Das narrativas às
tramas do social: percursos da pesquisa-formação com jovens
From
Narratives to Social Wefts: Paths of Research-Formation with Youth
De las
narrativas a las tramas de lo social: recorridos de la investigación-formación
con jóvenes
Maria Amália de Almeida Cunha 
Universidade
Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
amaliacunha@fae.ufmg.br
Rosemeire Reis 
Universidade
Federal de Alagoas, Alagoas, Maceió, Brasil.
rosemeire.silva@cedu.ufal.br
Valérie Melin 
Universidade
de Lille, Lille, França.
valerie.melin@univ-lille.fr
O presente dossiê, Do vivido ao narrado: caminhos da
pesquisa-formação com jovens estudantes, inscreve-se no campo das
abordagens qualitativas em Ciências Sociais e Educação com uma dupla ambição:
por um lado, reafirmar a riqueza epistemológica da pesquisa narrativa na
compreensão das juventudes contemporâneas; por outro, problematizar criticamente
seus usos, especialmente diante do risco crescente de uma centralidade do “eu”
nos processos de produção de conhecimento.
Mais do que um repertório metodológico, a pesquisa narrativa é aqui
concebida como um regime de inteligibilidade que desloca o eixo da explicação
causal para a interpretação dos sentidos socialmente produzidos. Tal
deslocamento, consolidado no âmbito da chamada virada hermenêutica, implicou a
crítica ao paradigma positivista e à sua pretensão de neutralidade, ao mesmo
tempo em que reposicionou os sujeitos como instâncias interpretativas
fundamentais. Contudo, esse movimento, se por um lado ampliou a escuta das
experiências e a valorização das vozes historicamente silenciadas, por outro,
abriu espaço para o risco de um uso acrítico da narrativa, no qual a
experiência individual tende a ser tomada como evidência auto justificada.
É nesse ponto que se impõe um necessário refinamento
teórico e metodológico. A centralidade da experiência vivida não pode ser
confundida com sua auto suficiência analítica. Assim, o que se propõe com este
Dossiê é o exercício de uma espécie de vigilância epistemológica sobre um
regime de validação do conhecimento que tende a tomar o relato de si como uma
autoridade incontestada, frequentemente desvinculado das mediações históricas,
sociais e institucionais que o constituem. Nessa perspectiva, o “eu” deixa de
ser compreendido como construção situada para ser naturalizado como origem e
fim da análise, produzindo um efeito de des-historicização e des-socialização
da experiência.
A tradição das abordagens qualitativas oferece, entretanto,
recursos consistentes para evitar tal redução. Desde a Escola de Chicago
(Coulon, 1995), que introduziu o uso sistemático de materiais biográficos na
sociologia, até os desenvolvimentos contemporâneos da pesquisa (auto)biográfica
(Delory-Momberger, 2008), o desafio central tem sido precisamente o de
articular experiência e estrutura, biografia e história. Se, em seus
primórdios, os relatos de vida foram frequentemente mobilizados como ilustração
de quadros analíticos prévios, os desdobramentos mais recentes dessa tradição
propõem uma inflexão decisiva: compreender a narrativa como prática
constitutiva da experiência e, simultaneamente, como espaço de mediação entre o
singular e o social.
Neste espectro, narrar não é simplesmente expressar o
vivido, mas produzir uma configuração de sentido que se realiza sob condições
históricas específicas. A narrativa é, portanto, atravessada por linguagens
disponíveis, repertórios culturais, regimes de verdade e relações de poder que
delimitam o que pode ser dito, como pode ser dito e com quais efeitos de
reconhecimento. Assumir essa perspectiva implica recusar tanto a transparência
do relato quanto sua autonomização, exigindo do pesquisador um trabalho interpretativo
que reconecte as trajetórias individuais aos processos sociais mais amplos que
as tornam possíveis (Mills, 1982; Sennet, 2014).
