Derivas entre a ci�ncia, a vida e a educa��o: modos de aprender em movimento
Drifts between science, life and education: ways of learning in motion
Tiago Amaral Sales [1]
Universidade Federal de Uberl�ndia
Fernanda Monteiro Rigue [2]
Universidade Federal de Uberl�ndia
Resumo
O presente ensaio visa evidenciar como a educa��o pode acontecer entre as ci�ncias e a vida, em movimentos do corpo e do pensamento. Para tanto, por meio de t�mo-vac�olos, emergem escritas fabulativas que se enredam entre as ci�ncias da natureza, a vida e a educa��o. S�o tangenciadas sete escritas que se fizeram a partir de experi�ncias ficcionadas, as quais maquinam o individual e o coletivo, o singular e o m�ltiplo. Emerge desse movimento a pot�ncia do exerc�cio da escrita fabulativa na doc�ncia, assim como a urg�ncia de inaugurarmos espa�os de vida nas pr�ticas formativas em educa��o em ci�ncias da natureza.
Palavras-chave: Educa��o em movimento; Escritas fabulativas; Educa��o em Ci�ncias; Escola; Universidade.
Abstract
This essay aims to show how education can happen between the sciences and life, in body and thought movements. To this, through tomo-vacuoles, fabled writings emerge that are entangled between the sciences of nature, life and education. Seven writings that were made from fictional experiences are touched on, which machine the individual and the collective, the singular and the multiple. From this movement emerges the power of the exercise of fabulative writing in teaching, as well as the urgency to inaugurate spaces of life in formative practices in education in natural sciences.
Keywords: Education in motion; Fabulous writings; Science Education; School; University.
Lampejos iniciais
O presente ensaio intenta dar vaz�o a tomos-vac�olos[3] de experi�ncias-fabula��es que engendram ci�ncias da natureza, vida e educa��o enquanto palavras-m�quina, mobilizando aprendizagens[4] poss�veis a partir do deslocamento do corpo e do pensamento, em derivas intensivas. Por interm�dio das afec��es[5] que emergem da rela��o que estabelecemos com elas nas experi�ncias mundanas, engendramos narrativas-alian�as e, quem sabe, convites capazes de dizer, pensar e cocriar ci�ncias, vida e educa��o pelas derivas por n�s � educadores/educadoras e eternos aprendizes � tra�adas.
Nesta aposta de pensar em aprendizagens afectivas que aconte�am em derivas, as misturas e metamorfoses (COCCIA, 2020) s�o propulsoras que congregam os nossos corpos. Como afirma Adriana Azevedo (2020), �Quando nos ocupamos do modo como um corpo se apresenta em sua capacidade singular de afetar e ser afetado, nos aproximamos desta multiplicidade de modos de existir que precisam ter suas hist�rias ouvidas e narradas� (p. 153). Em decorr�ncia disso, percebemos que ci�ncias da natureza, vida e educa��o s�o heterogeneidades que nos constituem, pelas m�ltiplas formas de habita��o que elas nos permitem viver no/com/pelo mundo.
Por interm�dio de cont�gios (DIAZ, 2020) incessantes, as ci�ncias da natureza, a vida e a educa��o se entrela�am em nossas pr�ticas cotidianas � tanto por nossas forma��es acad�micas, interesses de aprendizados e engajamentos de vida �, demandando de n�s � educadores/as � composi��o, experimenta��o, estranhamento, rela��o, comunicabilidade e tensionamento. Seres-e-coisas-do-mundo pedem passagem e envolvem os nossos corpos multifacetados em todos os terrenos que perambulamos. Dentro e fora se misturam e emergem como possibilidades outras de viver, de caminhar, de sentir o mundo e de se constituir, como na produ��o art�stica caminhando, de Lygia Clark, narrada por Suely Rolnik (2018) em suas notas para uma vida n�o cafetinada. Somos arrebatados pelas revela��es de aprendizados inesgot�veis, inescap�veis e imponder�veis da/com/em meio � vida.
Caminhar pelos diferentes espa�os, sentindo as suas modula��es. Perceber que eles n�o s�o todos iguais: variam em intensidades e composi��es. Ora lisos, ora estriados. Para Gilles Deleuze e F�lix Guattari (2008) espa�o liso e espa�o estriado n�o prov�m de uma mesma natureza. Ambos s�o marcados por oposi��es e diferencia��es, contudo, n�o se pode deixar de mencionar que ambos os espa�os existem gra�as �s misturas que engendram. Em educa��o, por exemplo, � recorrente a frui��o de din�micas lisas e estriadas, tanto no que tange estrat�gias educacionais, quanto aprendizagens. Logo, espa�os lisos e estriados s�o rachados por brechas, poss�veis devaneios na cria��o de possibilidades.
Nos colocamos nesse fluido movimento pois confiamos nos processos que dispomos a tecer no mundo. Como escreve Lapoujade (2017), a confian�a � vital, seu sentimento �[...] faz da experi�ncia um campo de experimenta��o� (p. 87). Logo, �Confiar � antecipar e ter esperan�a� (LAPOUJADE, 2017, p. 86), o que permite com que arrisquemos � indetermina��o.
