O enredo escolhido: a expansão das temáticas carnavalescas e
a profissão do enredista
The chosen plot: the expansion of carnival narratives and the professional of the plot researcher (enredista)
Julianna de Carvalho Lemos[1]
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Rita Maria de Souza Couto[2]
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Joy Helena Worms Till[3]
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que explora o enredo de escola de samba como uma potencial expressão estilística de narrativa. Para tal, introduz-se brevemente o que caracteriza as temáticas de carnaval e como elas instigam debates após o desfile. Para aprofundar a compreensão sobre a construção desses enredos, são compartilhados os resultados de quatro entrevistas realizadas com enredistas - profissionais responsáveis pela pesquisa e desenvolvimento da narrativa do tema carnavalesco.
Palavras-chave: Enredo; Escola de samba; Enredista; Carnaval
Abstract
This paper presents the results of a research study that explores the samba school plot (enredo) as a potential stylistic expression of narrative. To this end, it briefly introduces the characteristics of carnival themes and how they stimulate debates after the parade. To deepen the understanding of how these plots are constructed, the paper shares the findings of four interviews conducted with plot researchers (enredistas) — professionals responsible for researching and developing the narrative of the carnival theme.
Keywords: Plot; Samba school; Plot researcher, Carnival
Introdução
Com base na pesquisa “O Quesito Enredo como Transmissor de Conhecimento na Avenida e na Sala de Aula”, desenvolvida desde 2021 no âmbito do Laboratório Interdisciplinar Design Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, este artigo apresenta um recorte do trabalho realizado, tendo como fio condutor o quesito Enredo no Grupo Especial do Rio de Janeiro e os profissionais especializados nessa área, compreendendo a produção do desfile de uma escola de samba como um espaço de disseminação de saberes.
A própria história das escolas de samba reforça essa compreensão: a nomenclatura “escola” de samba surgiu porque Ismael Silva considerava os sambistas do Estácio como verdadeiros “professores” do gênero. Desde a primeira década de formação dessas agremiações, o enredo já se consolidava como um espaço de transmissão de saberes a serem compartilhados com o público. Um exemplo marcante é a apresentação da Portela em 1939, quando Paulo da Portela se colocou como professor no desfile da escola.
Pela primeira vez, uma escola de samba (com exceção da ala das baianas e dos mestres-salas e porta-bandeiras) apresentou-se com as fantasias inteiramente voltadas para o enredo. Até então, fosse qual fosse o enredo, não poderiam faltar os sambistas ostentando as cabeleiras brancas de algodão e as fantasias de nobres dos tempos imperiais. Naquele ano, porém, Paulo da Portela criou o enredo “Teste do Samba” e fez a escola inteira exibir-se com uniformes de estudante, enquanto ele fazia o papel de professor. (Cabral, 2011, p. 143 e 144)
Nos dias atuais, o enredo é a espinha-dorsal daquilo que será apresentado na avenida. Para sua concretização, ele necessita de “justificativas densas para explicar de forma contundente a temática escolhida, tendo em vista a avaliação do júri, que demanda uma ‘didatização” (Soares, Loguercio, 2014, p. 166).
O trabalho de pesquisa que fundamenta um enredo tem início logo após o carnaval do ano anterior e se estende até a realização do desfile seguinte. Esse processo se desdobra em duas grandes etapas: a construção do corpo literário, que define a narrativa e os fundamentos temáticos, e a concepção do corpo plástico-visual, responsável por sua materialização estética na avenida. Assim, pode-se considerar, que, em linhas gerais, o que diferencia este trabalho de pesquisa de uma realizada na academia é o apelo comunicacional da apresentação carnavalesca, compreendido como uma narrativa, no qual o desfile é “um ato de fala” ou um “ato comunicacional” (Gamba Jr, 2013) que a encena, e essa tal encenação é desdobrada em musicalidade, visualidade, plasticidade e corporalidade.
Na última década, o ato comunicacional refletiu um processo no qual as agremiações carnavalescas do estado do Rio de Janeiro começaram a abraçar com maior força suas identidades e raízes. As temáticas apresentadas destacam o significado sócio-histórico que é inerente às instituições e reconhecem a ampla dimensão de alcance que elas possuem. Com o aumento da importância do discurso no quesito Enredo, as escolas de samba passaram a contratar profissionais exclusivamente para pesquisa e defesa discursiva do enredo, denominados “enredistas”. Entretanto, a contratação de tais profissionais é ainda recente para a história do carnaval, o que justifica o pequeno número de estudos dedicados a esta atividade.
Sob essa perspectiva, o presente artigo, além de discutir a importância do enredo para a avenida e além dela, apresenta a fala de quatro enredistas, com experiência no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, incluindo o Grupo Especial, no sentido de aprofundar a discussão sobre o tema.
Uma breve síntese do Quesito Enredo
Como dito, o quesito Enredo é o que se pode considerar a “espinha-dorsal” para a narrativa de uma apresentação carnavalesca. A cada ano, as escolas de samba iniciam o planejamento do próximo carnaval com a definição de um tema específico. Esse recorte temático, escolhido cerca de dez meses antes do desfile, orienta e guia toda a concepção e execução da apresentação de uma agremiação durante o festejo. Cinco outros quesitos têm sua nota influenciada direta ou indiretamente pelo que está sendo apresentado no quesito Enredo, sendo eles: Samba-Enredo, Alegorias e Adereços, Fantasias, Comissão de Frente, Mestre-Sala e Porta-Bandeira.
As Escolas de Samba organizam sua apresentação sob uma proposta temática a que buscam transportar para um texto multissígnico que é o desfile. Nesse espaço, comissão de frente, carro abre-alas, mestres-salas e porta-bandeiras, carros alegóricos em geral etc. trazem à passarela um aglomerado de formas e cores que compõem um macrotexto e pretendem falar, juntamente com o samba-enredo (música-tema), sobre o significado popular de uma dada lenda, mito, fato histórico, político, social, etc. (Simões, 1998, s/p).