No campo da Educação, essa discussão adquire particular
relevância. A incorporação de dispositivos narrativos nos processos formativos
têm sido frequentemente celebrada como estratégia de valorização da experiência
discente e docente. Contudo, quando desvinculada de uma problematização das
condições sociais de produção dessas experiências, tal incorporação corre o
risco de reforçar uma pedagogia da interioridade, centrada na expressão de si
como fim em si mesmo. Em contraposição, este dossiê alinha-se a uma concepção
de formação que entende a narrativa como prática reflexiva situada, capaz de
articular processos de subjetivação e objetivação, isto é, de construção de si
e de compreensão crítica do mundo social. Os trabalhos aqui reunidos
materializam, sob diferentes perspectivas, essa tensão constitutiva do campo.
O artigo Entre vozes e narrativas: o lugar dos grupos de
discussão na pesquisa com jovens, de Maria Amália de Almeida Cunha e Wivian
Weller, desloca o foco da narrativa individual para a dimensão intersubjetiva
da produção de sentidos. Ao mobilizar os grupos de discussão como dispositivo
metodológico, as autoras evidenciam que os significados não emergem de
consciências isoladas, mas são produzidos, negociados e disputados em contextos
coletivos. Tal abordagem permite acessar aquilo que permanece invisível em
relatos individuais: as gramáticas compartilhadas, os enquadramentos tácitos,
as formas de reconhecimento mútuo, reinscrevendo o sujeito em redes de
interação e pertencimento.
Em chave explicitamente crítica, o artigo A pesquisa
sociobiográfica com jovens: entre a imaginação sociológica e as tiranias da
intimidade, de Priscila de Oliveira Coutinho, Juliana Batista Reis e Sofia
Ramos Jaime, enfrenta diretamente o problema da hipertrofia do “eu” na
contemporaneidade. Ao contraporem imaginação sociológica e “imaginação
psicológica”, as autoras denunciam o risco de redução das questões públicas à
esfera das experiências privadas, especialmente em um contexto de
plataformização da vida, no qual a exposição de si é continuamente incentivada
e mercantilizada. Sua contribuição é central para este dossiê ao reafirmar que
a narrativa, para manter sua capacidade crítica, deve operar como mediação
entre biografia e história, e não como refúgio individualizante.
O artigo Construir o seu futuro profissional e pessoal a
partir de um programa de formação biográfica numa universidade francesa, de
Valérie Melin, oferece um contraponto empírico relevante ao demonstrar como
dispositivos narrativos podem ser mobilizados de forma crítica no campo da
formação. Ao analisar práticas de “biografização”, a autora evidencia que
narrar a própria trajetória não implica necessariamente sua naturalização, mas
pode constituir um exercício de problematização e reapropriação reflexiva da
experiência. Quando ancorada em mediações pedagógicas consistentes, a narrativa
torna-se um operador de consciência histórica e de projeção de futuros
possíveis.
O artigo Sentidos dos processos formativos para jovens mulheres da
Pedagogia: relação biográfica com o aprender, de Rosemeire Reis e Luiza
Silva contribui para este Dossiê ao investigar os sentidos dos processos
formativos de jovens mulheres da Pedagogia, situando suas trajetórias na
intersecção entre gênero, raça e classe. Ao adotar a perspectiva da
pesquisa-formação, as autoras demonstram como a Universidade se torna um lócus
de 'formação de si', onde a apropriação de saberes acadêmicos ganha ressonância
ao dialogar com as questões biográficas das estudantes. O trabalho reforça o
compromisso deste Dossiê em reinscrever o 'eu' nas tramas do social,
evidenciando que o ato de narrar a própria história é, simultaneamente, um
exercício de crítica social e de projeção de futuros profissionais na docência.
O artigo Narrativas juvenis na formação de professores
de educação física: mediações e projetos de ser na escolha do curso superior, de
autoria de Fábio Machado Pinto, Marcelo Silva e Raymundo Ferreira Filho
explicita, em nível empírico, a complexidade dos processos de construção das
escolhas profissionais. Ao articular trajetórias individuais a mediações
familiares, institucionais e culturais, o estudo demonstra que aquilo que
frequentemente se apresenta como decisão pessoal é, na realidade, o resultado
de múltiplas determinações e experiências socialmente situadas. As narrativas,
nesse contexto, não são tomadas como expressão imediata de uma interioridade,
mas como construções que condensam relações sociais, afetos e disposições
incorporadas.
