Proposições artístico-pedagógicas:

uma prática colaborativa no contexto da pandemia

 

Artistic pedagogical propositions:

a collaborative practice in the context of the pandemic

 

 

Aionara Preis Gabriel [1]

Universidade do Estado de Santa Catarina

Jonathan Taveira Braga [2]

Instituto Federal de Santa Catarina

Elaina Schmidlin [3]

Universidade do Estado de Santa Catarina

 

 

 

Resumo

O texto apresenta os movimentos e referências de um exercício coletivo realizado durante um seminário no ano de 2021, que foi oferecido na Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGAV/UDESC). Tal proposta se propunha a experimentar o espaço-tempo da aula virtual, ao qual a pandemia da COVID-19 nos condicionou naquele momento. Em atravessamentos pelas camadas da vida docente, criou-se um vídeo coletivo utilizando desenhos, colagens, performances e cenas do cotidiano, tentando esgotar, em gestos e imagens, as multiplicidades dos modos de existir na contemporaneidade. Esta proposição colaborativa buscou sintetizar as direções, planos e linhas sensíveis de um ambiente de encontro em transformação, atravessando dimensões éticas, estéticas e políticas dos territórios existenciais em jogo, entre elas, a filosofia da diferença, a arte e suas práticas artísticas e pedagógicas.

Palavras-chave

Práticas artísticas e pedagógicas; Filosofia da diferença; Pós-Graduação em Artes Visuais; Modos de existir.

 

 

Abstract

This article presents the movements and references of a collective exercise carried out during a seminar in 2021, which was offered at the Postgraduate Course in Visual Arts at the Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC. This proposal aimed to experience the space-time of the virtual class, to which the COVID-19 pandemic conditioned us at that moment. Crossing the layers of teaching life, a collective video was created using drawings, collages, performances, and everyday scenes, trying to exhaust, in gestures and images, the multiplicities of the ways of existing in contemporary times. This collaborative proposition sought to synthesize the directions, plans, and sensitive lines of a changing meeting environment, crossing ethical, aesthetic, and political dimensions of the existential territories at stake, among them, the philosophy of difference, and the art and its artistic and pedagogical practices.

Keywords

Artistic and pedagogical practices; Philosophy of difference; Postgraduate Course in Visual Arts; Ways to exist.

 

 

 

Lapoujade (2017), a partir do filósofo francês Étienne Souriau (1892-1979), diz que poderíamos supor que a variedade dos modos de existir encontraria seu modelo na pluralidade das artes, porém seria o inverso: “[...] são as artes que tiram sua pluralidade das diversas maneiras de fazer existir um ser, de promover uma existência, ou de torná-la real” (p. 16). Desse modo, ao procurar novas maneiras de existir neste mundo que integrem o corpo, o psiquismo, o reflexo em um espelho, a ideia ou a lembrança do espírito de outro, é possível encontrar na arte as pluralidades da maneira de ser. O indivíduo pode participar de vários planos de existência, como ele nos diz, e são essas pluralidades que possibilitam o surgimento de uma arte de existir.

Na complexidade dessa relação, formas e forças se interceptam constantemente e provocam novas maneiras de ser e estar no mundo. Por esse motivo, não existem formas fixas e imutáveis, pois as forças, externas e internas do indivíduo, modificam a estruturação das formas. Lapoujade (2017) enaltece esse aspecto ao afirmar que:

 

Se a filosofia de Souriau é uma filosofia da arte, não é por se interessar pelas formas, mas sim pelo princípio formal que organiza as formas. Neste ponto, ainda é preciso introduzir uma distinção e não confundir a forma e o formal (assim como não confundimos formar e formalizar). A forma é inseparável de uma matéria que ela informa, cujos contornos ela desenha ou cujo devir ela regula como sendo seu fim ou sua enteléquia, mas o formal é aquilo que organiza as formas, que estrutura arquitetonicamente suas relações (p. 15-16, grifos no original).

 

Esses movimentos atravessam múltiplas direções, modificando e intensificando as formas e suas matérias em uma variedade de modos de existência. Tais variações tornaram-se perceptíveis quando, durante a pandemia da COVID-19, até mesmo as formas pretensamente mais estáticas se desestabilizaram. A resposta que intercepta a pergunta retórica – Oi, tudo bem? – tornou-se impossível de pronunciar, pois exigiu um tempo de silêncio, que ainda persiste.

