Das narrativas às tramas do social: percursos da pesquisa-formação com jovens

From Narratives to Social Wefts: Paths of Research-Formation with Youth

De las narrativas a las tramas de lo social: recorridos de la investigación-formación con jóvenes

 

 

Maria Amália de Almeida Cunha https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

amaliacunha@fae.ufmg.br

 

Rosemeire Reis https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal de Alagoas, Alagoas, Maceió, Brasil.

rosemeire.silva@cedu.ufal.br

 

Valérie Melin https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade de Lille, Lille, França.

valerie.melin@univ-lille.fr

O presente dossiê, Do vivido ao narrado: caminhos da pesquisa-formação com jovens estudantes, inscreve-se no campo das abordagens qualitativas em Ciências Sociais e Educação com uma dupla ambição: por um lado, reafirmar a riqueza epistemológica da pesquisa narrativa na compreensão das juventudes contemporâneas; por outro, problematizar criticamente seus usos, especialmente diante do risco crescente de uma centralidade do “eu” nos processos de produção de conhecimento.

Mais do que um repertório metodológico, a pesquisa narrativa é aqui concebida como um regime de inteligibilidade que desloca o eixo da explicação causal para a interpretação dos sentidos socialmente produzidos. Tal deslocamento, consolidado no âmbito da chamada virada hermenêutica, implicou a crítica ao paradigma positivista e à sua pretensão de neutralidade, ao mesmo tempo em que reposicionou os sujeitos como instâncias interpretativas fundamentais. Contudo, esse movimento, se por um lado ampliou a escuta das experiências e a valorização das vozes historicamente silenciadas, por outro, abriu espaço para o risco de um uso acrítico da narrativa, no qual a experiência individual tende a ser tomada como evidência auto justificada.

É nesse ponto que se impõe um necessário refinamento teórico e metodológico. A centralidade da experiência vivida não pode ser confundida com sua auto suficiência analítica. Assim, o que se propõe com este Dossiê é o exercício de uma espécie de vigilância epistemológica sobre um regime de validação do conhecimento que tende a tomar o relato de si como uma autoridade incontestada, frequentemente desvinculado das mediações históricas, sociais e institucionais que o constituem. Nessa perspectiva, o “eu” deixa de ser compreendido como construção situada para ser naturalizado como origem e fim da análise, produzindo um efeito de des-historicização e des-socialização da experiência.

A tradição das abordagens qualitativas oferece, entretanto, recursos consistentes para evitar tal redução. Desde a Escola de Chicago (Coulon, 1995), que introduziu o uso sistemático de materiais biográficos na sociologia, até os desenvolvimentos contemporâneos da pesquisa (auto)biográfica (Delory-Momberger, 2008), o desafio central tem sido precisamente o de articular experiência e estrutura, biografia e história. Se, em seus primórdios, os relatos de vida foram frequentemente mobilizados como ilustração de quadros analíticos prévios, os desdobramentos mais recentes dessa tradição propõem uma inflexão decisiva: compreender a narrativa como prática constitutiva da experiência e, simultaneamente, como espaço de mediação entre o singular e o social.

Neste espectro, narrar não é simplesmente expressar o vivido, mas produzir uma configuração de sentido que se realiza sob condições históricas específicas. A narrativa é, portanto, atravessada por linguagens disponíveis, repertórios culturais, regimes de verdade e relações de poder que delimitam o que pode ser dito, como pode ser dito e com quais efeitos de reconhecimento. Assumir essa perspectiva implica recusar tanto a transparência do relato quanto sua autonomização, exigindo do pesquisador um trabalho interpretativo que reconecte as trajetórias individuais aos processos sociais mais amplos que as tornam possíveis (Mills, 1982; Sennet, 2014).