O artigo Início da Vida Universitária: o poder heurístico da análise
da voz autoral em propostas curriculares, de María Paula Díaz e Soledad
Vercellino investiga a construção da subjetividade discursiva de estudantes
ingressantes na Universidade Nacional de Río Negro, Argentina. Ao analisar a
“voz autoral” em ensaios acadêmicos, as autoras exploram como os recursos
linguísticos de autorreferencialidade e engajamento revelam as tensões no
processo de enculturação disciplinar. O estudo demonstra que, para além da
avaliação funcional, o ensaio acadêmico configura-se como um dispositivo de
autonarrativa, no qual a experiência biográfica e o discurso institucional se
cruzam, permitindo compreender o ingresso universitário como um rito de
passagem marcado por complexas negociações de sentido e de pertencimento. A
contribuição fundamental deste artigo reside na análise da voz autoral como um
regime de inteligibilidade das tensões inerentes ao ingresso no ensino
superior, reforçando a tese do dossiê de que a narrativa é um espaço de
mediação entre o singular e o institucional.
O artigo Narrativas
(Auto)biográficas e Projetos de Futuro das Juventudes Rurais: um estudo sobre
trajetórias e perspectivas, de Elizeu Clementino de Souza, Nanci Rodrigues
Orrico e Hanilton Ribeiro de Souza, investiga as tensões constitutivas das
trajetórias de jovens do campo na Bahia em sua relação com os centros urbanos.
Por meio de um dispositivo metodológico que articula narrativas, oficinas e
registros fotográficos, o estudo descreve as complexas mediações de gênero e os
dilemas de pertencimento que configuram os projetos de futuro desse grupo. Ao
tensionar as diretrizes do Novo Ensino Médio, os autores defendem uma pedagogia
da escuta capaz de reconhecer as singularidades territoriais e validar o
protagonismo juvenil frente às estruturas de desigualdade rural. O estudo
empreendido posiciona a narrativa não como mero relato individual, mas como um
dispositivo crítico que articula trajetórias singulares às estruturas sociais e
territoriais.
Em seu
conjunto, os textos deste dossiê reafirmam que a pesquisa narrativa, para além
de sua amplificação contemporânea, permanece como um campo em disputa. Entre
sua vertente crítica e seu risco de banalização, impõe-se a necessidade de um
uso teoricamente informado, metodologicamente rigoroso e epistemologicamente
vigilante (Bourdieu, 1996; Bourdieu; Chamboredon e Passeron, 2015; Bourdieu e
Wacquant, 2026). Longe de celebrar o “eu” como instância soberana, trata-se de
reinscrevê-lo nas tramas do social, reconhecendo que toda experiência é, em
última instância, uma forma situada de relação com o mundo.
A exigência de uma vigilância epistemológica
sobre os processos de produção do conhecimento encontra ressonância na reflexão
de Gaston Bachelard (1996), para quem a ciência avança não pela acumulação
linear de evidências, mas pela ruptura com formas espontâneas e imediatas de
apreensão do real. Transposta para o campo da pesquisa narrativa, essa
perspectiva reforça que o relato de si não pode ser acolhido como transparência
do vivido, mas deve ser submetido a um trabalho analítico capaz de desvelar as
mediações históricas, sociais e simbólicas que o estruturam. A experiência
narrada, longe de constituir uma verdade imediata, torna-se, assim, objeto de
problematização crítica e de construção reflexiva do conhecimento.
Essa reinscrição exige, antes de tudo, um deslocamento no
modo de escuta que orienta a pesquisa. Escutar narrativas não significa
acolhê-las como evidências transparentes, mas interrogá-las como produções
situadas, atravessadas por silêncios, enquadramentos e regimes de dizibilidade.
O trabalho analítico, nesse sentido, não se limita à restituição da voz do
sujeito, mas implica compreender as condições que tornam essa voz possível,
inteligível e reconhecível. Trata-se, portanto, de tensionar a narrativa em sua
dupla dimensão: como expressão singular e como efeito de estruturas sociais,
culturais e históricas que a precedem e a excedem.