Inúmeros acontecimentos reconfiguraram a rotina pessoal, tanto no espaço individual como no coletivo. O convívio com o outro ficou restrito às pessoas que compartilhavam o mesmo espaço, às varandas dos apartamentos ou às telas de celulares, computadores, televisões... Limitou-se o social, alterou-se a troca entre as pessoas, perderam-se os espaços que possibilitavam a multiplicidade das vivências e relações. A sala de aula invadiu as residências e se instalou na cozinha, no sofá e até mesmo em cima da cama. A escuta, a fala e a visão só foram possíveis pelos recursos tecnológicos que, dubiamente e paradoxalmente, aproximavam e afastavam as pessoas.

Com a permanência da pandemia, foi preciso rever os sentidos dos encontros semanais no seminário proposto no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC/PPGAV)[4]. Tal estado de ruptura exigiu que criássemos outras maneiras para seguirmos juntos: inventando e produzindo conversas, outras práticas coletivas, seja enquanto professores, alunos e/ou artistas.

Diante deste cenário, cartografar as intersecções entre as práticas artísticas contemporâneas, as criações na filosofia da diferença e nos contextos pedagógicos, apresentou-se como um desafio para o grupo de pesquisadores-artistas-professores-etc.:[5] frequentadores do curso da UDESC/PPGAV. Durante o primeiro semestre de 2021 e, portanto, completando um ano de atividades remotas, o grupo – a partir de leituras e discussões de textos que atravessam tanto o território da arte quanto o da filosofia e da educação – procurou provocar as forças que mobilizam o pensamento e a criação em arte em meio à situação pandêmica. A proposição consistiu na elaboração de um exercício coletivo e colaborativo para a produção de um vídeo, o qual pudesse sintetizar as direções, planos e linhas sensíveis de um ambiente de encontro em transformação. A pergunta catalisadora: como romper com a asfixia atual das limitações inventivas e coletivas propostas na lógica do isolamento e do distanciamento social? Em termos mais amplos: como atualizar a vida na resistência e na potência de uma criação intensiva – sensível, vibrátil, cartográfica?

Na reinvenção do cotidiano, forçada e implacável, pensar a qualidade de um encontro possível consistiu-se num esforço de diferença intensiva. Afinal, trata-se mesmo de um processo de adaptação ou produção de novas linhas de fuga, exercícios de devir, criação, outras alteridades? Em tais condições, traremos a produção audiovisual[6], neste texto-ensaio, como possibilidade de entrever as pluralidades existenciais em que a pandemia condicionou estes corpos e seus afectos.

Encontros em tempos-aula

 

O cenário da pandemia configurado pelo isolamento social atravessou, inescapavelmente e com distintas intensidades, todas as culturas, de distantes contextos e sólidas estruturas. As instituições de ensino – fluxos molares que constituem a dinâmica social da macropolítica – suspenderam suas práticas seculares numa tentativa de adaptação à nova realidade. No entanto, esses fluxos molares tendem a ignorar as forças que atravessam a realidade da sala de aula, seja ela virtual ou presencial. Félix Guattari (1981) separa essa dinâmica social em fluxos molares e moleculares, ou seja: as segmentaridades duras dos sistemas que configuram os aparelhos do Estado; e segmentaridades flexíveis que configuram as diferenças e subjetividades dos seres humanos. A expansão das forças molares para dominar e homogeneizar os espaços acabam provocando as linhas de fuga das forças moleculares – as micropolíticas. Tais linhas escapam aos apelos macropolíticos para a produção de outras composições que pretendem novas relações com o corpo, com o tempo e com os afectos.

 

Não se trata, como podemos perceber, de uma nova receita psicológica ou psicossociológica, mas de uma prática micropolítica que só tomará sentido em relação a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares, proliferando a partir de uma multidão de devires mutantes: devir mulher, devir criança, devir velho, devir animal, planta, cosmos, devir invisível… – tantas maneiras de inventar, de “maquinar” novas sensibilidades, novas inteligências da existência, uma nova doçura (GUATTARI, 1981, p. 139, grifo no original).

