A Mansão dos Ratinhos: construindo lares para a infância em um livro ilustrado

 

The Mouse Mansion: building homes for childhood in a picture book

 

 

 

Luanda de Oliveira Rainho Ribeiro[1]

Universidade do Estado de Santa Catarina

 

Anelise Zimmermann[2]

Universidade do Estado de Santa Catarina

 

Resumo

Este artigo aborda o livro A Mansão dos Ratinhos: Sam e Júlia, da artista e autora holandesa Karina Schaapman, cujas ilustrações são realizadas através de fotografias de casas de bonecas e miniaturas construídas pela autora. Apresenta o livro em seus aspectos temáticos e estéticos, aproximando processos de criação artística e a infância, por meio das características lúdicas de produção da narrativa visual e das relações feitas pela autora entre suas memórias de infância e sua visão de uma construção de mundo para as crianças, que fundamenta a concepção da obra. As reflexões possuem como base teórica escritos de Walter Benjamin sobre relações entre infância, materialidade e brinquedos; de Lev Vigotski sobre imaginação e criação, e sobre livros de artista e livros infantis por Amir Brito Cadôr e Eliane Debus. A partir dos aspectos materiais de produção das imagens do livro, o artigo propõe que o contato com a obra em questão possa estimular práticas lúdicas e artísticas através da apropriação criativa de objetos cotidianos.

Palavras-chave: Livro ilustrado infantil; Processo de criação artística; Casa; Brinquedo.

 

 

Abstract

This article discusses the book The Mouse Mansion: Sam and Julia, by Dutch artist and author Karina Schaapman, whose illustrations are photographs of dollhouses and miniatures built by the author. It presents thematic and aesthetic aspects of the book, associating artistic process and childhood, through the playful characteristics in the making of the visual narrative and the associations made by the author between her childhood memories and her vision of a world built for children, which underpins the conception of the work. These reflections are based on writings by Walter Benjamin on the connections between childhood, materiality, and toys; by Lev Vygotsky on imagination and creation, and on artist's books and children's books by Amir Brito Cadôr and Eliane Debus. Taking into account the material aspects of the production of the images in the book, the article proposes that the contact with the work in question can encourage playful and artistic practices through the creative appropriation of everyday objects.

Keywords: Children's illustrated books; Artistic process; Home; Toy.

 

 

 

 

Adentrando um mundo em miniatura

A Mansão dos Ratinhos: Sam e Júlia (Het Muizenhuis: Sam en Julia, no original), é um livro ilustrado infantil de autoria da artista Karina Schaapman, nascida na Holanda do Sul, nos Países Baixos, em 1960. Um aspecto singular da obra é o fato de as ilustrações serem elaboradas por meio de fotografias de uma enorme casa de bonecas construída pela autora. A primeira casinha foi produzida ao longo de três anos com caixas de papelão e materiais reciclados, e possui dois metros de largura e três de altura (The Mouse Mansion, s.d.b.). O cenário conta com mais de cem cômodos representando casas, lojas e mesmo ruas e áreas externas, repletos de miniaturas de móveis e objetos, além de bonecos artesanais dos personagens que a habitam.

O primeiro livro da série foi publicado no país da autora em 2011, e em 2016 no Brasil, pela editora WMF Martins Fontes. Na obra, os protagonistas e melhores amigos Sam e Júlia – um ratinho que vem de uma grande família e uma ratinha que vive apenas com sua mãe – passeiam pelo conjunto habitacional e se relacionam com diferentes espaços e personagens. Cada página dupla apresenta uma nova montagem das miniaturas, mostrando Sam e Júlia em diferentes partes de sua comunidade, junto a um pequeno texto que narra suas experiências em cada uma das passagens. Os pequenos recebem atenção e cuidado dos adultos, aprendem afazeres artesanais e cotidianos, e têm liberdade para brincar e imaginar. Nas palavras da autora, “A Mansão dos Ratinhos é o mundo em que eu gostaria que todas as crianças crescessem” (The Mouse Mansion, s.d.b., tradução nossa).[3] 

Além de mais de vinte livros que integram a série, o universo criado por Karina Schaapman conta também com um pequeno museu e loja na cidade de Amsterdã, onde as casinhas e miniaturas ficam em exposição permanente (The Mouse Mansion, s.d.b.). Além disso, a página oficial do projeto na internet disponibiliza tutoriais para a construção de casinhas de bonecas com materiais de descarte e modelos de impressões para download gratuito que podem ser usados para fazer miniaturas. O livro integra um projeto artístico baseado no desejo da autora de construir um mundo que seja acolhedor para as crianças.