Por isso, torna-se imperativo problematizar os dispositivos
de produção narrativa à luz da condição biográfica (Delory-Momberger, 2012), a
qual sinaliza uma inversão histórica na relação entre o indivíduo e o social: a
gestão de vulnerabilidades estruturais e a elaboração de projetos de futuro
passam a recair, quase exclusivamente, sobre o sujeito. Sob a égide de lógicas
neoliberais e da plataformização da vida, a incitação à fala de si é
frequentemente capturada por imperativos de autenticidade e autoempreendedorismo,
transfigurando a narrativa em uma tecnologia de gestão da subjetividade que
individualiza processos coletivos. Para preservar seu potencial crítico, a
pesquisa narrativa deve converter esse cenário em objeto de análise,
interrogando como tais racionalidades modulam os relatos, desvelando as tramas
de poder que atravessam o “falar de si”.
Desse ponto de vista, a noção de reflexividade assume um
papel central, mas precisa ser cuidadosamente qualificada. Não se trata de uma
reflexividade entendida como introspecção ilimitada ou aprofundamento
indefinido do “interior”, e sim como uma capacidade de estabelecer mediações
entre experiência vivida e condições sociais de possibilidade. Uma
reflexividade socialmente ancorada implica reconhecer que narrar a própria
trajetória é também posicionar-se em relação a estruturas de classe, gênero,
raça, geração e território, ainda que tais dimensões nem sempre se apresentem
de forma explícita nos relatos. Cabe ao trabalho analítico tornar visíveis
essas articulações, evitando tanto sua sobreposição reducionista quanto sua
invisibilização.
Tal
cenário pode ser compreendido à luz da crítica formulada por François Dubet ao
analisar os processos contemporâneos de individuação. Na obra O tempo das
paixões tristes, o autor argumenta que as sociedades democráticas e
meritocráticas deslocaram progressivamente para os indivíduos a
responsabilidade por seus êxitos e fracassos, intensificando experiências de
injustiça, ressentimento e desamparo. A promessa de autonomia, nesse contexto,
converte-se em exigência permanente de autoconstrução. Quando transposta para o
campo das narrativas de si, essa lógica tende a reforçar uma leitura
privatizada das trajetórias, obscurecendo os condicionantes coletivos e
estruturais que moldam a experiência. A crítica de Dubet permite, assim,
compreender que a centralidade contemporânea do relato autobiográfico não é
apenas um fenômeno metodológico ou cultural, mas também um sintoma das formas
atuais de governo da subjetividade.
Por fim,
reafirmar o compromisso com uma pesquisa narrativa crítica implica reconhecer o
papel ativo do próprio pesquisador na produção do conhecimento. As narrativas
não são simplesmente “coletadas” e muito menos “meras ilustrações”, mas
co-construídas em situações de interação que envolvem assimetrias, expectativas
e enquadramentos institucionais. Assumir essa condição não enfraquece a
pesquisa; ao contrário, a fortalece, ao explicitar seus modos de produção e ao
abrir espaço para uma reflexividade que inclua não apenas o narrador, mas
também quem interpreta. Nesse sentido, a vigilância epistemológica se dirige
também às formas pelas quais o olhar do pesquisador pode, inadvertidamente,
reforçar aquilo que pretende criticar.
É nesse entrelaçamento entre experiência e estrutura,
narrativa e crítica, escuta e interpretação que a pesquisa narrativa pode
afirmar sua relevância no campo das Ciências Sociais e da Educação. Não como
celebração do “eu”, mas como esforço de compreendê-la nas tramas do social,
reconhecendo que toda experiência é, em última instância, uma forma situada de
relação com o mundo.
Referências
BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico.
Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaína e
FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da história oral. (8ª
edição) Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 183-191.
BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON,
Jean-Claude. O ofício de sociólogo: metodologia
da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Vozes, 2015.
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT. Um convite à Sociologia
Reflexiva. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2026.
COULON, Alain. A escola de Chicago. Campinas: Papirus,
1995.
DELORY-MOMBERGER, Christine. Biografia e educação: figuras
do indivíduo-projeto. Natal: EDUFRN, 2008.
DELORY-MOMBERGER, Christine. A condição biográfica:
ensaios sobre a narrativa de si na modernidade avançada. Natal: EDUFRN,
2012.
DUBET, François. O tempo das paixões tristes. Editora
Vestígio, 2024.
MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de
Janeiro: Zahar, 1982.
SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias
da intimidade. Rio de Janeiro: Record, 2014.

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