Na condi��o de atentos[6], cuidadosos e l�cidos �s surpresas que possam emergir ao habitar um mundo em ru�nas (TSING, 2019), juntamente dos tomos-vac�olos aqui mobilizados, � que propomos entrela�ar narrativas que, como escreve Isabelle Stengers (2015), est�o inspiradas no gosto pelo pensamento e pela experimenta��o. Pensar que:
Da perspectiva �tica do exerc�cio do pensamento a qual rege as a��es do desejo no polo ativo, pensar consiste em �escutar� os afetos, efeitos que as for�as da atmosfera ambiente produzem no corpo, as turbul�ncias que nele provocam e a pulsa��o de mundos larvares que, gerados nessa fecunda��o, anunciam-se ao saber-do-vivo; �implicar-se� no movimento de desterritorializa��o que tais g�rmens de mundo disparam; e, guiados por essa escuta e implica��o, �criar� uma express�o para aquilo que pede passagem, de modo que ganhe um corpo concreto (ROLNIK, 2018, p. 91).
Com escritas fabulativas � que ganham um corpo concreto, misturamos o viv�vel com o ficcional, desejos com sonhos, vontades com medos, experi�ncias do passado com perspectivas de futuros, habitando, assim, espa�os do entre: colocamo-nos em movimentos de criar narra��es singulares que arregimentam distintos corpos e exist�ncias, estando estas a servi�o da afirma��o da vida e ativa��o do viver. Envolver-se com o mundo, como afirma Ailton Krenak (2020), ao inv�s de desenvolver-se.
Ao percebermos que escrever � insepar�vel da cria��o, estabelecemos, portanto, uma �tica do encontro (CORR�A, 2014) pela singularidade e envolvimento das nossas experi�ncias, por aquilo que nos passa (LARROSA, 2011). Cocriamos linhas que fabulam como elementos que unem arte e educa��o, viv�ncia e fic��o, materialidades, sonhos, desejos, em caminhos e deslocamentos do corpo e do pensamento.
Assim, comecemos com as paisagens poss�veis de serem acessadas por interm�dio dos tomo-vac�olos, escritos no singular-plural. Distribu�dos na se��o que segue, est�o sete escritas fabulativas que emergiram de nossas viv�ncias que, do singular e pessoal, extrapolam para o plural e coletivo, percebendo que, como defende Audre Lorde (2020), o pessoal � pol�tico. S�o narrativas que, em suas sutilezas, buscam evidenciar a dimens�o do viv�vel na educa��o junto das ci�ncias.
Narrativas em movimento
����������� Escrever para movimentarmo-nos. Agenciar linhas para, com elas, devir. Criar narrativas a partir das nossas experi�ncias. Devir-com (HARAWAY, 2022) os tantos seres, tempos e espa�os que percorremos e que se fazem junto de nossas presen�as. Mapear os nossos territ�rios de vida, as nossas linhas tra�adas no trabalho cotidiano de educar e, tamb�m, de aprender. Eis o ensejo deste texto que, sobretudo, materializa-se nos tomos-vac�olos que se seguem: criar escritas que incorporem fragmentos da vida na doc�ncia em ci�ncias, da forma��o, da escola, da universidade, das telas, das lutas di�rias, das burocracias sufocantes, e� e� e�
����������� Esperamos que tais narrativas fabulativas � portanto, ficcionadas � sejam mais do que a materializa��o de viv�ncias transcriadas, mas tamb�m convites � deriva, agenciando movimentos e permitindo, qui��, deslocamentos com o pensamento e a imagina��o nas ci�ncias da natureza.
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O que pode a escola?
Ap�s madrugar e atravessar a cidade, chego �s 6:45 horas da manh� na escola e, entre incont�veis burocracias e cansativas jornadas de trabalho, sou devorado por uma multid�o de pequenos humanos que me abra�am e englobam com os seus desejos de comunicar entre si. Sabem eles/as, estudantes, que, naquele dia, ter�o aula de ci�ncias da natureza � e, mesmo assim, fazem quest�o de perguntar que horas acontecer� o nosso encontro de classe. Apesar do clima estar ainda fresco e do sol se apresentar calmamente pelo c�u, n�o ser� t�o cedo para desembarcamos em um territ�rio de aula na educa��o b�sica?
Quem sabe, as minhas aulas poderiam come�ar �s 13 horas com uma turma de ensino m�dio de f�sica, qu�mica ou biologia, enquanto os/as adolescentes com os horm�nios � flor da pele me interpelam com as suas quest�es que envolvem a vida, os desejos, as �nsias e as ang�stias dentro e fora da escola. Eles e elas muito esperam de mim e de n�s, professores/as de ci�ncias da natureza. Em diversos momentos percebo-me ignorado por aqueles/as estudantes em decorr�ncia das avalanches de emo��es e atravessamentos que comp�em as suas exist�ncias. N�s, no �pice de nossos egocentrismos professorais, demandamos o m�ximo de aten��o focalizada poss�vel, at� compreender que a escola �, apenas, parte da vida daqueles seres que a compartilham conosco.