 

Na tentativa de entender essas condições, foi preciso ocupar este novo espaço-tempo com experimentações, propor novos modos de existência e outras formas de atenção moleculares. O múltiplo se reduziu à planitude da imagem instantânea, em pequenas caixas enfileiradas e simultâneas. Uma totalidade fabulada na fragmentação, em panorama íntimo, delírio moderno. A dimensão sensível do existir, privada de sua amplitude corporal, foi cavando camadas do possível nas agendas virtuais, encontrando brechas de respiro e inquietude criativa. Mais do que nunca, era necessário criar. Novos termos foram incorporados à rotina alterada, urgências tecnológicas entraram em choque com a adequação de espaços e energias despendidas. A concentração ainda escapa a cada janela maximizada. Os corpos foram reduzidos a pescoço, cabeça e – quando necessário – a mãos, para caber no enquadramento da câmera. As conversas paralelas precisaram ser silenciadas para que não houvesse microfonia. A invasão da vida profissional com a vida pessoal nos colocou numa sobreposição de atividades e atuações. Outras relações com o outro, outras práticas coletivas, acontecimentos. A necessidade presencial foi suprimida por desconforto, medo ou sensatez.

Mudanças que condicionaram estes corpos acostumados com outro ritmo de vida: entre repouso e movimento, velocidade e lentidão, foi preciso compreender e encontrar uma dinâmica para a nova rotina. A aproximação dos corpos já não acontecia como nos modos tradicionais, um sujeito diante do outro. As aulas on-line, em suas complexidades, possibilitaram que alunos de diferentes estados do Brasil participassem em tempo real dos encontros, na mesma proporção em que tornava invisível a infinidade de partículas que definem um corpo (DELEUZE, 2002, p. 128).

A definição de corpo que Deleuze traz, a partir dos estudos sobre Spinoza, desconsidera a forma, os órgãos e suas funções, ou também como sujeito. A definição de corpo se vale pelos afectos de que ele é capaz, compreendendo afectos como “as afecções do corpo, pelas quais a sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (SPINOZA, 2009, p. 98). Uma variação de nós, a qual está suscetível a uma realidade e a uma nova condição que pode aumentar e diminuir o ritmo e a força de existir.

Essa capacidade de agir, formulada por Spinoza, pode ser intensificada ou diminuída pela alegria ou pela tristeza. A alegria é uma passagem do afecto do menor para o maior, sendo que a tristeza é a passagem do afecto do maior para o menor (SPINOZA, 2009, p. 141). Estados de variações corporais suscetíveis aos afectos dos encontros. Os encontros entre os sujeitos produzem estados de afectos que são convergentes aos pensamentos e aos modos de existir. Os afectos são os estados que se passam entre os corpos e que acontecem durante os encontros. E como seria possível ter bons encontros nestas condições de aula virtual?

O desafio instaurado neste espaço-tempo de aula on-line não estava apenas em cumprir com as exigências das forças molares das instituições de ensino, mas sim na necessidade de transver o mundo, produzindo encontros que orbitassem afecções alegres. Portanto, para que tais esforços pudessem alcançar os desejos pessoais e coletivos, empenhou-se em construir um arsenal de referências teóricas, poéticas e pedagógicas com proposições para que o pesquisador-artista-professor-etc. pudesse ter uma prática reflexiva e, sobretudo, inventiva. Transver o mundo, olhar para além do mundo, sentir o mundo, pois “o olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê" (BARROS, 1996, p. 75). Uma urgência micropolítica desenhava-se no horizonte de expectativas, exigindo outros modos de ver para além das ausências e presenças virtuais.

Contribuições artísticas contemporâneas para fabular encontros

 

Artistas viajantes, oficinas em comunidades, obras como documentos, dispositivos relacionais, levantes temporários, micropolíticas processuais, cartografias intensivas: o interesse pelo discurso e a ação do outro contornam uma preocupação contemporânea em práticas artísticas que fundam territórios pedagógicos, políticos e de subjetivação. Vivência crítica participante – V.C.P. (BASBAUM, 2011); arte relacional (BOURRIAUD, 2009); sentido de construtividade (OITICICA, 1962); encaminhamentos das rupturas vanguardistas… Tais proposições resultam de uma série de práticas durante o desenrolar histórico da arte recente, as quais confluem esforços de elaboração para outras formas de relação com o mundo, a comunidade, a cidade, o cotidiano, suas culturas e contradições. São sintomáticas da fusão das fronteiras interdisciplinares, dos jogos participativos e colaborativos, das experimentações com novos signos e ferramentas tecnológicas. Leituras contemporâneas reverberadas em discussões sobre como as práticas artísticas podem se atrelar à prática pedagógica, emergindo pontos de contatos, aproximações e contaminações.

