“Na chuva das paixões eu vou, não quero abrigo”:
desnovelando a imagem “Ana Raio”
“In the rain of passions I go, I don’t want shelter”:
unveiling the image “Ana Raio”
Odailso Berté [1]
Universidade Federal de Santa Maria
Resumo
O objeto de estudo deste texto é Ana Raio, personagem-título da telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão (1990) e referência para a série documental As amazonas (2025). Este estudo tem como objetivos: refletir sobre a estratégia da personagem Ana Raio para conquistar seu espaço no mundo majoritariamente masculino do rodeio, na referida novela; reconhecer os modos como Ana Raio inspirou as mulheres da série As Amazonas a trabalhar no mundo equestre; analisar as confluências entre Ana Raio, essas mulheres e as questões de gênero. Através da metodologia da bricolagem, entrecruzam-se diferentes imagens e compreensões da filosofia, da cultura visual, dos estudos culturais e de gênero. A principal compreensão teórica que embasa este estudo é o filosofazer contempop (BERTÉ, 2025), um exercício de cultivo, reflexão e interpretação de imagens das artes populares da mídia. Ao refletir sobre como a imagem “Ana Raio” inspirou o autor deste texto e as mulheres da série As amazonas, propõem-se pensar sobre a influência das imagens no mundo contemporâneo e sobre como elas podem oportunizar reflexões mediante o olhar crítico e a interpretação criativa.
Palavras-chave: Ana Raio; Série As amazonas; Filosofazer contempop.
Abstract
The object of study in this text is Ana Raio, the title character of the telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão (1990) and a reference for the documentary series As amazonas (2025). This study aims to: reflect on Ana Raio's strategy for conquering her space in the predominantly male world of rodeo in the aforementioned telenovela; recognize the ways in which Ana Raio inspired the women in the series As Amazonas to work in the equestrian world; and analyze the confluences between Ana Raio, these women and gender issues. Through the methodology of bricolage, different images and understandings from philosophy, visual culture, cultural studies, and gender studies are interwoven. The main theoretical understanding that underpins this study is contempoo philosophizing (BERTÉ, 2025), an exercise in cultivating, reflecting on, and interpreting images from popular media arts. Reflecting on how the image "Ana Raio" inspired the author of this text and the women in the series As amazonas, we propose to consider the influence of images in the contemporary world and how they can provide opportunities for reflection through critical eye and creative interpretation.
Keywords: Ana Raio; Series As amazonas; Contempop philosophizing.
Botando as imagens na mesa
A frase “na chuva das paixões eu vou, não quero abrigo”, que intitula o presente texto, compõe a letra da música Esperança manhã[2], a qual integra a trilha sonora da telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão[3] (1990-1991) e conforma o contexto narrativo da personagem-título Ana Raio, interpretada pela atriz baiana Ingra Lyberato. Por impactar minhas paixões e afetos infantojuvenis, a imagem “Ana Raio”[4] se tornou objeto de colecionismo e, agora, um objeto de estudo. Uma frase de Muniz Sodré, em seu livro sobre o samba, vem ao encontro deste estudo: “Trata-se, porém, de uma leitura conduzida pelo próprio ‘objeto’ e que assume o risco do envolvimento e da paixão” (SODRÉ, 1998, p. 10). Nesse sentido, assumo o risco da paixão pela imagem “Ana Raio” pois, ao perceber meu investimento afetivo nesta e em outras imagens, reconheço os estratagemas sensíveis que entrelaçam mídia - imagem - afeto e podem formar espectadores(as) atentos(as) ou apáticos(as) a estas questões.
Analiso a imagem “Ana Raio” tanto na telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão como na recente série documental As amazonas[5] (2025), apresentada pela atriz Ingra Lyberato e que mostra o cotidiano de doze mulheres inseridas no mundo equestre inspiradas por Ana Raio. Utilizando a metodologia da bricolagem, conforme Kincheloe (2007), entrecruzo compreensões da filosofia, da cultura visual, dos estudos culturais e de gênero para refletir sobre minhas experiências e sobre os relatos da atriz Ingra Lyberato, da roteirista e de duas participantes da série As amazonas e de Rita Buzzar (coautora da referida novela), coletados através de entrevistas.
Para mim, a imagem “Ana Raio” tem causado grande impacto desde que a vi pela primeira vez em 1990, tornando-se parte de um acervo pessoal de imagens femininas gerado através do colecionismo. Foi no campo de estudos da cultura visual, conforme Tourinho & Martins (2013, p. 63), que compreendi “as imagens e os artefatos visuais não apenas como representação, mas como vivência que articula significados existenciais e simbólicos”. Dessarte, “Ana Raio” e outras imagens tornaram-se objetos de estudo gerando o filosofazer contempop (BERTÉ, 2025), um exercício de cultivar imagens e refletir sobre elas. Para construir-se como proposição conceitual-metodológica, o filosofazer contempop apoia-se nas compreensões da filosofia pop, de Feitosa (2022), da interpretação criativa das artes populares da mídia, de Shusterman (1998), e do contemporâneo, de Agamben (2009), entre outras.
Para pensar o mundo de maneira bem-humorada e acessível, conforme Feitosa (2022), a filosofia pop resgata o aspecto imaginativo, rebelde e crítico da pop art dos anos 1950-1960 e entrecruza filosofia, arte e ciência, interpelando dicotomias entre alta e baixa cultura, cotidiano e reflexão. Shusterman (1998), ao analisar as “artes populares da mídia, quase sempre ignoradas pelas filosofias tradicionais da arte” (p. 8), destaca como distintos públicos empregam estratégias interpretativas tornando tais produtos e obras mais relevantes em relação à sua experiencia social, “decodificando criativamente ou reconstituindo seu significado” (p. 128). Isso, por meio de um olhar crítico, um olhar contemporâneo, pois, em sintonia com Agamben (2009), contemporâneo é aquele(a) que, convivendo com o seu tempo, consegue se distanciar dele, buscando ver, para além do que está na luz, o que está no escuro.