 

A criação com fragmentos da realidade: construindo uma casa para a infância

 

No texto O signo infantil em livros de artista, o pesquisador e artista contemporâneo Amir Cadôr propõe uma aproximação entre processos de criação de livros infantis e livros de artista, através do conceito de “signo infantil” como algo que permeia três abordagens do livro: os destinados a crianças, mas que atraem pessoas de todas as idades; os livros feitos por artistas que utilizam palavras e imagens de maneira inovadora e, por, fim, os livros de artista que não foram feitos para crianças, mas adotam elementos de livros para crianças, e por isso também podem ser usados por elas (Cadôr, 2023). Podemos considerar que A Mansão dos Ratinhos se encaixa nas duas primeiras abordagens, e a partir do argumento do autor de que o artista “se aproxima da criança quando se permite experimentar” (Cadôr, 2023, p. 71), podemos também nos perguntar quais são as possíveis intersecções entre o processo criativo da criança e o do artista adulto.

Em Imaginação e criatividade na infância, Lev Vigotski aponta a atividade combinatória do cérebro como uma forma mais complexa da atividade conservadora: “A fantasia não se opõe à memória, mas apoia-se nela e dispõe os seus dados em novas e novas combinações” (Vigotski, 2014, p. 13). Assim, o vínculo entre fantasia e realidade “consiste no fato de que qualquer ato imaginativo se compõe sempre de elementos tomados da realidade e extraídos da experiência humana pregressa” (Vigotski, 2014, p. 10). Segundo Zimmermann e Freitas:

 

Esse processo criativo se dá através de combinações e reordenações dos elementos encontrados pelo sujeito, modificados e reelaborados a partir de exercícios do imaginar. É dessa forma que são criados os artefatos que compõem o mundo, assim como as fantasias, os mitos, os contos, as lendas e os sonhos (Zimmermann e Freitas, 2018, p.142).

 

 

Em relação ao processo criativo como uma reorganização da realidade para a construção de sentidos, podemos apontar também algumas conclusões dos estudos sobre processos de criação artística da pesquisadora Cecilia Almeida Salles, que aponta, entre suas abordagens do movimento criador, o que chama de “ação transformadora”. Nas palavras da autora:

 

O processo de criação é visto aqui como seleção de determinados elementos que são recombinados, correlacionados, associados e, assim, transformados de modos inovadores [...] O artista apropria-se da realidade externa e, em gestos transformadores, constrói novas formas (Salles, 2011, p. 100).

 

 

A partir de estudos dos processos de criadores em diversas linguagens artísticas, como artistas visuais, escritores e cineastas, Salles observa que a imaginação é um instrumento de elaboração da realidade, e o objeto criado “carrega um modo sensível de mediação da realidade que lhe é externa” (2011, p. 96). A autora considera o artista um captador de retalhos da realidade, e nomeia um dos elementos dessa ação transformadora como “biografismo revisto” (Salles, 2011, p. 106). Podemos observar como alguns aspectos fundamentais da biografia de Karina Schaapman influenciaram sua obra e a visão de mundo que a orienta.