Tais inquietações teóricas, poéticas e pedagógicas encaminham o processo de criação enquanto projetos de imersão em contextos sociais, de encontros com a diferença, sugestões de outros modos para estarmos juntos, criando. Nesses processos, uma atenção ética configura e intensifica territórios sensíveis, resultados de encontros e suas afecções.

A partir da janela de uma antiga casa do bairro do Bixiga, em São Paulo, capital, o Grupo Teatral Trans-Ver propõe o resultado de uma apresentação com bonecos, que resgata as memórias poéticas no cotidiano das pessoas desse bairro. “Janela Comunicante” (2017) consiste num projeto de intervenção urbana que pretende a observação, a investigação e as cartografias afetivas do situar-se em meio à realidade do bairro onde a sede do grupo coexiste. A janela-teatro, a janela-varal literário, a janela-projeção de filmes, a janela-cursos de formação, a janela-pintura mural: múltiplas ações transbordam da janela que rompe seus limites para comunicar uma presença viva e de relações intensas com o que está fora dos seus contornos. A mesma relação que o grupo vivenciava nos encontros com uma exterioridade ao longe, quase inalcançável, mas que pulsava, na intensidade de sua ausência, para constituir corpo em nossas janelas virtuais comunicantes.

 

Imagem 1Frame do videodocumentário “Janela Comunicante” (2017),

mostrando uma das ações do Grupo Trans-Ver no bairro do Bixiga/SP.

 

Fonte: <https://vimeo.com/238941956>. Acesso em: 21 mar. 2022.

 

No Rio de Janeiro, Walter Riedweg e Maurício Dias propõem oficinas para internos do Hospital Psiquiátrico da UFRJ durante um ano, envolvendo leituras, escritas e exercícios de expressão corporal, resultando em instalações videográficas, performances e objetos expositivos. Reativando os espaços do antigo teatro da clínica, cujo nome homenageia o dramaturgo brasileiro que passou parte de sua vida em um hospital psiquiátrico, “Corpo Santo” (2011) consiste no primeiro trabalho da dupla numa série que pretende abordar contextos de investigação poética na psiquiatria. Dentre outros projetos realizados por Riedweg e Dias, tal investigação poética consiste em pensar as margens sociais e suas fronteiras através de processos de intervenção no cotidiano afetivo de grupos e comunidades de diferentes culturas e contextos específicos. A escuta coletiva, a experimentação de linguagens diversas e as elaborações em grupos atravessam questões que problematizam a produção de identidades e seus processos de subjetivação, escapando dos universos pessoais das diferentes colaborações realizadas para abarcar os tempos e lugares de uma macropolítica dos afectos que emergem também do espaço expositivo.

 

Imagem 2Frame do vídeo “Camadas de Percepção {Walter Riedweg, Mauricio Dias}”, o qual aborda alguns processos, exercícios e depoimentos em torno do trabalho “Corpo Santo”.

 

Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=ulrn9JvP9ao>. Acesso em: 22 mar. 2022.

 

Estes são dois exemplos de envolvimento e imersão no contexto da arte contemporânea, os quais reverberam em outros modos de sentir, existir e pensar. Composições de paisagens práticas… Suely Rolnik (2009) observa que, desde meados dos anos 90, as práticas artísticas intensificaram o interesse pelas políticas que regem os processos de subjetivação, através de um olhar sobre o lugar do outro e o destino da força de criação. Para ela,

 

A especificidade da arte enquanto modo de expressão e, portanto, de produção de linguagem e pensamento é a invenção de possíveis – estes ganham corpo e se apresentam ao vivo na obra. Daí o poder de contágio e de transformação de que é portadora a ação artística. É o mundo que está em obra por meio dessa ação (ROLNIK, 2009, p. 26, grifo no original).

 

A possibilidade de transformação parte do trato com exercícios sensíveis e de alteridade, constantes e processuais. Rolnik (2009) aponta que o problema visado por tais práticas artísticas tem a ver com o ambiente contemporâneo de excessiva anestesia da vulnerabilidade ao outro, o qual se encontra emaranhado em esquemas de representações antes que tratado como presença viva: presença esta “com a qual construímos nossos territórios de existência e os contornos cambiantes de nossa subjetividade. [...] Ser vulnerável depende da ativação de uma capacidade específica do sensível” (p. 27). E o que pode o sensível enquanto vulnerabilidade presente nas práticas artísticas como políticas de subjetivação?

