Relatos do (meu) encontro com cartografias, afetos, escolas, cinemas e crianças bem pequenas
Reports of my experience getting in touch with cartography, affection, schools, cinemas and kindergarten children
Aurora Nilo da Silva Ruzene[1]
Universidade Estadual de Campinas
Wenceslao Machado de Oliveira Junior[2]
Universidade Estadual de Campinas
Resumo
Este ensaio toma como matéria-prima relatos em palavras e imagens feitos a partir de encontros presenciais de um projeto de pesquisa que tem como um de seus alicerces conceituais e metodológicos a cartografia dos afetos – em especial, transpassada pela escrita cartográfica e pelo cinema feito por crianças da educação infantil. Partilha-se a experiência e as afetações decorrentes do processo de escrita do próprio ensaio e dos relatos de campo que expressam as reverberações geradas pelas idas presenciais nas escolas ligadas ao projeto. Explicita-se, ainda, o impacto que cartografar afetivamente em palavras e imagens pode ter no modo de pensar e fazer o processo criativo, nos modos de fazer arte e nas noções de corpo de quem escreve.
Palavras-chave: escrita cartográfica; relatos de campo; educação infantil; cinema na escola; arte.
Abstract
This essay uses as its raw material reports in words and images drawn from in-person meetings of a research project that has as one of its conceptual and methodological foundations the cartography of affects — in particular, as permeated by cartographic writing and filmmaking by early childhood education children. The essay shares the experience and affectations exposed in the writing process of the essay itself and the field reports that express the reverberations generated by in-person visits to schools linked to the project. It also explains the impact that affective cartographies in words and images can have on the way of thinking about and implementing the creative process, on the ways of making art, and on the writer's notions of the body.
Keywords: cartographic writing; field reports; early childhood education; cinema in school; art.
Eu tive que fazer uma escolha[3].
Você, com toda a certeza do mundo, já teve que fazer alguma escolha em algum momento da sua vida. Bom, comigo não foi diferente, tive que fazê-la; e confesso: estava ansioso para escolher. Por um lado, a ansiedade era pela vontade de mudar e, por outro, medo de começar algo novo e totalmente desconhecido.
Estava na sala de casa, usando meu notebook para fazer a inscrição em um projeto (de pesquisa, trabalho, manutenção…), pois precisava me vincular a algum para conseguir a bolsa de permanência[4] que tenho na universidade em que estudo, na qual curso licenciatura em Pedagogia. Revirei o site, li todos os projetos enunciados e mandei emails para aqueles que mais me interessavam. Dentre esses, um chamou muito a minha atenção. Tinha como título ‘Cartografia dos afetos cinematográficos no lugar-escola de educação infantil’[5]. Que título grande, pensei.
Algum tempo depois, obtive a resposta do “criador” do projeto - que aqui a gente chama de orientador - dizendo que poderia me vincular sem problema algum. Daí nasce algo novo: minha relação com o lugar-escola[6], com os frequentadores desse espaço (crianças, funcionários, animais pequenos e grandes, animais que existem e que não existem…) e com o cinema. Mas essas relações todas foram sendo introduzidas aos poucos - como bebê que primeiro come mingau, depois frutinhas picadas, depois frutas inteiras.
Apesar de haver uma breve descrição do projeto quando me inscrevi de maneira virtual, ainda não dava para ter uma dimensão completa do que se tratava e, para me aproximar aos poucos, comecei lendo; sim, comecei a ler antes de fazer. Mas não aquelas leituras pesadas e bibliográficas que são exigidas na universidade. Comecei a ler relatos do projeto que meu orientador escreveu e, através deles, fui descobrindo, em doses homeopáticas, quem eram os personagens dessa nova aventura e fui juntando as peças.
Em pouco tempo entendi a “sacada” do projeto: havia duas escolas municipais de educação infantil que recebiam as pessoas vinculadas a ele e, lá, filmavam a relação das crianças com o ambiente escolar; faziam cinema com as descobertas incríveis delas. Cada inseto novo no parquinho de areia virava a estrela principal do “roteiro”.
Depois de ler todos os diários de itinerância[7], fui a campo. Descobri que, no chão daquelas escolas, pisam pézinhos, pézões e patas que podem se tornar, a qualquer momento, estrelas de cinema. Não obstante, ainda fiz amizade com muitos cineastas! Sejam diretores, atores ou atrizes; talvez roteiristas, coloristas, editores de filmagem… enfim! Descobri, aos poucos, que os eventos mais cotidianos podem ser motivo de muito drama e fantasia; que as pequenas coisas podem ser tão bonitas quanto as coisas grandes.
Nesses encontros fiz amizades que nunca imaginei que poderia ter. Costurei, conjuntamente com várias coisas, pessoas, insetos e galinhas, um fio bem grande de afeto que transpassa meu corpo inteiro. Descobri que a felicidade pode morar entre dentes que foram viajar para a terra das fadas, e que quando fica bem, bem grande, sopra um sopro bem gostoso e faz som de gargalhada. Entendi que os humanos têm um superpoder que, às vezes, esquecemos de usar: nossas retinas são como lentes e nossos olhos são como uma câmera de cinema. Mais do que isso: moramos dentro de uma máquina muito complexa, somos nossa própria sala de cinema e podemos escolher como dirigimos nossa rotina, descobrindo que tem magia em cada momento em que exploramos essa aventura que chamamos de vida.