Desse modo, este texto articula um desnovelamento da imagem “Ana Raio”, ou seja, um escrutínio que desata seu novelo ficcional, desvela seu caráter de novela através de associações com outras imagens e de análises com ideias de diferentes campos do saber. Esse é o modus operandi do filosofazer contempop.
“Entre tropas e tropeiros, boiada, peões, rodeios”[6]: Ana Raio
Recordo que em 12 de dezembro de 1990 estreou a telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão, na extinta Rede Manchete, sob a inspiração do slogan “O Brasil que o Brasil não conhece”[7]. Fugindo aos cenários de estúdio e às tramas corriqueiras de magnatas e socialites de grandes centros urbanos, esta foi uma novela disruptiva e itinerante, gravada em cenários externos/naturais, que incluiu histórias, personagens e elementos locais de cidades interioranas e da cultura dos rodeios, produzindo imagens memoráveis. “Pela primeira vez no mundo, uma novela se deslocava por todo o país. E sem efeitos, sem truques de simulação de ambiente. Foram 14 mil quilômetros mostrando para os telespectadores um Brasil que muitos não teriam chance de ver de perto” (FRANCFORT, 2008, p. 182). A equipe de quase 300 integrantes percorreu os estados do Rio Grande do Sul (Santa Rosa, São Miguel das Missões, Piratini), Santa Catarina (Navegantes, Treze Tílias, Joinville), Paraná (Foz do Iguaçu), Mato Grosso (Chapada dos Guimarães), São Paulo (Jaguariúna) e Bahia (Rio de Contas), entre outras cidades feitas locação para as filmagens.
A novela tinha como protagonista Ana de Nazaré (personagem vivida pela bailarina Flor Violeta Liberato e na sequência por sua irmã, a atriz Ingra Lyberato), que, aos 13 anos, foi estuprada por Canjerê (personagem interpretado pelo ator Nelson Xavier), um capataz ressentido da fazenda onde seu pai trabalhava. Da gravidez gerada por este ato criminoso, nasceu Maria Lua que herdou a referida fazenda, sendo sequestrada e registrada pelo pai que, como seu tutor legal, tornou-se o administrador da propriedade. Despejada da fazenda, a saga de Ana de Nazaré consistiu em reencontrar a filha raptada, tornando-se a famosa peoa de rodeio Ana Raio e viajando pelo Brasil nas festas de peão de boiadeiro, onde nasceu o romance com Zé Trovão (personagem vivido pelo cantor e ator Almir Sater).
Em entrevista para este estudo, a atriz Ingra Lyberato recorda a personagem Ana Raio que a tornou conhecida em todo o Brasil:
Ana Raio tinha uma
postura à frente do seu tempo. Apesar de ter passado por estupro, ter
engravidado e ter tido sua filha roubada pelo abusador, nunca reclamou da vida
e era determinada a encontrar sua filha.
Corajosa, feminina, justa, desconfiada, firme e amorosa, Ana Raio reunia
características que podem parecer antagônicas, mas nela era muito natural.
Tanto que seu maior concorrente também era seu maior amor. Ao mesmo tempo que
competia com ele e ganhava, era extremamente feminina deixando ele
completamente apaixonado (informação verbal)[8].
Ana Raio era uma moça interiorana simples, uma amazona imponente sobre seu cavalo, uma mulher corajosa que se destacava como modelo de ruptura diante de certas convenções da época em que a novela foi exibida, pois tornou-se uma peoa de rodeios, fazendo páreo com os homens. Como era vedada às mulheres a possibilidade de competir nos rodeios, ela precisou driblar essa barreira através de uma ousada estratégia: ocultar o gênero heterodeterminado. Nessa questão, minha compreensão da imagem “Ana Raio” se aproxima da análise que Tiburi faz da personagem Diadorim, do romance Grande Sertão: Veredas (ROSA, 1986): “Diadorim [...] é a duplicidade que se recusa a estancar seu processo no ser ‘mulher’ e, por isso, só pode vivê-lo ao ocultar-se da heterodeterminação” (TIBURI, 2013, p. 200).
Em outro estudo, Tiburi diz: “assumir o ‘ser mulher’ é, para mim, assumir um signo construído no patriarcado” (TIBURI, 2018, p. 21). A filósofa ainda destaca que, “para docilizar as pessoas marcadas como mulheres, foi inventado o ‘feminino’” – “termo usado para salvaguardar a negatividade que se deseja atribuir às mulheres no sistema patriarcal” (TIBURI, 2018, p. 50), sistema esse cujo braço direito é a heteronormatividade (heterossexualidade como padrão normativo). Isso não quer dizer que devamos hostilizar ou substituir os termos “mulher” e “feminino”, pelo contrário. Em relação a estes e a outros termos como “homem”, “masculino”, “heterossexual”, “homossexual” e todas a significações da sigla LGBTQIAPN+, trata-se de uma reflexão crítica acerca de como, ao designar/marcar pessoas, eles salvaguardam sua existência, direitos e dignidade.
Para ocupar o espaço público do cangaço, a personagem Diadorim vestiu-se como se vestiam os homens, ocultando o papel de gênero determinado pela heteronormatividade – “mulher”, “donzela”, “esposa” –, pois, escondida sob a imagem de “homem”, estaria protegida de ser estuprada ou subjugada a um casamento indesejado. De modo semelhante, a personagem Ana Raio – uma mulher heterossexual cisgênero – vestiu-se como se vestiam os peões, adotando o nome do seu pai Chico de Nazaré, ocultando assim seu ser mulher para poder ocupar o espaço público do rodeio (Imagem 1). Durante a competição, Chico de Nazaré passou por situações que, no contexto narrativo da novela, onde os demais peões pensavam tratar-se de um homem, poderiam ser vistas como homofobia. Pois, foi associado ao “boi xibungo” (animal com tendência homossexual) e taxado de “peão berôlo” e “peão abeia” que, na linguagem popular dos rodeios, significa o peão que se veste como tal, mas não é ‘homem o suficiente’ para tal empreitada.