A produção de uma subjetividade flexível, contribui ainda Rolnik, em estado vulnerável na relação com a presença do outro – a diferença –, situa-se no ‘entre’ das capacidades do sensível. O sensível compreende modos de conhecer e se relacionar com o mundo, num campo de disputas e embates existenciais. Sua capacidade, por um lado – a qual Rolnik nomeia como cortical –, corresponde ao perceptivo, às formas que uma apreensão do mundo projeta enquanto representação, atribuição de sentidos, coordenadas temporais, históricas, envolvendo a realidade e linguagem do sujeito, sua identidade e permanência.

De outro modo, nomeado como subcortical, a capacidade do sensível corresponde ao universo da sensação, de um modo de apreender o mundo na condição de forças intensivas, atemporais, provisórias, fora da esfera individual e premissas de constituição do sujeito. Em outros termos, trata-se de uma atenção vibrátil, molecular e micropolítica, estabelecida no exercício da alteridade, no reconhecimento do outro enquanto multiplicidade, potência e promessa de novos territórios a se construir. Juntos.

Esse modo particular da produção de territórios sensíveis é nomeado por Daniel Lins (2014) com o uso do termo ‘Est-Ética’: uma estética como acontecimento, inserida na relação sensível, do sensível, “de nossos corpos com seu território como também com a terra, em um movimento constante de territorialização/desterritorialização” (LINS, 2014, p. 45). Acrescentaríamos a possibilidade de uma ética da vulnerabilidade proposta anteriormente por Suely Rolnik. Nesses termos, uma subjetividade flexível, em estado vulnerável, estaria inserida numa lógica ética da estética, respondendo a uma exigência da vida “mais ainda do que ela se compraz a nos ofertar; exigir da vida o acontecimento que nos transtorna, joga-nos ao solo, e sugere que a queda é um trampolim para um salto maior” (LINS, 2014, p. 46).

Entrar em movimentos de desterritorialização, nessa perspectiva, é estar diante do abismo e de toda vulnerabilidade que poderá emergir dessa determinada situação produtiva. Um cuidado de si que escapa da tentativa de conservação de qualquer forma, num jogo existencial com o intempestivo e inseparável da possibilidade de criação. A dissolução de territórios sensíveis em suas múltiplas dimensões – físicas, simbólicas, sociais, culturais, desejantes –, as quais estabilizam formas e bloqueiam transformações, configura uma ética afirmativa de produção de outros territórios. O movimento de perder as rédeas, incomodar-se com o balanço das águas, desassossegar com o previsível e familiar, acompanha, portanto, a possibilidade de devir outros sentidos, outras realidades, outros corpos, outros mundos.

Configurar territórios sensíveis, numa perspectiva da ‘Est-Ética’, consiste, portanto, no esforço de movimento produtor de sopros, passagens, confluências, ondas e tubos gigantes, catedrais aquáticas (LINS, 2012). A ética da estética ou o acontecimento, que exige da vida mais do que ela nos oferta, nos lança ao solo e faz da queda um trampolim para um salto maior, intensivo, numa chamada à aventura errante: andarilha, nômade, à deriva dos planos, atravessada por encontros, bifurcações, provas; uma jornada povoada pela experimentação com outros, trágica e potente de possíveis, mas sem promessas.

Eram essas algumas das práticas e conceitos que constelavam nossos encontros durante o semestre de trabalhos no contexto de isolamento social. Observávamos, atentos, os modos colaborativos enquanto estratégias de colocar-se no desafio de conduzir e ser conduzido por aquilo que acontece, num jogo intempestivo de se ter e produzir mundos. Uma paisagem de inquietações inventivas e imersivas desenhava-se nos exercícios de leitura conjunta e nos recortes de narrativas compartilhadas; fabulações que compunham acervos éticos-estéticos-políticos na produção de novos territórios para a escuta, para a vivência e para o caminhar pedagógico. Algo estava em condensação e gritava experimentação: era (ainda é) necessário criar.