O desenvolvimento do enredo é contado através de setores, que são como pequenos capítulos que apresentam um subtema por vez, para que no final do desfile se tenha compreensão total da história. Um setor, normalmente, é um conjunto de alas com uma alegoria sintetizando o subtema ao final.
O enredo se desenvolve também em atos que são os setores, via de regra oito, divididos em alas e separados por alegorias que formam como que suas sínteses. Ele se manifesta ainda visualmente na caracterização das fantasias de cada uma das alas que têm a função de representar plasticamente o andamento do desenrolar do enredo. Cada carro alegórico, como síntese setorial, deve cumprir o seu papel de formalizar os planos em que se desenvolve o enredo pelas alas que a ele se reportam (Quesada, 2006, apud Farias, 2007, p. 39).
Imagem 1 – Visualização de setores de um desfile de escola de samba, com representação de Comissão de Frente, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, alegorias e alas.
Fonte: Elaborado pelos autores.
De acordo com Farias (2006), uma das funções das escolas de samba é a sua função difusora, que consiste em apresentar múltiplas mensagens advindas dos seus enredos. Assim, mais do que transmitir uma mensagem de forma multissensorial, o enredo narra um discurso histórico-cultural sobre nossas vivências, hábitos, costumes, identidades, entre outros temas, que atingirá em algum grau um grande número de pessoas acerca daquele conteúdo. Nesse sentido, fica claro que o quesito Enredo desempenha um papel fundamental na definição das diretrizes do que será apresentado na avenida.
Diante do fortalecimento do quesito Enredo e de sua dimensão discursiva, as escolas de samba passaram a ampliar o alcance das temáticas tratadas, projetando-as para além dos 70 minutos de desfile. A partir do que será visto a seguir, o enredo tem capacidade de conquistar outros espaços, uma vez que será comentado ao longo do ano em diferentes instâncias públicas. Ele influenciará a percepção e os comentários acerca da agremiação, representando o discurso que a instituição deseja promover e discutir tanto na imprensa quanto na sociedade.
(...) a energia criativa que, enquadrada nos moldes do Carnaval carioca, extrapola a dinâmica do ano e do desfile carnavalescos correntes, visto que uma vez realizado ou estando em processo de realização de um enredo, outros temas já despontam como possibilidades e potencialidades enredísticas, constituindo-se um repertório para/do carnavalesco e/ou para/do enredista (o profissional que, em muitos casos, escreve o enredo ao lado do carnavalesco) que apontam na direção inescapável do próximo ano, mantendo ativada a dimensão de futuro do Carnaval carioca (Mangabeira, 2020, p. 62).
Devido à relevância temática apresentada pelas escolas de samba, um lugar que elas comumente expandem seu discurso narrativo é nas salas de museu. Foi o caso, por exemplo, do desfile da Portela com o enredo “Um Defeito de Cor”, em 2024, que teve por base o livro de Ana Maria Gonçalves, apresentado de forma carnavalizada. Devido ao fato da exposição principal do Museu de Arte do Rio (MAR) no primeiro semestre de 2023 estar também centrada na obra de Gonçalves, a última semana de exibição destacou-se por atividades especiais, sob o título de Ocupação da Portela. No fim de semana final de exposição, o MAR ofereceu programação gratuita, como a participação do carnavalesco André Rodrigues para uma visita guiada e a apresentação da bateria da Portela, ao final do dia.
Imagens 2 e 3 – Programação da Ocupação Portela, que ocorreu no Museu de Arte do Rio
Fonte: Museu de Arte do Rio (2023).
Atualmente, as instituições carnavalescas também estão expandindo sua exposição de narrativa por meio da internet, situação essa que se modificou ao longo do tempo. Conforme Cavalcanti (1995) em seus relatos sobre o processo de construção do desfile da Mocidade em 1992, a explicação temática era feita na quadra da escola, com divulgação do título do enredo, da imagem representativa e da sinopse. Nos dias atuais, há um trabalho audiovisual nas redes sociais, com a utilização do vídeo, que serve para trazer outras formas de linguagem e complementar a explicação da proposta. Dias et al. (2024) abordaram a utilização de vídeos pelas escolas de samba para a divulgação dos enredos, nomeando esse formato como teasers-enredo, e defendendo-os como uma forma das próprias escolas se colocarem como protagonistas de suas narrativas.
Imagens 4 e 5 – Screenshot do vídeo de divulgação do enredo da Mocidade Independente para 2024: Pé de Caju que Dá, Pede Caju que Dou
Fonte: Mocidade (2023).
Entre outros exemplos de expansão do enredo para além da avenida, a Beija-Flor de Nilópolis, no pré-carnaval de 2022, ampliou as ações relacionadas ao seu enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor” para envolvimento maior da comunidade na compreensão do tema que seria apresentado na avenida. No Dia da Consciência Negra, a escola de Nilópolis promoveu em sua quadra uma enquete teatral realizada por crianças, sob a mediação da porta-bandeira Selminha Sorriso, abordando situações racistas ainda presentes no cotidiano do país (Site Carnavalesco, 2021). Essa performance foi transmitida pelo YouTube. Somado a isso, a escola promoveu outra iniciativa educativa, reunindo personalidades negras para dialogar com crianças e adolescentes sobre a importância das vivências pretas, dando destaque ao lugar de fala dessas pessoas e à consciência diante das lutas diárias (SRZD, 2021).
Imagem 6 – Participantes da roda de conversa realizada pela Beija-Flor com jovens estudantes
Fonte: Eduardo Hollanda (2022).