Cena dois: o ato de escrever cartografando
‘Escrever é fácil’, afirma o escritor americano Gene Fowler, ‘basta que você se sente e fique olhando para o papel em branco até que o sangue comece a porejar da sua testa’ (Sabino, 2020, p. 11).
Temos como um dos lócus principais desse projeto a escrita cartográfica, prática influenciada pelos conceitos de várias/os pesquisadoras/es, como Virgínia Kastrup (2023), Luciano Bedin da Costa (2014), e muitas/os mais.Trata-se de uma escrita que rompe com o modo tradicional-acadêmico de escrever – ou seja, deixa de lado essa escrita “imparcial” que assumimos em vários trabalhos, artigos e textos produzidos na/para a universidade – e a substitui por uma forma de escrever que assume a posição da/na escrita, uma vez que a/o autor(a) do texto passa por vários lugares e, portanto e consequentemente, constrói afetos, assume posições políticas, etc as quais deixam marcas na escrita. Nesta escrita cartográfica, inclusive, pode-se fazer (e se faz) muito além das palavras.
Coloquei esse modo de escrita em prática em meus diários de itinerância (uma das práticas obrigatórias do projeto) e, como não possuíam um formato fixo, neles escrevi, a meu modo, como foram as experiências diversas (porque cada visita era uma vivência nova) de participar do projeto e das idas às escolas.
Com o intuito de explorar linguagens diversas, me aventurei nesse processo e compus meus relatos com signos que escapam da escrita propriamente dita para dar expressão às marcas das experiências que ficaram em meu corpo até o momento da composição de cada um deles. Realizei colagens, ilustrações, filmagens e edições audiovisuais, escritas digitais e escritas físicas. Assim o fiz para que pudesse entender como meu processo criativo funciona em diversas formas de expressar as experiências ocorridas.
Nas idas às escolas aprendi com as crianças uma coisa muito valiosa: há um potencial criativo imenso em cada uma delas; são muito únicas na forma que se expressam - e assim são todos os seres humanos (porque também fomos crianças um dia e, em alguma medida, não deixamos de ser). Acho que resolvi resgatar em mim esse potencial curioso de explorar a mim mesmo e minha expressão.
Além disso, possuo nesse projeto uma liberdade que não costumo ter em outros projetos acadêmicos. Liberdade essa que me instiga a não me prender a essa forma violenta de escrita proposta pela universidade, que engessa e força a nos expressarmos de uma única maneira todas as experiências que nos transpassam enquanto corpos e que, definitivamente, influenciam nos saberes e conhecimentos que construímos.
Uma das formas de autoconhecimento e construção alternativa de conhecimento é analisar a própria prática. Dentro da experiência da escrita cartográfica, fui convidado a analisar meus próprios diários de itinerância. Para começar a análise, contabilizei o total de relatos que fiz e cheguei no número treze, distribuídos entre os meses de abril e novembro de 2024: cinco diários escritos diretamente no computador (de maneira digital), três de maneira manuscrita, uma colagem, dois relatos audiovisuais e duas ilustrações. Para facilitar o exercício de escrita deste ensaio, separei-os em três partes: primeiro irei apresentar-analisar os relatos que não necessariamente têm alguma relação com a palavra escrita, depois as escritas digitais e, por fim, as de cunho manual.
Mas antes de trazê-los aqui, reflito sobre o processo de criar.
Cena três: o eterno processo de (re)criar
Escritas de si e invenção de mundos como bricolagens de experiências e produção de possíveis e não como desvelamento de sentidos ocultos no passado. Escritas-invenções que não visam a uma analítica da verdade, mas que insurgem em meio às redes tecidas, como efeitos de verdade que, no momento, nos interessam produzir (Ferraço, 2021, p. 4).
Nada está pronto; também nada é exatamente cru. Quando nascemos, o Eu (no sentido de ego) pode começar a existir ali, mas as ideias, expectativas e até mesmo noções corpóreas inatas e/ou impostas àquele corpo já preexistem e o marcam antes mesmo do momento do parto. Antes do seu corpo ser concebido, você era parte do corpo de seus progenitores, e dos progenitores deles…; e seu código genético já transpassou e transmutou através de várias células até chegar no amontoado de células vivas e mortas que você é hoje. Digo isso porque esse princípio é manifestado em muitas coisas em nossa vida. Nosso corpo, e o que carrega com ele, não pertence somente a nós, mas a várias coisas (ideias, pessoas, insetos, vírus, roupas…) que vão e vêm - e algumas permanecem por mais tempo que outras. Quando criamos, isso fica um pouco mais nítido.
Nesse sentido, tudo também possui alguma limitação. Tudo o que um corpo cria é estendido até certo ponto limite e não consegue mais expandir. Isso pode ser variável ou não. Vou explicar o que quero dizer: quando começamos a fazer alguma atividade física (correr uma maratona, por exemplo), seu objetivo não é alcançado no primeiro dia. São necessários vários dias de pequenos avanços para conseguir realizar o que se havia proposto inicialmente.Acontece assim porque seu corpo possui limites e, se acaso eles forem respeitados, há a possibilidade de eles serem moldados e aumentados. Mas algo é invariável: todo corpo possui algum limite máximo. Pode ser limite de altura, de elasticidade, de esforço físico, de formato… E esses limites são expressos, mais uma vez, em nossas criações (porque utilizamos nosso corpo para realizá-las).