Se chego �s 19 horas naquele mesmo espa�o escolar, os jovens e adultos (e idosos e�?) que me recebem querem tirar as suas d�vidas transgeracionais acerca da vida, do saber, do mundo, na vontade de tapar os � para eles � buracos do tempo advindos da aus�ncia de oportunidades de habitar tal lugar quando eram mais novos. �s vezes, sinto-me respons�vel (at� demais) por suas vidas. Em outros momentos, percebo que o que est� ao meu � e nosso � alcance com a doc�ncia � possibilitar caminhos, estimular pensamentos, articular encontros � a��es sutis, singulares, micropol�ticas, mas que carregam pot�ncias de abrir caminhos, de criar vidas, de forjar novos mundos.
����������� S�o muitos os trajetos poss�veis de serem forjados e fechados pela educa��o escolar. Ao sair da escola � seja dia ou seja noite �, me deparo com um mundo l� fora. Ele � ca�tico, complexo, desigual � assim como o l� dentro (Da escola? De n�s?). Dentro e fora se borram, e os ch�os educacionais mostram-se, paradoxalmente, como espa�os de poss�veis reflex�es (acerca) da sociedade, de conex�o e de sonho de cria��o de outros mundos poss�veis.
Eu, como professor/a, me percebo l� inserido/a, sentindo a amplitude do que se espera de mim. Sei que isto se reverbera em todos/as n�s que imergimos na profiss�o magistral. Sabemos que o nosso trabalho, al�m de planejar aulas por meio de um arcabou�o epistemol�gico-pedag�gico-cient�fico e da materialidade de nossas experi�ncias, envolve pensar, divulgar, comunicar, transpor e mobilizar as ci�ncias da natureza. E isto n�o � nada f�cil, j� constatamos.
Educar em ci�ncias demanda dispor de um corpo fortemente desejante pela aten��o ao/com o mundo que o circunda, �s diferentes possibilidades de escrutin�-lo e de cri�-lo, aos meios que imbricam-se na aventura de pesquisar e de produzir conhecimentos. Para tal prop�sito, � necess�rio habitar certa porosidade ao novo e forragear incessantemente o territ�rio que, apesar de tanta disputa, insiste em ser abrigo: a escola.
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Encontros na universidade
Da escola, migramos � ou ca�mos? �, com sorte � e certos privil�gios �, nas universidades, em outras salas de aula. Depois de sobreviver a processos seletivos � e a toda a carga hist�rico-social-emotiva a eles envolvida � que tentam guiar toda uma longa escolariza��o b�sica, chegamos l�, nessas salas com professores e professoras teoricamente j� iniciados/as em aprofundamentos conceituais dos campos que estudaremos em nossa forma��o profissional.
Come�amos, assim, a forjar um territ�rio com as salas de aula acad�micas. Elas tamb�m s�o nossas: espa�os em que ensinamos e tamb�m aprendemos. Formamos e somos formados a partir do entrela�ar de pr�ticas pedag�gicas, teorias educacionais e saberes espec�ficos das ci�ncias da natureza que residem nos cursos de licenciatura, territ�rios intitulados como de constru��o da trajet�ria formativa de professores e professoras. Laborat�rios de ensino e de pesquisa compartilham espa�o com telas sem fim, provas, semin�rios, eventos, entre outros. �, enfim, um universo de possibilidades. E nos resta desbrav�-lo.
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Professor/a (quase) em fuga
����������� Acordar, preparar um caf�, sair para realizar exerc�cios f�sicos e, ao chegar em casa, iniciar a longa jornada de trabalho. Mais um dia, sim� sempre mais um dia�� Com a mesa de trabalho posta, a checagem de e-mails inicia, seguida pela an�lise dos afazeres di�rios e demandas. Essa � a rotina matinal de muitos/as trabalhadores/as, inclusive de boa parte dos/as professores/as que atuam no Ensino Superior em Institui��es P�blicas. N�o seria diferente com o ser humano que aqui escreve.
����������� Reuni�es, planejamentos semanais, pareceres, artigos, cap�tulos, planos de aula, lan�amentos de notas, resolu��es, decretos, of�cios, agendamentos, aulas, slides, livros, quadros, pinc�is, e� e� e� � um engendramento gigantesco de afazeres que rodeiam a simples estada do corpo em frente a um computador e/ou notebook, apenas no turno da manh�. Tratam-se de n�o-coisas (HAN, 2022), excesso de informa��es e dados que intoxicam nossas exist�ncias e pr�ticas profissionais que fragmentam a vida.