Já a Grande Rio, durante os sete dias que antecederam o carnaval de 2022, trouxe uma explicação pelas redes sociais sobre cada um dos seus setores que desfilariam com o enredo “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”. A cada dia foi divulgado um vídeo com a fala de um dos carnavalescos da agremiação sobre um determinado setor, acompanhando uma breve descrição com um texto complementar. Isso permitiu que o termo "setor”, vocabulário este que costuma estar restrito na sinopse para os compositores e no organograma dos jurados, fosse expandido para o público em geral.
Imagens 7 e 8 – Screenshots da explicação da setorização do enredo da Grande Rio
Fonte: Instagram da Grande Rio (2022).
A partir dos exemplos acima apresentados, percebe-se que o enredo abrange três dimensões temporais: o passado, pelo seu caráter histórico-cultural; o presente, por trazer narrativas que precisam ser debatidas no contexto vivido; e o futuro, visto que, mesmo após o desfile, aquilo que foi contado na avenida permanece como fomentador de debates.
O enredista
O enredista é o profissional responsável pela pesquisa do discurso que vai ser apresentado na avenida. Ele pode estar alocado no Departamento Cultural da escola, como carnavalesco, exercendo dupla-função, ou pode ser contratado como profissional unicamente envolvido com a pesquisa temática do desfile. Nos últimos anos, o papel desse profissional está ganhando mais destaque na construção de um desfile carnavalesco, principalmente com sua função separada de outros papéis de uma agremiação. Marcelinho Calil, diretor executivo da Viradouro, explica que o trabalho cultural nas escolas de samba é antigo, mas a figura do enredista é nova (Viradouro, 2023). Até por isso, há poucas análises acadêmicas que citam o papel do enredista, ressaltando a relevância do presente trabalho em relatar uma nova tendência que merece ser melhor observada.
A partir do que foi comentado anteriormente sobre a tendência de se voltar ao Brasil ancestral, as escolas de samba estão com a expertise de um pesquisador para contribuir com este aprofundamento temático. João Gustavo Melo, atual enredista da Viradouro, disse em uma entrevista de 2020 que:
Na verdade, é um trabalho auxiliar na pesquisa do carnavalesco. Não é algo uniforme. Cada um desses artistas tem competências específicas e, por isso, demandas específicas, o que existe em comum é que o trabalho do pesquisador deve ser de respeito à criação visual do carnavalesco. (...) Os textos de sinopse e das defesas têm que amarrar os caminhos visuais traçados no enredo, criando um discurso e dando um tom ao trabalho dos artistas. Estamos a serviço deles (Carnavalize, 2023).
No ano de 2025, foram sete escolas do Grupo Especial com um enredista assinando a construção do enredo junto ao carnavalesco, sendo elas: Viradouro, Vila Isabel, Beija-Flor, Mangueira, Salgueiro, Portela e Unidos de Padre Miguel. Ao ter um profissional especializado na pesquisa, o carnavalesco pode se debruçar detalhadamente no projeto e na confecção das fantasias, enquanto o pesquisador aprimora e se debruça no discurso que as agremiações pretendem defender na avenida.
Diante do que foi exposto, o papel dos
enredistas está em destaque nos debates carnavalescos, sobretudo devido à
recente tendência de valorização da questão temática na construção dos enredos
das escolas de samba. Nesse sentido, a realização de entrevistas com esses
profissionais configura-se como uma forma de formalizar seus saberes, registrar
suas práticas e contribuir para a consolidação desse
campo de estudo.
Para atingir os objetivos do trabalho de pesquisa, foram realizadas
entrevistas semiestruturadas de cunho qualitativo, que permitiram a elaboração
do assunto de forma livre por parte do entrevistado. Durante as interações, as
perguntas foram adaptadas em termos de ordem e formulação, conforme o
direcionamento de cada entrevista.
Todos os entrevistados já trabalharam com a pesquisa de enredo para escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Eles possuem experiências diversas entre si, devido às suas diferenças de formação de graduação, diferenças de geração e modo de inserção no carnaval. Como o número de enredistas que já atuaram no Grupo Especial não é tão amplo, a identificação direta poderia facilitar o reconhecimento dos participantes. Por isso, optou-se por preservar informações sensíveis, garantindo o anonimato dos participantes.
Tabela 1: Detalhamento dos profissionais pesquisadores de enredo que participaram da etapa de entrevista
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Entrevistado |
Data |
Duração da Entrevista |
Começou a trabalhar como enredista em |
Modalidade da entrevista |
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Entrevistado A |
26/10/2021 |
54:31 |
1996 |
On-line |
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Entrevistado B |
20/12/2020 |
57:07 |
2000 |
On-line |
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Entrevistado C |
07/02/2021 |
1:07:23 |
2010 |
On-line |
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Entrevistado D |
09/06/2022 |
1:19:54 |
2003 |
On-line |
Fonte: Elaborado pelos autores.
As entrevistas ocorreram entre 20 de dezembro de 2020 e 9 de junho
de 2022. As quatro conversas aconteceram de forma on-line, pela plataforma
Google Meet, com duração aproximada de 55 a 80 minutos. Os encontros foram
gravados em áudio e vídeo e, posteriormente, revisados mais de uma vez para uma
melhor compreensão e registro. As falas foram transcritas como ditas
originalmente, sem ajustes gramaticais.
A partir da escuta, foram selecionadas citações a fim de reuni-las na
análise da entrevista de cada pergunta. No final, há a referência em código
(letra) que identifica o entrevistado, tendo por base a tabela anterior. Foram
destacados determinados trechos com o objetivo de evidenciar, nos respectivos
discursos, os pontos mais relevantes para a pesquisa.