Tudo é transmutado. Tudo tem limite. Ou seja: quando criamos, não somos livres para criarmos exatamente tudo o que, em algum vislumbre, existiu ou existe em pensamento. Algo se perde no caminho. Talvez pela falta de técnica, talvez por algum limite intransponível de qualquer categoria. Meu corpo é um amontoado de várias coisas que em algum momento pertenceram a outrem e um bocado de outras coisas que, com certeza, um dia pertencerão a outrem.
No processo de escrita, algo novo é construído e, portanto, um mundo de possibilidades e ideias surge a partir dali, daquele momento em que as palavras são transcritas no papel ou documento. É como diz Carlos Eduardo Ferraço (2021, p. 4), no mesmo texto de que extraí a epígrafe desse bloco do ensaio que redijo, “Parafraseando Adélia Prado (2003), se me perguntarem: Houve esse memorial ou você inventou? Eu diria: Se não houve, agora, porque escrevi, passou a existir”.
Há diversas maneiras de expressar o que queremos e de dar forma a essa expressão. Traçando essa mesma rota, a ideia da escrita cartográfica nos apresenta uma possibilidade que diverge do padrão de criação acadêmica e expande os limites e possibilidades desse processo. Podemos bordar relatos e textos que nos transpassam e afetam e que têm, como um de seus intuitos, apresentar uma possibilidade de escrita que nos ajude a desviar de uma estrutura que engessa, conseguindo abrir um pouco mais as possibilidades, para quem escreve, de transmitir os efeitos que determinado assunto ou experiência possuem em nosso corpo.
Cartografar é também assumir posição. Como já disse, nada é novo e tudo vem de algum lugar. Para assumir esse compromisso com a escrita cartográfica e efetivá-la, é preciso, antes de tudo, entender que não existe neutralidade naquilo que criamos e que, toda vez que produzimos, também fazemos escolhas. Escolhemos palavras, escolhemos como vamos traçar alguma trajetória, escolhemos combinações de cores e de efeitos, escolhemos qual parte da nossa subjetividade e daquilo que nos afeta vai compor essa nova criação. Assumimos que, quando criamos, nada é exatamente cru, nem exatamente pronto.
Quando assumo a posição de criador é imprescindível que me frustre. Nada nunca vai ser do jeito que penso inicialmente. Mas, de certo, essa frustração é necessária para que reflita sobre minha prática de pensamento e de produção. Deve-se partir do princípio de que todo pensamento é dominado por uma série de clichês, que, como denominava Gilles Deleuze, são um conjunto de ideias, conceitos etc que fazem com que nossa mente reproduza noções, pensamentos, imagens sem ao menos perceber. Por exemplo: pense num coelho. Tenho certeza que, em sua mente, apareceu aquela figura de um coelho branco, peludo, fofinho, com duas orelhas enormes, um par de dentes grandes abaixo do focinho. No máximo, pode ser que tenha pensado em uma cor de pelagem diferente, mas, confesse: lhe veio a mesmaimagem de coelho. Que clichê!
Não há espaço, nessa forma de pensar (ou, melhor dizendo, de reproduzir), de forçar o pensamento a pensar. Tudo é óbvio. Nesse mesmo sentido, é imprescindível citar “Limpar os clichês, desfazer o rosto”, de Jeferson Candido ao afirmar que
Não há tela em branco. ‘Seria um erro – nos diz Deleuze – acreditar que o pintor trabalha sobre uma superfície em branco e virgem’, pois essa superfície, essa tela, ‘já está investida virtualmente por todo tipo de clichês’ (Candido, 2012, p. 46).
As ansiedades que aprisionam e paralisam o gesto de criar, aquela dificuldade de começar um novo projeto, são, na verdade, excessos dessas reproduções, dessas obviedades, que poluem a mente e o processo criativo. Ao criar, é interessante entender que há tensionamentos destes clichês e reconstruções dos “modos de ver” e do corpo, costuras de tudo o que já criamos anteriormente, de criações de outras pessoas que nos marcaram, de experiências, de pensamentos… Enquanto criamos, nos refazemos a todo instante. A tela, o documento em branco pode ser um convite para registrar variações do nosso ser e da realidade que, para deixar claro, excedem aquele gesto de criação. Como propósito da escrita cartográfica, é necessário que você não seja a mesma pessoa que era quando começou algum projeto.
Talvez a frustração inicialnos meus processos criativos – pelo fato de nada do que crio corresponder ao que imaginei – tenha, na verdade, um efeito muito melhor do que havia pensado. Afinal, que bom! Expando muito mais meus horizontes quando não tenho como objetivo singularizar reproduções, tentar dar vida ao que pensei no princípio do processo, mas transmuto essas ideias, permito que meu corpo utilize de suas técnicas para ir além e me permito essa mudança.
Nesse processo, recrio minha subjetividade nas linhas e nas palavras não ditas, reconstruo minhas ideias nesse emaranhado de afetos e permito a criação de um mundo onde desabroche meu eu em constante construção. Nunca estarei pronto, assim como nenhuma pesquisa está completa e coberta da razão mais pura existente. As coisas mudam e novas descobertas são feitas, anulando a crença do que era verdade anteriormente, ou acrescendo cada vez mais fatos que fazem com que aquela verdade seja cada vez mais atual e completa. Há espaço, na escrita e na arte, para ser o que ainda não se é e, como cigarra, abandonar sua casca dura e (re)nascer novamente como algo que extrapola o imaginário e o clichê.