 

Atravessamentos cartográficos como práticas colaborativas

 

Um rosto apronta-se diante da câmera, preenche o espaço da imagem com retalhos impressos dos participantes da sala virtual de encontros formativos, propostos durante alguns meses de 2021. Retalho por retalho, as cenas individuais vão compondo uma máscara de pequenos corpos olhando para o mesmo ponto de atenção; empilhando sobre a face tempos diversos, uma multiplicidade de discursos, corpos outros. Ao seu lado, um busto risca, sobre a pele nua, palavras espelhadas, deixando disposta somente a palavra ‘corpo’. A textura de uma colcha bordada, com coloridas linhas tracejadas, flana na janela aberta embaixo dessas primeiras imagens, para logo outra imagem se aprontar. Dessa vez, as manchas de tinta querem escorrer limites a fora da folha, pois não cabem em seus próprios contornos. Em outro extremo dessa bricolagem, uma lagarta verde agarra-se nos galhos ressecados, rasteja-se sobre tecidos, “acasula-se” e impera-se borboleta sobre folhas, pedras, ar. Mais uma vez, um pequeno recorte de quadrado ilumina outra parte desse composto de narrativas.

Trata-se, agora, de um emaranhado de linhas sobrepostas, organizadas para que possam revelar, aos poucos, retratos em desenhos dos mesmos participantes que, outrora, cobriam aquele rosto diante da câmera. Podemos observar, na sequência, a copa de uma frondosa árvore a imprimir o balanço dos ventos; outras borboletas capturadas flutuando sobre os contornos das mãos; mais manchas ocupando e transformando territórios próprios; pedaços de papéis dançando formas e intenções; janelas e seus olhares, internos e externos. A composição desse mosaico de imagens surge e desaparece gradualmente, até que toda a imagem complete o espaço fragmentado dos ambientes virtuais no contexto pandêmico. Espaços simultâneos antes que sobrepostos: cada singularidade em sua janela de expressão, configurando uma geografia de implicações estéticas e políticas do sensível. Um modo alheio ao pensamento binário ou ao discurso dominador da dicotomia homem-mulher, branco-negro, rico-pobre... O que emerge desse processo é o problema da política compreendida como construção do espaço como da arte do viver junto.

Portanto, produzir com os fios soltos daqueles encontros semanais envolvia um vasto vocabulário na diferença: dissenso, conflito, vibração, contágio, insurgência, acontecimento, desejo, conversação, estranhamento, expressão, trágico, imanente, sensação, rizomático, aberrante, simulacro, menor, metamorfose, dionisíaco, fabulação, profano, delírio, celebrativo, cósmico… Um corpo sem órgãos (CsO) constelando universos intensivos, conceituais, existenciais.

Nas contribuições de Deleuze e Guattari (1996), pensar o CsO consiste no esforço de produção da existência pela atenção aos modos de organização e estratificação do próprio organismo, suas significâncias e subjetivações. Para além das articulações do corpo individual, das interpretações e da configuração do sujeito, mas próximo às operações de desarticulação, experimentação e movimento nômade: aberturas “a conexões que supõem todo um agenciamento, circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagens e distribuições de intensidade, territórios e desterritorializações medidas à maneira de um agrimensor” (ibidem, p. 22). O CsO, como plano de expressão de desejo, forças moleculares, sempre aberto às intensidades das afecções. E como gerenciar o processo de produção deste CsO em dados e sensações?

Por este motivo, ao escrever, pesquisar e experimentar procedimentos artísticos inseparáveis das suas dimensões pedagógicas, nos fez lançar mão da cartografia para corporificar este processo de pesquisa, o qual se bifurca assim como o rizoma. Diante da representação-modelo do conhecimento arborescente, o rizoma configura a formação reticular ‘a-centrada’, com múltiplas entradas e saídas, um princípio conectivo. Essa imagem do rizoma, utilizada por Deleuze e Guattari (1995), possibilita que a pesquisa possa ser feita pelo princípio de conexão e heterogeneidade: “qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem” (p. 15). Dessa forma, não nos interessa apenas os dados produzidos ao longo do semestre ou os conceitos utilizados. Ter a cartografia como método de produção científica ‘a-significante’ é se permitir a experimentar e inventar um outro modo de fazer pesquisa. Pois:

 

O princípio do cartógrafo é extramoral: a expansão da vida é seu parâmetro básico e exclusivo, e nunca uma cartografia qualquer, tomada como mapa. O que lhe interessa nas situações com as quais lida é o quanto a vida está encontrando canais de efetuação (ROLNIK, 1989, p. 68).

