Quando Ismália enlouqueceu e o potencial que há em ser escória
When Ismália went crazy and the potential of being scum
Nathaly Santariano Leguiça[1]
Universidade Federal de Santa Maria (RS-UFSM)
Marcele Pereira da Rosa Zucolotto[2]
Universidade Federal de Santa Maria (RS-UFSM)
Resumo
Este texto surge a partir da experiência de Estágio Específico do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria realizado no primeiro semestre de 2024 em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Propõe um mergulho nas narrativas, memórias e repetições do usuário aqui mencionado como Jesus (nome fictício escolhido por ele mesmo), o condutor principal dessa conversa. O texto foi amparado pelas transcrições das conversas que se deram entre Jesus e um antigo estagiário do CAPS, com o profissional de referência de Jesus no serviço, mas principalmente pelas anotações no Diário de Campo produzido e alimentado no decorrer desta experiência pela estagiária. Estendida em 9 trechos, esta escrita se desenrola como um mapeamento dessa vivência, trazendo considerações sobre loucura e sofrimento. Aponta Jesus como o ‘menino mais triste’ que escolheu a vida, mas que acabou se tornando, dentre outras coisas, um sintoma da inferência racista e capitalista de uma sociedade que busca, a todo momento, capturar suas manifestações vitais no circuito da doença, da cronicidade, do delírio e da mania. O texto mostra ainda que, além do cercamento da repetição narrativa, há música e potência em ser escória. E que há valor no trabalho que escuta as sutilezas do viver.
Palavras-chave: Centro de atenção psicossocial; Loucura; Sofrimento psíquico; Potência de vida.
Abstract
This text arises from the experience of a Specific Internship of the Psychology Course at the Federal University of Santa Maria carried out in the first semester of 2024 in a Psychosocial Care Center (CAPS). It proposes a dive into the narratives, memories and repetitions of the user mentioned here as Jesus (fictitious name chosen by himself), the main driver of this conversation. The text was supported by transcriptions of conversations that took place between Jesus and a former CAPS intern, with Jesus' reference professional at the service, but mainly by notes in the Field Diary produced and fed during this experience by the intern. Extended into 9 sections, this writing unfolds as a mapping of this experience, bringing considerations about madness and suffering. It suggests Jesus as the 'saddest boy' who chose life, but who ended up becoming, among other things, a symptom of the racist and capitalist inference of a society that seeks, always, to capture its vital manifestations in the circuit of disease, chronicity, delirium and mania. The text also shows that, in addition to the enclosure of narrative repetition, there is music and power in being scum. And that there is value in work that listens to the subtleties of living.
Keywords: Psychosocial care center; Craziness; Psychic suffering; Power of life.
Trecho 1: Introdução
Me vi fisgada por uma objeção ciclópica na tarefa de parir este texto[3]. Naturalmente exijo, de mim mesma, um cuidado desmedido com as palavras escritas e, considerando o/a leitor/a, assumo que cada uma delas será percorrida, e também é um apelo, minuciosamente. Me é, também, de um caráter um tanto intimidador a ciência de que, aqui, na sua leitura, palavra alguma será subestimada. De que, aqui, na sua leitura, palavra alguma será negligenciada. Que a leitura não se fará depressa. Com efeito, como prescrito por Nietzsche (2008), a leitura tem de ser lenta e a palavra nos deve chover como se caísse do céu, travestida em garoa, condoendo-nos indesviável. Escrevi quase como os aforistas. Sem o desperdício da palavra. Que nenhuma seja.
Meu segundo semestre de estágio de Psicologia no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II iniciou-se, o que me foi motivo de angústia latente, aparentemente estéril. Logo de antemão tive de arcar com um desfalque pavorosamente infecundo: a minha maquinaria desejante de ação e enfrentamento havia passado por baixas concludentes. Eu estava enlutada. Meus colegas de estágio do semestre anterior, meus companheiros de articulação, estavam formados e, por pouquíssimo, deixei de naufragar numa individualidade devidamente despolitizante.
Por pouquíssimo, mas nem por isso. Acontece que, lá onde há demanda, ela irrompe sem carecer perguntar por ninguém. Sem se desculpar e sem pedir licença. E, naquela tarde meio morna de quinta-feira, um único questionamento despretensioso motivado pela sensação de ter alguma responsabilidade, talvez equivocada, sobre a figura de um sujeito cabisbaixo e quase imperceptível, quase fundido, quase liquefeito, quase tornado a qualquer outro estado que não o de solidez não fosse a sua estatura imponente, foi competente o suficiente a ponto de fazer acontecer algo:
— Jesus[4], tu gostaria de conversar?
— Pode ser.
— Quer conversar agora ou pode ser depois da atividade? (Estava acontecendo uma interação grupal na ambiência).
— Pode ser agora[5].
Trecho 2: Jesus
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar.
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar.
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar.
E, no desvario seu,
Banhou-se toda em luar.
Estava perto do céu,
Estava longe do mar.
E, como um anjo, pendeu
As asas para voar.
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar.
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par.
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
Logo apareço com alguma menção direta ao poema de Alphonsus de Guimaraens, Ismália (GUIMARAENS, 1960, p. 231-232). Mas sua relação com esta escrita há de se escancarar no decorrer dela mesma. Por ora, proponho um breve mergulho ao longo de algumas das memórias mais presentes na repetição discursiva de Jesus, o condutor principal desta conversa. Como auxílio, estaremos amparados pelas transcrições pessoais das conversas que se desenrolaram entre Jesus e um antigo estagiário do CAPS e com o profissional de referência de Jesus no serviço, também psicólogo e coordenador, que souberam capturar resenhas mais-que-completas na compreensão de algumas linhas vitais de Jesus. Trata-se de materiais desobjetivos, apesar do antagonismo de sua nitidez e de seu caráter discriminadamente descritivo. Ali, constam temores, tremores, agitações, parcialidades, afetações. Materiais vivos. Porosos. Para além e finalmente, o convite: respaldemo-nos, essencialmente, no meu Diário de Campo, produzido e alimentado no decorrer de cada encontro que tive com Jesus, em conformidade com sua própria solicitação.
O antigo estagiário, o profissional de referência e eu mapeamos acontecimentos da trajetória de vida de Jesus. Não seremos os últimos e nem fomos os primeiros. Aqueles acontecimentos que ele repete incansável e impecavelmente quando convidado a se manifestar, palavra-a-palavra, sem sequer deslizar. Há, no entanto, certa sugestão de autorregulação no texto. Entende-se um texto que se autodecora, que dispensa o empenho consciente, no sentido de que Jesus não se recorda de repeti-lo. Trata-se de uma narrativa ordenada e enrijecida, gagueira na linguagem e na existência, peste do encravo de uma miserável condenação à infertilidade.