Imagem 1 – Ana Raio na cena empinando com seu cavalo (à esquerda) e, com os demais personagens, na cena do rodeio em que revela ser uma mulher (à direita).
Fonte: prints de cenas dos capítulos 1 e 19 da telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão (1990)[9].
Ocultando o gênero heterodeterminado “mulher”, Ana Raio participou do espaço público do rodeio, classificando-se entre os três melhores peões, e no meio da arena, ela tirou o chapéu deixando cair seus cabelos longos, revelando ser uma mulher (Imagem 1). Em um misto de surpresa e euforia, ela foi celebrada sem questionamento frente ao fato de ter burlado as normas do concurso, dada a inusitada façanha que havia realizada sendo uma mulher. Ao rever essas imagens desprovidas da nitidez das imagens atuais, recordo de, com 11 anos de idade, emocionar-me com a bravura de Ana Raio empinando com seu cavalo e montando touros bravos vestida como homem e, em seguida, como mulher. Ela era uma heroína para mim, um exemplo de mulher, uma imagem inspiradora que, anos depois, nos espaços por ela abertos em meus afetos, o feminismo encontrou aquiescência e passou a fazer parte dos valores que me constituem.
Ao comentar sobre como introduziu no texto da novela esta façanha da personagem Ana Raio, de vestir-se de homem, em entrevista para meus estudos sobre A história de Ana Raio e Zé Trovão (BERTÉ, 2025), a coautora da novela, Rita Buzzar, recordou os exemplos de mulheres como George Sand (Paris, 1804-1876) e Madame Durocher (Paris/Rio de Janeiro, 1809-1893), pois ambas recorreram à mesma estratégia de vestir-se como homem para viver seus ideais. Sobre Ana Raio, Rita Buzzar diz:
Mas, no caso da Ana Raio, foi uma coisa de ela se mostrar tão capaz quanto o homem. Se vestir de homem tem uma certa picardia. Pois ela se veste de homem e vai muito bem, todo mundo aplaude, só que ela é uma mulher. Então, “vocês estão aplaudindo uma mulher, vocês não estão aplaudindo um homem” (informação verbal)[10].
Além dos exemplos mencionados, das personagens fictícia (Diadorim) e históricas (Sand e Durocher), que se vestiram como homem, acrescento a esta reflexão a brasileira Anita Garibaldi (1821-1849), pois é emblemático o modo como Sant’Ana (1993) a descreve:
Anita gostava de se vestir de homem para cavalgar. Em Santa Catarina, depois do desastre militar do rio Marombas, invadiu uma casa de duas solteironas e custou a convencer as assustadas moças de que não era um desertor sedento de sexo... É possível, também, que se vestisse de homem para disfarçar seus encantos femininos diante dos soldados da campanha. (SANT’ANA, 1993, p. 20-21).
Acompanhando os estudos de Houbre (2007) e Adelman (2011) sobre rupturas de padrões de gênero erigidas por mulheres amazonas (cavaleiras) que se vestiam como homens (Sand e Garibaldi, respectivamente), percebo o quanto a imagem “Ana Raio” foi e pode ser significativa ao somar-se a essas outras imagens femininas. A personagem Ana Raio foi vítima de um estupro e essa violência gerou traumas que dificultavam sua relação com os homens. Para além da participação no rodeio, vestir-se como homem – ocultar seu ser mulher – pode ser visto como proteção diante da violência masculina, o que se aproxima da descrição de Sant’Anna (1993) em relação aos trajes masculinos de Garibaldi.
Apesar de deter-me, neste estudo, na estratégia de Ana Raio vestir-se de homem para entrar no rodeio, isso se soma a outras atitudes significativas da personagem, tais como: criar uma companhia de rodeios formada só por mulheres; apoiar mães solo e profissionais do sexo em situação de risco; unir-se à luta de trabalhadores(as) sem-terra, pequenos produtores(as) rurais e artistas populares; e empatia com os animais[11]. A coautora da novela, Rita Buzzar, destaca a sagacidade da personagem Ana Raio em “conquistar o lugar dela num mundo masculino”; ser bonita, mas em vez de usar a sedução, mostrar a “competência dela”; apesar de “ter sofrido uma grande violência que foi o estupro”, lutar “contra aquele cara a vida inteira. Então, eu acho que ela tem traços feministas muito grandes, a Ana Raio” (informação verbal)[12]. Concluo esta parte do presente estudo destacando que, apesar de a novela A história de Ana Raio e Zé Trovão não ter levantado bandeiras, ou seja, não enfatizar pautas políticas de maneira explícita, interpreto a imagem “Ana Raio” como um emblema, um vórtice de significações cujas características se aproximam de questões e práticas pró-feminismo.
“Como um raio, rompe o tempo seu cavalo, Ana Raio”[13]: as mulheres da série As amazonas e seus cavalos
Com estas reflexões sobre a personagem-título da telenovela A história de Ana Raio e Zé Trovão, sigo agora com algumas reflexões sobre a série documental As amazonas (2025) que, tendo a atriz Ingra Lyberato – que interpretou Ana Raio – como apresentadora, retoma a imagem desta peoa e amazona dando a ver as histórias de doze mulheres inseridas no mundo equestre. Domadoras, veterinárias, vaqueiras, empresárias, donas de haras, tenente da polícia militar, professora de montaria – amazonas! Muitas delas, inspiradas por Ana Raio, escolheram a parceria dos cavalos para diferentes modos de vida e de profissão.