No campo da Educação, essa discussão adquire particular relevância. A incorporação de dispositivos narrativos nos processos formativos têm sido frequentemente celebrada como estratégia de valorização da experiência discente e docente. Contudo, quando desvinculada de uma problematização das condições sociais de produção dessas experiências, tal incorporação corre o risco de reforçar uma pedagogia da interioridade, centrada na expressão de si como fim em si mesmo. Em contraposição, este dossiê alinha-se a uma concepção de formação que entende a narrativa como prática reflexiva situada, capaz de articular processos de subjetivação e objetivação, isto é, de construção de si e de compreensão crítica do mundo social. Os trabalhos aqui reunidos materializam, sob diferentes perspectivas, essa tensão constitutiva do campo.

O artigo Entre vozes e narrativas: o lugar dos grupos de discussão na pesquisa com jovens, de Maria Amália de Almeida Cunha e Wivian Weller, desloca o foco da narrativa individual para a dimensão intersubjetiva da produção de sentidos. Ao mobilizar os grupos de discussão como dispositivo metodológico, as autoras evidenciam que os significados não emergem de consciências isoladas, mas são produzidos, negociados e disputados em contextos coletivos. Tal abordagem permite acessar aquilo que permanece invisível em relatos individuais: as gramáticas compartilhadas, os enquadramentos tácitos, as formas de reconhecimento mútuo, reinscrevendo o sujeito em redes de interação e pertencimento.

Em chave explicitamente crítica, o artigo A pesquisa sociobiográfica com jovens: entre a imaginação sociológica e as tiranias da intimidade, de Priscila de Oliveira Coutinho, Juliana Batista Reis e Sofia Ramos Jaime, enfrenta diretamente o problema da hipertrofia do “eu” na contemporaneidade. Ao contraporem imaginação sociológica e “imaginação psicológica”, as autoras denunciam o risco de redução das questões públicas à esfera das experiências privadas, especialmente em um contexto de plataformização da vida, no qual a exposição de si é continuamente incentivada e mercantilizada. Sua contribuição é central para este dossiê ao reafirmar que a narrativa, para manter sua capacidade crítica, deve operar como mediação entre biografia e história, e não como refúgio individualizante.

O artigo Construir o seu futuro profissional e pessoal a partir de um programa de formação biográfica numa universidade francesa, de Valérie Melin, oferece um contraponto empírico relevante ao demonstrar como dispositivos narrativos podem ser mobilizados de forma crítica no campo da formação. Ao analisar práticas de “biografização”, a autora evidencia que narrar a própria trajetória não implica necessariamente sua naturalização, mas pode constituir um exercício de problematização e reapropriação reflexiva da experiência. Quando ancorada em mediações pedagógicas consistentes, a narrativa torna-se um operador de consciência histórica e de projeção de futuros possíveis.

O artigo Sentidos dos processos formativos para jovens mulheres da Pedagogia: relação biográfica com o aprender, de Rosemeire Reis e Luiza Silva contribui para este Dossiê ao investigar os sentidos dos processos formativos de jovens mulheres da Pedagogia, situando suas trajetórias na intersecção entre gênero, raça e classe. Ao adotar a perspectiva da pesquisa-formação, as autoras demonstram como a Universidade se torna um lócus de 'formação de si', onde a apropriação de saberes acadêmicos ganha ressonância ao dialogar com as questões biográficas das estudantes. O trabalho reforça o compromisso deste Dossiê em reinscrever o 'eu' nas tramas do social, evidenciando que o ato de narrar a própria história é, simultaneamente, um exercício de crítica social e de projeção de futuros profissionais na docência.

O artigo Narrativas juvenis na formação de professores de educação física: mediações e projetos de ser na escolha do curso superior, de autoria de Fábio Machado Pinto, Marcelo Silva e Raymundo Ferreira Filho explicita, em nível empírico, a complexidade dos processos de construção das escolhas profissionais. Ao articular trajetórias individuais a mediações familiares, institucionais e culturais, o estudo demonstra que aquilo que frequentemente se apresenta como decisão pessoal é, na realidade, o resultado de múltiplas determinações e experiências socialmente situadas. As narrativas, nesse contexto, não são tomadas como expressão imediata de uma interioridade, mas como construções que condensam relações sociais, afetos e disposições incorporadas.