Segunda sequência de cenas: os relatos audio/visuais.
Começo esse bloco alertando: em todo registro há arte.
Mas o que seria arte? Será que esse não é um conceito muito abstrato para trabalhar, tendo em mente que cada pessoa pode ter uma concepção diferente sobre o que seria ‘fazer arte’?
Para tentar solucionar esse possível problema, estabeleço aqui um parâmetro que utilizo para considerar alguma criação, de qualquer nível, uma criação artística. Para mim – e talvez isso ressoe em você –, arte é todo processo de criação que, utilizando alguma técnica de qualquer tipo (visual, sonora, manual, corporal…) abre espaço para a expressão da subjetividade do ser; de tudo aquilo que um corpo carrega, mas que, num primeiro momento, pode não ser visível aos olhos, ouvidos ou qualquer outra parte sensível do corpo de outrem – ou até mesmo do corpo de quem cria, por não ter estabelecido uma relação prévia com essa parte oculta. É o que dá espaço ao sensível. É o que expressa da/na gente, mas que tem o poder de acontecer/afetar/repercutir em outrem, afinal, é impossível que a arte aconteça sozinha (até porque a subjetividade não é construída sozinha: é preciso possuir algum repertório que, por sua vez, é construído por tudo à nossa volta que nos afeta ou afetou de alguma forma).
Aqui, me aproximo do que Christian Mossi e Marilda de Oliveira propõem no texto “Variações em torno das pesquisas em educação e arte com imagens”:
[...] a arte como uma forma, dentre tantas, de sistematizar o conhecimento já produzido e também de conceber novos saberes fazendo uso, talvez, de recursos não usuais como imagens, sons, poesia, movimentos corporais, materiais inusitados, dentre outros, de forma a dizer, ver, ouvir, expor, ler o que outros disseram, viram, ouviram, expuseram, leram, mas que, ainda assim, permanece oculto (Oliveira; Charreu, 2016), não foi dito, visto, ouvido, exposto, lido do mesmo jeito; em terceiro lugar, suspendem os modos já instaurados de se relacionar com o conhecimento, com o mundo, com nós mesmos [..] propondo outras maneiras de investigar, menos colados em representar o mundo e mais engajados em criar mundos possíveis, menos coladas em acumular saberes e mais engajadas em compartilhar experiências (2018, p. 125).
Toda escrita possui abertura para a arte. E isso não é diferente para mim. Meus relatos de campo possuem todos alguma poética permeada em seu conteúdo, mas não são assim todas as coisas que fazemos? A singularização da experiência já a torna poética (para quem ousar se desafiar a olhar para a própria escrita-criação-vida como uma possibilidade de arte). O que reparo de diferente nos relatos que nomeio audio/visuais é que eles não necessariamente se preocupam com a palavra em si, mas com o registro do dia de uma maneira que tente comunicar, em um formato que se difere dos demais, o que poderia descrever em palavras. Eles surgiram dessa maneira pois, no momento da criação do relato, senti que o uso da linguagem escrita não conseguiria contemplar os atravessamentos que aquela experiência teve em mim. Em alguns momentos, a palavra pode ser uma faca de dois gumes: ou aprisiona ou liberta; diz, mas, também, deixa de dizer.
Continuo esse raciocínio resgatando algo que havia dito anteriormente: realizei dois relatos audiovisuais, nos dias 12/06 e 23/10, e dois desenhos resultantes das interações com as crianças, nos dias 21/08 e 28/08. E, para essa modalidade de relato, decidi analisar a forma de expressão pela qual eles foram realizados.
Nos relatos em que exploro uma forma mais visual da arte de criar e relatar, crio um conjunto de signos visuais que remetem às atividades realizadas pela turma ou momentos do dia, junto às crianças, que me marcaram e que carregam consigo, além do registro e (como já alertei previamente) uma poética. A exemplo, fiz um relato audiovisual de um dia em que a atividade proposta pelas monitoras e professoras era a experimentação sensorial dos bebês da turma do berçário com areia artificial e massinha verde. Nesse relato de campo audiovisual, mostro alguns trechos de filmagens que fiz das crianças em contato com a areia, fazendo várias sobreposições, que vão mudando sincronizadamente com o ritmo de uma música que coloquei ao fundo.
Utilizei as filmagens sobrepostas como se fossem uma grande colagem de imagens diferentes que são costuradas juntas com um propósito estético e sensorial: ver os diferentes gestos das crianças em interação com a areia e a massinha verde.
Figura 1: Prints de tela do vídeo-relato.
Fonte: (autores do texto, vídeo produzido a partir de experiências do projeto).
Para os desenhos, utilizei como referência algumas das experiências marcantes do dia, frutos de interações com as crianças, e tentei retratá-las. Não tive o interesse de me comprometer 100% com a realidade, mas de criar novos mundos após primeiro contato. É o que acontece no relato do dia 21/09 (Figura 2), onde tento retratar uma cena que ocorreu durante a brincadeira das crianças com massa de modelar. Veja: a criança não era exatamente assim e a cena não ocorreu exatamente da maneira que retratei, mas foi a maneira que encontrei de criar uma nova possibilidade de existência daquele momento a partir das afetações que ele me provocou.