Em entrevista concedida a Deej Johnson, a autora recorda sua própria infância e a relaciona com sua produção. Ela nasceu em 1960 e foi criada por sua mãe, uma imigrante da Indonésia nos Países Baixos. A artista recorda que eram muito pobres e sofriam grande discriminação da comunidade em que viviam, tanto pela nacionalidade e aparência de sua mãe, quanto por sua posição como mãe solo, chegando mesmo a ouvir xingamentos racistas de seus vizinhos (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa).[4]

A autora afirma que a protagonista Júlia é inspirada nela mesma: “curiosa, extrovertida e teimosa, vivendo sozinha com sua mãe em um pequeno apartamento de um quarto” (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa).[5] Sobre sua própria mãe, que faleceu quando a artista tinha apenas treze anos, afirma que ambas tinham um forte vínculo, e ela conseguia criar uma atmosfera amorosa em meio aos desafios que ambas encaravam (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa)[6]. A negligência sofrida pela autora na infância pela comunidade ao seu redor é uma memória marcante:

 

[...] minha mãe ficou seriamente doente, eu fiquei sozinha em casa por seis meses enquanto ela estava hospitalizada, encarando o isolamento e a negligência de nossos vizinhos e das autoridades. Minha mãe faleceu no início de 1973. Esse período da minha vida me influenciou profundamente e se tornou a base para a criação da Mansão dos Ratinhos – uma série de livros infantis. Eu queria criar um mundo atencioso e inclusivo que contrastasse com a negligência e a discriminação que experimentei (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa).[7]

 

Mais que uma única casa, a Mansão dos Ratinhos (figura 1) representa toda uma comunidade: um conjunto de lares que formam um lar maior, onde os personagens se ajudam, apoiam e aceitam suas diferenças. A autora transmuta aspectos de sua dolorosa biografia em uma projeção de realidade: a possibilidade de toda criança viver tendo casa, comida, segurança, dignidade e afeto, em uma comunidade acolhedora e solidária.

Figura 1. Ilustração do livro A Mansão dos Ratinhos.

Loja de brinquedos

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Fonte: Autoria de Karina Schaapman, imagem disponibilizada para download gratuito no site oficial do projeto. Disponível em:

https://www.themousemansion.com/pages/wallpapers-sam-julia?srsltid=AfmBOoqEVOI0l9I9dE2KMjIOtFiuXhK7WEqUP1oO_TQWHAQdVI43BzV3

 

A partir de entrevistas com diferentes autores e autoras de livros infantis ilustrados, Zimmermann e Freitas afirmam que o autor carrega sua memória da infância, “e é lá que encontra parte da matéria-prima para os livros, seja por meio de suas inquietações, sentimentos, medos, lembranças, vivências, fantasias ou memórias” (2018, p. 139). Segundo as autoras, para encontrar um elo entre a criança e a “infância que mora no adulto”, cabe ao escritor não apenas revisitar sua infância, mas também reinventá-la (Zimmermann e Freitas, 2018, p. 140).

Ao fazer livros para a infância, o autor recorda a criança que foi, mas elabora suas memórias em um ato criador, a partir de seu repertório adulto, suas intenções enquanto artista e seu domínio técnico. Nas práticas que envolvem a criação de seus livros — a construção de enormes casinhas de bonecas e milhares de miniaturas, assim como a montagem das cenas em situações vividas pelos personagens — Schaapman assume o lugar de criança brincante e constrói um mundo capaz de acolher seu “eu” do passado e as crianças do presente. Para Walter Benjamin, “Não se trata de uma regressão maciça à vida infantil quando o adulto se vê tomado por um tal ímpeto de brincar. Não há dúvida que brincar significa sempre libertação” (Benjamin, 2009, p. 85). Como exemplo, o autor aponta um crescimento considerável no interesse por jogos e livros infantis após a Primeira Guerra Mundial, uma vez que assim o adulto “liberta-se dos horrores do real mediante a sua reprodução miniaturizada” (Benjamin, 2009, p. 85).

Há, no trabalho de Schaapman, uma intensa articulação entre as reconstruções da realidade praticadas na brincadeira infantil e as propostas da artista para o mundo: para além de uma representação de seus próprios desejos de quando criança, a obra pode ser compreendida como um manifesto do que a autora deseja para todas as crianças, a nível coletivo. Além da “libertação” apontada por Benjamin, a brincadeira pode proporcionar o salto imaginativo necessário para a projeção de possíveis mudanças na realidade: “recorrer à imaginação, buscar na terra do nunca o refúgio ao trágico da existência pode surpreendentemente fazer-nos esbarrar em jogos até então impensados. Imaginar é inventar outras lógicas” (Zimmermann e Freitas, 2018, p. 143).