Jesus tem 57 anos e gosta de tomar refrigerante. Nasceu em Uruguaiana, em 1967, uma cidade fronteiriça localizada na Região Oeste do estado do Rio Grande do Sul, que se esbarra com a Argentina sob comprometimento do rio Uruguai. Seu pai, que gostava de farras e bebidas, era um escrivão da Polícia Civil. Sua mãe, que temia pelos filhos a herança do mesmo hábito alcoólico do pai, era dona de casa. Quando se afeta positivamente por alguma coisa, Jesus sorri, aperta bem os olhos e cerra os punhos das mãos em estado de vibração, e é o terceiro entre sete irmãos.
Em 1975, enquanto a família morava em Porto Alegre, seu pai foi assassinado, numa viagem de negócios, com três tiros. Jesus conta que, no velório, não entendia por que seu pai estava com a testa gelada. Sua mãe, posteriormente, comprou uma casa em Uruguaiana com o dinheiro da pensão recebida após a morte do marido; um casebre caindo aos pedaços, como Jesus costuma descrever. De volta à fronteira, ele passou a fazer parte, junto aos irmãos, por influência da mãe, da composição da bateria da Escola de Samba Deu Chucha na Zebra, onde tocava trombone. Na última conversa que tivemos, Jesus recuperou contente, da lembrança, os instrumentos tocados pelos irmãos: Um tocava saxofone, outro, saxofone tenor. Outro, piston. E ainda tinha o que tocava cajón. Todos os irmãos. Era a família. A Banda Aquarela, de uniforme azul. Jesus e os irmãos se deleitavam e sempre faturavam no carnaval. À época, chegou a viajar com os irmãos para o interior da Argentina, em Baía Blanca, com o melhor ônibus da linha. Fiz muita grana por lá. É uma das melhores memórias que tenho. Adiante, neste trabalho, retornarei à relação dele com o carnaval uruguaianense e suas implicações.
No entanto, por aparentar ter sido, entre os irmãos, aquele que mais chorou a morte do pai, o tio se compadeceu de sua situação e o levou para morar com ele e com a esposa, na capital, Porto Alegre, para estudar e expandir a sua sorte. O tio era capitão da Brigada Militar. A tia o percebia como o menino mais triste em comparação àqueles outros de sua idade. Nessa razão, incentivava o sobrinho a deixar de pensar em dinheiro e nas alternativas que a mãe e o tio estabeleciam para ele. Os outros eram mais alegres e mais dinâmicos. Ela não queria que eu ficasse igual ao tio, linha reta, padrão. A sentença bifurcada da necessidade de um momento deliberante entre percorrer a trilha do ‘dinheiro’ ou a trilha do ‘sentimento’, um juízo tão neuroticamente reforçado por Jesus, o perseguiria por décadas. Vivo uma vida que não é vivida. É perseguida: uma captura da nossa última conversa.
Jesus sentia esses conselhos da tia como uma forma de despertar, nele, o sentimento e a vontade de viver. A mim, ele costuma afirmar que a tia fez tchum! nas suas ideias, junto a um gesto em que gira o pulso e os dedos de uma mão, ilustrando uma mudança de perspectiva. Entretanto, por ter sofrido um abuso de outra tia, situação a que ele se refere como tendo-o tornado homem, Jesus interpretou, aos 17, que sua tia adotiva também estava interessada nele e a assediou sexualmente. A consequência é que eu pirei. Não consegui me controlar.
A crise aconteceu nas vésperas do concurso para a Academia de Oficiais da Brigada, em que foi reprovado. Ao chegar em casa, disse ao tio que teria rodado na prova de barras. Hoje, ele conta que esqueceu a carteira de identidade e que, paralelamente, esqueceu a si mesmo: Esqueci quem era eu. Eu era o tio e a tia, não era eu. Jesus conta que o seu desejo de se tornar músico, contrariando a vontade de seus familiares, fez instaurar-se um clima de tensão e reprovação entre ele e seus tios o que, juntamente às consequências punitivas que teria sofrido posteriormente à situação do assédio, fez desencadear no seu retorno para Uruguaiana.
Trecho 3: Lu[6]
Aos 18, Jesus conheceu Lu, antes de entrar para o quartel. Eles tinham uma amiga em comum que trabalhava vendendo lanches, e Jesus comia os lanches que ela não vendia. Em certa ocasião, essa amiga o convidou para uma festa. A festa de aniversário da Lu. Eles se conheceram, namoraram e, em 1992, aos 25 anos de Jesus, se casaram. Ele relembra que, àquela altura, possuía três pretendentes; Lu e outras duas mulheres, uma professora e uma secretária, que tinham mais dinheiro e melhores perspectivas de futuro que Lu e, por isso, sempre cogita ter sido um erro o seu casamento.
Jesus nos conta que se casou por amor, obviamente, mas também porque queria fazer uma movimentação no seio de sua família e de sua extensão, a cidade. Porque Lu era negra e pobre, assim como ele, e porque Uruguaiana era rígida e conservadora, e sua intenção era a de causar um abalo na estrutura social vigente ao passo em que comprovaria que poderiam experimentar a ousadia da felicidade e do alcance de tudo aquilo que refletisse o seu desejo, apequenando qualquer expectativa contrária. Uma revolução, nas palavras dele.
Lu desaprovava que Jesus trabalhasse no escritório e fizesse faculdade de Ciências Contábeis, porque acabava tendo pouco tempo para a relação. Ele diz que ela exigia demais de sentimento e que o incentivava a colocar o Exército na Justiça, como ele fez. Afirma que teve um casamento muito feliz, que transavam todos os dias, que conversavam demais e que se amavam intensamente. Em 1993, Lu ficou grávida de uma menina.
Trecho 4: Flor
Lu morreu no parto da filha, Flor, em 1994.
Jesus tinha 27 anos. Flor foi criada pela avó materna, uma vez que Jesus já não tinha mais condições psíquicas para a tarefa. Hoje ela tem 31 anos e mora com o marido, agrônomo, numa área rural. Em certa ocasião, quando perguntei a Jesus em que cidade Flor vivia, ele respondeu que não sabia. Mas que, se perguntasse, ela diria. Ainda assim, ela o visita de vez em quando. O último Dia dos Pais eles passaram juntos. Ela deu presentes cheirosos d’O Boticário para ele, ele me disse: finíssimo! Um perfume e uma loção pós-barba. Até passearam.