����������� � tarde, quando n�o existem atividades j� programadas (reuni�es, aulas, planejamentos, atendimentos, entre outras), l� vai o corpo professoral tentar produzir algo, afinal, ficar parado em um tempo de tantas demandas por produtividade � algo inadmiss�vel, principalmente em uma era em que tudo � digitaliza��o, algoritmos e informa��es (HAN, 2022). Embora o turno da noite seja preenchido pelas aulas lecionadas at� as 22:30 horas, o corpo n�o se permite silenciar e repousar. � tempo de fazer algo, de se movimentar. Boa parte dos/as profissionais tamb�m est�o a postos na parte da tarde e da manh�. Como � poss�vel ousar experimentar a pausa?
����������� Agenciar todos esses pensamentos-sensa��es � deveras complexo e desafiador. O corpo pede paragem, mas as mensagens, tarefas e cobran�as que chegam pelo smartphone n�o cessam nunca de chegar. O corpo est� exausto, mas os pareceres a serem emitidos batem � porta. Uma infinidade de demandas burocr�ticas quase n�o permitem que me dedique a ler, estudar, planejar aulas mais interessantes, instigantes, aprofundadas, deglut�veis. Descansar, caminhar pela rua, organizar as roupas, cuidar do corpo, da casa, da vida? S� quando resta tempo. S� nos restos, nas brechas de uma vida. Tarefas e mais tarefas que articulam �[...] um tipo de sofrimento ps�quico que tem sido muitas vezes nomeado a partir dos seus intensos efeitos de priva��o, isolamento, medo, desamparo, riscos, dor, perdas� (AZEVEDO, 2020, p. 150).
����������� Professor/a-m�quina! � como se nunca pud�ssemos nos dar a chance de parar, sossegar. Essa situa��o � ainda mais agravada quando pensamos na nossa caminhada na/com/pela pesquisa. Enquanto paramos, n�o estamos alimentando os nossos curr�culos, n�o estamos movimentando nossas progress�es de carreira, estamos ficando para tr�s. Estaria, assim, a vida tamb�m estagnando ou seria um tempo sagrado de descanso?
Estamos � merc� de tantos olhares que nos atravessam, permeiam, rotulam, menosprezam � seria este o �nico caminho para formar professores/as e fazer (pesquisa na educa��o em) ci�ncia? � isso que os rankings de produ��o e produtividade nos dizem, � isso que percebemos/sentimos quando participamos de algumas reuni�es e eventos de associa��es e/ou sociedades cient�ficas. Assim como o excesso de digitaliza��o e informa��o causa em nossos corpos, em nossas sensa��es e viv�ncias individuais, � poss�vel visualizar o desaparecimento do outro, nosso semelhante como mirada (HAN, 2022). Os agencionamentos do contempor�neo nos distanciam do outro, de suas vozes. O outro desaparece como corpo � desercarna � e, �A falta do olhar leva a uma rela��o perturbada consigo mesmo e com os outros� (HAN, 2022, p. 45). Blindamos nossas vidas, j� que tudo � consum�vel e descoisific�vel.
����������� Entrar ou n�o no fluxo da maquinaria � uma op��o para quem habita a doc�ncia na educa��o superior, principalmente na esfera p�blica? �, de fato, escolha do/a professor/a embarcar ou n�o nesse movimento? O territ�rio est� cada vez mais minado� eis professores/as (quase) em fuga. Seres humanos (quase) em fuga. Ansiando, tentando, criando caminhos para fugir da burocratiza��o do viver[7], em prol de movimenta��es outras, menos cinzas, cansativas (HAN, 2017) e mais desejantes. Queremos ativar o divino da vida, distanciando-nos do excesso de fun��es e informa��es. Estamos vivos, e assim queremos nos sentir.
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O que � dist�ncia?
Com a pandemia de covid-19[8], emerg�ncia que nos atravessou nos anos 2020, fomos colocados for�osamente a habitar espa�os de educa��o escolar transpassados de forma remota. As escolas e universidades em seus andares concretados migraram do dia para a noite para as telas de computadores e celulares e, na aus�ncia dessas, para lugar nenhum. Ao pensarmos um pouco mais nesta situa��o, percebemos que, na verdade, j� est�vamos imersos nestas derivas entre_telas e entre_janelas (SALES; VAZ, 2022) h� muito tempo. Nas telas, abrimos janelas m�ltiplas que permeiam derivas variadas:
Janelas do corpo, janelas da tela, janelas da casa, do apartamento, janelas de telas, telas do computador, do notebook, do celular, do tablet� janelas da vida, conex�es poss�veis em momentos nos quais se torna imposs�vel preservar uma �normalidade� agora j� obsoleta (SALES et al., 2020, p. 383).
Somos bombardeados a todo momento, como nos outdoors, cookies do computador e do smartphone, por an�ncios publicit�rios diversos, como os que seguem: �Conquiste o mesmo diploma do presencial!�, �N�o gaste seu tempo!�, �Curse uma gradua��o a dist�ncia (EAD) em apenas 12 meses!�.
Poder�amos ser formados tamb�m remotamente? E ser� que j� n�o somos? Talvez, nestas migra��es entre telas que fazem parte do nosso estar-vivo contempor�neo, sejamos formados � e for�ados � pelas webvirtualidades.