Imagem 2 – Ingra Lyberato a cavalo (embaixo), com Almir Sater (no alto, ao centro) e com participantes da série As amazonas (no alto, à esquerda e à direita).
Fonte: prints da série As amazonas (2025).
Conforme a imagem 2, já no início da série As amazonas, em meio às paisagens do Pantanal, Ingra Lyberato surge sobre um cavalo branco, com o emblemático chapéu usado pela personagem Ana Raio, indo ao encontro do seu amigo Almir Sater que interpretou seu par romântico na referida novela. Ao assistir a série, impressiona-me como a imagem “Ana Raio” parece ter rompido o tempo, persistido na cultura, atravessado décadas e, através da estrutura de produção imagética da série (cenografia, figurinos, gestualidade de Ingra Lyberato e aparatos técnicos), presentificar-se no atual contexto digital e informatizado.
Em entrevista para este estudo, Ingra Lyberato recorda como se aproximou dos cavalos e se tornou uma amazona enquanto vivia Ana Raio:
A novela A história de Ana Raio e Zé Trovão marcou não só a minha carreira, mas também a minha vida. Depois de um ano rodando o Brasil pelo interior e convivendo com cavalos e trabalhadores do campo, aprendi a admirar profundamente o povo brasileiro. Depois da novela, passei quatro anos dedicada exclusivamente à criação de cavalos. Então, quando me foi solicitado uma ideia de audiovisual para ser conduzido por mim, a primeira coisa que me veio à mente foi: um documentário que mostrasse as pessoas que convivem com os cavalos em diversas atividades. A produtora Vânia Lima sugeriu que focássemos nas mulheres que, assim como Ana Raio, montam e são apaixonadas por esses animais. Desse modo poderíamos explorar esse universo tão rico e também minha imagem associada às mulheres amazonas. Para mim foi uma oportunidade de reencontrar os cavalos e também reviver um pouco da coragem da amazona. [...] Sobre o primeiro episódio ter sido na fazenda do Almir Sater, no Pantanal, aconteceu porque precisávamos contextualizar minha conexão com os cavalos e tudo começou na novela que fiz com ele (informação verbal)[14].
Assim como a novela A história de Ana Raio e Zé Trovão, a série As amazonas também viaja pelo Brasil explorando paisagens interioranas e produzindo imagens exuberantes. Conforme a roteirista desta série, Lara Miranda, “a itinerância da novela Ana Raio e Zé Trovão com toda certeza inspirou a criação da série, mas também foi uma necessidade da série em si”, pois para tratar sobre a história dessas “mulheres e sobre as suas relações com a natureza e com os cavalos é preciso mostrar diferentes formas de existência” (informação verbal)[15]. A série percorre os estados brasileiros de Mato Grosso do Sul (Pantanal), Sergipe (Itabaianinha, Salgado, Rosário do Catete), São Paulo (Embu das Artes), Bahia (São Sebastião do Passé, Teodoro Sampaio, Camaçari, Salvador) e chega à Colômbia (Villavicencio) no Encuentro Mundial de la Mujer Vaquera.
Um aspecto da série As Amazonas que considero importante é o modo como a personagem Ana Raio inspirou essas mulheres. A empresária e domadora Maria Dalva Rolim, participante da série, é fascinada por cavalos desde criança, pois seu pai era domador. Em entrevista para este estudo ela relata que também era fascinada pela novela A história de Ana Raio e Zé Trovão, pois esta “envolvia tudo o que dizia respeito à minha infância” e ainda, “envolvia o papel daquela mulher que teve que se vestir de homem para poder fazer parte de um grupo. E ela provou que uma mulher pode, também, fazer parte de todo esse mundo que é tipicamente, ainda hoje, masculino” (informação verbal)[16].
Como Rolim, as participantes Luciana Mello e Mirele Geller, em diálogo com Ingra Lyberato dentro da série, também manifestam a importância da personagem Ana Raio em suas vidas. Comentando sobre as figuras de cavalos e raios no logotipo do seu haras, Mello diz: “Isso é uma homenagem ao início. É uma homenagem a uma mulher que eu vi montando um cavalo branco e eu queria ser como ela. E essa mulher se chama Ana Raio. Isso foi a minha inspiração para ser uma amazona [...], ser quem eu sou hoje” (AS AMAZONAS, 2025, ep. 2)[17]. Noutro episódio, Geller relata: “[...] com a novela Ana Raio e Zé Trovão eu me encorajei e falei: ‘Quer saber? Eu vou ser peoa de comitiva’. E ganhei o estradão. [...] A sua personagem me encorajou a isso (AS AMAZONAS, 2025, ep. 4)[18].
Esses relatos de Rolim, Mello e Geller, sobre como a novela A história de Ana Raio e Zé Trovão, e especialmente sua personagem-título, fascinou, inspirou e encorajou suas histórias, possibilitam-me pensar, com Giroux (1999), sobre como as formas culturais populares (filmes, novelas, imagens etc.) podem influenciar nossa subjetividade e identidade quando nelas investimos nossos afetos. Para Giroux (1999), “os investimentos afetivos tem uma capacidade cultural real” (p. 228), atuando na formação de identidades e sendo “tanto uma questão de afeto e prazer quanto de ideologia e racionalidade” (p. 214). Nas vivências dessas amazonas e também na minha, a imagem “Ana Raio” convoca investimentos afetivos de prazer e de significado, ou seja, ela nos é cativante, nos identificamos com ela e atribuímos-lhe diferentes sentidos. Desse modo, ela interatua em nosso pensar e agir. A consciência dessas mulheres em relação à influência da imagem “Ana Raio” em suas vidas é uma atitude relevante para pensarmos se estamos conscientes da influência das imagens que a tecnologia contemporânea insere em nosso dia a dia.