O artigo Início da Vida Universitária: o poder heurístico da análise da voz autoral em propostas curriculares, de María Paula Díaz e Soledad Vercellino investiga a construção da subjetividade discursiva de estudantes ingressantes na Universidade Nacional de Río Negro, Argentina. Ao analisar a “voz autoral” em ensaios acadêmicos, as autoras exploram como os recursos linguísticos de autorreferencialidade e engajamento revelam as tensões no processo de enculturação disciplinar. O estudo demonstra que, para além da avaliação funcional, o ensaio acadêmico configura-se como um dispositivo de autonarrativa, no qual a experiência biográfica e o discurso institucional se cruzam, permitindo compreender o ingresso universitário como um rito de passagem marcado por complexas negociações de sentido e de pertencimento. A contribuição fundamental deste artigo reside na análise da voz autoral como um regime de inteligibilidade das tensões inerentes ao ingresso no ensino superior, reforçando a tese do dossiê de que a narrativa é um espaço de mediação entre o singular e o institucional.

O artigo Narrativas (Auto)biográficas e Projetos de Futuro das Juventudes Rurais: um estudo sobre trajetórias e perspectivas, de Elizeu Clementino de Souza, Nanci Rodrigues Orrico e Hanilton Ribeiro de Souza, investiga as tensões constitutivas das trajetórias de jovens do campo na Bahia em sua relação com os centros urbanos. Por meio de um dispositivo metodológico que articula narrativas, oficinas e registros fotográficos, o estudo descreve as complexas mediações de gênero e os dilemas de pertencimento que configuram os projetos de futuro desse grupo. Ao tensionar as diretrizes do Novo Ensino Médio, os autores defendem uma pedagogia da escuta capaz de reconhecer as singularidades territoriais e validar o protagonismo juvenil frente às estruturas de desigualdade rural. O estudo empreendido posiciona a narrativa não como mero relato individual, mas como um dispositivo crítico que articula trajetórias singulares às estruturas sociais e territoriais.

Em seu conjunto, os textos deste dossiê reafirmam que a pesquisa narrativa, para além de sua amplificação contemporânea, permanece como um campo em disputa. Entre sua vertente crítica e seu risco de banalização, impõe-se a necessidade de um uso teoricamente informado, metodologicamente rigoroso e epistemologicamente vigilante (Bourdieu, 1996; Bourdieu; Chamboredon e Passeron, 2015; Bourdieu e Wacquant, 2026). Longe de celebrar o “eu” como instância soberana, trata-se de reinscrevê-lo nas tramas do social, reconhecendo que toda experiência é, em última instância, uma forma situada de relação com o mundo.

A exigência de uma vigilância epistemológica sobre os processos de produção do conhecimento encontra ressonância na reflexão de Gaston Bachelard (1996), para quem a ciência avança não pela acumulação linear de evidências, mas pela ruptura com formas espontâneas e imediatas de apreensão do real. Transposta para o campo da pesquisa narrativa, essa perspectiva reforça que o relato de si não pode ser acolhido como transparência do vivido, mas deve ser submetido a um trabalho analítico capaz de desvelar as mediações históricas, sociais e simbólicas que o estruturam. A experiência narrada, longe de constituir uma verdade imediata, torna-se, assim, objeto de problematização crítica e de construção reflexiva do conhecimento.

Essa reinscrição exige, antes de tudo, um deslocamento no modo de escuta que orienta a pesquisa. Escutar narrativas não significa acolhê-las como evidências transparentes, mas interrogá-las como produções situadas, atravessadas por silêncios, enquadramentos e regimes de dizibilidade. O trabalho analítico, nesse sentido, não se limita à restituição da voz do sujeito, mas implica compreender as condições que tornam essa voz possível, inteligível e reconhecível. Trata-se, portanto, de tensionar a narrativa em sua dupla dimensão: como expressão singular e como efeito de estruturas sociais, culturais e históricas que a precedem e a excedem.