O roteiro base das entrevistas, dividido em três segmentos, abordou a formação e trajetória profissional, o processo de criação do enredo e a relação entre enredos de escola de samba e ensino-aprendizagem. No entanto, partes do primeiro e terceiro segmentos não foram incluídas no artigo para preservar o anonimato dos participantes.
Assim, a primeira seção explorou o início profissional do enredista e a relação com a sua formação base. O segundo segmento abordou o processo de escrita e criação de enredos, considerando as preocupações e contribuições de outros quesitos. A última seção investigou quais enredos os enredistas acreditam ter maior potencial para gerar debates em espaços de ensino ao longo do ano. Cabe destacar que perguntas adicionais foram feitas conforme a trajetória de cada profissional ou pontos levantados durante a entrevista.
Tabela 2: Roteiro e setorização das perguntas aos entrevistados
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Formação e a trajetória profissional |
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Qual a sua formação? |
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Há quantos anos você trabalha como enredista? |
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Como você começou a trabalhar como enredista? |
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Processo de criação do enredo |
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Quando você é convidado por alguma agremiação para ser historiador de determinado enredo, quais são os passos que você segue para o desenvolvimento desse enredo? |
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As escolas de samba apresentam inúmeras mensagens por meio do seu enredo, cumprindo uma função difusora de conhecimento e cultura antes, durante e depois do desfile. Há uma preocupação em expor o tema de forma didática? Se sim, quais são as principais estratégias para que isso ocorra, seja apresentado de maneira clara (e tenha de fato uma divulgação de conhecimento)? |
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Como se dá o processo entre você o carnavalesco? Há conversas entre você, enredista, e o carnavalesco em torno de soluções visuais? Ou você entrega a história e a construção de imagens fica exclusivamente a cargo do artista? |
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O samba-enredo surge através da definição do tema, do recorte que foi desenvolvido e acaba sendo fruto do texto orientador (sinopse). Qual a importância você atribui ao samba-enredo para propagação do conhecimento que será exibido na avenida? |
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Enredo de escola de samba e ensino-aprendizagem |
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Pensando nos desfiles/enredos que você fez parte do desenvolvimento, quais você acredita que teriam um maior potencial para promover reflexões no espaço de sala de aula? Que tipo de potenciais teria em cada um deles? Cite alguns exemplos. |
Fonte: Elaborado pelos autores.
A seguir, serão apresentados os resultados das entrevistas divididos por categoria. Como Gil defende (2002, p. 134) “a categorização consiste na organização dos dados de forma que o pesquisador consiga tomar decisões e tirar conclusões a partir deles. Isso requer a construção de um conjunto de categorias descritivas, que podem ser fundamentadas no referencial teórico da pesquisa”. Desta forma, o levantamento bibliográfico para compreensão do quesito Enredo foi fundamental para a formulação das perguntas, para a identificação e para o agrupamento dos tópicos a serem destacados nas entrevistas. De modo a consolidar a apresentação dos resultados das entrevistas, optou-se por selecionar as declarações de no mínimo dois entrevistados como representação de cada tópico.
Categoria 1 - O início do trabalho como enredista
A pergunta "Como começou a trabalhar como enredista?” teve por objetivo identificar quais trajetórias foram traçadas pelos entrevistados para chegarem às escolas de samba e quando efetivamente eles começaram a se dedicar como profissionais do carnaval, principalmente na atuação de produção de texto e pesquisa.
Entrevistado A:
Fui lá no [nome ocultado de carnavalesco], mostrei aquele meu projeto. Foi assim que eu comecei a trabalhar. (...) Eu não sabia ainda qual a demanda do carnaval, qual o tipo de texto. E aí eu segui por 1 ano, mais de 1 ano dando conteúdo para eles. (...) Através do [ocultado], me deram várias dicas, como pensar o enredo. “Você precisa fazer uma sinopse”. Aí que eu fui entender qual era a demanda do meu trabalho. Então eu fui e montei o histórico do enredo, que não existia. (...). Porque através do histórico do enredo podia ter tudo fichado, muito bem organizado, do trabalho dele pra montar o projeto plástico. Aí a partir daí, do histórico, eu já consegui fazer o texto da sinopse que ia endereçado aos compositores. Isso foi um gradativo, né?
Entrevistado B:
Eu não sou um artista plástico, eu não sou formado em Belas Artes, então não sei desenhar. (...). Aí eu falei “como é que eu posso colocar os meus conhecimentos a serviço do carnaval?”. E aí, eu comecei a procurar saber como é que eles construíram os enredos, essas coisas, né, e tudo mais. E aí, no ano, para o carnaval de 2000, que foi o carnaval do descobrimento, dos 500 anos, eu tinha um amigo professor que foi dar consultoria dos temas das escolas de samba. (...) Eu falei com meu amigo que se estivesse algum carnavalesco precisando de uma ajuda na parte de pesquisa histórica, que eu gostaria de participar. (...). E aí surgiu a possibilidade. (...) E aí ele precisava realmente de uma bibliografia, de uma consulta, e aí eu participei pela primeira vez de uma pesquisa de enredo. Então foi a primeira vez que eu pesquisei o enredo. Eu ajudei ele com pesquisa. Só que eu não participei do barracão (...). Aí a partir desse carnaval de 2002 que eu comecei a participar mesmo da vida de uma agremiação.
Foi interessante observar que, quando os entrevistados foram introduzidos para trabalhar no universo carnavalesco, não havia uma definição de qual tipo de trabalho seria realizado nas escolas de samba. Eles iniciaram seu processo de carnaval em busca de uma oportunidade junto aos carnavalescos, apresentando sua habilidade de escrita e pesquisa como potencial contribuição para os profissionais de criação.