Outro aspecto da série As amazonas que me instiga é o arquétipo da amazona. No início da série a apresentadora diz: “Eu, Ingra Lyberato, vou em busca de mulheres que descobrem a sua força e superam desafios através dos cavalos. A partir de suas histórias de autossuperação vamos descobrir o que faz de todas nós amazonas” (AS AMAZONAS, 2025, ep. 1)[19]. Noutro texto da série, Ingra Lyberato diz:
O tempo passa e nós amazonas continuamos a defender os nossos valores e as nossas paixões, superando desafios, vivendo aventuras e inspirando outras mulheres. [...] Mulheres que enxergam na sensibilidade do cavalo, um caminho para resgatar a própria humanidade e sentimentos femininos, sem jamais esquecer o lado guerreira. (AS AMAZONAS, 2025, ep. 2)[20].
O arquétipo da amazona é usado na série para caracterizar as mulheres em seus afazeres, buscas, dificuldades, conquistas, relação com os homens e trabalho com os cavalos. Conforme os estudos de Mott (1990) e Nascimento (2002), nos escritos de Heródoto (séc. V a.C.) e nas artes gregas, encontramos importantes informações e imagens sobre as amazonas, mulheres cavaleiras, independentes dos homens, guerreiras e conquistadoras de diferentes territórios. Dentre as mais conhecidas, Nascimento (2002) comenta sobre o significado do nome da rainha e amazona “Hipólita (nome composto de hýppos = ‘cavalo’ e lýen = ‘desatar’, significando ‘aquela que solta cavalos ou os deixa ir’)” (p. 15). Já Araujo e Silva Jr. (2022) analisam a história das amazonas africanas do reino de Daomé (aprox. 1600-1900, atual Benim), as Agodjié, um bravo exército de mulheres que existiu até 1894.
No Brasil também existem narrativas sobre amazonas indígenas, que conforme Fressato (2025) são chamadas Icamiabas. O frei dominicano Gaspar de Carvajal (2024), que entre 1540-1542 foi cronista da expedição do colonizador espanhol Francisco de Orellana, da Cordilheira dos Andes até o Atlântico, escreve que, na região amazônica, ouviu relatos sobre “as amazonas” (p. 26), uma temida comunidade indígena feminina, liderada por uma mulher, da qual outros grupos indígenas eram tributários. Conta o frei que em um confronto com espanhóis à beira do rio, os indígenas “sabendo de nossa vinda, foram pedir socorro e vieram até dez ou doze delas, que vimos, que lutavam à frente de todos os índios como capitãs, e lutavam tão bravamente [...]” (CARVAJAL, 2024, p. 59). Altas, brancas, musculosas, de cabelo longo, trançado e enrolado na cabeça, seminuas e armadas de arco e flexa, assim o frei descreve as amazonas. Esses episódios teriam legado ao maior rio do mundo o nome de Rio das Amazonas.
Junto dessas imagens de amazonas, destaco, novamente, Anita Garibaldi que, conforme a narrativa de Sant’Ana (1993), era uma “grande cavaleira, desde menina”; “entra em combate a cavalo” e, tendo a montaria morta, “rouba o cavalo de um miliciano” para fugir; em uma emboscada, doze dias após dar à luz, “foge, semidesnuda, a cavalo e de em pelo (sem encilha), levando o bebê”; na Itália, distraindo-se andando a cavalo, “nela, ao primeiro olhar, se reconhecia ‘a Amazona’, assim com ‘A’ maiúsculo” (p. 22).
Todas essas narrativas, fictícias e/ou históricas sobre as amazonas, produzem no imaginário cultural imagens de mulheres fortes e com expressiva independência em relação aos homens. Na série As amazonas, as participantes relatam sobre como é conquistar seu espaço num ambiente tipicamente masculino. “Mesmo as amazonas com alto poder aquisitivo, ou ainda aquelas que cresceram ao lado dos cavalos, têm um mesmo ponto em comum: a necessidade de se provar no ambiente do campo perante os machismos diários” (informação verbal)[21], comenta Lara Miranda. Em entrevista para este estudo, a domadora de cavalos e participante da série, Tamy Nascimento, comenta sobre o descrédito alheio em relação à sua profissão:
[...] nisso, eu digo que eu me encontro em Ana Raio, porque ela foi desacreditada, ela foi julgada por ser mulher. Eu acho que todas nós que vivemos no meio do cavalo, a gente tem esse encontro com Ana Raio. Em algum momento das nossas vidas, em algum grau, a gente se encontra com Ana Raio, porque não é fácil. E hoje eu até enxergo o mundo de outra forma, o mundo dos cavalos de outra forma, por ver que as mulheres estão conquistando cada vez mais seu espaço. Mas no começo de tudo foi difícil ter essa posição de profissionalismo e conseguir o respeito das pessoas. [...] o universo masculino, a sociedade em si, espera um grau de perfeição. [...] eu achava que se o homem fazia 100%, para eu chegar no nível dele eu tinha que fazer 200% (informação verbal)[22].
Ainda que este relato, assim como o das outras participantes dentro da série As amazonas, não busque tensionar uma “guerra dos sexos”, subjaz aí a complexidade da sociedade regida pela ideologia patriarcal que dificulta, julga, desrespeita e desacredita os fazeres das mulheres em relação aos dos homens. Em seu relato, Tamy Nascimento também faz uma instigante associação entre a mulher o cavalo, a qual considero pertinente para a reflexão que segue:
[...] A mulher sempre foi muito cobrada, assim como os cavalos. Eles são muito cobrados: “o cavalo nasceu para ser olímpico, nasceu para ir para as Olimpíadas, para ser campeão”. E na realidade ele não nasceu para nada disso, ele nasceu para ser cavalo, para pastar e viver a vida dele. E com a mulher é meio isso: “a mulher nasceu para ser a mãe, nasceu para ser dona de casa”. Ou então: “a mulher nasceu para ser empoderada, para ser dona de empresa”. Não, a mulher nasceu para ser mulher, para, assim como o homem, fazer o que quiser (informação verbal)[23].