Figura 2 - Desenho-Relato.
Fonte: (autores do texto, desenho a partir de uma vivência na escola do projeto).
O uso de signos das artes visuais nos relatos de campo transpassa várias afetações que, em seu cerne, tem o propósito de serem utilizadas
como potência discursiva que tenciona, amplia, estabelece outras vias de acesso e de vazão ao texto o qual, por sua vez, ao receber imagens que tomam essa outra posição, acaba se tornando também mais poroso, aberto, permeável a outros sentidos e, por sua vez, passível de conexões diversas, as quais podem vir a ser feitas singularmente por cada leitor que se relaciona com ele (Mossi; Oliveira, 2018, p. 125).
Terceira sequência de cenas: as escritas digitais
Antes de começar a frequentar as escolas, li os muitos relatos de campo escritos (digitalmente) por meu orientador ao longo do ano de 2023 e, durante as primeiras idas às escolas, optei por essa forma de registro. Assim o fiz porque ele assim fazia e, também, porque me parecia mais fácil e prático me sentar à frente de uma tela (algo que faço com frequência) e digitar ali como foi minha experiência. Como exemplo, trago um trecho do meu primeiro relato, do dia 10/04/2024:
Hoje foi o primeiro dia na escola participante do projeto do professor W. Confesso que, antes de ir, estava ansioso para saber como seria a experiência. Por estar fazendo graduação em Pedagogia, espera-se que eu tenha ‘jeito’ para crianças, mas nem sempre é assim.[8]
Analisando os meus primeiros relatos e recordando o tempo em que os criei, percebo que havia contida em mim uma grande ansiedade – o que, certamente, transparece em minha escrita (até porque todo e qualquer tipo de afeto afeta tudo o que meu corpo produz). Além disto, a escrita digital me desperta ansiedade. Me sinto pouco livre e, ao mesmo tempo, quando tenho a liberdade para escrever o que quero, me limito aos meus sentimentos. Quando olho o documento em branco na tela do meu computador, me sinto ansioso; talvez essa ansiedade seja a mesma que eu tenha quando começo a escrever um trabalho para a universidade.
Nesse formato, os relatos possuem poucas ou ausentes apresentações mais detalhadas das atividades exercidas durante a visita à escola e uma presença avassaladora de relações que fiz com outras formas de arte (filmes, músicas etc) a partir da experiência. Como exemplo, trago um trecho do relato do dia 29/05/2024:
Quando estou entre as crianças, sinto a textura da areia em minha boca e cheiro de maresia.
Volto às minhas origens mais primitivas:
O fundo do mar.
Quando eu era um pouco maior que um girino, lembro de assistir Ponyo, do Miyazaki, no Discovery Kids, e sentir um sentimento tão gostoso que só a infância é capaz de nos presentear.
Agora, com 20 anos, mergulho nas profundezas do oceano como se fosse a pequena peixinho-dourado-girino-humana.[9]
Gostaria de, porém, chamar a atenção para dois dos relatos que fiz de maneira digital que se aproximam da escrita poética. Neles, abandono a escrita em parágrafos, adoto as estrofes e tento me aventurar estética gramatical e na diagramação das palavras nas páginas. Assim como nos outros relatos, eles transparecem as reverberações contidas em meu corpo, mas de uma forma mais artística. Como exemplo, utilizarei o relato do dia 24/04/2024:
Milho na garrafa
Poc
Poc
Poc
Poc
Poc!
Dependendo da fanfarra que é feita por cada criança,
O milho chove uma chuva que derrama mil pedaços de uma vez
(e todos, é claro, para fora (da garrafa))
ou vai enchendo o papo do objeto de plástico
Um
por
1 (um)
É uma genialidade musical compreendida por poucos!!!
É chacoalha, chacoalha pra cá
é mexe, mexe pra lá
e no meio dessa ciranda entre conversas mil, parecendo um coro desafinado
BUM!
UMA CRIANÇA….
…….…..
….
……… !!!!EXPLODIU!!!!!
Aqui nessa terra estranha que abriga milhares de seres pequeninos todos os dias, é normal que crianças explodam a cada 5 minutos mais ou menos
e a partir daí a música feita por ela é diferente da proposta
o milho virou pipoca![10]
No relato acima, tentei descrever a atividade realizada pelas crianças.Elas estavam todas sentadas em uma grande mesa, colocando milho de pipoca dentro de pequenas garrafas de plástico para fazerem chocalhos. Durante a realização da tarefa, duas delas se desentenderam e uma mordeu a outra, que começou a chorar (no relato usei o verbo “explodir” para retratar de maneira dramática esse choro e aproximar o ser humano de pouca idade do milho de pipoca).
De certa maneira, esse diário de itinerância se distancia um pouco dos demais por de fato descrever, mesmo que de uma maneira poética, o ocorrido na escola e não se estender muito nas reverberações que esse encontro teve em meu corpo. No entanto, essas reverberações podem ser observadas no relato do dia 05/06/2024, cujo conteúdo é mais próximo dos outros relatos digitais:
Quanto mais eu fico no meio das crianças,
mais percebo que
nunca c r e s c e m o s.
Na turma do berçário, os pequeninos estranham novas pessoas com tanta mais facilidade; Choram com tanta mais facilidade…
Tudo assusta.