A partir da troca entre o carnavalesco e o pesquisador, eles começaram a compreender a demanda de busca de material que se apresentava, bem como eles se articulavam na construção e no processo de fazer carnaval. Esse movimento ocorria em um contexto em que a função de enredista ainda não estava cristalizada, seja na percepção dos próprios entrevistados, seja na conjuntura mais ampla de organização do carnaval.
Categoria 2 - O desenvolvimento para a criação de um enredo
Esta pergunta teve como objetivo compreender quais fatores são levados em consideração para decisão temática e narrativa de um enredo. Além disso, buscou entender quais são as principais etapas do processo criativo de cada enredista para o desenvolvimento do seu trabalho.
Entrevistado A:
O ato principal de construir o enredo, é esse: que se tenha uma leitura clara para todos aqueles que estejam assistindo dentro da Marquês de Sapucaí. Claro que prioritariamente para o corpo de jurados. (...) Todos esses artifícios, tripés, musas, as composições dos carros, destaques, além das alas e alegorias, (...) são permissíveis para você contar sua história. Então contextualizar o enredo é você saber usar bem cada espaço que você tem dentro da sua escola de samba, dentro da estrutura que você vai apresentar. (...) Então, a primeira ideia do enredo é montar um tema, uma estrutura de apresentação desse tema, que você vai contar com fantasias e alegorias, que esteja claro para quem está lendo. (...) Outro enredo que é muito bem feito é o da Maria Bethânia, com o Leandro. (...). Por que? Porque ele contextualiza, (...), ele contextualiza cada espaçozinho dessa estrutura que é montada. Então você cria mais facilidade pra quem tá vendo.
Entrevistado C:
A gente tem que ter consciência que o enredo é o estopim do carnaval. (...) O ápice do processo do desfile, ele começa de uma reunião que às vezes começa de mil coisas, de mil e enredos, de mil possibilidades. (…) Eu gosto de ver qual tema, ou quais temas, que escola quer abordar no carnaval. (...) a gente sai do tema e vai para o enredo. Qual a história que vai ser contada para defender aquele tema que a escola queria? Ai, mais reunião de novo. Ver quais são as possibilidades, ver quais as possibilidades não só financeiras, mas também artísticas.
Entrevistado D:
(...) O carnavalesco, que é responsável direto pela questão visual e narrativa de um determinado enredo, ele tem que ter uma confiança no seu trabalho. (...) porque o carnavalesco sabe qual tom ele quer dar com aquele enredo, qual tipo de samba que ele quer. eu vou perguntando isso. (...). Eu também dou minha opinião. (...) A gente vai trabalhar com a questão do roteiro. Porque os enredos estão sempre divididos, né, é uma sequência de ações que vão acontecendo ali dentro. (...). E o meu trabalho fundamental, e é muito importante isso, a sinopse. A sinopse é o documento textual no qual o compositor vai fazer seus sambas de enredo. E pra isso, é preciso que a gente tenha muito claro a história, a história que vai ser contada, e muito, muito transparente também o tom que você vai usar naquele enredo. (...)
Nas falas dos entrevistados, ficou evidente que os entrevistados destacam a importância do processo de pesquisa e da conscientização sobre o conteúdo elaborado para a construção de um enredo. Além disso, eles enxergam o enredo como base do trabalho que as escolas desenvolvem junto a outros setores, então a confiança que a agremiação e/ou carnavalesco estabelece com seu trabalho, é primordial no desenvolvimento de um bom desfile.
No aperfeiçoamento da narrativa, portanto, há a premissa de compreender a disposição de um desfile carnavalesco a fim de explorar plenamente as possibilidades narrativas que o quesito permite na sua própria estrutura. A utilização de forma proveitosa da estrutura do enredo permite que eles materializem o resultado da pesquisa e da história de uma forma mais satisfatória. A construção deste trabalho é resultado de um esforço coletivo, envolvendo o carnavalesco por meio de uma direção criativa compartilhada, assim como outros segmentos da escola, considerando não apenas o trabalho desenvolvido no samba-enredo, mas também seu impacto no desempenho financeiro da agremiação. Dessa forma, a partir do livro de julgamento, eles desfrutam de cada fantasia e alegoria para apresentarem a defesa do tema.
Categoria 3 - A relação entre o enredista e o carnavalesco
A pergunta teve como objetivo compreender o processo de criação de um enredo entre o enredista e o carnavalesco, investigando se a função do enredista se restringe à elaboração textual ou se também envolve contribuições relacionadas à visualidade do tema. Também buscou entender se o desenvolvimento da narrativa pelo pesquisador era feito de maneira mais solitária ou num processo de co-criação com outro profissional da escola.
Entrevistado B:
(...) E nesse período, ele também pode me solicitar alguma pesquisa de imagem, né? O que hoje em dia nem é tão solicitado porque hoje já tem muita imagem na internet. (...) Aí, eu acompanhava o trabalho todo para montar as justificativas, porque as justificativas, elas têm que ser bem elaboradas. Porque se não, não adianta uma pessoa vê uma coisa, e lá na hora lê o que ta lá, e vê uma outra coisa. Se a justificativa não corresponder de fato a roupa ou a alegoria, então, fica complicado. (...) A parte artística é toda com eles. (...) Aí, eu deixava com eles como eles iam expressar aquilo, a parte artística era com eles. Comigo era a parte de pesquisa e de informação.
Entrevistado C:
Então, no começo, não era muito assim não. (...) E com os anos, com as vivências de barracão, de ver todo o processo de criação, de entender como funciona o cerne da escola de samba dentro do barracão, a gente vai pegando muito disso no barracão. De saber quais materiais funcionam melhor para algumas leituras, quais não. Quais ideias são mais baratas para fazer dependendo da escola de samba que a gente tá. (...) Eu já tenho muita dessa visão de: “será que dá?”, “‘será que talvez isso aqui funcione melhor?”, “será que a gente põe isso aqui para a ala, não pra carro, já soluciona pra ala, mas pra carro talvez algo que seja difícil de transformar numa fantasia, de vestir pessoa, então às vezes pegar para alegoria fica melhor”. Então hoje já tenho essa visão mais apurada. São 12 anos que eu já tive pra entender como funciona esse processo.