Há uma repetição que, definitivamente, me parece bonita. Jesus participa das Oficinas da Rádio[7] do CAPS e, por mais deprimido que esteja e ainda que não se recorde de já tê-lo feito tantas vezes, ele sempre manda o mesmíssimo recado para a filha:
— Eu quero mandar um recado pra minha filha, Flor. Flor, você é a riqueza da minha vida! Do...
— Teu pai, babai! — completam, sorrindo, os colegas da oficina, familiarizados com o recado habitual do amigo, em uníssono.
Nada é dito. Nada precisa ser dito, nesse momento, para ser compreensível. Meu olho vacila. Mareja, em afronta, sem que eu consiga contê-lo tão bem. Jesus sorri. Penso que seja o suficiente. Há, portanto, duas repetições que eu acho bonitas. A de que ele sempre manda o mesmo recado para a filha. E a de que o grupo da oficina, agora, manda outro recado para ele.
Trecho 5: Os agentes institucionais. O Coronel, o chefe do escritório e o perito
Com frequência, três elementos são citados por Jesus no que se refere aos representantes das instituições que o mutilaram ao longo da vida: o Coronel, o chefe do escritório e o perito. Sempre mencionados dessa forma. Sempre descritos da mesma forma. O Coronel do Exército que impediu que ele assumisse a função de sargento, aos 20 anos e quem, na visão dele, provocou, principalmente, o seu adoecimento; o chefe do escritório em que ele trabalhou dos 23 aos 24 anos e o perito que não reconheceu que ele havia definhado, excepcionalmente, enquanto estava no quartel. Para além da tríade, Jesus costuma citar os nomes e sobrenomes dos profissionais que o agrediram de diferentes formas possíveis durante os períodos de internação psiquiátrica.
No escritório, seu chefe o demitiu porque ele havia pedido Lu em casamento e passado a recusar os seus convites para festas, jogos de futebol e cabarés. Já, no Exército, onde servia como soldado-músico, afirma que o chamavam de louco porque ele desafiava as autoridades. Acho que era porque eu colocava meu olho no olho do Coronel, me disse. Disse também que o Exército era um lugar fechado e que ele era muito legal. ‘Legal’ também é o adjetivo que ele usa para designar a sua vida em Porto Alegre. Que os amigos eram legais, que os lugares eram legais e que a tia o tornara legal. Mas que, quando voltou para Uruguaiana, deparou-se com o racismo. Lá, sobretudo no Exército, todos tinham a mente fechada. Engata a lembrança e diz:
Eu tinha a mente aberta. Eles tinham a mente fechada. Eu debochava de um cabo. Eu tinha que ficar quieto e não ficava. Outra que eu aprontei na banda foi a seguinte: um sargento me chamou pra um desafio. Pegou o instrumento dele, um sax senor, e me disse: tu faz no trombone e eu faço no sax. Vamos ver quem é que ganha. Aí eu apliquei um glissando pra cima dele e disse: agora tu faz. Ele gaguejou e não fez. Ele, Sargento Paraquedista e, eu, soldado, tirei ele pra merda. E ele me chamou de louco. É que eu sabia demais. Tinha o estudo que a tia tinha me passado. Quando eu era criança, era gordo e emburrado. Aí, cresci. Fui morar com a tia e ela me deixou do avesso. Me deixou esperto.
Depois da primeira internação no hospital psiquiátrico, em 1987, Jesus voltou para o quartel. O pessoal dizia para deixá-lo lá, que ele era doente mental. Em 1988, no entanto, fez concurso para sargento e passou. O coronel ficou com medo de que ele atirasse em alguém, disse que ele era louco e o tirou de lá. Por isso, o coronel foi enviado para a reserva, mas Jesus foi para a rua. Colocou o Exército na justiça, num processo que durou 12 anos, e perdeu por conta da perícia médica, que não reconheceu que sua condição se havia acentuado exponencialmente enquanto ele estava no Exército. Ele julga que houve uma questão de racismo por parte do perito alemão, e decreta um anseio de falar sobre o tema em um livro. Sobre escravidão e sobre injustiça. Sobre estar, há 57 anos, pagando pelo pecado capital de ter nascido negro. Sobre sua família ter vivido na miséria por consequência do racismo. Eu fui saber o que é pão com margarina depois de grande. Antes era pão seco. Eu enlouqueci por causa do racismo. O meu problema é que eu sou preto e pobre.
Trecho 6: As conversas
Há um mês e meio estou conversando com Jesus, ao menos três vezes por semana. A seguir, alguns dos apontamentos registrados no meu diário de campo.
04 de julho, quinta-feira
— Jesus, tu gostaria de conversar?
— Pode ser.
— Quer conversar agora ou pode ser depois da atividade? (Estava acontecendo uma interação grupal na ambiência).
— Pode ser agora.
Naquela tarde meio morna de quinta-feira, um único questionamento despretensioso motivado pela sensação de ter alguma responsabilidade, talvez equivocada, sobre a figura de um sujeito cabisbaixo e quase imperceptível, quase fundido, quase liquefeito, quase tornado a qualquer outro estado que não o de solidez não fosse a sua estatura imponente, foi competente o suficiente a ponto de fazer acontecer algo.
O pontapé inicial. Aquilo que começou ali, estava para começar. E repetir.
Era a estreia da repetição completa na minha escuta. Não imaginava, naquele ponto, por quantas repetidas e incontáveis vezes ela se faria escutar. Mas soube, desde já, que a história de Jesus era um terreno fértil. E, mesmo agora, nem a gagueira seria capaz de condená-lo. Ao final de duas horas, uma recompensa: Gostei de conversar contigo. Conversei com outras pessoas, muito bom, mas tu me entende melhor, parece. Acho que é porque tu não é branca.
Nessa ocasião, ele lamenta, pela primeira vez, a sua inabilidade para as tarefas domésticas cotidianas e o sentimento de impotência e indignidade a que essa categoria lhe submete, tanto porque nunca fora instruído para este fim, produto de uma gênese patriarcal, quanto porque o estado depressivo latente embarga-lhe o movimento o que, em consonância com sua indisposição financeira, faz com que se sinta envergonhado ao compartilhar das refeições com a família.