 

Tal como o rizoma sugerido por Deleuze e Guattari, cartografamos os encontros que levaram à construção deste vídeo experimental. Atravessados pelas forças dos sistemas molares, os quais em meio à rotina pandêmica obrigavam seguir um calendário – ainda que sobre trancos e barrancos e abismos –, fomos procurando coletivamente, e junto aos intercessores, maneiras de deixar emergir também as forças moleculares; mobilizar pensamentos em torno das multiplicidades de afectos conduzidos por um mesmo caminho referencial, mas pleno de outras vivências e suas bifurcações.

 

Imagem 3Frame do vídeo experimental “Prática artística pedagógica e a filosofia da diferença”, produzido durante o Seminário no PPGAV/UDESC.

 

Fonte: Arquivo pessoal. Disponível em: <https://youtu.be/8eTM6eHFLjk>. Acesso em: 22 mar. 2022.

 

Dos ruídos sonoros emitidos durante a simultaneidade de narrativas visuais na produção experimental, ouvem-se também diferentes timbres e texturas vocais a profanar palavras catalisadoras de sentidos. Em determinados momentos, vozes se sobrepunham para uma listagem de termos que invocavam o vasto vocabulário da diferença. Pele, poros, incorporais, vibração, singularidade – algumas dessas capazes de aglutinar um universo de sensações e provocar um abalo na ligação entre imagem e sua sonoridade.

A perspectiva do situar-se no ‘entre’ era uma prerrogativa do pensamento proposto pela filosofia da diferença. Um modo de transformar as realidades do mundo sem o auxílio da representação: distante das metáforas, a metamorfose consistia exatamente em mostrar o processo de transformação daqueles quadrados e seus respectivos sujeitos. Uma errância criativa e ativa que permitia alcançar o outro, chegar até o outro, traçando um caminho entre suas impossibilidades. Uma inquietação que pretendia mostrar um duplo daqueles dispositivos de captura e transferências de dados, aos quais estávamos submetidos desde o verão de 2020, quando no início do isolamento pela pandemia da COVID-19. E, se pudéssemos ocupar essa grade de imagens sugeridas pelas plataformas de web-conferências com a presença de outras narrativas: que narrativa seria essa, e qual processo de vida e subjetivação ela atravessa?

Como afirma Pelbart (2019), “não se pode falar hoje da vida em geral sem certo assombro, pois é preciso partir das vidas que supostamente merecem viver e das que são condenadas a perecer segundo uma repartição variável, conforme o contexto e suas determinações biopolíticas” (p. 14). No entanto, o estatuto da vida permanece, em que novos modos de resistência e persistência aparecem, revelando linhas de força e de fuga antes desconhecidas, como aquelas vivenciadas nos encontros semanais em 2021, que, em escala menor, fizeram circular perspectivas, energias e sensibilidades, indo no contrafluxo da claustrofobia reinante, que interrompia o fluxo inventivo e coletivo, ocasionado pela lógica do isolamento e distanciamento social.

 

Pela proliferação de multiplicidades sensíveis

 

Pensar estratégias para irromper com a lógica paralisante da produção do mesmo consiste numa tarefa desafiante, mas também sedutora. Nas diferentes possibilidades do existir, perspectivas moleculares encontram espaços de ressonância e cumplicidade com uma ética viva, processual, inventiva, entre as dimensões virtuais e afetivas do compor-se enquanto inquietude e incompletude. Em meio às palavras que pouco descrevem ou explicam, diante da realidade que enclausura desejos e intenções, a experimentação consiste naquele exercício intensivo de produção de outras relações com a singularidade que ronda e desmancha as formas fixas, imóveis, estáticas. O critério para tal prática existencial pretende a qualificação das forças para o encontro com as linhas, antes que com os sujeitos e suas identificações.

A produção audiovisual resultante dos encontros virtuais é, sobretudo, desejos de que a prática pedagógica possa adotar uma ética da criação, uma ‘Est-Ética’ aberta às diferenças e à produção de subjetividades, acontecimentos, um devir. Uma partilha sensível que continua insurgindo novos trânsitos no território da arte, da filosofia e da educação, produzindo e fabulando sentidos nas sobreposições de lugares e atravessamentos.