�O que configuraria o estar presente e o n�o estar? Seria poss�vel nos constituirmos como professores e professoras de ci�ncias da natureza em uma educa��o remota? Quais caminhos abririam e quais estradas seriam interditadas pelas telas, janelas, p�ginas, lives e confer�ncias digitais?
�Estas intercomunica��es enveredam-se em produ��es de modos de ver, habitar e constituir o mundo. Sabemos, tamb�m, que os espa�os acad�micos s�o formados por duros muros, e que vaz�-los � necess�rio para (co)criar territ�rios em coexist�ncias, mundos outros, qui��, (im)poss�veis: nas dist�ncias nos encontramos pela internet e constru�mos rela��es, criamos pontes, vivemos pelas janelas, pelas frestas que se anunciam nas virtualidades.
Ao pensarmos nas educa��es poss�veis pelas telas e janelas, desejamos, assim, engajarmo-nos em processos educacionais que, para al�m de tramas neoliberais e inf�matas (HAN, 2022) que precarizam o ensino, os corpos e as exist�ncias, se comprometam na/pela/com a vida, se engajem com a �[�] auto-educa��o � ou a leitura que o indiv�duo faz do mundo a partir de suas experi�ncias e capacidades� (CORR�A, 2000, p. 74).
Para al�m do bem e do mal, do certo e do errado, uma coisa sabemos: � imposs�vel escaparmos da presen�a constante das telas em nossas vidas. Interessa pensar: Como criar habita��es (saud�veis) em meio a elas? Como cultivar estrat�gias formativas que n�o se limitem � emiss�o de informa��es, dados e conte�dos behavioristas (CORR�A, 2006)? Como?
Eis o cuidado a ser cultivado diariamente em nossas derivas!
Eis o necess�rio cuidado a ser cultivado.
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Espa�os outros, outras educa��es
Logo sa�mos da escola e ela continua em n�s, vibrando. L� fora, seja onde for, somos soterrados por m�ltiplas informa��es/comunica��es. Percebemos que nos situamos �Nesta rede planet�ria de tecnocosmos, ciberespa�o, reprodu��o regulada por computador� (CORAZZA, 2010, p. 150). Nas redes midi�ticas, comunica-se acerca das ci�ncias da natureza o tempo todo � mas a que custo e de que maneira?
Vacinas, bombas at�micas, medicamentos, alimentos, energia e�lica, pre�o do combust�vel, gen�tica, novas tecnologias digitais, passagens de �nibus e de avi�o. Nos grupos sociais, fakenews guerrilham pelo espa�o � e prest�gio � com discursos validados cientificamente em revistas internacionais e no crivo dos/as �doutores/as com doutorados/as�. As tramas de poder e de resist�ncia � que, como bem nos ensinou Michel Foucault (2015), s�o insepar�veis � se acirram: diferentes narratividades sobre o mundo, a vida, a sociedade � em que tudo se transformou em dado e informa��o (HAN, 2022). E a educa��o, o que tem com tudo isso?
Ao habitarmos como professores e estudantes estes espa�os formais de educa��o � b�sica, superior, e� �, percebemos que, comumente, � poss�vel a emerg�ncia do sentimento de que eles por si s� n�o nos bastam e que � necess�rio encontrar linhas de fuga para lugares outros que nos permitam aprender. Se tivermos sorte, podemos visitar em nossas cidades museus de ci�ncias e nos deslumbrar � ou entediar � com exposi��es que permeiam conceitos cl�ssicos das diferentes �reas das ci�ncias da natureza. Qui��, espa�os museais de artes, hist�ria, antropologia, entre outros, tamb�m tenham muito a nos educar acerca da vida que pulsa e transborda na natureza.
Caso estejamos abertos � percep��o do mundo que nos convoca e inunda com a sua � e nossa � presen�a, tamb�m � poss�vel romper com os binarismos entre natureza e cultura, em naturezaculturas, como defende a bi�loga, fil�sofa e antrop�loga Donna Haraway (2022). Tal perspectiva naturalcultural abre caminhos para que percebamos que todos os espa�os de nossas vidas s�o territ�rios prop�cios para aprender e educar � e a� s� nos resta percorr�-los com aten��o. Parques, jardins, matas, praias e florestas transbordam em vida, assim como as urbanidades, os asfaltos das ruas, os concretos das casas e das salas de aula.
� preciso distanciarmos-nos de uma educa��o em ci�ncias da natureza �[...] localizado fora da vida� (BELTR�O, 2000, p. 31). A educa��o em ci�ncias da natureza precisa ser vida, esbanjar vida, sem esse desejo � cada vez mais limitador � de segmentariz�-la, descoisific�-la (HAN, 2022), defini-la, prescrev�-la.
Essa � a nossa aposta: viver a educa��o, educar com/pela/em meio � vida!
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Habitar o jovem corpo professoral
����������� O que tem atravessado os nossos corpos em nossas experimenta��es docentes? De que maneiras temos nos posicionado na dura tarefa cotidiana de aprender enquanto criamos circunst�ncias (DELIGNY, 2020)? De viver enquanto produzimos meios de habitar a vida e o mundo? De conviver com situa��es limites?