Nos relatos de Nascimento transparece as tensões de gênero de nossa sociedade patriarcal onde as mulheres são historicamente subjugadas. A associação entre a mulher e o cavalo motiva a refletir sobre a conexão entre a violência contra as mulheres e a violência contra a natureza, a Terra e os animais conforme debates do ecofeminismo[24]. Mies & Shiva (2021) articulam uma pertinente crítica à ciência moderna que, com seu aparato de máquinas, tecnologia, controle dos processos genéticos e biológicos etc., está à serviço do patriarcado capitalista, instaurando a dominação violenta e destrutiva que põe em risco a vida do e no planeta.
[...] as mulheres no mundo todo, desde o início do patriarcado, também foram tratadas como “natureza”, desprovidas de racionalidade, seus corpos funcionando da mesma maneira instintiva que os de outros mamíferos. Como a natureza, elas poderiam ser oprimidas, exploradas e dominadas pelo homem. (MIES, 2021, p. 37).
Complementando esta reflexão, Shiva (2021, p. 27) diz que “o estupro da Terra e o estupro das mulheres estão intimamente ligados”, metafórica e materialmente, referindo-se aos abusos em relação ao corpo da mulher, da Terra e dos animais. Cito alguns exemplos: mulheres vítimas do feminicídio, da desvalorização do seu trabalho e da cultura do estupro; animais como cobaias em laboratórios, matrizes de reprodução na indústria agropecuarista e meros produtos na indústria da carne; o planeta ameaçado pelo uso de poluentes, devastação das florestas, monoculturas, mudanças climáticas; etc. Mies (2021) destaca que, por sofrerem com(o) a natureza tais violências, as mulheres serão semeadoras das sementes de um novo mundo. Olhando para as mulheres da série As amazonas através desta perspectiva, percebo que o modo como elas lidam com as questões de gênero e com os cavalos suscita importantes alternativas que se aproximam da perspectiva animalista do ecofeminismo[25]. Elas compartilham suas experiências de convivência e lida com os cavalos através das técnicas da doma natural (próxima da doma racional) e da horsemanship (relacionamento entre o cavalo e o humano, em tradução livre)[26]. Tamy Nascimento compartilha sobre sua prática da doma natural (doma racional):
[...] A minha doma é a que a gente chama de doma natural, doma racional. Ela é uma doma baseada no pensamento do cavalo, no agir do cavalo. É como se fosse um espelho comportamental. Eu não quero subjugar o cavalo à minha vontade, eu quero estar de acordo com a vontade dele para que a gente possa ter uma vontade mútua e um interesse mútuo de cooperação. [...] eu pratico a doma natural que é uma doma baseada no comportamento equino e no respeito, na racionalidade, para a gente poder mudar de fato esses estereótipos que são criados em torno da doma dos cavalos, que precisa ser uma coisa bruta [...] (informação verbal)[27].
Nessa perspectiva, Maria Dalva Rolim compartilha de seus estudos e experiência comentando que “[...] cada cavalo também tem a sua horsenality, [...] tem sua ‘cavalidade’, digamos assim, e eles são seres diferentes. Então eu preciso conhecer este cavalo, saber como é a identidade dele [...]”[28]. E, com isso, ela explica a técnica de doma horsemanschip:
Então, horsemanship nada mais é do que o relacionamento humano com o cavalo, e esse relacionamento pode ser de várias formas. Essa técnica de doma racional se dá através do conhecimento do comportamento do cavalo [...]. Domar cavalos, antigamente, era feito só por homens, porque exigia força bruta. Então hoje, a mulher, através do conhecimento dessa técnica, pode domar um cavalo com toda segurança e de uma maneira mais eficiente e eficaz, porque não envolve o medo, a pressão, a violência e isso é maravilhoso (informação verbal)[29].
Ao recordar a bravura de Ana Raio em conquistar seu espaço dentro de um mundo tipicamente masculino, Rolim ainda destaca: “hoje, através da horsemanship, da doma racional, a mulher não precisa ‘se vestir de homem’ pra fazer parte deste mundo. Ela pode mostrar que ela é capaz através da comunicação e do conhecimento do comportamento do cavalo” (informação verbal)[30]. Sem precisar se revestir de homem, ou seja, recorrer à brutalidade e violência, tipicamente masculinas, as mulheres desenvolvem a empatia e a ética do cuidado para com os cavalos.
Estas formas de doma baseadas não na dominação, mas no conhecimento da identidade e do comportamento do cavalo, na cooperação e no respeito, demonstram grande empatia para com os animais. Ainda que, segundo seus relatos, as participantes da série As Amazonas não professem uma afiliação ao ecofeminismo, essas formas de doma se aproximam da “ética do cuidado feminista”, a qual “opera de acordo com as leis da ecologia” e reconhece que a devastação da natureza externa também afeta nossa natureza interna e, assim, da mesma forma que as paisagens devastadas, “nós precisamos regenerar nossas paisagens internas, incluindo nossa capacidade de empatia pelos outros animais” (KHEEL, 2019, p. 28).
Essa perspectiva de Kheel (2019) coaduna-se à ideia de Ingra Lyberato: “Nós somos a natureza. Também podemos dizer que Ela é nosso corpo estendido. Portanto, destruir a natureza é autodestruição [...]. Somos Um e o que fazemos aos outros seres estamos fazendo à nós mesmos” (informação verbal)[31]. Nesse sentido, compreendo que as perspectivas do ecofeminismo e da série As Amazonas possuem instigantes confluências que apontam na direção da semeadura de novas relações entre as pessoas e destas com os animais, a natureza, a Terra. “As amazonas de hoje entendem que para qualquer parceria dar certo é preciso respeito e cuidado mútuo” (AS AMAZONAS, 2025, ep. 5)[32], diz Lyberato na série, assinalando a sabedoria e a potência das mulheres na semeadura das sementes de um novo mundo.