Entrevistado D:
Minha parte é mais literária, vamos dizer assim, no ponto de vista da produção do enredo. Mas obviamente essa literatura, ela é feita de imagens poéticas e visuais. Então, o carnavalesco muitas vezes tem as soluções na cabeça, visuais, (...), a gente tinha uma certa licença para sugerir. Eles deixavam muito aberto. (...). E assim, essa questão das referências visuais, a gente trabalha muito mais com o assunto, né, “po, isso aqui vai dar mais visual”. (...) Também tem a função de aconselhamento, de consultoria e de tirar a solidão criativa dos carnavalescos. tem um pouco disso, porque era só o carnavalesco e o papel. Então também serve para trocar junto. (...). Quando eu vou fazer o trabalho com o carnavalesco, eu faço também o trabalho do advogado do diabo. “O que você quer dizer com esse enredo?” “Por que esse?” “Por que não aquele? “Por que essa abordagem?” “Por que não aquela?”. E é um processo muito dolorido, tanto pra mim, quanto pro carnavalesco. (...). É um bate-bola muito interessante, demora cerca de 2 meses, não é algo rápido, mas que é muito prazeroso.
A parceria que se estabelece durante o processo de criação do enredo entre enredista e carnavalesco varia muito para cada trabalho desenvolvido. A parte primordial do trabalho é o desenvolvimento da pesquisa, em prol da base conceitual que o enredo irá se desenvolver.
Nesse sentido, dependendo de cada pesquisador e de cada projeto, pode haver uma participação maior no cotidiano do barracão, como acompanhamento no desenvolvimento de alas e alegorias. Em outros casos, pode ficar restrita a uma participação de pesquisa e referências visuais, para argumentação e justificativa no livro Abre-Alas entregue aos jurados[4]. O maior ou menor envolvimento com o cotidiano do barracão pode modificar o método de trabalho, ao alinhar os parâmetros do que está sendo efetivamente materializado no espaço como ponto de partida para determinadas escolhas projetuais e decisões narrativas. Dessa maneira, por mais que o trabalho seja de cunho teórico, as definições podem estar envolvidas já pensando na realização do enredo e sua transformação em fantasias e alegorias.
A maioria dos entrevistados respondeu que o enredo é construído em diálogo constante com o carnavalesco, e que a troca entre as partes como é uma das chaves para o sucesso do projeto.
Categoria 4 - A atenção em transmitir conteúdo de forma didática
Com esta pergunta, foi possível identificar os processos e métodos utilizados pelos profissionais na elaboração do enredo de forma didática, bem como compreender as estratégias empregadas para transmiti-lo de maneira clara durante o desfile, a partir da concepção textual desses profissionais.
Entrevistado B:
Assim, na proposta do enredo, eu sempre busquei apresentar uma proposta didática, clara e de fácil leitura. Por quê? Porque o carnaval ele mistura a cultura popular com a erudita. Porque, por exemplo, no carnaval, dentro de uma escola de samba, você tem todos os segmentos sociais. Você tem desde o rico ao pobre. Do letrado ao analfabeto. E por aí vai. Então você tem que ter uma linguagem acessível que alcance todos esses segmentos de forma igual. (...) a gente tem que atingir todos da mesma forma. O enredo didático, claro, bem explicado, é um momento extremamente importante do enredo era a apresentação aos compositores. Eu às vezes criticava alguns carnavalescos que tinham o hábito só de ler a sinopse. Não é ler. É você ler e explicar. Quando você explica, você torna mais clara as tuas ideias. Não é só a leitura pela leitura.
Entrevistado C:
E quando a gente tá cursando desfile de escola de samba em forma de desfile, alegoria, a gente tá falando pra muita gente. A gente tá falando pra gente que às vezes não consegue nem ter noção. A gente tá falando pra criança, a gente tá falando pra uma pessoa idosa. E nesse meio aí, tem gente de todo o nível de escolaridade. É um consenso muito legal entre a gente, com gente que lida com o texto, que cada vez mais a gente precisa pensar o texto da escola de samba, do enredo, como um texto que seja amplo e de fácil acesso a todos. E a ideia é que ele seja passado a todos, então, às vezes a gente se depara com um tema que seja de extrema complexidade, é tentar ao máximo fazer com que esse texto seja compreensível, mas que ele não perca a essência e a veracidade. (...) Eu acho que isso é um pensamento legal que a gente tem que ter sempre de: usar a base histórica que a gente tem, sem usar falso histórico, falsas igualdades. Mas, poder transbordar isso pra nossa realidade, mas principalmente entender a escola de samba como ponte educacional. A gente tá falando de instituições, de veículos de comunicação e de instituições de educação também. A escola de samba tem esse viés educacional.