Peço, portanto, que ele liste as tarefas que gostaria de aprender a fazer e aquelas que lhe pareciam mais urgentes. Queria saber lavar louça, fazer um feijão, uma carne. Secar a louça, eu seco, e arroz, aprendi a fazer aqui no CAPS. Naquele instante, cogitei a possibilidade de realizarmos juntos algumas daquelas atividades, as que fossem de seu maior interesse, ali no CAPS, a fim de que ele lograsse algum traquejo no exercício dessas práticas e de que construíssemos memórias contentes às quais ele pudesse, talvez, associar esses afazeres caso conseguisse reproduzi-los em casa. No entanto, como que em presságio ao meu convite, de antemão, ele responde. Alguém já teria pensado nisso, em conversa com ele, na mesma semana: Ella, minha amiga e estagiária de psicologia de outra universidade.
Trecho 6.1: Ella
Mais tarde, na mesma quinta-feira, informo a Ella meu interesse em participar da atividade, o que ela acolhe mais-que-satisfeita. A ideia inicial era a de varrer o chão da ambiência e lavar alguma louça. Uma ideia ainda prematura. Ainda meio tosca. Meio ingênua. Ella propõe que, nesse caso, era preciso ter o que sujar.
E consideramos um bolo.
Antes de embarcarmos na travessura do Bolo de Milho Mimoso de Jesus, me toca necessário percorrer minha colega estagiária. O farei depressa, prometo.
Eu e ela entramos juntas no CAPS. Bebemos da mesma fonte; a das angústias mais dementes e dos afetos mais potentes. Ela é cômica, esperta e estupidamente sensível e, com ela, neste semestre, conheci uma ordem diferente de articulação.
Com meus antigos colegas de estágio vivemos um outro momento, havia muito contra o que estar. Havia muito para se desgostar. E direcionávamos o desgosto muito bem! Trabalhávamos, sobretudo, em aposta na eficiência da angústia. Um acordo sintônico. Insuspeição sobre a principal engrenagem da nossa máquina: gente demais estava sofrendo naquele outro momento. Gente demais estava sendo duramente agredida. Gente demais estava adoecendo. E, portanto, algo precisava ser feito.
Com minha nova colega, no entanto, foi diferente. Nada de muito significativo ou de muito escancarado acontecendo. Tudo igual a qualquer coisa. Tudo meio apático, meio bege, meio sopa-de-hospital. Nenhuma reivindicação. Nada faltava e, nesse caso, empenhamo-nos, nós mesmas, a provocar a nossa própria úlcera. Não que estivéssemos inventando qualquer demanda; ela sempre esteve lá, à espera da escuta. O que estou dizendo é que foi um trabalho consciente o de correr atrás dela. O de desentocá-la. O de explodi-la de seu gueto (GUATTARI, 1981). O que estou dizendo é que, com Ella não operei pela falta, mas pelo desejo. Pelo ímpeto esquizo de construir algo de construtivo. Outra espécie de sintonia.
05 de julho, sexta-feira
Seguimos para a feitura do bolo.
Antes de sujarmos as mãos, fomos até o supermercado, compramos uma cartela de trinta ovos, leite condensado para a cobertura e farinha de milho do tipo ‘mimoso’. Daí o batismo: Bolo de Milho Mimoso de Jesus. ‘De Jesus’ para que ele se apossasse de algo que fosse, finalmente, ‘dele’.
Na companhia de Jesus, estávamos entre quatro. Uma enfermeira residente, Ella e eu. Desajeitadas e equivocadas. Jesus gargalhava diante dos nossos desajustes e destemperos. Uma farra. Durante a receita, sambávamos e cantávamos, embalados por sambas de enredo uruguaianenses e cariocas. Soávamos como três patetas; inapropriadas e frenéticas. E Jesus, como que em contágio, desejava participar daquilo. Compor aquele carnaval de vibrações. O convocávamos sem nem a necessidade da menção do seu nome. Ele listava, numa folha de papel, os ingredientes e o passo a passo do preparo. Com nosso auxílio, media o tanto de cada coisa e as empurrava, tigela adentro, todas as coisas. Batia as claras em neve, misturava os secos e depois os líquidos junto aos secos. Entra-e-sai de funcionários na cozinha – ‘mais entra do que sai’, pensei. Interagiam com Jesus e questionavam-nos, interessados, sobre a procedência daquilo que irrompia da cozinha e que invadia os demais ambientes do serviço, e que era, como diziam, tão cheiroso. Jesus respondia, tornado convicto no papel de capitão do time, que se tratava do Bolo de Milho Mimoso do Jesus!, terceira pessoa, todo pomposo.
Sucesso. Depois de pronto, o bolo foi aprovado por todos que se aventuraram nele. Que se dispuseram a um voto de confiança no nosso projeto. Em seguida, com alguma ajuda, Jesus esfrega as louças e, doutro lugar, o coordenador do CAPS permite que lhe grite da boca um registro privado: como eu amo os estagiários!.
CAPS fechando. Ella se oferece para me levar até em casa. Silêncio absoluto por metade de um instante que quase nunca aconteceu de tão depressa que se foi, amputado pelo encontro dos nossos olhos e pela consequente gritaria simultânea e não-verbal em que nos envolveríamos após. Relembrávamos os mais significativos entre aqueles tantos bons momentos compartilhados. Escancarados. Obstáculo algum na atitude de rastreá-los. No trajeto, desabafos emocionados e a constatação de um estado comum que nos teria invadido durante o preparo do bolo: ainda que estivéssemos pouco mais que rindo, brincando e nos divertindo, saltavam-nos os inúmeros analisadores que instituíam a cotação do nosso trabalho. O seu valor. No resgate de qualquer pedaço de instante em que julgasse ter acontecido qualquer coisa, Ella soube a que exato instante eu me referia. Apreensão em tempo real e correspondida. De pés na terra. Estávamos máquinas de verificação instantânea do sentido da nossa tarefa. Repetimos por três, quatro, cinco vezes o quanto nos amávamos. O quanto nos respeitávamos. Respeito mútuo a nossa intenção e a nossa implicação. Até que ela deixou escapar alguma coisa. Algo sobre o gosto do bolo. O gosto da comida. Disse que a comida tinha de ser boa. Que o seu processo deveria dizer de algo de bom e que, nesse caso, talvez, poderiam adquirir um sabor outro, o bolo e a vida.
08 de julho, segunda-feira
Jesus chega ao CAPS com um sorriso enérgico, na ânsia de encontrar conosco. Não parou de sorrir por tempo indeterminado e alguém disse que não se lembrava de tê-lo visto tão feliz antes disso. Escrevi no diário: ele tá me olhando com um sorriso cúmplice. De quem sabe que é visto, que é testemunhado, amparado.