Desnovelando imagens por meio de um filosofazer contempop
Chama-me a atenção o modo como a imagem “Ana Raio” atravessou as experiências e os relatos das mulheres entrevistadas e citadas anteriormente, perfazendo um caminho da era analógica à era digital. Das mulheres que acompanharam a exibição original da novela A história de Ana Raio e Zé Trovão em 1990-1991 (Rolim, Mello e Geller), até a mais jovem delas (Tamy Nascimento), que ouviu falar da personagem e viu cenas da novela mais recentemente, é instigante como essa imagem feminina se tornou uma referência para elas, possibilitando identificação, sendo um símbolo de encorajamento e motivação, um vórtice de significações e investimentos afetivos.
O desnovelamento da imagem “Ana Raio” – modus operandi do filosofazer contempop – articulou uma constelação de imagens de amazonas que se relacionam entre si, seus contextos de origem e suas molduras narrativas. O encadeamento da imagem “Ana Raio” com as imagens de Diadorim, das amazonas gregas, das Agodjié, das Icamiabas, de George Sand, Madame Durocher, Anita Garibaldi e também as mulheres da série As amazonas (que ao integrarem essa obra audiovisual tornam-se imagens), perscrutou o que há de repetição/semelhança e/ou inovação/variação entre elas. Isso nos possibilita perceber como a imagem “Ana Raio” espelha essas outras imagens presentes no vasto campo da cultura e as atualiza, dando-lhes novos contornos, roupagens e significados.
Retomar a imagem “Ana Raio”, juntamente com as imagens da série As amazonas, me levou a recordar de um tempo – anos 1980 e 1990 – no qual a disseminação de imagens na cultura, sendo a televisão um dos seus principais meios, obedecia a uma temporalidade diferente da que vivemos hoje. A sociedade informatizada mergulhou-nos numa avalanche de imagens que preenche todo o nosso espaço-tempo, do ócio ao ofício. Com a Inteligência Artificial, dispositivos móveis, redes sociais, trabalho remoto, canais de streaming e toda gama de plataformas e aplicativos, os lazeres e os afazeres, a informação e o entretenimento não têm mais tempos específicos, pois tudo acontece ao mesmo tempo e em todo lugar. Nesse turbilhão pictórico no qual estamos imersos(as), considero que as imagens passam (e são passadas nós, nas telas) aos milhares apenas prendendo-nos ao seu efeito de passagem. Não obstante os avanços na comunicação e no acesso à informação e à imagem, considero que a tecnologia contemporânea pode nos tornar espectadores(as) mecânicos(as), impedindo-nos de estabelecer relações afetivas com as imagens, ou seja, conectar-nos a elas com prazer e criticidade.
Em vez do ato fugaz de “curtir imagens”, o filosofazer contempop emerge do ato de cultivar imagens. A eleição da imagem “Ana Raio” como objeto de estudo é semelhante ao exercício de um jardineiro que (es)colhe imagens no vasto campo cultural, cultiva-as no jardim dos afetos, associa-as à sua experiência sociocultural e assim, filosofa. Com o olhar crítico e a interpretação criativa esse filosofazer opera o desnovelamento das imagens cultivadas, tornando-as janelas que dão a ver para além de si mesmas. A imagem “Ana Raio” não traz fixada uma legenda feminista, assim como as mulheres da série As amazonas não trazem o rótulo de ecofeministas, no entanto, o desnovelamento de suas diferentes camadas de sentido possibilita interpretarmo-las por essas vias, produzindo reflexões interdisciplinares e multidirecionais. Esse desnovelar/desvendar/escrutinar a imagem “Ana Raio” quer fomentar outras formas de interpelação frente ao efeito de passagem das imagens no atual contexto sociocultural.
Da nostálgica era das imagens analógicas gravadas em película, a imagem “Ana Raio” galopa no tempo e ressurge na nitidez das imagens digitais hodiernas, mostrando como sua bravura de peoa e amazona transpassou as telas, vindo a motivar projetos de vida de amazonas reais. Sobre ela, Ingra Lyberato comenta:
Também aprendi muito com Ana Raio. Era comum ter adolescentes do interior querendo fugir para seguir viagem com Ana Raio. Essas jovens enxergaram os valores humanos de Ana Raio e hoje são essas mulheres inspiradoras. [...] É assim que funciona: quando uma dá um novo passo, abre caminho para todas. Parece que Ana Raio deu novos passos para inúmeras mulheres e homens! Mesmo sendo uma personagem, ganhou vida e ecoou em muitos corações (informação verbal)[33].
Concordando com Murad (2021, p. 580), concluo que também sou “um homem cisgênero que almeja ser aprendiz e companheiro de caminho das mulheres, na sua luta conjunta por uma sociedade que supere o patriarcalismo, o domínio despótico sobre a natureza e cria relações de reciprocidade e cuidado”. E parte disso, aprendi com Ana Raio que, como disse sua intérprete, deu novos passos para mulheres e homens e segue ganhando vida e ecoando ao inspirar relações de respeito e cuidado entre humanos, animais e a Terra. Com Ana Raio e outras imagens, “na chuva das paixões eu vou, não quero abrigo”, especialmente os abrigos academicistas que privilegiam a alta cultura e o racionalismo em detrimento das artes populares da mídia e das oportunidades de reflexão e aprendizado com elas em meio às experiências cotidianas e os afetos. Em vez das áridas searas de ideias ocas e opacas, prefiro os jardins de imagens multiformes e polifônicas que instigam filosofazeres.
REFERÊNCIAS
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[1] Pós-Doutor em Arte pela Universidad Iberoamericana Ciudad de México (2018), Doutor em Arte e Cultura Visual pela UFG, Brasil (2015). Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Maria, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8726-5591. E-mail: odailso.berte@ufsm.br.