é até estranho.
eu, que já vi tanto do mundo
eu, que vi tão pouco do mundo
eu, com a casca marcada de cicatrizes cujas raízes atravessam o peito e o coração
eu, com os olhos e a coluna, com o corpo cansado
de ver e carregar tanto desse mundo comigo
…em silêncio…
eu, que quanto mais envelheço, mais me vejo nos olhos espelhados de lágrimas das crianças
eu só percebo cada vez mais que…
que difícil é ser um recém-nascido
ter que engolir o planeta inteiro de uma vez
que estranho é ter que assimilar tudo num gole à seco
ver a luz de um mundo que você não pediu pra ver
ter que ser aurora onde antes a escuridão era tão acolhedora
ter que ser tudo onde antes não se era.
que difícil é já ter nascido há décadas
e perceber que nada muda
ou que, no final das contas, muito pouco muda.
a única diferença é que agora, já nascido, eu posso escolher
ser aurora num céu que escolho queimar
ser chama num chão velado de lágrimas salgadas
e ver florescer um jardim de flores que escondo dentro do peito
a vida é frágil
e eu escolho acolher
e deixar crescer; florescer
ser primavera depois de um inverno que congelou minhas sementes e raízes
Eu
Escolho
Me
Permitir
Ser
.[11]
Resolvi, nesses dois relatos que uso de exemplo, utilizar uma escrita poética e organizada em versos porque achei que, naquele momento, a escrita em prosa não conseguiria contemplar toda a afetividade que em mim reverberava. Na escrita poética que proponho existe uma diagramação de página que dá espaço proposital a silêncios que têm como objetivo dar ênfase em certas palavras ou frases. Como exemplo, no desfecho do último relato-poema citado:
Eu
Escolho
Me
Permitir
Ser
.
Dou espaço entre as palavras que compõem a frase e Cada Palavra Começa Com A Letra Maiúscula justamente para dar atenção redobrada no significado de cada uma delas, como se fossem uma analogia a frases como "Homem com H maiúsculo".
Parto do princípio de que a escrita é um tipo de desdobra dos afetos do mundo. Ela dá expressão, portanto, aos signos e afetos do mundo que atravessaram um corpo singular. Não é individual propriamente, mas singularizada pelo corpo. Dentro dessa forma de escrita, que foge ao convencional (prosa), sinto que encontro potência para expressar as reverberações que os encontros presenciais na escola tiveram em mim de uma maneira também visual (lidando com a escrita em sua visualidade formal, desde as letras até a página).Durante aquelas semanas, senti que a liberdade da escrita poética conseguiria contemplar de maneira mais assertiva o que gostaria de materializar em relação ao que me marcou durante aquele encontro com as crianças.
Da mesma forma que consigo encontrar potência nesse tipo de escrita para relatar o que meu corpo sentiu a partir das reflexões daquela experiência (e não só a partir dela, mas estando nela também) outras pessoas conseguem adaptar-se de maneira proveitosa ao escrever em prosa (modelo ao qual eu também me adequo para algumas escritas posteriores). São apenas duas maneiras diferentes de fazer transparecer as reverberações que aquele encontro teve em seu corpo e de expressar o que perpassou nele.
E veja bem: sorrisos e choros podem acontecer simultaneamente, no mesmo espaço-tempo, mas esses eventos reverberam de maneiras distintas em diferentes corpos. Um conjunto de afetações e associações diversas acontecem devido a eventos que extrapolam aquela única experiência.
A não constância do processo de escrita consegue evidenciar muito bem a maneira que o corpo dá expressões variadas a partir dos desdobramentos que cada encontro com as escolas foi capaz de me proporcionar. Arrisco-me a dizer que meus relatos são variados porque nenhuma reverberação é igual a outra. Sinto que não existe uma única forma de expressão que consegue dar conta de materializar com uma maior precisão afetiva todos os desdobramentos da experiência que meu corpo presenciou. Daí emergem os vazios entre as palavras, os vazios na folha-tela. Vazios plenos daquilo que (ainda) não ganhou signo para ser expresso em palavras, mas que cartografa meus afetos.
Quarta sequência de cenas: as escritas manuais
Lendo um pouco sobre a escrita cartográfica, Kastrup (2023) e Gurgel (2023), conseguimos reparar que as formas analógicas de escrita vêm sendo uma maneira de realizar esse exercício de pesquisa, como já evidenciado pela segunda autora citada acima em seu texto “Pistas para a escrita de relatos cartográficos”:
A escrita no papel tende a demandar uma certa relação com o tempo e com o ato de escrever: é preciso ter algum tipo de superfície plana na qual apoiar o papel, normalmente em um momento em que a atenção é devotada ao ato de escrever (Gurgel, 2023, p.151).
Após me deparar com apontamentos como esse, resolvi colocar em prática esse exercício de escrever meus relatos à mão e tenho me adaptado muito bem a esse formato. O movimento de parar o que estou fazendo e voltar minha atenção ao meu corpo e ao esforço que ele faz para que as palavras sejam escritas me força – de uma boa maneira – a prestar atenção naquilo que estou fazendo e no modo que faço. Penso que fico mais consciente sobre mim e aquilo que escrevo; presto mais atenção no público que os relatos terão[12], tento contextualizar mais as atividades feitas em campo e as reverberações que os encontros proporcionados pelo projeto tiveram em mim.