Comumente ouvimos: �Fa�a isso�; �Pense assim�; �Fazem 10 anos que tenho feito dessa forma�; �Desse modo n�o dar� certo�; �Voc� chegou aqui agora, vassoura nova varre bem�. Essas s�o apenas algumas das narrativas que ecoam pelos corredores dos espa�os formais da doc�ncia � nas reuni�es, nos corredores, nas salas dos professores, nas v�deochamadas.
Palavras que arregimentam nossos corpos, sentimentos e vidas. Ecos reativos que nos chegam produzindo perturba��es, ensurdecendo, gerando apagamentos. Esses �simples� movimentos de linguagem � que de simples n�o tem nada � afastam qualquer proximidade, calam e ferem. A doc�ncia, portanto, passa a ser convocada ao sil�ncio, � n�o partilha, � prolifera��o de guetos distantes � sem brechas para reconcilia��o das vidas. Distanciamentos abissais, esgotamentos interpessoais. Competi��es?
Habitar a doc�ncia � uma tarefa complexa, j� que n�s � humanos? � carregamos todos os nossos microcosmos para as rela��es estabelecidas. J� canta h� d�cadas Gal Costa: �� preciso estar atento e forte� � por isso, � crucial que cultivemos uma �tica relacional com aqueles que experimentam o campo de trabalho conosco, a partir de pot�ncias positivas, portanto, n�o destrutivas.
A aposta, encontrada a partir de estudos em Fernand Deligny (2020), � que possamos investir na prolifera��o de presen�as pr�ximas.
[...] presen�a pr�xima � se p�r a tra�ar junto caminhos, err�ncias, atividades (...) Esta � uma presen�a que n�o busca interpelar, mas sim permitir; deixar o acaso operar, criar brechas na sobrecarga do imperativo da palavra para que outras a��es ou gestos possam surgir, e novos deslocamentos se esbo�ar. � acompanhar sensivelmente o acontecimento, dando-lhe vaz�o, permitindo seu desenrolar (MENDES; CASTRO, 2020, p. 354).
����������� Para tanto, liga��es intensas � individuais e comunit�rias �, t�o escassas no sujeito do desempenho p�s-moderno, precisam ser cultivadas (HAN, 2017). Elos de liga��es s�o condi��es para o estabelecimento de presen�as pr�ximas, emp�ticas, atentas e cuidadosas. Presen�as n�o conduzidas por coa��es negativas, autoagressivas e concorrentes[9].
Que presen�as pr�ximas (DELIGNY, 2020) tem habitado conosco essa caminhada professoral? Que sa�de tem sido poss�vel de ser acessada nesses espa�os profissionais e formativos? Como tenho habitado o jovem corpo professoral? Que �[...] sensibilidades sutis� (AZEVEDO, 2020, p. 166) podem fluir nesses espa�os t�o infectados por prescri��es, normatiza��es e vigil�ncias?
D�vidas, d�vidas e mais d�vidas�
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E� e� e� um universo por vir
Mas, para al�m de escolas, universidades, museus e m�dias, ainda sentimos que algo nos falta. E ser� que, de fato, alguma coisa/forma��o/experi�ncia/conhecimento nos � ausente?
Ap�s momentos iniciais de desespero pelo que n�o temos, sentimos que, na verdade, estamos transbordando em possibilidades de habitar-experimentar ci�ncias da natureza. Qualquer muro que vislumbramos, ao chegar a esta percep��o, vai caindo por terra. Percebemos que o c�u � todo nosso e que n�s somos parte dele, que as plantas e animais coexistem conosco, assim como as nossas bact�rias intestinais e os v�rus que nos infectam, alterando os nossos genes, podendo nos matar, gerar tumores ou, qui��, produzir novas organiza��es de DNA que possam desenvolver caracter�sticas ainda impens�veis. A qu�mica da �gua, do ar e dos alimentos nos preenche com (quase) tudo que precisamos. A f�sica dos movimentos � de ondas, de pernas, de pensamentos � nos faz pulsar de formas inimagin�veis, permeando diferentes texturas e tessituras. Restam os afectos a seguirem nos atravessando e misturando transdisciplinarmente tudo isso que emerge em n�s e conosco.
Parece, por alguns segundos, que fomos tomados por algo pr�ximo do conceito deleuze-guattariano de acontecimento[10], por uma experi�ncia arrebatadora como a relatada pela personagem principal do conto Amor, de Clarice Lispector (1998), ao ver um homem cego mascando chicletes em um bonde. Somos desestruturados e j� n�o sabemos o que fazer com tantas possibilidades que nos soterram, que nos aterram, que nos jogam ao ar. Percebemos, ent�o, que este ar e este c�u que nos circunda tamb�m nos comp�e: somos parte dos astros, do cosmo, da Gaia, de tudo.
