “Arte Wixárika nos museus do mundo”, nos apresenta o conceito de internacionalização a partir das minorias étnicas, demonstrando como o povo Wixarica não permaneceu à margem dessa inclinação e que, por meio de seu artesanato e arte, atuam como embaixadores do México no exterior, estando presentes nos principais museus do mundo.
É com alegria que abrimos este dossiê com estas breves palavras, desejando que as leituras germinem outros movimentos no sentido de encontros férteis com os modos de ser, pensar e criar que se fazem presentes nas sábias artes e literaturas indígenas.
Alik Wunder, Davina Marques e Cristine Takuá - as organizadoras deste Dossiê
__________
Alik Wunder é professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas.
Davina Marques é pesquisadora e professora do Instituto Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.
Cristine Takuá é ativista indígena, educadora e filósofa, pertencente ao povo maxakali, atua no Projeto Escolas Vivas, Ciclo Selvagem, na Associação Maracá entre outros projetos.