Por isso, torna-se imperativo problematizar os dispositivos de produção narrativa à luz da condição biográfica (Delory-Momberger, 2012), a qual sinaliza uma inversão histórica na relação entre o indivíduo e o social: a gestão de vulnerabilidades estruturais e a elaboração de projetos de futuro passam a recair, quase exclusivamente, sobre o sujeito. Sob a égide de lógicas neoliberais e da plataformização da vida, a incitação à fala de si é frequentemente capturada por imperativos de autenticidade e autoempreendedorismo, transfigurando a narrativa em uma tecnologia de gestão da subjetividade que individualiza processos coletivos. Para preservar seu potencial crítico, a pesquisa narrativa deve converter esse cenário em objeto de análise, interrogando como tais racionalidades modulam os relatos, desvelando as tramas de poder que atravessam o “falar de si”.

Desse ponto de vista, a noção de reflexividade assume um papel central, mas precisa ser cuidadosamente qualificada. Não se trata de uma reflexividade entendida como introspecção ilimitada ou aprofundamento indefinido do “interior”, e sim como uma capacidade de estabelecer mediações entre experiência vivida e condições sociais de possibilidade. Uma reflexividade socialmente ancorada implica reconhecer que narrar a própria trajetória é também posicionar-se em relação a estruturas de classe, gênero, raça, geração e território, ainda que tais dimensões nem sempre se apresentem de forma explícita nos relatos. Cabe ao trabalho analítico tornar visíveis essas articulações, evitando tanto sua sobreposição reducionista quanto sua invisibilização.

Tal cenário pode ser compreendido à luz da crítica formulada por François Dubet ao analisar os processos contemporâneos de individuação. Na obra O tempo das paixões tristes, o autor argumenta que as sociedades democráticas e meritocráticas deslocaram progressivamente para os indivíduos a responsabilidade por seus êxitos e fracassos, intensificando experiências de injustiça, ressentimento e desamparo. A promessa de autonomia, nesse contexto, converte-se em exigência permanente de autoconstrução. Quando transposta para o campo das narrativas de si, essa lógica tende a reforçar uma leitura privatizada das trajetórias, obscurecendo os condicionantes coletivos e estruturais que moldam a experiência. A crítica de Dubet permite, assim, compreender que a centralidade contemporânea do relato autobiográfico não é apenas um fenômeno metodológico ou cultural, mas também um sintoma das formas atuais de governo da subjetividade.

Por fim, reafirmar o compromisso com uma pesquisa narrativa crítica implica reconhecer o papel ativo do próprio pesquisador na produção do conhecimento. As narrativas não são simplesmente “coletadas” e muito menos “meras ilustrações”, mas co-construídas em situações de interação que envolvem assimetrias, expectativas e enquadramentos institucionais. Assumir essa condição não enfraquece a pesquisa; ao contrário, a fortalece, ao explicitar seus modos de produção e ao abrir espaço para uma reflexividade que inclua não apenas o narrador, mas também quem interpreta. Nesse sentido, a vigilância epistemológica se dirige também às formas pelas quais o olhar do pesquisador pode, inadvertidamente, reforçar aquilo que pretende criticar.

É nesse entrelaçamento entre experiência e estrutura, narrativa e crítica, escuta e interpretação que a pesquisa narrativa pode afirmar sua relevância no campo das Ciências Sociais e da Educação. Não como celebração do “eu”, mas como esforço de compreendê-la nas tramas do social, reconhecendo que toda experiência é, em última instância, uma forma situada de relação com o mundo.

 

Referências

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da história oral. (8ª edição) Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 183-191.

BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. O ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Petrópolis: Vozes, 2015.

BOURDIEU, Pierre; WACQUANT. Um convite à Sociologia ReflexivaPetrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2026.

COULON, Alain. A escola de Chicago. Campinas: Papirus, 1995.

DELORY-MOMBERGER, Christine. Biografia e educação: figuras do indivíduo-projeto. Natal: EDUFRN, 2008.

DELORY-MOMBERGER, Christine. A condição biográfica: ensaios sobre a narrativa de si na modernidade avançada. Natal: EDUFRN, 2012.

DUBET, François. O tempo das paixões tristesEditora Vestígio, 2024.

MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Rio de Janeiro: Record, 2014.

 

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