O c�u n�o � mais uma atmosfera acidental que envolve o ch�o, � a �nica subst�ncia do universo, a natureza de tudo que existe. O c�u n�o � o que est� no alto. O c�u est� em toda a parte: � o espa�o e a realidade da mistura e do movimento, o horizonte definitivo a partir do qual tudo deve se desenhar. S� h� c�u, por toda parte; e tudo, mesmo nosso planeta e o que ele alberga, n�o passa de uma por��o condensada dessa mat�ria celeste infinita e universal. Tudo o que ocorre � um acontecimento celeste, tudo o que se passa � um feito divino (COCCIA, 2018, p. 92).
Como nos ensina o fil�sofo Emanuele Coccia (2018), s� h� c�u por todo lado e, assim, n�s nos misturamos. Tamb�m percebemos que s� h� mat�ria poss�vel de ser explorada pelas ci�ncias da natureza e de ser tangenciada nas nossas pr�ticas educativas. � tanto ar que chega a nos faltar oxig�nio. Os pulm�es que lutem nessa empreitada de criar circunst�ncias (DELIGNY, 2020) e de aprender ci�ncias. Parece que as tantas salas da escola j� n�o cabem na amplitude da vida. Parece que a universidade e todo(s) tanto(s) universo(s) acad�micos s�o insuficientes para conter tamanha vaz�o que � lidar com o viver, com o estar vivo e habitar o mundo, com o constituir mundos, com o criar mundanidades, maneiras de viver e de nos transformar.
J� n�o somos seres distantes dos trajetos, das perambula��es te�ricas e f�sicas que fazemos. Somos seres com o trajeto. O trajeto (formativo; te�rico; f�sico; vivo e n�o vivo) � potente por ser tamb�m parte de n�s, do que podemos ser/constituir com ele.
Eis que percebemos as tantas possibilidades de aprender e de criar circunst�ncias: espa�os de educa��o formalizada, os territ�rios admitidos como �n�o formais�, a autoaprendizagem, um aprender com os outros seres vivos, com as plantas, os animais, os microorganismos� devir-com (HARAWAY, 2022) m�ltiplas outras esp�cies. Criar mundos em coexist�ncias. Viver a educa��o em ci�ncias da natureza em movimento.
E assim seguimos! Vivos, atentos e fortes!
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Considera��es finais
Neste ensaio, agenciamos tomos-vac�olos (RIGUE, 2021) de pensamento que permitiram engendrar ci�ncia da natureza, vida e educa��o. Ficcionamos narrativas-alian�as capazes de dizer, pensar e cocriar com vontade. Mobilizamos escritas desviantes e em deslocamentos para pensar conex�es poss�veis entre o viv�vel e o fabulado.
Cada tomo-vac�olo percorre diferentes inst�ncias de vida e de educa��o buscando materializar a experi�ncia de habitar e criar o mundo. Pensamos no que podem os espa�os educativos, percorrendo os cotidianos escolares e universit�rios, atravessando a dimens�o professoral e as poss�veis � e necess�rias � fugas. Chegamos nas dist�ncias e virtualidades que permeiam a educa��o, tensionando os dilemas e possibilidades destas inst�ncias educativas. Articulamo-nos em espa�os outros de aprender e de educar ao percorrer as circunst�ncias de ser jovem, de atuar e de constituir-se como docente(s).
A no��o de juventude, portanto, opera ao longo do ensaio como pot�ncia e n�o como falta. Ampliada pela disposi��o dos corpos � ainda n�o enrijecidos � em experimentar, se lan�ar ao desconhecido, desinteressados em responder �s expectativas (des)subjetivadoras dos espa�os produtores de moldes e de prescri��es do que �deve ser� o/a docente no presente. Condu��o de condutas, portanto, d�o lugar � amplia��o de possibilidades desejantes e vivas no habitar o exerc�cio profissional. N�o saber, nessa seara, emerge como pot�ncia, diferencia��o. Horizonte de possibilidade para cultivo de linhas lisas, n�o estriadas, sens�veis � diferen�a e diferencia��o como multiplicidades (DELEUZE; GUATTARI, 2008).
Percebemos, assim, a partir deste ensaio e das escritas fabulativas nele mobilizadas, que a educa��o pode acontecer em m�ltiplos espa�os e de maneiras distintas. Aprendemos, pensamos, afetamos e somos afetados, por exemplo, quando paramos para lembrar, tensionar e criar a partir do que vivemos. Quando, mesmo diante da correria do cotidiano, inauguramos momentos de sil�ncio e aten��o para nossas aligeiradas rotinas. Temos a chance de cocriar poss�veis quando a fic��o aparece como aliada, parceira de caminhada, inaugurando e fortalecendo a percep��o de que podemos aprender em movimento, e que as ci�ncias da natureza, enquanto campo de conhecimento, ao instaurarem-se como inst�ncias que articulam natureza-e-cultura-e�e�e�, tamb�m s�o liga��es intensivas com os territ�rios por onde essas aprendizagens possam brotar. Como docentes das ci�ncias da natureza tamb�m podemos ser criadores de circunst�ncias, poetas do existir, percebendo que aprender sobre/com/a partir desse campo, n�o nos exclui da oportunidade de estabelecer elos com outros horizontes, como � o caso daqueles que fluem nas filosofias, nas artes, entre outros. Emerge desse movimento, portanto, a pot�ncia do exerc�cio da escrita fabulativa na doc�ncia em ci�ncias da natureza.