Ella inicia o seu ritual de despedida de encerramento de seu período de estágio. Jesus lhe parabeniza e agradece pelos bons momentos e, especialmente, pelo bolo. Pergunta para a gente quando faríamos o próximo. Sugerimos que fizéssemos na sexta-feira e o indago sobre qual sabor de bolo ele escolheria dessa vez. Ele responde que poderia ser de milho, de novo, para que pudesse aprender direitinho. Ao fim do dia, disse que me amava e foi embora. Ainda hoje ele diz que me ama.
09 de julho, terça-feira
Nos trombamos num corredor do CAPS e pontuei, no diário, que Jesus parecia satisfeito e animado.
12 de julho, sexta-feira
Não pudemos fazer o segundo bolo naquela sexta-feira, dia 12. Pela manhã, reunião de equipe. Uma profissional se empenha num alerta coletivo:
— Jesus tá entrando em mania. Tá sorrindo demais. Mostrando demais os dentes. Tem que ficar de olho!.
— Acho que ele tá feliz por causa do bolo que fizemos. Retorqui, afetada.
— Ele te disse isso?, questionou o supervisor local do estágio, direcionado a mim.
— Sim, respondi.
19 de julho, sexta-feira
Outra sexta-feira. Fizemos um segundo bolo, só nós dois. ‘Bolo de bolo’ dessa vez, com cobertura de chocolate branco. Uma delícia. Durante a composição do bolo, puxei um papel e uma caneta e, à luz de nossa primeira experiência, listamos, novamente, os ingredientes e o modo de preparo. Noutra folha, desenhei cada um deles, assim como os utensílios de cozinha utilizados e, acima deles, o título: Bolo de bolo de Jesus. ‘De Jesus’, na intenção, novamente, de que ele pudesse se apropriar do que estava fazendo.
O bolo crescia no forno da ambiência e, aparentemente, causamos certo inconveniente a alguns membros da equipe. Ainda que estivéssemos perguntando o tempo inteiro se estávamos atrapalhando o fechamento da casa e que operássemos dentro do horário de funcionamento do serviço, soube, mais tarde e indiretamente, que uma atmosfera de descontentamento fora instaurada, ainda que pontualmente, diante do nosso exercício. Mais um analisador.
24 de julho, quarta-feira
Jesus gosta que eu transcreva as nossas conversas. Frequentemente, me pede até para começar a anotar o que ele está prestes a falar: Quando Lu morreu, eu estabeleci o princípio da continuidade e não vou parar. Eu tenho um sonho de levar o Brasil pro primeiro mundo e a psicologia é que vai me ajudar, porque ela recupera as pessoas e comunica, mais uma vez, sempre nas mesmas palavras:
Minha tia desenvolveu meus sentimentos. Eu fiquei diferente dos meus irmãos. Pra mim, loucura é isso; é diferença. Eles saíram pelo dinheiro e eu saí pela vida. De repente, nasci pra um propósito de Deus. Na internação, de braços abertos, atado, como quem é crucificado. E passo a vida carregando a minha própria cruz.
Encruzilhado pela repetição, pensei. Noutro momento da mesma conversa ele se questiona se foi certo o que ele fez, de ter escolhido o sentimento ao invés do dinheiro. Certo pra quem?, questiono e seguimos pensando.
25 de julho, quinta-feira
Jesus teria atividade naquela tarde no CAPS e havia me pedido para colocar o nome dele na lista do almoço do dia, o que eu esqueci de fazer. Entrei em contato com o CAPS perguntando se eu poderia cozinhar alguma coisa para que ele pudesse almoçar. O coordenador do serviço me autoriza a usar a cozinha da equipe. Antes, fui até um mercado, comprei alho, cebola e molho de tomate e levei de casa alguns temperos. Cheguei ao CAPS, onde Jesus me aguardava, e encontramos um amigo, outro usuário do serviço. Fiz o convite para que ele se juntasse a nós, uma vez que também estava sem almoço. O amigo, que trabalhou por anos como cozinheiro, pediu para tomar as rédeas do preparo. Estava com saudade de cozinhar para outras pessoas e desanuviou-se durante o processo.
Jesus também estava muito feliz. A ele, entreguei um papel, uma caneta e a responsabilidade de, mais uma vez, elencar os ingredientes que usaríamos para fazer o almoço e descrever o seu modo de preparo. Colocou seus óculos de grau, com aquela cordinha de pendurá-los no pescoço, e se engajou no serviço, enquanto eu preparava um suco de uva.
Todos aprovamos a refeição. O tempero estava excelente. Coisa de quem sabia o que estava fazendo. Macarrão com molho de cebola, tomate, alho, tomilho e sardinha. Jesus repetiu três vezes. Impediu-se de repetir uma quarta, na intenção de que não sentisse mal o estômago depois. A comida estava tão gostosa que Jesus, ao fim, recolheu panelas, nossos pratos e talheres e, sem qualquer tipo de recomendação, sem qualquer tipo de acordo preestabelecido, encaminhou-se para a pia para lavá-los. Jesus estava lavando! La-van-do! E feliz da vida. Sorria e elogiava o amigo, que comentava sobre sua ideia de formar uma banda, a Banda Escória.
Novamente, em momento posterior, estive ciente de que havíamos atrapalhado o horário de almoço de alguns membros da equipe.
31 de julho, quarta-feira
Jesus relembra os seus anos nos serviços de Saúde Mental: Quando eu avançava no tratamento, me chocava com os brancos. Principalmente com um que me dava choque na internação. Noutro momento da conversa, pergunto a ele qual era o seu ideal. Meu ideal é o meu querer.
Trecho 7: Os crônicos
Há uma cultura, dentro da equipe, de definir aqueles usuários que frequentam mais cotidianamente o serviço e que não apresentam perspectiva de ‘cura’ enquanto ‘crônicos’. Nessa ótica, Jesus é referido como um dos mais crônicos. Quase que o representante deles. Essa atitude pressupõe um entendimento do sofrimento psíquico como uma doença e que exista uma cura, comum e ideal, independente de cada experiência do sofrer. Além disso, desresponsabiliza o trabalho da equipe em relação àqueles ‘crônicos’. Despreocupem-se! Sejam lavadas todas as mãos! O trabalho de escutá-los, de perceber suas nuances, de considerar suas demandas, de reconhecer as potencialidades e as possibilidades das quais eles dispõem já não mais cabe.