Segundo Jorge Luis Borges, para se criar um grande livro é preciso que algo “agrade à imaginação na própria moldura do livro” (Borges, 2019, p. 99). A “moldura” em que se inserem cada uma das passagens sobre o cotidiano de Sam e Júlia é a existência de um grande conjunto habitacional onde vivem ratinhos antropomórficos em relações de cooperação, companheirismo e amizade. Mas há, de certa maneira, uma outra moldura, externa à narrativa, que se evidencia pelo fato daquelas imagens serem produzidas em última instância pela fotografia: a moldura narrativa maior com a qual nos deparamos é a própria existência material de uma imensa casinha de bonecas artesanal e repleta de milhares de miniaturas. Um brinquedo clássico com manifestações diversas, de intenso referencial afetivo para muitas pessoas, facilmente “agrada à imaginação”, sendo a casa um signo de acolhimento, segurança, pertencimento e cuidado na obra de Karina Schaapman. 

O procedimento artístico que origina A Mansão dos Ratinhos é profundamente lúdico e imaginativo, e a estrutura da casinha construída na materialidade do mundo é aberta a múltiplas composições narrativas através da manipulação de seus elementos (miniaturas, bonecos, espaços, e mesmo aspectos de seu registro fotográfico, como iluminação e ângulos). Segundo Johann Huizinga, uma das qualidades fundamentais da estrutura interna do jogo é a capacidade de repetição, e, além disso, o “jogo” (ou brincadeira) cria uma ordem, “Introduz na confusão da vida e na imperfeição do mundo uma perfeição temporária e limitada” (Huizinga, 2005, p. 12). Assim, cada momento de brincadeira com a estrutura é uma nova chance de ordenar a realidade em uma perspectiva criadora.

Em seu texto intitulado Livros de brincar, casas de morar, Eliane Debus apresenta a “ideia metafórica do livro para criança como casa, guarida, lugar de repouso e descanso” (Debus, 2020, p. 52). O texto se inicia com uma citação de Lygia Bojunga, que liga seu passado de criança leitora a seu trabalho como autora de livros para a infância:

 

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena

os livros me deram casa e comida.

Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo;

em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada;

inclinado, encostava num outro e fazia telhado.

E quando a casinha ficava pronta eu me espremia

lá dentro pra brincar de morar em livro.

[...] cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar

tijolo pra - em algum lugar - uma criança juntar com

outros, e levantar a casa onde ela vai morar

(Bojunga, 2001, apud Debus, 2020, p. 52).

 

 

Essa imagem do livro como casa fica evidente em A Mansão dos Ratinhos. Abrir e ler o livro é como adentrar um lar feliz e experienciar o acolhimento em toda a sua concretude material.

 

Muitas casas possíveis: o livro, os brinquedos e o mundo

O livro-casa como lugar de segurança e afeto remete à intenção de apresentar histórias sobre um mundo bom para todas as crianças, como indicado por Karina Schaapman. Ao optar pela construção material dos elementos que formam as imagens, a autora estimula ainda em um nível literal a proliferação dessas casas para além do livro, incentivando leitores de todas as idades a construírem suas próprias casinhas de brinquedo. A respeito da produção de suas miniaturas, afirma:

 

os materiais são frequentemente sucata…Tampinhas de garrafas são usadas para fabricar luminárias, por exemplo, luzes de bicicleta viram garrafas, jarras e baldes de esmalte são feitos de papel, e palitos de picolé viram pisos de madeira. Meu objetivo é inspirar as crianças a reconhecerem e usarem os recursos simples ao redor delas para criarem seus próprios mundos imaginativos (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa).[8]

 