Entrevistado D:
Acho que a palavra certa é essa: didatismo. A gente apresenta, por exemplo, um enredo histórico. Você tem que apresentar o cenário, os personagens, a época que aquilo tá sendo retratado, e pra isso entra obviamente o carnavalesco entra com a pesquisa de época, e também o nosso trabalho. (...) Você tem que se sentir deslocado, te tirar do tempo presente, te colocar no futuro, ou no passado, que te remeta àquele sentimento do enredo, naquilo que quer te levar. (...). E eu acho que o grande mote dos enredos hoje, e principalmente, e aí vai bater cabeça com o Leandro Vieira, vai bater cabeça com o Jack Vasconcelos, que é essa coisa de instigar, e trazer uma mensagem muito forte, propositiva, que tem a ver com os nossos tempos. A gente tá vivendo tempos de todos os tipos de perseguição (...). e uma perseguição até ao próprio carnaval, e à cultura como um todo. Então, esse tempo é muito importante pra gente contra-atacar. Eu acho que o carnaval também serve para essa questão do contra-ataque, contra o pensamento hegemônico, um pensamento que tá aí para nos aniquilar. um pensamento da extrema-direita hoje um dia é um pensamento de aniquilação da cultura, da educação, aniquilação da laicidade do Estado. Por isso que hoje eu acho que os enredos têm essa importância também de levar mensagem, de levarem conteúdos, que possam ser replicados em espaços outros além da avenida.
A partir das respostas dos enredistas, percebe-se que eles destacaram o carnaval como canal para todos os públicos, das mais diferentes realidades sociais. É necessário fazer com que o enredo seja claro de forma universal, para que pessoas variadas possam entender a mensagem primordial do enredo.
Isto posto, de acordo com os pesquisadores, o enredo precisa ter um viés educacional, para apresentar outros tipos de discurso não-hegemônicos e promover reflexões. O diálogo promovido entre população e escola de samba deve compreender a relevância do enredo como um transmissor de mensagens e um potencial fomentador de debates.
Categoria 5 - A importância do samba-enredo na visão do enredista
O samba-enredo é responsável por popularizar boa parte da narrativa que a escola de samba pretende apresentar na avenida. Essa pergunta deixou patente a ideia de que o samba-enredo é oriundo de uma produção textual construída pelo pesquisador do enredo, denominado sinopse, que é uma síntese do que a agremiação pretende discursar na avenida. Diante desse contexto, os compositores de samba-enredo têm a função de transformar o conteúdo textual dos enredistas em letra e melodia.
Entrevistado B:
O samba-enredo é tudo. Se você tiver um samba excelente, você já tem um desfile excelente. Então se o samba é bom, tudo que entra fácil, sai fácil. Então tudo que entra fácil, as pessoas cantam fácil. Pulam, se divertem. Então o samba ajuda a divulgar o enredo. O samba ajuda a gente a compreender o enredo. (...) O samba-enredo ajuda a divulgar o enredo e tá ajudando a divulgar o conhecimento, porque tá ajudando a divulgar a cultura, porque ele é feito em cima do enredo, né? O enredo já tem essa proposta, né?
Entrevistado C:
É o nosso texto, é a nossa proposta, em forma de samba-enredo. E é aquilo que mais atinge as pessoas, porque o nosso texto, ele não atinge 100% das pessoas, mas o samba atinge muito mais. (...) Porque é cantando que as pessoas se interessam pelo enredo. (...), “ah puxa, legal, vou ali ler pra saber o que o carnavalesco, o que o pessoal tá propondo”. é assim que as pessoas vão entender aquela fantasia que vão vestir no dia do desfile. O samba tem muito desse poder. (...). Mostra o poder de uma música que nasceu de um projeto teórico, de uma reunião de muitas palavras. Ali também é uma reunião de palavras, mas que ganha melodia, e isso atinge as pessoas, então eu acho muito importante.
Entrevistado D:
É uma mensagem, um poder de síntese, uma formação de consciente coletivo muito forte. É quase como um manifesto, essa forma de manifestar (...). Por isso que é importante essa questão de formação de consciência para que a gente realmente possa lutar para o que realmente chama de democracia. A escola de samba é o principal veículo de comunicação que hoje está dizendo pra fora o que estamos sofrendo. É uma coisa que está vindo de baixo pra cima, e que pega o coletivo, o inconsciente das pessoas. então, o samba de enredo tem muito isso. Você ouve aquilo, aquilo vira um mantra, aquilo vai formar tua consciência. Você vai refletindo sobre aquelas palavras, e se enxerga naquele contexto, e aquilo se transforma em mensagem. E aquilo se transforma em conscientização popular.
A partir do que foi relatado, os participantes tendem a enxergar o samba-enredo como um importante difusor sonoro das mensagens de seus enredos, já que a parte textual nem sempre é plenamente compreendida ou lida pelo público em geral. Os sambas-enredo são ressaltados como potencial meio de atingir pessoas de uma forma palatável, natural, pois é através do canto, dança e da música que o discurso dos pesquisadores pode ser propagado por outro tipo de forma comunicativa. É uma extensão do que é apresentado na avenida e do que é defendido no livro Abre-Alas, como um sistema narrativo que trabalha em conjunto.
No Grupo Especial do Rio de Janeiro, o conteúdo desenvolvido pelo pesquisador do enredo é material para a construção do livro Abre-Alas, documento este que será entregue ao corpo de jurados. O livro Abre-Alas é divulgado on-line para o público em geral poucos dias antes do desfile, o que permite que todos tenham acesso ao conteúdo. Porém, a diagramação é pensada para que seja lida pelos jurados, visto que a explicação de alegorias e fantasias é separada da roteirização original. Além disso, o conteúdo ali apresentado costuma não ter novos contornos depois do desfile. O enredo aparece como discussão pela sinopse, imagens da apresentação, samba-enredo, mas pouco pelo organograma de desfile e justificativa que os pesquisadores desenvolveram.
Considerando que o Abre-Alas é fruto de um intenso esforço coletivo, envolvendo não apenas os enredistas, mas também a comissão de carnaval da agremiação ao longo de todo o ano, esta pergunta buscou compreender como eles enxergam o destino deste conteúdo após o desfile.