[2] ESPERANÇA manhã. Composição e interpretação: Marcus Viana. In: A história de Ana Raio e Zé Trovão. Rio de Janeiro: Bloch Discos, 1991. 1 disco long play (47:45 min).
[3] A HISTÓRIA de Ana Raio e Zé Trovão. Telenovela. Direção: Jayme Monjardim. Autoria: Marcos Caruso e Rita Buzzar. Rio de Janeiro: Rede Manchete, 1990-1991. 251 capítulos. Reprise, canal SBT, 2010, 258 capítulos.
[4] Neste texto, quando me referir à “Ana Raio” enquanto imagem relacionada às minhas experiências, usarei entre aspas. E quando me referir à Ana Raio enquanto personagem da novela A história de Ana Raio e Zé Trovão, não usarei as aspas.
[5] AS AMAZONAS. Série documental. Criação e apresentação: Ingra Lyberato. Direção: Vania Lima e Deivison Fonseca Fiuza. Roteiro: Lara Miranda. Produção: Têm Dendê Produções e Liberato Produções. Veiculação: Travel Box Brazil/Box Brazil Play, 2025. 6 episódios.
[6] ANA Raio. Composição e interpretação: Xangai. In: A história de Ana Raio e Zé Trovão. Rio de Janeiro: Bloch Discos, 1991. 1 disco long play (47:45 min).
[7] Anúncio da novela A história de Ana Raio e Zé Trovão. Revista Manchete, n. 2019, p. 72-73, 22 dez. 1990.
[8] Entrevista da atriz Ingra Lyberato concedida a Odailso Berté, Porto Alegre/RS – Santa Maria/RS, em fevereiro de 2026.
[9] Novela A história de Ana Raio e Zé Trovão. Capítulo 1, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Oj16ZLiaW1Q. Capítulo 19, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t-OXjxXn9kw&rco=1. Acesso em: 4 fev. 2026.
[10] Entrevista de Rita Buzzar concedida a Odailso Berté, em junho de 2024, e publicada no livro Filosofazer contempop: desnovelando imagens dos anos 1980 (BERTÉ, 2025).
[11] Estas abordagens podem ser encontradas, respectivamente, nos seguintes capítulos da novela: 88, 83, 217, 118, 141, 222, 102. Estes e todos os demais capítulos da referida novela podem ser acessados no canal YouTube A História de Ana Raio e Zé Trovão. Disponível em: https://www.youtube.com/@Ahistoriadeanaraioezetrovao/featured. Acesso em 6 fev. 2026.
[12] Entrevista de Rita Buzzar concedida a Odailso Berté, em junho de 2024, e publicada no livro Filosofazer contempop: desnovelando imagens dos anos 1980 (BERTÉ, 2025).
[13] ANA Raio. Composição e interpretação: Xangai. In: A história de Ana Raio e Zé Trovão. Rio de Janeiro: Bloch Discos, 1991. 1 disco long play (47:45 min).
[14] Entrevista da atriz Ingra Lyberato concedida a Odailso Berté, Porto Alegre/RS – Santa Maria/RS, em fevereiro de 2026.
[15] Entrevista da roteirista da série As amazonas Lara Miranda concedida a Odailso Berté, Salvador/BA – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[16] Entrevista da participante da série As amazonas Maria Dalva Rolim concedida a Odailso Berté, Embu das Artes/SP – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[17] Transcrição do depoimento de Luciana Mello no episódio 2 da série As amazonas (2025).
[18] Transcrição do depoimento de Mirele Geller no episódio 4 da série As amazonas (2025).
[19] Transcrição do texto de Ingra Lyberato no episódio 1 da série As amazonas (2025).
[20] Transcrição do texto de Ingra Lyberato no episódio 2 da série As amazonas (2025).
[21] Entrevista da roteirista da série As amazonas Lara Miranda concedida a Odailso Berté, Salvador/BA – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[22] Entrevista da participante da série As amazonas Tamy Nascimento concedida a Odailso Berté, Antônio Cardoso/BA – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[23] Entrevista da participante da série As amazonas Tamy Nascimento concedida a Odailso Berté, Antônio Cardoso/BA – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[24] Enquanto movimento político-filosófico, o ecofeminismo busca dar conta de violências relacionadas ao gênero e à relação humano-natureza. Conforme Kelli Mafort (2021, p. 15), “podemos compreender o ecofeminismo como legado teórico e na luta de construção feminista, mas devemos sobretudo apreendê-lo como força vital e instrumento de combate que equilibra amor e indignação na reconstrução do ser humano como parte da natureza”.
[25] Conforme Aubert (2023), a vertente ecofeminista animalista questiona a concepção generalizante da relação humana com a natureza e integra as outras espécies animais como grupos vulneráveis dignos de direitos.
[26] Para mais informações sobre doma racional e horsemanship, conferir o estudo intitulado “Da dominação à tentativa de comunicação: uma análise dos métodos de doma para equitação” (HERING, 2020).
[27] Entrevista da participante da série As amazonas Tamy Nascimento concedida a Odailso Berté, Antônio Cardoso/BA – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[28] Entrevista da participante da série As amazonas Maria Dalva Rolim concedida a Odailso Berté, Embu das Artes/SP – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[29] Entrevista da participante da série As amazonas Maria Dalva Rolim concedida a Odailso Berté, Embu das Artes/SP – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[30] Entrevista da participante da série As amazonas Maria Dalva Rolim concedida a Odailso Berté, Embu das Artes/SP – Santa Maria/RS, em janeiro de 2026.
[31] Entrevista da atriz Ingra Lyberato concedida a Odailso Berté, Porto Alegre/RS – Santa Maria/RS, em fevereiro de 2026.
[32] Transcrição do texto de Ingra Lyberato no episódio 5 da série As amazonas (2025).
[33] Entrevista da atriz Ingra Lyberato concedida a Odailso Berté, Porto Alegre/RS – Santa Maria/RS, em fevereiro de 2026.