Afirmamos, assim, a urg�ncia de inaugurarmos espa�os de vida nas pr�ticas em educa��o em ci�ncias da natureza. Nossa aposta � transgredir, reescrever, cocriar novos poss�veis a partir do que aprendemos com o que vivemos, sentimos e experimentamos, na escola e na vida. Emerge a necessidade de pararmos de nos desenvolver e, passarmos a nos envolver (KRENAK, 2020). Dessa forma, nos aproximarmos do que, de fato, vivemos em nossos espa�os, comprometendo-nos em fazer das ci�ncias da natureza peda�os pulsantes e transbordantes nas nossas exist�ncias e na de nossos/as estudantes, parceiros/as de vida e caminhada na/pela/com a educa��o.
REFER�NCIAS
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[1] Licenciado e Bacharel em Ci�ncias Biol�gicas, Mestre e Doutor em Educa��o pelo Programa de P�s-gradua��o em Educa��o da Universidade Federal de Uberl�ndia (UFU). P�s-doutorando em Divulga��o Cient�fica e Cultural no Laborat�rio de Estudos Avan�ados em Jornalismo (LABJOR) do N�cleo de Desenvolvimento da Criatividade (NUDECRI) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor Adjunto no curso de Licenciatura em Ci�ncias Biol�gicas da Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Petrolina. E-mail: tiagoamaralsales@gmail.com.
[2] Licenciada em Qu�mica, Mestra e Doutora em Educa��o pelo Programa de P�s-gradua��o em Educa��o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professora Adjunta no curso de Qu�mica (Licenciatura e Bacharelado) da Universidade Federal de Uberl�ndia (UFU), Campus Pontal. E-mail: fernandarigue@ufu.br.
[3] Conforme escreve Rigue (2021) tomo-vac�olo trata-se da �[...] possibilidade de ser quebrado e rompido em qualquer lugar, como um rizoma. Tomo-vac�olo que se expande por cont�gio (...)� (p. 16). Como diferentes gestos de pensamento em pesquisa que podem ser pensados dentro da pr�pria dispers�o e intensidade, expandindo, por intensidade, suas linhas de prop�sito e desejo.
[4] �Aprender n�o � reproduzir, mas inaugurar (...)� (SCH�RER, 2005, p. 1188).
[5] Como escreve Byung-Chul Han (2022), �O afetivo � essencial para o pensamento humano. A primeira imagem mental � o arrepio da pele. (...) O pensamento parte de uma totalidade que se antep�e a conceitos, representa��es e informa��es. Ele j� se move em um �campo de experi�ncia� (p. 71).
[6] Conforme escrevem Kastrup e Caliman (2023) �Na perspectiva ecol�gica da aten��o, (...) a aten��o n�o � sin�nimo de prestar aten��o. O prestar aten��o � apenas um dos gestos da aten��o, mas de modo algum totaliza seu funcionamento. A concentra��o � um regime atencional, a focaliza��o � outro, assim como a distra��o, a dispers�o, a imers�o, a vigil�ncia, o alerta, a fideliza��o etc. (...) a aten��o possui m�ltiplos gestos, distintos e coexistentes. S�o camadas superpostas de intensidades vari�veis e em constante movimento, formando uma esp�cie de mil folhas da aten��o. A aten��o � desde sempre coletiva. Nunca estamos sozinhos quando prestamos aten��o� (p. 30).
[7] Essa mesma burocratiza��o que alimenta a Sociedade do Cansa�o, explorada por Byung-Chul Han (2017). Sociedade do desempenho, ativa, nervosa, exaurida, coercitiva. Para Han (2017), o cansa�o cada vez mais solit�rio � uma forma de viol�ncia contempor�nea, individualizando pela competi��o, isolando pela competitividade.
[8] Trata-se de uma doen�a infecciosa causada pelo coronav�rus SARS-CoV-2.
[9] Como � o caso daquelas que s�o absolutas e resultam, por exemplo, no estabelecimento do burnout (HAN, 2017).
[10] �Todos os corpos s�o causas uns para os outros, uns com rela��o aos outros, mas de que? S�o causas de certas coisas de uma natureza completamente diferente. Estes efeitos n�o s�o corpos, mas, propriamente falando, �incorporais�. N�o s�o qualidades e propriedades f�sicas, mas atributos l�gicos ou dial�ticos. N�o s�o coisas ou estados de coisas, mas acontecimentos� (DELEUZE, 1974, p. 5). Acontecimento, portanto, trata-se daquilo que se passa, daquilo que toca, da virtualidade do que afeta os seres. Efeitos infinitos e m�ltiplos que atravessam os seres (DELEUZE, 2003).