Aqui, seria preciso outra elaboração para o sentido da palavra ‘estética’, e não aquela remetida a uma teoria da arte com efeitos na sensibilidade, mas como uma possibilidade específica no pensamento das artes, que articula maneiras de fazer e formas de visibilidade, vindo a implicar em uma determinada ideia da efetividade do pensamento artístico. Rancière (2009), sobre essa questão, denomina “partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que neles definem lugares e partes respectivas” (p. 15). Portanto, na produção do material audiovisual, fixa-se, ao mesmo tempo, um comum partilhado e suas partes exclusivas ou singulares, em recortes de lugares que se fundem numa partilha de espaço e tempo, a qual, em suas variações, determina o modo como o comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte na mesma partilha.

Nessas proposições artístico-pedagógicas, as políticas de alteridade configuraram territórios existenciais abertos aos exercícios que colocaram em jogo as formas instituídas e as ações previsíveis: modos de expressividades movidos por uma escuta atenta, flexível, vulnerável às sensações e aos sinais da presença viva do outro na vibração dos nossos próprios corpos e seus encontros, partilhando, no comum, suas singularidades.

Nesse sentido, foi a arte que possibilitou as pluralidades das maneiras de existir em meio às circunstâncias que o vírus da COVID-19 e suas variantes trouxeram para todas as instâncias da vida. Uma maneira de ‘trans-ver’ o mundo, como um eterno aprendiz que, ao aprender a decifrá-lo, passa a fabular novos modos de existir em práticas colaborativas, que se bifurcam e ampliam outras linhas para resistir no contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS

BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.

BASBAUM, Ricardo. Manual do artista-etc. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2013.

BASBAUM, Ricardo. V.C.P.: vivência crítica participante. In: ARS, São Paulo, USP, v. 6, n. 11, 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ars/v6n11/03.pdf>. Acesso em: 01 abr. 2022.

BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. São Paulo: Martins fontes, 2009.

DELEUZE, Gilles. Espinoza: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. 144 p.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. São Paulo: Editora 34, 1996.

GUATTARI, Félix. Revolução molecular: pulsações políticas do desejo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.

LAPOUJADE, David. As existências mínimas. São Paulo: N-1 edições, 2017. 128 p.

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Vídeos

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MAUWAL (Maurício Dias e Walter Riedweg). Camadas de percepção. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ulrn9JvP9ao>. Acesso em: 22 mar. 2022.

PROJETO Prática artística pedagógica e a filosofia da diferença. Disponível em: <https://youtu.be/8eTM6eHFLjk>. Acesso em: 22 mar. 2022.

 

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[1] Mestre e doutoranda do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais na linha de pesquisa Ensino das Artes Visuais (2020).Biografia, inserida após a aprovação. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0081-8617 E-mail: aiopreis@gmail.com

[2] Mestre e doutorando do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC/ 2020-2024) na linha de pesquisa Ensino de Artes Visuais. Professor de Arte/ Artes Visuais do IFSC/ Criciúma. Ordic: https://orcid.org/0000-0002-4214-3902 E-mail: jonathan.braga@ifsc.edu.br

[3] Mestre e professora no Programa de Pós-graduação e no curso de Licenciatura em Artes Visuais do Centro de Artes (CEART) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7478-1781 E-mail: s.elaine@gmail.com

[4] Seminário especial da linha de Ensino das Artes Visuais: “Prática artística e pedagógica e a filosofia da diferença”, ministrado pela Dra. Elaine Schmidlin, entre março e julho de 2021, de modo remoto e síncrono.

[5] Apropriado do termo ‘artista-etc.’ de Ricardo Basbaum. Fonte: BASBAUM, Ricardo. Manual do artista-etc. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2013.

[6] Projeto experimental de prática artística pedagógica e a filosofia da diferença. Composição em vídeo realizada por: Aionara Preis, Elaine Schmidlin, Elisangela de Freitas Mathias, Eloisa Maria Maccari, Joana Salles, Jonathan Taveira Braga, José Carlos da Rocha, Juliana Pereira Guimarães, Letícia Francez, Mario Henrique Rosa de Oliveira, Rafael Nunes Menezes, Taliane Graff Tomita, Tharciana Goulart da Silva. Disponível em: https://youtu.be/8eTM6eHFLjk. Acesso em: 22 mar. 2022.