Outro ponto a se destacar é que, nas imagens do livro, a transformação de materiais cotidianos em miniaturas muitas vezes não é completamente ocultada. São perceptíveis rolhas de garrafas transformadas em barris com torneirinhas; plantinhas secas que são buquês, meramente deslocadas de um jardim ou canteiro para o mundo das miniaturas; uma engrenagem retirada de uma máquina quebrada qualquer é a roldana usada pelos ratinhos para puxarem cargas de alimentos. Além disso, o tamanho das coisas é muitas vezes desproporcional ao que seria equivalente à “nossa” realidade na versão dos ratinhos. As conchas nas paredes da casa do avô marinheiro de Sam não são conchinhas minúsculas, proporcionais às mãos dos personagens, mas são conchas reais em diferentes tamanhos, deslocadas para aquele mundo sem o menor disfarce. Os pedacinhos de papel entre as coletas do sucateiro possuem letras grandes demais, pois são papéis do “nosso” mundo levados para aquele outro. Em uma cena que mostra diversos ratinhos da comunidade estocando alimentos no sótão, os cestos em miniatura são ocupados por feijões em tamanho real. Essas pequenas grandes surpresas descobertas nas imagens aproximam o mundo ficcional do real.

O fazer da ficção aparece em pequenas brechas nas quais as imagens dão pistas sobre os procedimentos artesanais da obra. Além disso, os trabalhos cotidianos dos ratinhos, e mesmo a inserção de produtos de marcas reconhecíveis, com rótulos impressos em miniatura, demonstram que aquele não é um universo mágico apartado da realidade, mas de alguma maneira ligado a ela, efeito potencializado pela imagem fotográfica. Essa ligação entre ficção e realidade condiz com o desejo de transformação do mundo indicado pela autora. O mundo ideal para as crianças não pode ser muito diferente, estar muito distante daquele em que já vivemos: construída com fragmentos da realidade, a ficção pode retornar à realidade, ajudando a gerar as mudanças desejadas.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de perceber nas imagens partes dos processos de produção dos elementos que as compõem proporciona um incentivo à realização de práticas artesanais pelos leitores do livro. Manita Schaapman, uma das filhas da autora, afirma que “desde o começo, Karina recebia fotos de fãs que estavam construindo seus próprios cômodos e mansões inspirados pelos livros” (Schaapman; Schaapman, 2024, tradução nossa)[9]. O incentivo à produção de brinquedos artesanais passou a fazer parte do projeto artístico de Karina Schaapman. O site da companhia The Mouse Mansion apresenta tutoriais de construção de casinhas com caixas de papelão, e de miniaturas diversas com materiais simples (The Mouse Mansion, s.d.c.).

No texto de 1928 História cultural do brinquedo, Walter Benjamin enfatiza a produção alemã de brinquedos, e comenta como, inicialmente, ela ocorria através de artesãos que os produziam como produtos secundários em suas oficinas (de marcenaria, fundição e outras). No decorrer do século XVIII, para muitos artesãos que até então produziam para as igrejas, teria surgido a necessidade de reorientarem seus trabalhos, gerando um aumento na produção de brinquedos e miniaturas para a decoração das salas burguesas (Benjamin, 2009). O autor aponta a importância da compreensão tanto da arte popular quanto da concepção infantil de mundo como configurações coletivas, afinal, “o brinquedo é condicionado pela cultura econômica e, muito em especial, pela cultura técnica das coletividades” (Benjamin, 2009, p. 100).

Em Brinquedos russos, texto de 1930, Benjamin destaca a relação entre os primórdios dos brinquedos e a arte popular, comentando os diversos materiais (como madeira, argila, osso, feltro, papel, papier mâché) e as diversas linguagens e formas usadas por toda a Rússia (Benjamin, 2009), e dedica parte de suas reflexões ao interesse da criança pelo processo de manufatura dos brinquedos: “O espírito do qual descendem os produtos, o processo total de sua produção, e não apenas o seu resultado, está sempre presente para a criança no brinquedo” (Benjamin, 2009, p.127). Para o autor, poder imaginar como os brinquedos são feitos permite à criança estabelecer uma relação viva com suas coisas (Benjamin, 2009).