Jesus é um sintoma áspero e manifesto da inferência da atitude capitalista no mundo. É um bode expiatório. Depósito das maiores tensões e das maiores angústias derivadas da ansiedade mercadológica. Corpo que absorve e grita ante a obstrução forçada e violenta dos seus poros. Cito Guattari (1981, p. 13), quando diz que:
Desde sua mais tenra idade, e mesmo que seja apenas em função daquilo que elas aprendem a ler no rosto de seus pais, as vítimas do capitalismo e do “socialismo burocrático” são corroídas por uma angústia e uma culpabilidade inconscientes que constituem uma das engrenagens essenciais para o bom funcionamento do sistema de autossujeição dos indivíduos à produção. O tira e o juiz internos são, talvez, mais eficazes do que aqueles dos ministérios do Interior e da Justiça. [...] No final das contas, todo um sistema de demanda que perpetua a dependência inconsciente em relação ao sistema de produção. [...] O resultado deste trabalho é a produção em série de um indivíduo que será o mais despreparado possível para enfrentar as provas importantes de sua vida. É completamente desarmado que ele enfrentará a realidade, sozinho, sem recursos, emperrado por toda esta moral e este ideal babaca que lhe foi colado e do qual ele é incapaz de se desfazer. Ele foi, de certo modo, fragilizado, vulnerabilizado, ele está prontinho para se agarrar a todas as merdas institucionais organizadas para o acolher: a escola, a hierarquia, o Exército, o aprendizado da fidelidade, da submissão, da modéstia, o gosto pelo trabalho, pela família, pela pátria, pelo sindicato, sem falar no resto.
É possível que Jesus nem mesmo seja crônico. O que tendo a me certificar nesta experiência de estágio, entre atendimentos individuais e grupais, é de que pouquíssima demanda é estritamente psicológica e de que menos ainda é crônica. O capitalismo não é crônico e, ainda que o tenha renegado, fez, de Jesus, seu refém sublime e visceral. O que aconteceu foi que ele se trancafiou nessa loucura. É de muito tempo que o sol já não lhe toca. E apenas um fora sustentador poderia recuperá-lo de lá.
Trecho 8: Serginho Moah e Barack Obama
Ouvi que Jesus possuía certo delírio de grandeza.
Ao iniciarmos as nossas conversas, logo compreendi perfeitamente do que se tratava. Acontece que ele se diz responsável pelo sucesso do cantor Serginho Moah, da banda Papas da Língua, pela ascensão política de Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos e pela pretensão de levar, ele mesmo, o Brasil para o Primeiro Mundo, com a ajuda da psicologia. Esta última é o seu bordão oficial, motivo de riso para usuários e membros da equipe. Serginho Moah é mencionado porque Jesus o conheceu no tempo em que morava com os tios em Porto Alegre e, com ele, teria tangido longas conversas no que se referem à arte e à música, a sua paixão, numa época em que a notoriedade de Serginho ainda não havia estourado. Barack Obama, por sua vez, deve a Jesus o seu progresso porque este teria, antes mesmo do ex-presidente, pensado em se casar com uma mulher negra e, com ela, atingir picos cada vez mais altos dentro da organização social.
Apenas sou capaz de concluir que Jesus, de fato, fez e fará tudo aquilo que ele diz que fez ou que fará. Eu as ratifico e, nelas, acredito muitíssimo fortemente, as suas considerações ‘de grandeza’, a cada vez que elas lhe escapam da boca. Somente um único protocolo de descentramento é acatado por mim: o de dizer que, dificilmente, estaremos nos referindo a um Jesus. Mas a vários dele. Um Jesus para todo e qualquer micromovimento instituinte. E o faço por três razões.
Na lupa da primeira delas, para que ele esteja ciente da imprescindibilidade da iniciativa coletiva caso estejamos interessados numa revolução ávida e autêntica, considerando que o levo bastante a sério quando ele diz que está.
Conforme a segunda, para que, no despersonalizar da sua agência, também despersonalize os seus inimigos. Para que confira a eles a dimensão descomunal que eles carregam. Para que os agentes institucionais evidenciados por ele, o Coronel, o chefe do escritório e o perito, sejam postos nos seus lugares de serem, e não muito mais que isso, fios condutores operando quase-que-instintivamente na reprodução e no reforço de algo muito maior que três homens. Para que ele possa naturalizar que seus adversários não são alguém, mas algo. Nietzsche, em seu Ecce Homo (1995), nos traz algumas considerações valiosas:
A tarefa não consiste em subjugar quaisquer resistências, mas sim aquelas contra as quais há que investir toda a força, agilidade e mestria das armas – subjugar adversários iguais a nós... Igualdade frente ao inimigo – primeiro pressuposto de um duelo honesto. Quando se despreza, não se pode fazer a guerra; quando se comanda, quando se vê algo abaixo de si, não há que fazer a guerra (NIETZSCHE, 1995, p. 32).
Finalmente, sob uma razão terceira, eu o descentralizo para que, assim, perceba que o mérito de qualquer transformação sempre foi e sempre será coletivo, competência desapropriada da solitude de um único corpo. Que ele reconheça que também desse jeito se dão os grandes retrocessos. Que, ao passo em que ele compartilhe da responsabilidade e da autoria de suas grandes e inegáveis conquistas com outros dele, também consiga desresponsabilizar e desautorizar a si próprio dentro do regime autopunitivo a que foi condenado pela ordem vigente de formulação social.
É sim um delírio de grandeza. Mas porque o delírio é sempre coletivo. “Daí um segredo do delírio: ele habita certas regiões da história que não são arbitrariamente escolhidas, o delírio não é pessoal ou familiar, ele é histórico-mundial” (DELEUZE; PARNET, 1988, p. 130).
O rotulam como crônico, mas ele entendeu melhor que muitos. Melhor que a maioria, diria. Presentemente, quando retomado o assunto, a repetição termina de forma diferente. Ele mesmo se corrige: Eu acredito ter sido responsável pela ascensão do Barack Obama. Mas foi porque vários de mim fizeram o mesmo, né?
Trecho 9: Ismália
Este é um capítulo perigoso. Desconsiderei e reconsiderei, por várias vezes, a atitude de mantê-lo aqui, temendo armadilhas teóricas. Temendo qualquer possibilidade de interpretação intrusa ou qualquer meio de enclausuramento do inconsciente dentro de um espaço controlado, de um domínio especialista, de uma mania neurótica psicanalítica. Sejamos cautelosos.