De maneira geral, me sinto mais contente com o resultado dessas produções. Talvez porque, ao trazer desenhos e cores para a página, amplio o conjunto de signos disponíveis para dar expressão ao que passa em meu corpo. Daí que me permito usar o corpo de maneira mais ativa e entender os movimentos que ele faz de forma consciente. Dessa maneira, entendo a escrita como um momento mais afetivo e, nele, uma parte do meu ser e do meu afeto é materializado no pedaço de papel.
Vejo esses diários de itinerância manuais também como um processo artístico, e, nesse caso, as ilustrações são signos visuais que remetem às palavras escritas à mão, que, por sua vez, estão relacionadas com o momento vivido e relatado.
Escrevendo de caneta em papel, percebo que me afeto de duas maneiras: uma por relembrar dos encontros e produzir um texto a partir dos desdobramentos que me proporcionaram e outra por permitir que esses afetos afetem meu corpo (literalmente) uma segunda vez. Também é possível ser afetado pela escrita digital, pois lembrar dos encontros é, em certa medida, revivê-los e, na memória, também guardamos sentimentos e sensações que precisam necessariamente do corpo para serem percebidos e sentidos, mas, no mínimo, as reverberações são percebidas e materializadas de formas diferentes conforme o método que utilizamos para produzir os relatos.
No entanto, no exercício manual faço algo que não consigo fazer no digital: desacelero e percebo meu corpo não somente como uma ferramenta de produção, mas parte de todo esse processo.Vejo e entendo que ele não é somente uma ponte entre o que penso e o que produzo, entre o interno e o externo: é tudo ao mesmo tempo; é por onde as ideias passeiam para que possam ser materializadas e em todo esse processo ele é parte essencial. Consigo prestar atenção em meus cinco sentidos de maneira muito mais intensa e proveitosa. Posso ver a maneira com que as palavras são encaixadas e posicionadas na página em branco, sinto a folha de papel, sinto o lápis, sinto também o vazio, esse espaço em branco ainda a ser preenchido. Enfim,ouço meu corpo, a música da caneta desenhando as palavras no papel e, principalmente, respiro.
Nesse processo, torno esses relatos minhas produções. Consigo deixar transparecer com clareza o que reverberou em mim. Singularizar minha experiência e fazer desse momento uma parte de mim, que se torna eterna ao ser concretizada em um texto, em uma imagem.
Reparar também que há uma transformação e melhor adaptação minha nesse modo de escrita. Uma particularidade que tenho é gostar de escrever sem revisar, pois me sinto mais livre quando não me preocupo com a quantidade de erros. Quando escrevemos nos preocupando com a revisão, perde-se o propósito de expressão da escrita, substituindo-o pela preocupação pela perfeição formal do texto.
Figura 3 - Relato-Diário
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Fonte: (autores do texto, diário de bordo do dia 30 de outubro de 2024, realizado a partir das experiências do projeto).
Algumas vezes, começava a escrever o relato à caneta e assim o fazia até o final. Um exemplo disso é o relato acima, do dia 30 de outubro de 2024. Nele, escrevi pela necessidade de escrever. Pelo processo, não pelo resultado.
Diante desse formato me sinto mais livre para me desprender de uma escrita um tanto quanto autobiográfica para realizar uma escrita cartográfica, que se preocupa, em certa medida, a descrever os acontecimentos presenciados em campo como uma forma de registro que não necessariamente quer (re)produzir o passado no que cria, mas cita esses acontecimentos como uma forma de demonstrar e localizar os eventos que reverberam no corpo que escreve.
Cena final
Através de minha jornada no projeto, consigo perceber um processo de mudança de percepção do meu corpo e na forma como me relaciono com a pesquisa e a escrita. Digo até que não tenho mais os mesmos gostos, o mesmo rosto, as mesmas mãos, não utilizo mais os mesmos processos (de escrita, de criação, de mudança…), não tenho mais o mesmo ciclo social; não sou mais a mesma pessoa desde que comecei a me familiarizar com as cartografias dos afetos e a buscar produzir relatos que deem expressão a elas.
Quando meu orientador me pediu, alguns meses atrás, para pensar o processo de minhas escritas, aceitei esse desafio com certo entusiasmo, ainda que perdido em relação a qual caminho trilhar para chegar em algum vislumbre do que gostaria que fosse meu “produto final”. Com o passar das semanas, fui percebendo que esse anseio pela finalidade do texto estava cada vez mais esvaindo conforme fui me alinhando com os propósitos desta nova escrita.
Um dos pilares da pesquisa cartográfica é que ela se faz como processo, como mudança, como criação de novas possibilidades de fazer e ser pesquisa, arte, ser humano. Conforme ia escrevendo as linhas, dando pausas em minhas escritas e costurando o que havia escrito na semana anterior com o que havia para escrever na semana seguinte, fui percebendo que, mesmo num curto espaço de tempo, os motivos e propósitos iam transmutando. Ia adicionando coisas que não havia pensado inicialmente ou excluindo pensamentos que já não faziam mais sentido depois de deixar a escrita descansar e fazer uma revisão no texto.
Nesse ensaio, apresentei e refleti brevemente sobre os meus processos de criação em um projeto de pesquisa, bem como busquei me aproximar mais do conceito de escrita cartográfica. Fui percebendo, no decorrer desse processo, que a proposta da escrita cartográfica tem reverberações que excedem esse único exercício; elas refletem no modo que vejo o mundo e na forma que me relaciono com ele.