Essa “relação viva” da criança com as coisas passaria, então, por compreender as partes e os processos que as constituem, e perceber sua própria capacidade criadora e construtora com os elementos do mundo. Para Benjamin, os brinquedos não demonstram uma vida infantil autônoma e segregada, uma vez que “as crianças não constituem nenhuma comunidade isolada, mas antes fazem parte do povo e da classe a que pertencem” (Benjamin, 2009, p. 94). O interesse das crianças pelos afazeres artesanais e concretos aparece no próprio livro de Schaapman (2016): Júlia e Sam passam o dia visitando adultos em seus ambientes de trabalho. Eles ajudam o sucateiro da comunidade a organizar suas coletas, assistem a avó de Sam fazendo panquecas, ajudam sua mãe a lavar roupas, pedem ao “Tio João” que conserte a fechadura da caixinha onde os dois amigos guardam seus segredos, e ainda visitam o avô marinheiro de Sam no mercado de peixes, o que remete a outra observação de Walter Benjamin:

 

As crianças gostam muito particularmente de procurar aqueles lugares de trabalho onde visivelmente se manipulam coisas. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos desperdícios que ficam do trabalho da construção, da jardinagem ou das tarefas domésticas, da costura ou da marcenaria. Nesses desperdícios reconhecem o rosto que o mundo das coisas volta para elas, precisamente e apenas para elas. Com eles, não imitam as obras dos adultos, antes criam novas e súbitas relações entre materiais de tipos muito diversos, por meio daquilo que, brincando, com eles constroem. Com isso, as crianças criam elas mesmas o seu mundo de coisas, um pequeno mundo dentro do grande (Benjamin, 2020, p. 16).

 

 

O que o autor aponta não representa uma defesa da realização de trabalho “adulto” por parte das crianças, mas a demonstração de que, na brincadeira infantil, há um interesse em integrar diversos elementos do mundo à dinâmica lúdica, muitas vezes em suas materialidades mais rudimentares e abertas à criação (figura 2), diferentemente do que pode ocorrer com o brinquedo industrial perfeitamente finalizado, cujo processo de produção é misterioso para a criança.

 

Figura 2. Sam e Júlia visitam o sucateiro, ilustração do livro A Mansão dos Ratinhos.

Urso de pelúcia em cima de uma superfície de madeira

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Fonte: Autoria de Karina Schaapman, imagem disponibilizada para download gratuito no site oficial do projeto. Disponível em:

https://www.themousemansion.com/pages/wallpapers-sam-julia?srsltid=AfmBOoqEVOI0l9I9dE2KMjIOtFiuXhK7WEqUP1oO_TQWHAQdVI43BzV3

 

 

Para Benjamin, a criança se interessa pelos materiais mais heterogêneos, como pedras, madeira e papel, o que é exemplificado quando, ao tratar das práticas colecionistas das crianças, aponta o modo como a imaginação infantil atribui sentidos diversos aos fragmentos que encontra: as gavetas das crianças estão cheias de “castanhas eriçadas que são clavas, papéis de prata que são um tesouro, blocos de madeira que são caixões, cactos que são totens e moedas de cobre que são escudos” (Benjamin, 2020, p. 36). O “pequeno mundo dentro do grande” criado pelas crianças com os materiais residuais do seu cotidiano em sociedade remete à criação com fragmentos da realidade, por artistas e por crianças.

Pensando sobre a produção artesanal de brinquedos, podemos direcionar esta reflexão ainda mais a seu aspecto material. A matéria é carregada de sentidos: ao desalienar-se do processo de produção de um brinquedo, a criança pode perceber sua própria capacidade criadora através da apropriação e da manipulação de elementos dispostos em sua realidade, o que consiste em experienciar e desenvolver seu poder transformador sobre o mundo em seu entorno, reconhecendo seu papel como sujeito capaz de influenciar a realidade material.

 

Considerações finais

 

A partir de dados biográficos e declarações da própria autora, observou-se como os temas que Karina Schaapman aborda se manifestam na materialização de sua obra, composta por imagens de cuidado com as infâncias em nível material e afetivo. Levando em consideração a visão da autora e o conjunto do projeto artístico A Mansão dos Ratinhos — incluindo livros ilustrados, trabalhos tridimensionais, um pequeno museu e tutoriais de artesanato disponibilizados ao grande público —, a obra convida leitores adultos a uma reflexão política e afetiva, e possui potencial educativo para o público infantil. Embora não seja o objetivo deste estudo apresentar uma estrutura pré-definida de como explorar esse potencial, são sugeridas possibilidades que podem se efetivar através de mediações em espaços educativos formais ou informais: em lares, escolas, bibliotecas e outros, sempre levando em conta as especificidades dos contextos e como estas influenciam as abordagens seguidas.