Entrevistado B:
(...) E tem agora recentemente o grupo do Marcos Roza que faz esse trabalho do Roteiro dos Desfiles[5], que ele em cima do livro Abre-Alas, (...), que é tipo um libreto que é distribuído na Marquês de Sapucaí durante os dias de desfile. Eu acho super interessante esse trabalho dele, de fazer tipo um libreto. Porque o Joãozinho Trinta sempre disse que o carnaval é uma ópera de rua, então você tem que ter um libreto pra acompanhar. (...) O roteiro com a descrição das fantasias, descrição das alegorias, para ele saber. Porque cada fantasia, cada alegoria, tem um significado. (...). Ele é um material de pesquisa também, né? Os pesquisadores, a posteriori, terem esse material. Então acho que vale a pena, enfim, uma forma dele não ficar guardado lá somente nos arquivos do museu da liga. (...)
Entrevistado C:
A gente trabalha muito, muito, muito. E não tem um canal disponível pra deixar disponível aquilo que a gente fez. Acaba se tornando um registro de um trabalho que você sabe o que vai divulgar a sinopse pro compositor, vai cair nos sites de carnaval (...) e depois vai sumindo aos pouquinhos, vai minando. (...) Tem sinopse de 30 páginas, 40 páginas. É um TCC. É uma produção acadêmica. (...) Texto do mesmo padrão. A gente segue os mesmos padrões de ABNT, correção ortográfica. (...) Se tivesse um site, uma plataforma, algo que funcione, que fosse de livre acesso das escolas, “ah, esse aqui é meu carnaval, tô aqui subindo para essa biblioteca” (...). Seria muito legal que a gente tivesse essa biblioteca do carnaval, (...) para poder justamente ter esse acervo pra publicar. “O enredo nasceu assim, essas foram as fotos de pesquisa do enredo”.
Entrevistado D:
O Abre-Alas é quase uma tese que você escreve sobre aquele determinado enredo e tem informações, é quase um livro ilustrado, você tem as informações com aquela respectiva legenda visual. Que é a fantasia ou a alegoria. Então se torna um material imagético e textual, muito muito muito muito muito potente. (...). Acho que o primeiro passo poderia partir das escolas de samba, (...), de repensar a diagramação do livro Abre-Alas. (...). Acho que precisa ser mais atraente. enfim, acho que tem outras possibilidades. Mais simples. (...) Mas de qualquer maneira, você tem uma qualidade muito grande do que é apresentado nas doze escolas, (...). Na qualidade ela é nivelada. E ali você conta histórias, você vai destrinchando rosários. (...) E to pensando como o livro Abre-Alas também é importante para a sala de aula. Ele pode estar presente até de uma forma do professor poder trabalhar o poder de síntese. (...). Isso é uma forma de envolver os estudantes, enfim, uma série de pessoas que estejam interessadas em saber mais sobre poética, sobre resumo, sobre essa questão toda, é uma forma de trazer e instigar. Acho que a palavra é instigar. Instigar na produção de poesia, na produção textual, na produção de reflexão daquilo que tá se dizendo.
Os entrevistados
ressaltaram que os resultados de suas investigações configuram uma produção
acadêmica que merece reconhecimento e pode ser consultada como referência em
espaços de debate, ensino e pesquisa. As reflexões apresentadas pelos
profissionais indicam possibilidades de ampliar o alcance do livro Abre-Alas
para além do desfile oficial.
Seu conteúdo pode dialogar com diferentes campos de conhecimento,
como disciplinas escolares, debates antropológicos, estudos narrativos e
metodologias de pesquisa. Isso poderia se concretizar por meio da criação de
materiais didáticos para uso em sala de aula, da construção de um repositório
digital e até mesmo de uma diagramação editorial repensada, capaz de evidenciar
a relação entre o conteúdo e o resultado textual.
A partir do que foi apresentado, percebe-se que a função difusora do quesito Enredo vem se materializando em novos contornos nos dias atuais. Com seus desdobramentos em museus, rodas de conversa, divulgações variadas na internet, o conhecimento produzido pelas escolas de samba apresenta ainda mais capacidade de propagação além do desfile oficial.
Em relação à narrativa defendida pelas agremiações, o estudo dessa função mais especializada para o quesito Enredo poderá trazer um cuidado diferenciado. Ao longo dos próximos anos, será possível intensificar os estudos da temática, percebendo como os enredistas estão se portando no mercado carnavalesco, quais são as tendências, como se preocupam com a didatização de suas pesquisas, quais os diálogos entre o carnavalesco e os pesquisadores, entre outras questões. Assim, as escolas de samba seguem como organismo vivo, dialogando com a importância do discurso que é necessário na atualidade e se adaptando para as novas tendências.
REFERÊNCIAS
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This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)
[1] Mestranda em Design pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4288-6773. E-mail: julemos2s@hotmail.com.
[2] Professora Emérito do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7705-5304. E-mail: rita7couto@gmail.com.
[3] Doutora em Arquitetura pela PROURB/FAU-UFRJ, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9789-5247. E-mail: falecom@joytill.com.br.
[4] O livro Abre-Alas é o documento entregue aos jurados, contendo todas as informações formais essenciais para a avaliação de um desfile de escola de samba no Grupo Especial do ano correspondente. Disponível em: < https://liesa.globo.com/carnaval/livro-abre-alas.html>
[5] O Roteiro dos Desfiles era um projeto do enredista Marcos Roza, que apresentava um guia informativo para os telespectadores da Sapucaí com a explicação de alas e alegorias de forma sintetizada. O libreto era distribuído de forma gratuita, e também disponibilizado virtualmente. A fonte deste conteúdo era o livro dos jurados do Grupo Especial, conhecido como Abre-Alas. Portanto, o Roteiro dos Desfiles permite que o público compreenda com mais clareza o que está sendo apresentado na avenida. Ele foi um projeto descontinuado em 2025, devido a desacordos com a LIESA.