Uso diversas fontes, me aproprio de várias ferramentas para dar expressão a algo que, apesar de ser meu (porque está também em meu corpo), é coletivo, tanto pelo contexto escolar em que foram vividas as experiências, quanto pelo horizonte prático-conceitual em que estes relatos aconteceram: a postagem em um grupo de mensagens instantâneas visando fazer parte da formação de um comum, de uma comunidade (de aprendizagem) com o cinema. A construção e a manifestação da subjetividade só são possíveis através da troca, da existência do outro. E a cartografia é isso: troca e construção.
Por fim, cito Verônica Gurgel e digo que:
Como conclusão, entendemos que escrever não é um processo controlado por um indivíduo, nem é uma mera expressão de um eu interior, mas um processo de produção de subjetividade, criando outros modos de ser e estar no mundo. Afinal, mais do que gerar conhecimento ou assimilação de conteúdos, escrever um texto é uma tarefa que produz subjetividade (Gurgel, 2023, p. 139).
Numa palavra: escrever, em palavras e imagens, em e para um contexto coletivo como estas duas escolas de educação infantil, tem produzido tanto subjetividade quanto comunidade.
Referências
COSTA, Luciano Bedin da. Cartografia: uma outra forma de pesquisar. Revista Digital do LAV, Santa Maria, vol. 7, n.2, p. 66-77 - mai./ago. 2014.
FERRAÇO, Carlos Eduardo. Fios de memórias... Sobre possibilidades de escritas de si e invenção de mundos... Educ. Rev., Curitiba, v. 37, e75205, 2021.
GURGEL, Verônica Torres. Pistas para a escrita de relatos cartográficos, Revista Interinstitucional Artes de Educar. Rio de Janeiro, V. 9, Edição Especial "CuerposenlaEncrucijada"- p. 139-159, dezembro de 2023.
KASTRUP, Virgínia. A escrita cartográfica e a dimensão coletiva da experiência, Revista Interinstitucional Artes de Educar. Rio de Janeiro, V. 9, Edição Especial "CuerposenlaEncrucijada"- p. 160-175, dezembro de 2023.
LEITE, César Donizetti Pereira; OLIVEIRA, Luana Priscila de. Pesquisa- experiência: relatos, corpos e acontecimentos. Revista Digital do LAV, Santa Maria: UFSM, v. 12, n. 3, p. 153-171, set./dez. 2019.
MOSSI, Christian Polleti, OLIVEIRA, Marilda Oliveira de. Variações em torno das pesquisas em educação e arte com imagens. Leitura: Teoria & Prática, Campinas, São Paulo, v.36, n.72, p.115-131, 2018.
SABINO, Fernando. No fim dá certo: se não deu, é porque não chegou ao fim. Rio de Janeiro: Record, 2020.
[1]Estudante de Pedagogia pela Faculdade de Educação/Unicamp. Bolsista do projeto "Cartografia dos afetos cinematográficos no lugar-escola de educação infantil". E-mail: a241398@dac.unicamp.br. Orcid: https://orcid.org/0009-0004-7873-3084.
[2] Professor no Departamento de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte, na Faculdade de Educação/Unicamp. Coordenador do projeto "Cartografia dos afetos cinematográficos no lugar-escola de educação infantil". E-mail: wences@unicamp.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8640-4756.
[3] O texto foi inteiramente escrito na primeira pessoa, por ser fruto de um percurso autobiográfico e cartográfico de um dos autores, em torno de sua primeira experiência com a pesquisa e a escrita acadêmica. O outro autor é coordenador da pesquisa e orientador do primeiro autor, estando, portanto, atrás da tela e não na tela desta escrita.
[4] Bolsa Auxílio Social, da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil-DEAPE/Unicamp.
[5] Este projeto é o desdobramento do projeto de pesquisa, quase homônimo, Cartografia dos afetos cinematográficos no lugar-escola de educação infantil – entre o humano e o não humano, entre o registro e a arte, apoiado pela Fapesp(2021/11398-1) o qual foi aprovado CEPCHS, sob o número66976623.8.0000.8142, possuindo os TCLEs e os termos de uso de imagem e som assinados pelos/as responsáveis de todas as crianças envolvidas.
[6] O lugar-escola de educação infantil deste projeto se constitui de duas escolas públicas da rede municipal de Campinas-SP: CEI Bety Pierro e CEI Benjamin Constant.
[7]Neste texto, a expressão 'diário de itinerância' será utilizada como sinônimaà expressão 'relato de campo'. Optamos pela manutenção das duas grafias como um modo de destacar o sentido de itinerância espaço-temporal que este tipo de relato implica no corpo que o efetiva em palavras e imagens.
[8] Trecho do relato de um dos encontros do projeto feito por um dos autores do ensaio.
[9] Trecho do relato de um dos encontros do projeto feito por um dos autores do ensaio.
[10] Trecho do relato de um dos encontros do projeto feito por um dos autores do ensaio.
[11] Trecho do relato de um dos encontros do projeto feito por um dos autores do ensaio.
[12] Todos os relatos realizados pelos bolsistas e pelo orientador do projeto são disponibilizados em um grupo de mensagens instantâneas, para que as professoras e monitoras das escolas que são vinculadas ao projeto possam ter acesso ao que é produzido por nós a partir de nossas visitas junto às cinco turmas que se envolveram mais com o cinema.