 Através dos escritos de Walter Benjamin, buscou-se evidenciar modos como as crianças podem se relacionar com os materiais de seu entorno de maneira imaginativa e criadora, sendo este um aspecto essencial das relações entre a obra apresentada e seus leitores de todas as idades: conforme descoberto pela própria autora no contato com seu público, as imagens que formam as histórias em A Mansão dos Ratinhos abrem possibilidades para experiências lúdicas, artísticas e narrativas.

Ainda, a hibridização de linguagens, a riqueza conceitual e a coerência com os posicionamentos éticos e políticos da autora presentes nessa produção demonstram o quanto a interlocução com o livro ilustrado infantil reconhecido como objeto artístico pode ser prolífica para o pensamento plástico e poético em artes visuais e os estudos de processos de criação artística. Essas relações abrem espaço tanto para possibilidades educativas quanto para reflexões acerca do imaginário infantil e adulto, por suas características conceituais, estéticas e materiais.

Cabe apontar que todos esses aspectos são potencializados também pela materialidade do livro em suas escolhas editoriais, com páginas de amplas dimensões (29,97 x 25,65 cm) e alta qualidade de reprodução das imagens, em consonância com o trabalho fotográfico que permite uma atenção a todos os detalhes, contribuindo consideravelmente para a imersão dos leitores de qualquer idade.

Compreende-se que, enquanto o que se imagina é formado por fragmentos da realidade de seu criador, a partir do momento em que a imaginação é mediada pelas linguagens da cultura, de modo a alcançar outros sujeitos, o fruto dessa relação torna-se também repertório disponível, influenciando em novos processos imaginativos e criadores. Ao construir artisticamente um mundo a partir de seu ideal do que a realidade das crianças deveria ser, Karina Schaapman oferece imagens para alimentar nossos próprios sonhos a serem materializados: imaginar é o primeiro passo do processo de transformação da realidade. Para o leitor adulto, a obra é política em seu manifesto pela proteção à infância e pelo fortalecimento de um senso de comunidade, e para leitores de qualquer idade, um incentivo à apropriação e transformação da realidade a partir da arte, proliferando sonhos e projetando possibilidades de mundos a serem desejados e construídos coletivamente: juntando restos e pedacinhos com o cuidado de quem monta uma casinha de bonecas.

 

REFERÊNCIAS

 

BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Tradução, apresentação e notas de Marcus Vinicius Mazzari. 2. Ed. São Paulo; Duas Cidades: Editora 34, 2009.

BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única: Infância berlinense: 1900. Edição e tradução de João Barrento. 1. ed. 3. reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.

BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. Tradução de José Marcos Macedo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

CADÔR, Amir Brito. O signo infantil em livros de artista. PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG. Belo Horizonte, p. 59–72, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistapos/article/view/48524 . Acesso em: 23 jul. 2025.

DEBUS, Eliane. Livros de brincar, casas de morar: a artesania do papel. In: DEBUS, Eliane, SPENGLER, Maria Laura P. e GONÇALVES, Fernanda (Orgs.). Livro objeto e suas arti(e)manhas de construção. Curitiba: Editora MercadoLivros, 2020.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Tradução de João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 2005.

SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. 5. ed. São Paulo: Intermeios, 2011.

SCHAAPMAN, Karina. A Mansão dos Ratinhos: Sam e Júlia. Fotos de Ton Bouwer. Tradução de Mariângela Guimarães. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.

SCHAAPMAN, Karina.; SCHAAPMAN, Manita. Creating the Sam & Julia brand: Karina and Manita Schaapman on The Mouse Mansion… And more! [Entrevista concedida a] Deej Johnson. Brands Untapped, 2024.

Disponível em: https://www.brandsuntapped.com/creating-the-sam-julia-brand-karina-and-manita-schaapman-on-the-mouse-mansion-and-more/ Acesso em: 23 jul. 2025.

 

THE MOUSE MANSION. Sam & Julia, s.d.a. Free wallpapers.