É pouco provável, afirmo, que Jesus seja contemplado com uma resposta positiva no processo contra o Exército que corre, há mais de dez anos, na Justiça. O que se sabe é que em breve, receberá uma resposta do advogado e, segundo ele, um livro que narrasse a sua história seria a única alternativa capaz de mantê-lo vivo. Ele afirma que, caso a resposta seja negativa, como as anteriores, tirará a própria vida. A sentença é repetida em qualquer ocasião em que seja convidado a se manifestar, há tempo demais: por isso eu quero morrer, por isso eu quero me matar. Às vezes, acompanhada, inclusive, da mão ensaiando um revólver na cabeça e de alguma onomatopeia de disparo.
No último encontro que tivemos, ao questioná-lo sobre possíveis tentativas de suicídio no decorrer de todos os seus anos de aguardo por alguma perspectiva de ressarcimento do Exército e contrariando as minhas suposições, Jesus revelou-me jamais ter atentado contra a própria vida. De forma alguma. E posso tê-lo percebido, aliás, acerado na resposta. Fico pensando sobre o lugar que a busca por algum tipo de reparação ocupa nele. Parece que é algo que está no campo do ‘impossível de ser resolvido’, uma busca cuja função parece ser a de que ele se mantenha ‘buscante’.
O que Jesus parece estar procurando, para além do conforto financeiro é, de fato, uma reparação impraticável. Ele busca, e busca alguma coisa. O quanto estamos falando do ressarcimento monetário ou de certo ressarcimento moral, validação institucional, é uma incógnita; e ainda que estejamos, conforme a primeira opção, debruçados sobre uma intenção puramente financeira, na ausência de qualquer solução plausível, o que faremos? Operaremos no sentido da manutenção da busca, respaldando a expectativa de um desejo que possivelmente não se fará concretizar de forma ideal (ou de forma alguma), na retenção de um corpo numa estabilidade nossa – estabilidade que nós definimos para um corpo – ou, na companhia deste corpo e de todo seu percurso de subjetivação, exumar caminhos viáveis de redirecionamento para a energia que mobiliza o seu desejo? No momento, ela está estagnada. Brecada.
O que poderia significar a manutenção da busca? Quem ou o que é responsável por essa manutenção? Pela demarcação desse território? A que tipo de instância ela serve? A quem ou a que ela interessa? Num cenário de fracasso, existiria apenas uma conotação de morte? Que tipo de vida Jesus conhece? É possível que, há mais de uma década, esteja em conflito contra a sua falha dentro da estrutura dominante e não contra essa estrutura em si? Ele nunca tentou suicídio. Não literalmente. Nem perto disso. Pergunto-me se seria, de fato e exclusivamente, um suicida literal. Não se trata de subestimá-lo na sua máxima. Jesus não é ingênuo ou ignorante. Ele é legal. A tia o tornara legal. Mas suicídios imaginários não são menos letais que aqueles literais. A diferença é que eles possibilitam revitalização. Ressurreição em três dias ou pouco mais para os corpos crucificados e outros mais. Todos encruzilhados nas repetições.
Para Ismália, no poema de Alphonsus de Guimaraens, lançar-se ao mar estava distante de qualquer noção de finitude e é proveitoso que estejamos cientes sobre a categoria de suicídio com a qual estamos lidando. Não para negligenciá-la! Não para fingir que ela não está ali. Mas para conceder-lhe o lugar, a atenção, o cuidado e o sentido devido. Desterritorializar para territorializar de novo, em terreno outro. O que se está buscando? Quem está morrendo? O que está morrendo? É, de fato, uma morte a se evitar? Há a alternativa de que seja uma morte necessária? Para que, caso haja alguma potência desejante dentro dessa menção, possamos encontrá-la. Escutá-la. Conversar com ela. Apenas um palpite muito simples, muito turvo, muito íntimo e absolutamente arriscado.
Trecho 10: O carnaval fora de época de Uruguaiana
— Jesus, e como era no carnaval de Uruguaiana?
— Beleza! Eu gostava muito.
O carnaval fora de época de Uruguaiana, como é designado, é de um alvoroço enorme. Acontece em março, contrariando o período oficial da festividade em escala nacional. Torcer para uma escola de samba, em Uruguaiana, é como torcer para um time de futebol. A cidade inteira é envolta na fervura do evento. Jesus e os irmãos foram membros da bateria da Escola de Samba Deu Chucha na Zebra e, nas ocasiões em que cozinhamos juntos ele sempre pedia para escutar sambas de enredo.
Em percurso pela história do carnaval, Soihet (1998, p. 01) afirma que no carnaval “todos são iguais, penetrando temporariamente no utópico da universalidade, liberdade e abundância; ocorre o triunfo de uma liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente”. Para Silva Júnior (2021, p. 177) “o carnaval torna-se um respiro diante do acúmulo de preceitos e limitações da ordem social. A seriedade e a sisudez transformam-se em um jogo paródico da vida, onde a liberdade transpira dentro do que é possível”. Bakhtin (1987) ainda acrescenta que as formas e linguagens carnavalescas estão carregadas de
alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. [...] caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas ‘ao avesso’, ‘ao contrário’, das permutações constantes do alto e do baixo, da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões (BAKHTIN, 1987, p. 9).
‘Ao avesso’, a mesma expressão utilizada por Jesus para revelar-nos a sua concepção daquilo que o tornou diferente dos irmãos e dos demais.
Evoco, ainda, o texto de Guattari (1981), ‘Cheguei até a encontrar travestis felizes’. Nele, o autor nos apresenta as Mirabelles, grupo de teatro militante que se utiliza da arte para propor um espaço de diálogo aberto a todos aqueles grupos desajustados e desejantes, impedidos de encontrar qualquer tipo de conforto dentro da heteronorma social.
E, neste front, com muita modéstia e tenacidade é que trabalham as Mirabelles. Mas elas não querem, absolutamente, ser levadas a sério; elas lutam por algo mais importante do que a seriedade! O que lhes interessa é que espetáculos como o seu possam tocar [...] a massa de pessoas que estão em sofrimento por não assumirem seus desejos (GUATTARI, 1981, p. 44).
Também em contrapartida à seriedade, as festas de carnaval configuram-se como manifestações da felicidade e do riso, da decomposição da carcaça social e da recomposição de novas perspectivas para a experiência subjetiva. Silva Júnior (2021) propõe-nos que o carnaval seja compreendido enquanto uma festa capaz de converter “a seriedade em momento de júbilo, democratizando os sorrisos, os suores, as serpentinas... O carnaval é a própria máquina de guerra” (SILVA JÚNIOR, 2021, p. 178).
Não me parece surpreendente, portanto, que, numa Uruguaiana tachada a tantos tradicionalismos neuróticos, Jesus, tão alheio a sua época quanto o próprio evento, tenha se deleitado diante da plenitude psicótica do carnaval.
Trecho 11: Encerramento. A Banda Escória.
Naquela tarde em que preparava o nosso almoço, o amigo usuário do serviço nos contava sobre a sua ideia de compor uma banda, a Banda Escória. Quando questionado em relação ao nome da banda, elucidou-nos através de uma resposta que transcrevi palavra-a-palavra no diário: É isso que nós somos. Somos escória. Se tu soubesse, Jesus, do potencial que há em ser escória, viveria pela eternidade ao lado do Senhor. E prosseguiu o seu discurso com uma recomendação importantíssima a seus dois amigos: Nunca se prostrem por alguém maior que vocês. Sempre menor. E diz que vai bater nessa tecla até que saia um bom som.
Guattari (1981) defende que as marginalidades – e, nesta leitura, as escórias – sejam “os pontos de ruptura nas estruturas sociais e os esboços de problemática nova no campo da economia desejante coletiva”. Que elas não se definem enquanto manifestações psicopatológicas, mas como “a parte mais móvel e mais viva da coletividade humana em resposta às mudanças nas estruturas sociais e materiais” (GUATTARI, 1981, p. 46), que indica a direção de novas modalidades de organização subjetiva e que pode trazer à tona soluções para problemas que nenhum tipo de movimentação do Estado foi capaz de abordar.
Desde o princípio do meu estágio escuto, da psiquiatra, que é fácil identificar esquizofrênicos: se os olhos brilham demais, vocês já vão saber. Por algum tempo, esse parâmetro me foi desconhecido. Em dado momento, no entanto, julgo ter aprendido a identificá-lo. Trata-se de um brilho literal, apesar de estar disponível ao emprego terceirizado de conotações e possibilidades distintas entre si. Quando comuniquei a minha revelação recente à doutora, ela respondeu que, às vezes, é por conta do remédio. Que, em outras, no entanto, existe mais alguma coisa por trás. Algo de sofrido. Prontificou-se, rapidamente, a concluir que não há nada de bonito na doença mental. Que o adoecimento é custoso demais. Imagino que ela o tenha feito por considerar que eu sou do tipo de pessoa que opera a favor da romantização do sofrimento, dado o meu histórico de entrar em conflitos pela ressignificação da forma com que apreendemos as múltiplas experiências vivenciadas pelos usuários. Aquela frase me atravessou. É, de fato, um perigo que corremos. Do meu lugar de estagiária, quase fui convencida da sentença, posta toda uma vida de serviço que a psiquiatra vem prestando às políticas de Saúde Mental da cidade. Nutro, pela psiquiatra, por sua sensibilidade e pela qualidade e solidez de seu vínculo com os usuários, um grande respeito. Percebo, inclusive, que, apesar de ter desenvolvido uma postura ainda mais crítica no estágio direcionada à atuação da equipe sustento um carinho ainda maior por cada um de seus contingentes. Eu gosto da equipe do CAPS e, pessoalmente, de cada membro que a compõe.
No entanto, me vejo obrigada a, respeitosamente, discordar da minha colega, uma vez que nada é muito isso e nem muito aquilo. Guattari (1981) nos resgata a pensar que o campo social não é constituído por objetos que lhe preexistem. Que o indivíduo tomado em sistemas bipolares de ser ou não ser já é o resultado de uma redução do desejo sobre a representação.
Parece-me importante explodir noções generalizantes e grosseiras. [...] As coisas não são tão simples assim. Quando as reduzimos a categorias branco/preto, ou macho/fêmea, é porque estamos com uma ideia de antemão, é porque estamos realizando uma operação redutora-binarizante, para assegurarmo-nos de um poder sobre elas (GUATTARI, 1981, p. 34).
Jesus tem repetido suas mesmas histórias, ultimamente com um diferencial: acrescenta que está pensando na construção de seu livro. Dia desses, após repetir suas moções para outras pessoas, apontou para mim e disse: agora, eu e ela estamos pensando no meu livro. Ela tá me ajudando. Ninguém é alheio à complexidade do seu processo de subjetivação. Há potência demais na heterogeneidade. Em algum momento, será, mesmo, feio. Noutro, estaremos assando um bolo.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rebelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1987.
DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa A. Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
GUATTARI, Felix. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. Trad. Suely Rolnik. São Paulo: Brasiliense, 1981.
GUIMARÃES, Alphonsus. Obra Completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. Como alguém se torna o que se é. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SILVA JUNIOR, Alcidesio. “Eu gosto mais das coisas que brilham!”: E se gênero fosse um carnaval?. Diversidade e Educação, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 169–196, 2021. DOI: 10.14295/de.v9i1.12958. Disponível em: https://periodicos.furg.br/divedu/article/view/12958 . Acesso em: 1 out. 2024.
SOIHET, Raquel. A subversão pelo riso. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998.
[1] Psicóloga pela Universidade Federal de Santa Maria. E-mail: nathalysantleg2000@hotmail.com
[2] Doutora em Psicologia Social e Institucional. Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6856-8626. E-mail: marcele.zucolotto@ufsm.br
[3] Este texto surge a partir da experiência de Estágio Específico do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria da primeira autora no primeiro semestre de 2024. A supervisão da prática de estágio, a orientação do trabalho final e o suporte na reelaboração deste material para publicação foram realizadas pela segunda autora. Embora a escrita tenha sido realizada a quatro mãos, optou-se por mantê-la em primeira pessoa, uma vez que a experiência de fato foi vivida por apenas uma das autoras.
[4] Jesus é o nome fictício escolhido pelo próprio usuário do serviço, após ser consultado sobre a possibilidade de escrever sobre as questões que envolviam a vivência com ele.
[5] Para melhor compreensão, as anotações do Diário de Campo aqui reproduzidas, bem como trechos que remetem às falas de Jesus serão registradas em itálico.
[6] Os nomes envolvidos nas narrativas de vida de Jesus também são, evidentemente, fictícios.
[7] As Oficinas da Rádio do CAPS são acompanhadas por profissionais da equipe técnica em saúde mental e ocorrem quinzenalmente com o objetivo de elaboração do programa “De Perto ninguém é normal”, veiculado semanalmente pela Rádio da Universidade Federal de Santa Maria. O programa vai ao ar há mais de 20 anos e é totalmente elaborado e gravado pelos usuários do CAPS na cidade.