Disponível em: https://www.themousemansion.com/pages/wallpapers-sam-julia?srsltid=AfmBOoqEVOI0l9I9dE2KMjIOtFiuXhK7WEqUP1oO_TQWHAQdVI43BzV3  Acesso em: 23 jul. 2025.

 

THE MOUSE MANSION. Sam & Julia, s.d.b. Karina’s Story.

Disponível em: https://www.themousemansion.com/pages/discover-the-authors-story Acesso em: 23 jul. 2025.

 

THE MOUSE MANSION. Sam & Julia, s.d.c. Make your own Mouse Mansion.

Disponível: https://www.themousemansion.com/pages/make-your-own-mouse-mansion-sam-julia Acesso em: 23 jul. 2025.

 

VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Imaginação e criatividade na infância. Tradução de João Pedro Fróis. Revisão técnica e da tradução de Solange Affeche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.

ZIMMERMANN, Anelise.; FREITAS, Neli Klix. O livro ilustrado e a imaginação: escritor, ilustrador e leitor em uma trama interativa. In: Perspectiva – Revista do Centro de Ciências da Educação. Florianópolis, v. 36 n. 1. P. 137-150, jan./mar. 2018. Disponível em:  https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/2175-795X.2018v36n1p137  Acesso em: 23 jul. 2025.

 

 

 



[1] Artista visual e doutoranda em Artes Visuais no PPGAV - UDESC com bolsas FAPESC (2023-2026) e PROMOP - UDESC (2026-), sob orientação de Sandra Correia Favero. Realizou as exposições individuais Formas da Ficção (Sesc Ingleses, 2024), A Arqueóloga na casa do sonho (Fundação Cultural Badesc, 2023) e Arqueologia do Impossível (Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, 2019), além de diversas coletivas. Pesquisa narrativas ficcionais, arqueologias da memória e o lúdico nas artes. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4615-5465. E-mail: luanda.deoliveira@gmail.com.

[2] Professora efetiva no curso de graduação em Design Gráfico e no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais na UDESC. É doutora em Design (UFPE), com doutorado sanduíche na University of the Arts London (Reino Unido), mestrado em Artes Visuais (UDESC) e graduação em Programação Visual (UFSM). Seus estudos transitam entre o desenho e a ilustração de livros infantis em interlocução com a Arte Educação e o Ensino a partir de abordagens transdisciplinares. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8751-0091. E-mail: anelise.zimmermann@udesc.br.   

[3] No original: “The Mouse Mansion is the world I would want every child to grow up in” (Sam & Julia, s.d.b.).

[4] No original: “I was born in 1960 and raised by my single mother in a small house in the Netherlands. We were very poor, and my mother, who was originally from Indonesia, faced significant discrimination due to her foreign background, appearance, and status as a single parent. The neighbours often hurled racist insults at us […]” (Schaapman; Schaapman, 2024).

[5] No original: “Julia is based on me; curious, outgoing and stubborn, living alone with her mother in a small one-room apartment” (Schaapman; Schaapman, 2024).

[6] No original: “We shared a close bond, sleeping in the same bed and without the distraction of TV or radio. She would tell me stories of her homeland, filled with exotic animals and foods, creating a warm and loving atmosphere amidst the challenges we faced” (Schaapman; Schaapman, 2024).

[7] No original: “my mother fell seriously ill. I was left alone at home for six months while she was hospitalised, facing isolation and neglect from our neighbours and the authorities. My mother passed away in early 1973. This period of my life deeply influenced me and became the foundation for creating The Mouse Mansion – a children’s book series. I wanted to create a caring, inclusive world that contrasted with the neglect and discrimination I experienced” (Schaapman; Schaapman, 2024).

 

[8] No original: “the materials are often scrap… Bottle caps are used to fabricate lamps, for example, bicycle lights become bottles, enamel jugs and buckets are made of paper, and popsicle sticks change into wooden floors. My goal is to inspire children to recognise and use the simple resources around them to create their own imaginative worlds” (Schaapman; Schaapman, 2024).

[9] No original: “from the very beginning, Karina received photos of fans who were building their own rooms and mansions inspired by the books” (Schaapman; Schaapman, 2024).